Beata Camila Batista Varani
Princesa de Camerino, Camila Batista Varani superou a oposição de seu pai para entrar nas Clarissas em 1481. Grande mística da Paixão, recebeu numerosas revelações sobre os sofrimentos interiores de Cristo. Terminou sua vida como abadessa em Camerino após ter fundado um mosteiro em Fermo.
Seus contemporâneos
Figuras e referências situadas em torno do período normalizado desta ficha.
Leitura guiada
8 seçãos de leitura
A BEATA CAMILA BATISTA VARANI,
Juventude e primeiras devoções
Camila Batista desenvolve uma devoção precoce pela Paixão, apesar de uma atração inicial pelos prazeres mundanos e uma aversão à vida religiosa.
«O prazer sempre crescente que eu sentia nessa leitura inspirou-me o desejo de substituí-la por uma verdadeira meditação. Tomei, pois, o hábito de meditar a Paixão, não apenas todas as sextas-feiras, mas todos os dias, e isso durante um tempo considerável, segundo a inspiração que Deus me dava. Esta prática valeu-me um dom tão abundante de piedosas lágrimas, que eu chorava o dia todo, mesmo diante de pessoas estranhas, sem poder evitá-lo. Isso durou três anos inteiros antes que eu tivesse formado o projeto de me entregar totalmente a Deus. Não preciso dizer que o demônio não omitiu nada para me fazer perder este santo hábito. Por sua instigação, as pessoas cuja presença eu não podia evitar, porque moravam na casa, interpretavam maldosamente o meu choro, atribuindo-o a desgostos mundanos ou a afeições ridículas. Não contentes em pensá-lo em voz baixa, diziam-mo na cara, e confesso que esses insultos feriam profundamente o meu coração. Contudo, pela graça de Deus, saí vitoriosa de todos esses combates, não mudando nada em minhas resoluções, nem em meus hábitos. «Interpretam», dizia-lhes eu, voltando-me para Deus, «interpretem a minha conduta como quiserem, faço tão pouco caso das vossas censuras quanto dos vossos louvores». Assim se passaram esses três anos, durante os quais a devoção à Paixão de Jesus Cristo inundava o meu coração.
«Ó meu Senhor!» dizia eu, «se prevês que algo no mundo deva separar-me um pouco que seja de Vós, preveni este infortúnio, enviando-me a peste ou qualquer outra calamidade». Ora, eu entendia por separação a perda da suavidade que eu sentia naquele momento; pois eu não tinha outro acesso junto a Deus que não aquele, na época de que falo. A vida que eu levava então colocava bem obstáculos a isso. Exceto o tempo tão curto que eu dedicava a meditar a Paixão, todo o resto era sacrificado à dança, à música, ao passeio, ao traje e outras puerilidades semelhantes. As leituras devotas entediavam-me ou faziam-me rir. Eu tinha tal aversão pelos religiosos de ambos os sexos, que mal podia suportar a sua vista. O adorno e as leituras frívolas faziam todo o meu consolo, todas as minhas delícias. Enfim, durante esses três anos, a minha alma era como uma prisioneira.
A conversão pela pregação
A pregação do Padre Francisco de Urbino em Camerino provoca nela um temor salutar de Deus e um desejo de reforma espiritual.
«Deus queria, em sua misericórdia, que meus olhos, cegados pelas profundas trevas do mundo, se abrissem finalmente à luz da verdade. O Padre Francisco de Urbino, a q Le Père François d'Urbino Pregador cujos sermões provocaram a conversão da santa. uem eu ousaria chamar de trombeta do Espírito Santo, mas que o céu arrebatou da terra, veio pregar a Quaresma em Came rino. Eu Camerino Local onde Bernardo professou seus votos religiosos. o segui assiduamente, e não foi sem proveito; pois suas palavras eram como flechas de fogo que transpassavam minha alma. Toda a sua pregação girava em torno destas palavras, que ele fazia ressoar, por intervalos, como golpes de trovão: “Temei a Deus, temei a Deus”. Ora, concebi tão fortemente este santo temor: percebi tão claramente a grandeza das ofensas que eu tinha feito à sua Majestade, e experimentei um pavor tão vivo das chamas eternas que, se eu não soubesse que o desespero desagrada mais ao Senhor do que os outros pecados, creio verdadeiramente que teria desesperado de sua misericórdia».
A bem-aventurada Varani jejuava a pão e água três vezes por semana, flagelava cruelmente cada um dos membros de seu corpo e levantava-se à noite para rezar o terço. O amor aos sofrimentos crescendo em seu coração, ela se reduziu na sexta-feira a tomar apenas três ou quatro bocados de pão e um pouco de água. À noite, dormia sobre o chão duro, e durante o dia meditava quase sem cessar.
O combate espiritual e o chamado
Após uma luta interior intensa entre seus desejos mundanos e o chamado divino, ela decide entrar na vida religiosa durante uma meditação em uma sexta-feira.
«Nesta vida de oração», diz ela, «onde o temor me fizera entrar, comecei a ouvir, por intervalos, uma voz que me era desconhecida, uma voz que parecia vir de longe, mas não tão longe, contudo, que suas palavras não fossem muito inteligíveis; ela me dizia que, se eu quisesse evitar as penas do inferno, das quais eu tinha tanto medo, deveria renunciar ao século e tornar-me religiosa. Meu espírito, ao mesmo tempo, era iluminado por uma luz celestial, que me fazia ver claramente que, se eu não deixasse o mundo, minha perdição estava assegurada. Ora, estas palavras eram-me muito amargas, e esta luz insuportável, porque eu ainda não havia sacudido as correntes da minha má natureza; e, acostumada aos prazeres do século, tinha dificuldade em renunciar a eles. Em vão alegava a mim mesma as razões mais fortes e persuasivas, elas não faziam nenhuma impressão em mim, por causa dessas afeições desordenadas, das quais é preciso estar livre para obedecer ao movimento de uma tal inspiração.
Quando eu ia à oração, parecia-me que ia à guerra, e não me enganava; pois ali combatia sem cessar contra Deus; e não há guerra tão penosa quanto essa. Contudo, nunca interrompia o curso das minhas orações ordinárias. Acontecia, por vezes, que, cansado das minhas resistências à sua graça, o Senhor me dizia: «Eu sou aquele que tu desejas; e, contudo, quanto mais te chamo, mais fazes ouvidos moucos; quanto mais te pressiono, mais resistes ao meu amor por ti. Pois bem, minha filha, vai ao mundo onde a tua loucura te arrasta; vai mendigar as suas miseráveis afeições: aviso-te apenas que não encontrarás nele a satisfação dos teus desejos». Um dia, entre outros, em que ele me dirigiu esta linguagem, meditei longamente suas palavras, voltando-as e revirando-as em meu espírito, mas com um mal-estar de coração insuportável, porque não podia resolver-me a entrar na vida religiosa. Todavia, em vez de deixar a oração, dediquei-lhe um tempo duplo do habitual, não por devoção, mas porque era uma sexta-feira, e eu estava habituada a prolongar minha meditação naquele dia. Jamais havia experimentado tal choque de pensamentos contrários, ora querendo obedecer à graça, ora não querendo mais. O combate tornou-se tão rude que meu corpo ficou todo banhado em suor. Mas então meu livre-arbítrio que, no meio deste conflito, permanecera neutro e livre de si mesmo, erigiu-se em juiz e, por seu próprio movimento, pronunciou-se contra mim em favor do espírito de Deus. A submissão foi pronta. Determinei-me, com toda a afeição da minha alma, a servir ao Senhor como ele queria; pronta, se fosse necessário, a sofrer o martírio, em vez de resistir mais à sua graça, ou mesmo de opor-lhe culpadas lentidões. Senti ao mesmo tempo um vivo desejo de ir a Urbino, algo me dizendo interiormente que seria apenas lá que eu poderia servir a Deus com um coração tranquilo. Esta determinação foi p ara a Urbino Território e cidade onde o santo estudou. minha alma, exausta por agitações tão penosas, o que seria para um corpo sobrecarregado de fadigas um leito de musgo semeado de flores».
Entrada entre as Clarissas
Apesar da oposição inicial de seu pai, ela entrou no convento de Santa Clara em Urbino em 1481, antes de se juntar a um novo mosteiro em Camerino em 1484.
Querendo aumentar o esplendor de sua casa por meio de uma rica aliança, o príncipe de Camerino não omitiu nada para forçar sua filha a aceitar o casamento; mas ele fracassou em seu desígnio. «Cedo ao Senhor», disse ele finalmente à sua filha, «de cuja vingança tenho medo. O medo apenas de atrair sobre mim seus flagelos me força a lhe devolver a liberdade. Sem isso, jamais você teria obtido meu consentimento para se tornar religiosa».
Estávamos no mês de novembro do ano de 1481. A bem-aventurada partiu para Urbino e tomou o hábito de Santa Clara no convento daquela cidade, onde já haviam se retirado várias pessoas de sua família.
Ao fim de dois anos, Júlio César Varani, querendo trazer sua filha de volta a Camerino, mandou construir naquela cidade um mosteiro para as religiosas de Santa Clara. Foi nesse convento que entrou Ba tista, c Baptiste Religiosa clarissa e mística italiana do século XV. om outras sete religiosas de Santa Clara, no dia 4 de janeiro do ano de 1484.
Revelações sobre as dores de Cristo
A santa relata visões místicas detalhando as sete dores interiores do coração de Jesus, centradas na perda das almas e nos sofrimentos daqueles que lhe são próximos.
A bem-aventurada Varani foi elevada ao mais alto grau de contemplação. Vamos deixá-la expor ela mesma uma de suas revelações, a mais notável: ela fala aqui na terceira pessoa.
«Houve uma alma devota, muito faminta pelos alimentos que a Paixão do muito amante e muito doce Jesus proporciona, que, após um grande número de anos empregados em sua reforma espiritual, foi enfim admitida, por um favor admirável, à comunicação das dores interiores do coração aflito desse Homem-Deus.
«Um dia, portanto, em que essa alma devota estava em oração, disse-lhe com ansiedade de coração: — Deixai-vos dobrar, Senhor, e introduzi-me no leito sagrado de vossas dores interiores. — Visto que ignorais, minha filha, respondeu-lhe esse bom Mestre, a grandeza de minhas dores, dir-vos-ei que elas foram tão grandes quanto o amor que eu nutria por meu Pai e pelos pobres humanos. — A alma devota replicou: Ó meu Deus! não poderia contentar-me com esse conhecimento geral; dignai-vos fazer-me conhecer cada uma das dores que acabrunharam vosso coração sagrado.
«Jesus respondeu-lhe com essa doçura que o torna tão amável: — Sabei, minha filha, que as dores que carreguei em meu coração foram inumeráveis e infinitas: ser-vos-á fácil compreendê-lo, se prestardes atenção ao fato de que sou o chefe de um corpo do qual todos os cristãos são os membros; membros que são inumeráveis, como vedes, e dos quais a maior parte me foi, me é e me será arrancada pelo pecado mortal.
Primeira dor. — «Essa dor foi para meu coração uma das mais cruéis e das mais sensíveis. Imaginai, com efeito, qual é o suplício de um criminoso a quem se arrancam os membros por violência, e sabereis qual foi meu martírio, ao pensamento profundamente sentido de tantas almas que me são arrancadas para sempre, e de tantas outras que se separam de mim por um tempo, e me causam tantos dilaceramentos quantas faltas mortais cometem. Ora, é preciso que saibais que a dor causada pela abcisão de um membro espiritual supera a de um membro corporal tanto quanto a alma é superior à matéria. Não poderíeis compreender, nem vós, nem ninguém, quão grande é essa superioridade; só eu sei apreciar a nobreza da alma e a baixeza do corpo, porque fui eu quem fez uma e outra. Não poderíeis, portanto, compreender, nem vós, nem ninguém, a atrocidade e a amargura da dor de que falo; dor, contudo, tão frequentemente renovada que seu número é incalculável. Para falar aqui apenas dos condenados, tantas almas perdidas, tantos membros arrancados de meu corpo, com as dores que vos é fácil imaginar. Devo dizer, contudo, que essas separações não me foram todas igualmente cruéis. Como os pecados mortais não são todos iguais entre si; como há diversas maneiras de cometê-los, as separações que operam causaram-me dilaceramentos mais ou menos dolorosos. E, para dizer de passagem, daí vêm as diversidades que se notam no inferno, na qualidade e na quantidade dos tormentos que lá se suportam. E porque sua vontade permanecerá eternamente perversa, seus suplícios também serão eternos. Oh! quão insuportável me era esse triste pensamento de que esses membros inumeráveis me eram arrancados sem retorno! Também esse fatal jamais é o que atormenta e atormentará mais eternamente essas almas réprobas: todos os seus outros males não são nada em comparação com esse pensamento desesperador.
«No acabrunhamento de dor que me causava esse fatal jamais, teria voluntariamente consentido em sofrer de novo todas essas cruéis separações com seus dilaceramentos diversos, não apenas uma vez, mas uma infinidade de vezes, para recuperar uma só dessas almas, e vê-la reunida à integridade de meus membros vitais; quero dizer, aos meus eleitos, que conservarão eternamente a vida que retiram de mim. Sou eu, com efeito, quem é a vida vital, isto é, a vida de todos os seres que desfrutam desse grande benefício. Podeis julgar por tudo o que acabo de dizer, pelas disposições de meu coração que acabo de vos manifestar, quão caras me são as almas humanas. Notai bem essa confidência, e nunca percais a lembrança dela. É preciso também que saibais que esse doloroso jamais aflige de tal modo as almas perdidas por um efeito de minha justiça, que não há uma só que não quisesse sofrer mil infernos ao mesmo tempo, para recuperar a esperança de estar reunida a mim em um tempo qualquer; mas, infelizmente! sua triste separação é sem retorno; e, repito, é esse o mais terrível de seus suplícios. Eis, minha filha, qual foi a primeira dor interior, que não cessou, desde minha concepção até minha morte, de dilacerar meu coração.
— «Após esse discurso, a religiosa a quem esse bom Jesus o dirigia, experimentou um vivo desejo, cuja fonte não teve dificuldade em adivinhar, de propor-lhe uma certa dúvida. Em consequência, ousou dizer-lhe, não sem respeito e sem temor, mas contudo com confiança e simplicidade: Ó amável e aflito Jesus! ouvi dizer muitas vezes que tínheis suportado todas as dores dos condenados; mas, a esse respeito, gostaria de saber, contanto que essa curiosidade não possa vos desagradar, se experimentáveis os sentimentos diversos que operam nessas almas infelizes o frio, o calor, a ação do fogo, o ranger de dentes e as outras torturas às quais estão condenadas? Dizei-me, pois, meu Jesus, se fazíeis o discernimento de todas essas sensações dolorosas? Essa interrogação não pareceu desagradar-lhe, e, com uma voz graciosa, ele fez a resposta que se segue: — Não senti, minha filha, a diversidade dos suplícios que sofrem os condenados, da maneira que entendeis; isso mesmo não poderia ser, visto que se trata de membros mortos e separados de mim que sou seu chefe. Explicar-vos-ei meu pensamento pela comparação seguinte: Se um de vossos membros fosse devorado por alguma dor atroz, senti-la-íeis vivamente até que o cirurgião o tivesse cortado de vosso corpo; mas esse corte uma vez feito, poder-se-ia cortá-lo ou dilacerá-lo, submetê-lo à ação do fogo ou à do gelo, sem que vossa alma experimentasse o sentimento desses tormentos diversos; porque o sentimento supõe a união que não existiria mais entre essa parte de vosso corpo e a alma que o anima; contudo, não seríeis insensível a esses diversos tratamentos feitos a um membro que foi vosso, e quanto mais o atormentassem, mais, sem dúvida, vosso coração seria sensível a isso. Fazei-me agora a aplicação dessa figura, e compreendereis o que se passou em meu coração, com relação aos réprobos. Quando o pecado mortal os arrancou de meu corpo, a dor foi terrível, e porque conservaram enquanto viveram o poder de se reunir a mim, eu sentia todos os seus males, e compartilhava todas as suas dores; mas desde que sua morte tornou essa reunião impossível, fui libertado desse sentimento doloroso; experimentava, contudo, outra dor inefável e incompreensível, ao considerar que tinham sido meus verdadeiros e próprios membros, e que, contudo, tinham caído sob o poder dos espíritos infernais, que os tornavam excessivamente infelizes.
**Segunda dor.** — «Outra dor, que transpassou meu coração, foi-me causada pelos meus eleitos eles mesmos; pois é preciso que saibais que todos aqueles dentre eles que pecaram ou pecarão mortalmente, fizeram-me o mesmo mal, por sua separação, que aqueles que caíram ao fundo dos abismos, visto que são tantos membros que esse cruel pecado arrancava de meu corpo. Quanto maior era o amor que eu lhes nutria, e que devia estender-se até os séculos dos séculos, assim como aquele que devia uni-los eternamente a mim, mais eu estava aflito ao vê-los deixar-me para se apegarem aos objetos mais vis e mais desprezíveis. Também posso dizer que a dor que senti em todos esses membros causou-me os mais cruéis dilaceramentos. Sofria, com efeito, bem mais neles do que nos réprobos, porque, além do dilaceramento que me causava sua separação de meu corpo, quando se tornavam culpados de faltas mortais, eu sentia habitualmente, e compartilhava todos os seus males; sentia todos os tormentos dos mártires, todas as mortificações dos penitentes, todas as tribulações daqueles que eram tentados, todos os sofrimentos daqueles que estavam doentes. Compartilhava suas perseguições, suas infâmias, seus trabalhos, seus perigos, suas fadigas; em uma palavra, todas as aflições, pequenas e grandes, pelas quais estavam acabrunhados. Quereis agora, minha filha, ter uma ideia dessas dores? suponde que tivésseis mil olhos, mil pés, mil mãos, e assim de vossos outros membros, e que todos fossem torturados ao mesmo tempo por meios tão atrozes quanto variados, não é verdade que esse suplício vos pareceria intolerável? Pois bem! minha filha, meus membros não se contam por milhares e por milhões; eles são inumeráveis: é do mesmo modo impossível contar as dores dos mártires, dos confessores, das virgens e de todos os outros eleitos: isso vai quase ao infinito. Concluí, pois, que, como ninguém é capaz de enumerar tantos sofrimentos, ninguém também pode compreender a dor que causaram ao meu divino coração.
— «Mas meu coração não se limitou a sentir todas essas aflições de sua vida, sentiu igualmente a diversidade e a multiplicidade dos tormentos que lhes restam a sofrer no purgatório, segundo a qualidade e o número de seus pecados: pois essas almas não são membros mortos e separados de meu corpo, como as dos condenados; são meus membros vivos, espiritualmente unidos a mim, e dos quais suporto, por conseguinte, todos os sofrimentos. Eis, minha filha, minha resposta à vossa pergunta. Perguntastes-me que sentimento eu tinha de todas essas dores. Respondi-vos que não sentia os sofrimentos dos réprobos, mas sim os dos meus eleitos. De resto, não há nenhuma diferença entre as dores do inferno e as do purgatório, se não é que as primeiras durarão sempre, enquanto as últimas durarão apenas um tempo; e que os habitantes do inferno estão reduzidos ao desespero, enquanto as almas do purgatório permanecem resignadas e contentes, sofrem em paz, e rendem graças à justiça de Deus. Mas basta sobre essa dor.
**Terceira dor.** — «Esse amável Salvador, continuando seu relato, acrescentou: — Escutai, escutai, minha filha; não disse ainda tudo o que desejais saber. Resta-me contar-vos outras dores que me foram também bem amargas. Que gládio agudo transpassava meu coração, todas as vezes que pensava na dor que meus sofrimentos e minha morte deviam causar à minha pura e inocente Mãe! pois ninguém contava tão dolorosamente quanto ela o suplício de seu Filho...
**Quarta dor.** — «Jesus mudou de assunto e disse: — Se soubésseis, minha filha, quanto meu coração teve ainda a sofrer com a aflição de minha discípula bem-amada, a terna Maria Madalena! Mas é um mistério que não podeis compreender nem vós nem ninguém, porque é nosso amor mútuo que serviu de princípio e de fundamento sólido a todos os amores espirituais dos santos. Aqueles que têm a experiência ativa e passiva do santo e espiritual amor, podem bem fazer alguma ideia da perfeição daquele de Madalena por mim; mas na prática ninguém saberia alcançá-lo.
**Quinta dor.** — «Outra dor que dilacerava minha alma era o pensamento fixo e contínuo do que devia acontecer aos meus Apóstolos, no tempo de minha Paixão e de minha morte. Eu os via abalados, eu os via cair, eles que eram as colunas do céu e os fundamentos de minha Igreja militante. Eu os via dispersos, como ovelhas que não têm mais pastor; eu pensava em tudo o que teriam a sofrer por amor a mim; eu contemplava de antemão seus tormentos e seus martírios. Ora, é preciso que saibais, minha filha, que jamais pai teve por seus filhos, nem irmão por seus irmãos, nem mestre por seus discípulos, um amor tão terno e tão cordial quanto aquele que eu nutria por esses discípulos, por esses irmãos, por esses filhos queridos. Também a dor que me causavam todas as minhas previsões a seu respeito era acabrunhante; podereis julgar por este único fato. Sabeis, minha filha, que em minha agonia, no jardim das Oliveiras, exclamei: Minha alma está triste até a morte. Ora, o que causava em mim essa tristeza amarga era menos a consideração de meus próprios males do que a desses seres que me eram tão caros. Eu os via sem mim, isto é, sem chefe, sem mestre e sem pai; e esse abandono era-me tão penoso, que me parecia outra morte. Quem quer que queira ler o último discurso que lhes dirigi após a última ceia, não poderá, por mais duro que seja, reter suas lágrimas, porque todas as palavras que compõem esse discurso respiram a compaixão. E não poderia ser de outra maneira; pois saíam do fundo de meu coração, que me parecia fender-se de amor por esses caros amigos.
«Não era de uma visão confusa que eu percebia de longe seus cruéis martírios. Eu via crucificar Pedro, decapitar Paulo, esfolar Bartolomeu, precipitar Tiago de um terraço do templo; eu via enfim por que gênero de morte cada um deles devia terminar sua vida. Julgai por aí a dor que eu experimentava em minha alma. Se estivésseis estreitamente unida a alguma pessoa pelos laços de um santo amor, e a vísseis injuriar, torturar, supliciar por vós, quão desolada ficaríeis por ser a ocasião de seus sofrimentos! Sim, vossa desolação seria tanto mais amarga quanto quereríeis, ao contrário, poder proporcionar-lhe toda sorte de bens, de honras e de consolações. Ora, era eu, minha filha, quem devia ser a causa das infortúnios de meus Apóstolos; que é preciso mais para vos iniciar no segredo de minha dor, e vos fazer compreender quão digna ela é de vossa compaixão?
**Sexta dor.** — «Eis outra que não me foi menos sensível: foi a traição de Judas, que após ter sido meu discípulo tornou-se meu assassino. Oh! minha filha, um gládio agudo e envenenado, que se tivesse enfiado e girado continuamente em meu coração, não me teria feito sofrer mais do que essa previsão dilacerante. Houve jamais ingratidão mais negra que a dele para comigo? Após ter-lhe perdoado todos os seus pecados, escolhi-o para um de meus Apóstolos. Ele comia comigo, alojava sob o mesmo teto e era admitido à minha familiaridade. Confiei-lhe o poder dos milagres, e fiz dele o dispensador dos dons que me eram oferecidos por aqueles que me tinham algum interesse. Quando vi o desígnio de me trair formar-se em seu coração, redobrei as provas de minha ternura, para desviá-lo desse pensamento criminoso; mas fiz em vão, nada pôde tocar seu mau coração. Ao contrário, quanto mais eu lhe testemunhava apego, mais ele se firmava em sua resolução pérfida. Enfim, veio a ceia, onde fiz essa humilhante e lamentável cerimônia do lava-pés. Quando sua vez chegou, humilhei-me diante dele como o fizera diante dos outros; mas meu coração não aguentou mais. Chorei amargamente e reguei os pés desse infeliz com minhas lágrimas. O que me fazia chorar é que eu dizia interiormente: Ó Judas! que vos fiz eu, pois, para que me trateis de uma maneira tão pérfida? ó infortunado discípulo! eis, pois, a última prova que vos darei de meu amor! ó filho de perdição, não sou eu vosso Pai e vosso Mestre? por que, pois, quereis abandonar-me? Ó Judas, se desejais trinta denários, por que não ides pedi-los à minha mãe que é também a vossa; seu coração é tão perfeito que ela se venderia a si mesma, para vos poupar um crime e salvar-me a vida. Ah! Judas, discípulo ingrato e insensível, lavo-vos hoje os pés e beijo-os com tanto amor, e vós ides beijar-me dentro de algumas horas para entregar-me aos meus inimigos. Ó meu caro e bem-amado filho, que retorno para um pai que chora vossa perda com mais dor do que sua paixão e sua morte, porque é para vos salvar que ele veio a este mundo!
«Enquanto meu coração falava assim, minhas lágrimas regavam seus pés; mas ele não prestava atenção, porque eu estava de joelhos diante dele, a cabeça inclinada, e meus longos cabelos caindo sobre meu rosto impediam-no de perceber que eu estava todo em prantos. Mas João, meu discípulo bem-amado, a quem eu tinha confiado todos os mistérios de minha paixão, durante essa dolorosa ceia, observava minha dor, via correr minhas lágrimas sobre os pés do traidor, e compreendia muito bem que provinham de meu terno amor por esse infeliz. Quando um pai, com efeito, vendo que seu filho morre, apressa-se a servi-lo, é com uma efusão de amor extraordinária, e ele mal pode impedir-se de dizer em seu coração: Adeus, meu filho, eis o último serviço que me será dado prestar-vos. É assim que eu agia com esse infortunado que eu sabia estar na véspera de morrer eternamente. Esse testemunho de amor que eu lhe dava devia ser o último, visto que seu desespero logo iria arrebatá-lo à minha ternura. Eis por que eu acariciava de certa forma seus pés, e os beijava com uma terna compaixão. Ora, João, que espiava, com seu olhar de águia, todas as minhas ações e todos os meus gestos, estava mais morto do que vivo ao ver-me tratar com Jean Aparece com a Virgem para instruir Gregório. tanta bondade meu maior inimigo. Quando me aproximei dele por último, pois sua humildade fizera-o tomar o último lugar, vendo que eu me inclinava para lavar seus pés, ele não pôde mais conter-se. Mal tinha dobrado os joelhos quando ele me tomou entre seus braços, onde me manteve bastante tempo enlaçado, chorando, soluçando e dizendo-me em seu coração, sem proferir nenhuma palavra exterior: Ó meu Pai! ó meu caro Mestre! ó meu irmão bem-amado! ó meu Senhor e meu Deus! como tivestes a coragem de lavar e de beijar, com vossa boca sagrada, os pés malditos desse infame traidor? Ó meu Jesus! que perfeito exemplo de caridade nos deixais em herança! mas como o seguiremos quando não vos tivermos mais, vós que sois todo o nosso bem? Ah! essa humildade mata-me. E vossa divina Mãe, o que será dela, quando eu lhe contar o que acabastes de fazer? temo muito que ela não possa ouvi-lo sem morrer. Ó meu caro Mestre! não aguento mais; fazei-me a graça do serviço que vossa humildade quer prestar-me. Certamente meu coração vai fender-se, se eu vos vir lavar meus pés infectos, e aplicar vossa boca sagrada sobre esses objetos tão desprezíveis. Ó meu Deus! cada nova prova de vosso amor só serve para aumentar minha inconsolável dor. Após essas palavras e várias outras semelhantes, marcadas por uma sensibilidade capaz de amolecer um coração de pedra, ele se descalçou, contudo, por obediência, e apresentou-me, corando, seus pés para lavar. Disse-vos tudo isso, minha filha, para que saibais quanto meu coração teve a sofrer nessa circunstância, da parte de um discípulo que parecia ter por tarefa mostrar-me tanto mais ódio quanto mais amor eu lhe testemunhava. Julgai, ao ver a dor de João, qual deve ter sido a minha ao aspecto de uma tão negra ingratidão, de uma tão monstruosa insensibilidade».
**Sétima dor.** — «O ódio obstinado do povo judeu foi também para meu coração um suplício intolerável, e compreendê-lo-eis facilmente, se prestardes atenção à ingratidão que supunha. Tinha feito dos judeus um povo santo, um povo sacerdotal. Tinha-os escolhido dentre todos os povos do universo, para a porção de minha herança... Após isso, tinha bem direito sem dúvida de esperar algum retorno de sua parte. Qual foi, pois, minha dor, quando os ouvi gritar com uma raiva incrível: Não queremos este homem, crucificai-o e dai-nos Barrabás...»
Vida religiosa e fundações
Ela funda um mosteiro em Fermo por ordem do papa e apoia ativamente a reforma dos Capuchinhos.
Quando a Bem-aventurada escrevia estas coisas, ela era religiosa há dezoito anos, e o século XV estava prestes a terminar. Não sabemos de sua vida espiritual na religião, senão o que ela julgou oportuno dizer. Os últimos vinte e três anos de sua vida não nos são conhecidos: sabe-se apenas que ela foi escolhida pelo Papa Júli o II para fun pape Jules II Papa membro da Liga de Cambrai. dar um mosteiro de sua Ordem em Fermo; qu e ela Fermo Cidade onde Bernardo exerceu seu ministério junto aos enfermos. retornou após um ano a Camerino, onde suas companheiras a elegeram abadessa, e que ela protegeu o estabelecimento da reforma dos Capuchinhos.
Morte e milagres póstumos
Falecida em 1527, seu corpo foi encontrado intacto trinta anos depois, e sua língua permaneceu milagrosamente conservada durante uma segunda exumação em 1593.
Acredita-se que nossa Bem-aventurada faleceu em 31 de maio do ano de 1527, no sexagésimo nono ano de sua idade. Não há dúvida de que sua morte foi santa, como o fora sua vida. O leitor terá a prova disso no que se segue; mas não podemos falar em detalhes sobre este evento, porque ninguém, que saibamos, cuidou de preservar sua memória.
Suas religiosas deram-lhe sepultura em seu coro, a fim de ter como um memorial sempre presente de sua mãe querida, e um penhor visível da proteção que esperavam obter de sua ternura materna. Trinta anos após esta inumação, as religiosas, não podendo suportar por mais tempo que seu precioso corpo permanecesse enterrado no seio da terra, exumaram-no com grande respeito. Qual não foi sua alegria ao encontrá-lo em um estado perfeito de conservação, os olhos brilhantes como os de uma pessoa viva, o rosto corado e sorridente, como se estivesse muito contente em revê-las. Elas queriam conservar este santo depósito em um lugar aberto, onde pudessem ir prestar-lhe suas homenagens; mas não sabemos por que o confessor se opôs e quis que fosse enterrado novamente; ele exigiu até mesmo, com uma obstinação à qual foi preciso ceder, um modo de sepultura tão estranho quanto inconveniente. Ele fez primeiro colocar o santo corpo entre duas tábuas e ordenou que o colocassem de volta na cova de onde havia sido retirado. Em seguida, mandou enchê-la de terra e, após ter feito verter uma grande quantidade de água, exigiu que seu companheiro a pisasse até nivelá-la com o solo.
A obediência muito exata que professavam essas santas filhas não permitiu a nenhuma delas opor uma palavra ao zelo estranho daquele religioso, muito menos retirar o santo corpo da cova onde ele o havia feito colocar. Lá permaneceu, portanto, até o ano de 1593, quando a necessidade de enterrar outro corpo no lugar que o seu ocupava obrigou as religiosas a abrir novamente sua cova. Então, as antigas, que conheciam o local preciso, recomendaram aos operários que cavassem com todas as precauções possíveis; o que fizeram. Quando chegaram a uma certa profundidade, encontraram uma tábua; e assim que a moveram, um odor muito suave não permitiu duvidar que era a tábua que cobria o santo corpo. Com essa notícia, todas as religiosas acorreram; e assim que sentiram esse perfume, foram transportadas de alegria e derramaram lágrimas abundantes, não podendo duvidar que esse odor celestial fosse um sinal da glória da qual sua bem-aventurada mãe desfrutava nos céus. Outra circunstância veio ainda aumentar sua admiração e sua doce crença: é que, estando suas carnes reduzidas a pó, conforme o desejo que ela havia expressado a Deus algum tempo antes de sua morte, sua língua apenas permanecera fresca, macia e corada.
O confessor, frei Evangelista de Fabriano, que estava presente, tocado até as lágrimas à vista dessa conservação milagrosa, testemunhou sua admiração pelas pa lavras de São Boaventura, em caso seme sa langue seule était demeurée fraîche Relíquia miraculosamente conservada da santa. lhante: «Ó língua preciosa, que sempre bendissestes o Senhor e ensinastes aos outros a bendizê-lo, parece bem agora que vossos serviços foram agradáveis à sua Majestade santa!» Quando as religiosas satisfizeram sua terna devoção, depositaram o santo corpo em um túmulo de mármore que haviam mandado construir de antemão em seu coro; mas a língua foi reservada e colocada em um relicário, onde se vê ainda hoje.
Reconhecimento do culto
Embora não formalmente beatificada na época do texto, seu culto é autorizado por Clemente X e ela é honrada pelos Franciscanos.
Batista nunca foi beatificada nas formas, mas acredita-se que Clement e X autor Clément X Papa que estendeu o culto de São Gonçalo a toda a Ordem Dominicana. izou o culto que lhe é prestado em Camerino; e todos os autores que falaram dela, desde o início do século XVII, dão-lhe o título de Bem-aventurada, que lhe damos após eles. Ela é honrada em 2 de junho na Ordem de São Francisco. — Como ela contribuiu muito, assim como sua família, para a reforma dos Capuchinhos, os Franciscanos a colocaram em seu martirológio e celebram sua festa hoje.
Vie spirituelle de la bienheureuse Varani, pelo abade P... — Cf. Vies des Saints, pelo abade Dazas, ed. Vivès, 1864.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de Beata Camila Batista Varani
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Pregação da Quaresma pelo Padre Francisco de Urbino em Camerino
- Entrada no convento das Clarissas de Urbino em novembro de 1481
- Entrada no novo mosteiro de Camerino em 4 de janeiro de 1484
- Fundação de um mosteiro em Fermo por ordem de Júlio II
- Eleição como abadessa em Camerino
- Apoio à reforma dos Capuchinhos
Citações
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Temam a Deus, temam a Deus
Francisco de Urbino -
Eu sou aquele que tu desejas; e, no entanto, quanto mais te chamo, mais te fazes de surda
Revelação de Cristo a Camila Batista