Santo Hilário de Poitiers
DOUTOR DA IGREJA E PADROEIRO DE TODA A DIOCESE DE POITIERS
Bispo de Poitiers no século IV, Hilário foi o principal defensor da ortodoxia católica contra o arianismo no Ocidente. Exilado na Frígia pelo imperador Constâncio, lá redigiu suas obras principais antes de retornar triunfalmente à sua diocese. Apelidado de 'Ródano da eloquência', é um dos primeiros confessores não-mártires a ter recebido um culto público.
Seus contemporâneos
Figuras e referências situadas em torno do período normalizado desta ficha.
Leitura guiada
10 seçãos de leitura
SANTO HILÁRIO, BISPO DE POITIERS,
DOUTOR DA IGREJA E PADROEIRO DE TODA A DIOCESE DE POITIERS
Origens e conversão filosófica
Nascido em uma nobre família da Aquitânia, Hilário converteu-se ao cristianismo na idade madura após uma busca intelectual que mesclava filosofia e o estudo das Escrituras.
Este astro resplandecente da Igreja nasceu nas Gálias. Não é menos certo que sua pátria foi a Aquitânia Segunda, que superava então todas as outras províncias gaulesas em *urbanidade*. Segundo um manuscrito do cardeal Ottoboni e uma inscrição encontrada por volta do ano 1500 na igreja paroquial de Cléré, o pai de nosso Santo chamava-se Francário (*Francarius*). O que está fora de dúvida é que «são Hilário brilho u com todo o saint Hilaire Bispo e doutor da Igreja, aliado de Eusébio contra o arianismo. esplendor da nobreza entre as famílias gaulesas, e que nenhum sangue foi mais ilustre que o seu».
Crê-se geralmente que ele foi primeiramente educado no paganismo e que só se tornou cristão na idade madura. Sua vida honesta e pura, o estudo da filosofia e, depois, o da Sagrada Escritura foram, após a graça de Deus, as causas de sua conversão. Eis como ele parece narrá-la em seus escritos: «Eu considerava que o estado mais desejável, segundo os sentidos, é o repouso na abundância, mas que essa felicidade é comum aos animais. Compreendi, portanto, que a felicidade do homem deveria ser mais elevada, e eu a colocava na prática da virtude e no conhecimento da verdade. Sendo a vida presente apenas uma sucessão de misérias, pareceu-me que a recebemos para exercer a paciência, a moderação, a doçura, e que Deus, todo bom, não nos deu a vida para nos tornar mais miseráveis ao retirá-la. Minha alma voltava-se, pois, com ardor para conhecer esse Deus, autor de todo bem, pois eu via claramente o absurdo de tudo o que os pagãos ensinavam sobre a divindade, dividindo-a em várias pessoas, de um e de outro sexo, atribuindo-a a animais, a estátuas e a outros objetos insensíveis. Reconheci que não podia haver senão um só Deus, eterno, todo-poderoso, imutável. Cheio desses pensamentos, li com admiração estas palavras de Moisés: 'Eu sou Aquele que sou'. E em Isaías: 'O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés'. E ainda: 'Ele segura o céu em sua mão e nele encerra a terra'. A primeira figura mostra que tudo está submetido a Deus; a segunda, que Ele está acima de tudo. Vi que Ele é a fonte de toda beleza e a beleza infinita; em uma palavra, compreendi que devia crer que Ele é incompreensível. Eu levava mais longe meus desejos e desejava que os bons sentimentos que eu tinha de Deus e os bons costumes tivessem uma recompensa eterna. Isso me parecia justo, mas a fraqueza do meu corpo e até do meu espírito me dava temor; quando os escritos dos Evangelistas e dos Apóstolos me fizeram encontrar mais do que eu teria ousado esperar, particularmente o início do Evangelho de são João, onde aprendi que Deus tinha um Filho eterno e consubstancial ao seu Pai; que esse Filho, o Verbo de Deus, fez-se carne, a fim de que o homem pudesse tornar-se filho de Deus!».
A esses textos dos escritos de são Hilário, Dom Coustant opõe esta passagem de Fortunato: «Desde o berço, a infância de Hilário era amamentada com uma sabedoria tão grande e primitiva, que se poderia desde então compreender que Cristo estava criando para si um soldado de que necessitava para obter a vitória em sua causa». Estes termos não indicam que Hilário sugou a fé cristã com o leite? Os escritos do santo Doutor, segundo Dom Coustant, não são de modo algum contrários a essa opinião. São Hilário quer apenas mostrar quanto as luzes da revelação superam as da filosofia; como um verdadeiro sábio, que lesse os Livros santos, subiria por graus até as verdades mais sublimes, ou como ele mesmo aprendeu nesses santos livros a desprezar a vaidade das coisas humanas e foi melhor esclarecido sobre mistérios que já conhecia. Há ainda uma frase do Tratado da Trindade que, segundo a opinião mais comum, indicaria que nosso Santo recebeu o batismo em uma idade avançada. Mas pode-se ver em suas palavras simplesmente a alegria que ele sentia por pertencer a uma religião onde a alma renascia para ser eternamente feliz, onde se tinha a esperança de que o próprio corpo ressuscitaria para compartilhar essa felicidade, enquanto a filosofia não nos dá quase nenhuma segurança sobre o destino futuro da alma e do corpo do homem.
Alguns autores modernos acreditaram que o jovem são Hilário tinha o espírito lento para compreender e que seu pai, para vencer esse defeito pelo trabalho e pela diversidade dos países, enviou-o para estudar em Roma e em Atenas. Mas os antigos nos dizem com uma só voz, e os escritos do grande Doutor nos dizem ainda mais alto, que ele nasceu com um gênio tão amplo quanto penetrante.
A cultura que seu espírito recebeu não prova que ele frequentou as escolas de Roma e de Atenas, já que as das Gálias eram muito florescentes. Ele adquiriu tal glória na eloquência que são Jerônimo o considera como um dos maiores oradores de seu tempo e descreve muito bem a veemência de seu estilo, chamando-o de o Ródano da eloquência. Ele se aplicou também à poesia: essa arte que um grande número desvia para usos maus e impuros, nosso Santo a empregou para celebrar os louvores de Deus, para cantar as conquistas dos Apóstolos, os combates dos mártires. Ele não possuía a fundo a língua grega, se formos acreditar em são Jerônimo, cujas provas são bastante bem refutadas por Dom Coustant. O que pode ter dado essa opinião a são Jerônimo é, sem dúvida, que, no tratado dos Sínodos, quando são Hilário traduz o grego para o latim, seu estilo é embaraçado e obscuro. Mas isso pode muito bem explicar-se por um vício da época; pois acreditava-se então infringir as leis da tradução se não se colocassem as palavras da versão na mesma ordem que as do original. Esses entraves deviam necessariamente tornar o tradutor pesado e obscuro. Quanto à filosofia, todos admitem que ele nela se destacou. Assim, santo Agostinho, falando de sua passagem do século para a Igreja, compara-o aos israelitas que, ao partir para a Terra prometida, estavam carregados com toda a prata e todo o ouro do Egito. Ele adornou depois seus escritos com essas riquezas emprestadas das ciências e das letras profanas; mas, depois de tê-las purificado de tal modo que não se encontra nelas nada de profano, nada que seja indigno de um sacerdote. Sua filosofia não permanecia encerrada em vãs especulações, ele a fazia descer à prática para regular suas ações. Mas o que fez sobretudo sua sabedoria dar frutos é que ela era fecundada pela fé que lhe conferiu abundantemente o batismo, como indicam suas próprias palavras, citadas acima. Não se sabe quando ele recebeu esse sacramento: Dom Coustant diz que foi pouco tempo antes de seu episcopado, e ele se baseia nesta passagem do livro dos Sínodos: «Não ouvi falar da fé de Niceia senão na véspera do meu exílio». O que não prova que ele nasceu e permaneceu muito tempo no paganismo, já que era o costume naquela época receber, muitas vezes pelo menos, o batismo apenas em uma idade muito avançada. Ele mesmo nos ensina quais sentimentos de fé ele extraiu desse augusto sacramento. «Assim, eu cri em vós, Senhor; assim, eu renasci em vós; a partir daí, sou todo vosso... Estou irremediavelmente imbuído dessas verdades sagradas, nada poderá jamais me separar delas; morrerei com elas...» E um pouco antes: «Aprendi tão bem essas verdades, cri nelas com uma convicção tão firme, meu espírito as retém com uma fé tão viva, que eu não poderia nem gostaria de crer de outra forma». E ele dá a razão dessa impossibilidade, dizendo que sua fé é conforme à doutrina evangélica e ao Símbolo de seu batismo. Deixando-se assim conduzir pela luz da fé recebida no batismo, ele nunca pôde ser arrastado ao erro por uma filosofia falaciosa. Ele seguiu constantemente o preceito do Apóstolo: «Cuidado para que ninguém vos despoje pela filosofia».
Contra os dardos da razão humana, ele se muniu desta máxima como de um escudo: «Uma fé constante repele as capciosas e inúteis questões da filosofia; ela não sucumbe ao que há de falacioso nas inépcias humanas; ela não deixa a verdade tornar-se o despojo do erro». Pois ele viu, esse verdadeiro filósofo, «que o que Deus faz fora da inteligência humana não pode cair sob os sentidos naturais de nosso espírito: para medir uma ação de uma eternidade sem limites, é preciso um espírito sem limites. Ora, o espírito humano tem limites. Além disso, pelo próprio fato de a razão humana ser criada, ela é necessariamente imperfeita: como poderia ela compreender o Criador? O imperfeito não pode compreender o perfeito». Ele concede à fé apenas essa glória de que, por sua virtude celeste, ela faz o homem chegar onde ele nunca poderia atingir por suas próprias forças. É por isso que ele demonstra que os cristãos, que aprenderam a submeter seu espírito à fé, são mais sábios que os sábios do mundo que os tratam de loucos, já que, além dos conhecimentos naturais, eles penetram ainda muito profundamente em segredos inacessíveis aos filósofos. São Hilário se gloria dessa loucura. Um exemplo fará compreender melhor como ele pisava aos pés as pretensões da ciência humana, quando ela sai de sua esfera e se mete no que não lhe diz respeito, embora ele fosse seu discípulo, embora ele a estimasse e dela se servisse habilmente para as coisas que são de sua competência. O Evangelho lhe ensina que Jesus Cristo entrou em um aposento onde seus discípulos estavam reunidos, estando as portas fechadas; mas a filosofia lhe dirige uma multidão de questões que ele examina com um prazer irônico: «Como isso pôde acontecer? Jesus não tinha, então, mais nada de corporal: as paredes tinham, então, perdido uma propriedade inseparável dos corpos, a impenetrabilidade?». Então, quando a Sabedoria humana, por assim dizer, estendeu, organizou em batalha seu exército de objeções, o grande doutor as derruba de um só golpe com as armas da loucura cristã: «Sou um ignorante, contento-me em crer nas coisas tais como Deus as disse; tudo o que posso constatar é que Ele as disse, não me peçam a explicação dos fatos. Deus me diz, pois o Evangelho é sua palavra, que esse mesmo Deus, tendo um corpo, entrou em um aposento sem abrir as portas. Eu creio nisso. Como Ele fez? É assunto d'Ele e não meu: Ele faz tantas coisas que eu não compreendo. Será que, por acaso, por mais sábio que você seja, você ousaria dizer que Deus não pode fazer senão o que você pode compreender? Ora! Quantas coisas naturais que você não compreende! Quantas também coisas sobrenaturais, mas sensíveis! Se nossa razão não pode compreender a entrada de Jesus Cristo em um aposento com as portas fechadas, quanto menos compreenderá sua eterna geração do Pai!».
Vida laica e magistério
Casado e pai de uma filha chamada Abra, ensinou eloquência em Poitiers e tornou-se amigo do sacerdote Heliodoro antes de sua elevação ao episcopado.
São Hilário tinha um temor tão grande de perder o tesouro da fé que evitava todo comércio com os judeus e os hereges, como saudá-los ou sentar-se com eles à mesma mesa. Isso, como acabamos de ver, não provinha de um caráter duro e intratável; mais tarde, ele mudou inteiramente de conduta sobre este assunto, quando foi bispo e acreditou que isso era mais equitativo e mais útil à Igreja e ao próximo. Mas, como não ignorava que a fé é morta se não opera pela caridade e que os homens podem ser cortados do corpo de Cristo, não apenas por infidelidade, mas também por esterilidade, aplicou-se primeiro a conhecer bem as regras da Igreja e as máximas do Evangelho: então submeteu-se, embora simples leigo, a uma disciplina tão severa que se via formar-se de antemão nele um sacerdote irrepreensível para o templo de Cristo. Ao vê-lo exercer todas as obras de piedade, dir-se-ia um santo pontífice. Enfim, cheio de Deus, esforçou-se por difundi-lo nos outros: fazia com que estes temessem os castigos reservados aos seus pecados; excitava aqueles pela promessa do reino celestial; em uma palavra, exortando a todos à santa prática da religião cristã, não cessava de semear no povo palavras de verdade que faziam por toda parte germinar e frutificar a fé.
Hilário teve como professor Heliodoro, sacerdote de Poitiers, de origem grega sem dúvida, e que, professando ali a eloquência e a poesia, foi consul tado por Poitiers Cidade onde a santa se estabeleceu e viveu como reclusa. São Hilário sobre certas passagens de Orígenes. Aquele que viria a ser um dos nossos mais doutos bispos não estava suficientemente familiarizado com a língua do célebre teólogo e encontrou em Heliodoro um guia esclarecido, cujos mesmos gostos logo fizeram dele seu amigo fiel, bem como seu guia assíduo. São Jerônimo acredita dever atribuir-lhes em comum alguns dos trabalhos literários do grande prelado. O que é certo é que não se deve atribuir senão ao professor o tratado *De l'origine des choses* (Da origem das coisas), onde ele combate, pelo princípio da unidade de Deus, autor de todo bem e jamais de qualquer mal, as opiniões dos maniqueus de então, e até mesmo, por concomitância, a dos panteístas do nosso tempo. Mas o que não deve ser menos interessante aos nossos olhos é que o próprio Hilário, antes de dar provas escritas desta sublime doutrina que ditaria seus livros de controvérsia, teve de lutar publicamente, a título de professor, na escola onde se exercitavam os doutores de Poitiers. Não era raro, naqueles tempos em que as letras eram tão honradas quanto a fortuna, ver personagens da mais alta estirpe dedicarem-se a esta bela obra do ensino.
É duvidoso se ele se entregou a este magistério antes ou depois de sua perfeita conversão; o fato é que foi após seu casamento, pois, tendo esta união feito com que ele ainda "crescesse em bem e renome, de todos os países vinham pessoas a Poitiers para ouvir sua sapiência".
Mas tudo leva a crer que esta tarefa laboriosa lhe terá parecido uma obra de proselitismo muito conforme ao zelo cristão recomendado a cada um pelo divino Mestre, em quem apenas ele havia encontrado "o caminho, a verdade e a vida". Era um meio ativo e fecundo de guardar contra a grande heresia da época um auditório atraído por essa eloquência douta e enérgica, cuja atividade se formara nas mais belas fontes de seu tempo; pois é certo que sua juventude, durante a qual sua posição e suas riquezas o levaram pouco a pleitear cargos e honrarias, passou-se em estudos sérios que protegeram a gravidade de sua conduta e a pureza de seus costumes.
A ascensão à sé de Poitiers
Eleito bispo por volta de 353, ele definiu uma alta concepção do ministério pastoral aliando ciência e santidade, e iniciou seus primeiros comentários bíblicos.
Deus havia providenciado a este santo homem uma esposa digna dele e de quem teve uma filha única ch amad Abra Filha única de Santo Hilário, consagrada à virgindade. a Abra; o que nos mostra que esta mulher, cujo nome ignoramos, era muito versada em tudo o que toca à piedade, é que São Hilário, escrevendo à sua filha do fundo do seu exílio para exortá-la a permanecer virgem, diz-lhe para consultar sua mãe sobre os pensamentos que ela não compreendesse. Estes dois esposos trabalhavam em conjunto para se santificarem e para darem como que um segundo nascimento à sua filha, inspirando-lhe costumes puros e ensinando-lhe a obediência à lei de Deus. Assim vivia São Hilário, livre para o serviço de Deus nos laços do matrimônio, muito instruído em todos os gêneros de ciência, de uma vida que era a probidade, a pureza mesma, de uma fé íntegra e constante, ardendo de zelo pelas almas, adornado de todas as outras qualidades que São Paulo exige para um bispo, quando todo o povo, de comum acordo, ou melhor, o espírito de Deus do qual este povo não era senão o órgão, o pediu para bispo, no lugar de Maxêncio, irmão de São Maximino de Tréveris.
Isso foi por volta do ano 353, alguns anos antes do seu exílio. Sua esposa ainda vivia, mas a Igreja tomava então frequentemente entre as pessoas casadas os seus ministros que, sem isso, não teriam sido numerosos. Obrigavam-nos sempre a separar-se de suas mulheres, particularmente em Roma, no Egito e no Oriente: ao ainda terem comércio com elas, tornavam-se adúlteros. O que foi como que a alma do ilustre episcopado de São Hilário foram os nobres sentimentos que ele tinha sobre esta dignidade. Mais tarde, quando quis lembrar ao imperador que merecia alguma consideração aos seus olhos, não encontrou nada mais forte para lhe dizer do que estas palavras: «Eu sou bispo»: *episcopus ego sum*. Ele considerava o bispo como o «príncipe perfeito da Igreja, o qual deve possuir na sua perfeição as maiores virtudes». Num bispo, a inocência da vida não basta sem a ciência, e sem a santidade a maior ciência não basta tampouco; com efeito, como ele é instituído para a utilidade dos outros, de que lhes serve, se não os instrui, e não serão as suas instruções estéreis, se não estiverem de acordo com a sua vida? São Hilário quer, portanto, que no sacerdote a probidade e a ciência se prestem um mútuo socorro: «Que ele adorne a sua vida pregando; que ele adorne a sua pregação vivendo; pois inocente, ele só é útil a si mesmo, se não for instruído e sábio; a sua ciência não tem autoridade, se ele não for inocente». Mas é sobretudo dos bispos que ele exige «uma fé que não seja toda nua e privada das armas da razão, mas que possa lutar constante e seguramente» contra os ataques dos heréticos que combatem armados de todas as ciências humanas; uma fé que possa tanto superar a sabedoria do século, quanto as coisas divinas superam as humanas, «a fim de que, tanto quanto há de distância entre as coisas divinas e as humanas, tanto a razão celestial (da qual o bispo é o defensor) supere todas as ciências terrestres; uma fé, enfim, que saiba instruir os povos confiados aos seus cuidados, em todos os deveres do cristão, e preveni-los contra as bocas que pregam o mal». Tal foi o episcopado de São Hilário, como vamos ver.
O que ele acreditava para si mesmo, quando estava encarregado apenas da sua própria salvação, ele pregou ao seu povo assim que foi encarregado da salvação dos outros. Ele começou a instrução do seu povo pela exposição do evangelho de São Mateus. Não foi sem razão, pois o Novo Testamento está escondido no Antigo, e o Antigo manifestado no Novo. Se se quer ir do mais conhecido ao menos conhecido, é bom começar pelo Novo Testamento, cujo primeiro livro é o evangelho segundo São Mateus. São Hilário deixou-nos comentários sobre o evangelho de São Mateus, que ele deu primeiro ao seu povo de Poitiers, do alto da cátedra, antes de os publicar: pois ele segue aí mais a marcha do orador do que a do intérprete; ele não explica cada palavra, mas omite certas passagens, passa rapidamente sobre algumas para se estender longamente sobre outras, ele se apega menos a explicar o sentido da letra do que a desenvolver os nossos mistérios, o que ele julgava mais útil e mais agradável ao seu povo. Há várias razões, demasiado longas para relatar aqui, de crer que São Hilário compôs esta obra nos primeiros anos do seu episcopado e antes do ano 356. São Jerônimo estimava muito esta obra; ele enviou-a a algumas pessoas que lhe tinham pedido comentários sobre a Sagrada Escritura; ele a tinha aparentemente copiado de sua própria mão, estando em Tréveris, com os comentários sobre os salmos do mesmo doutor. De São Mateus, São Hilário passou a São João, que escreveu especialmente para afirmar a divindade de Jesus Cristo.
O combate contra a heresia ariana
Apelidado de Atanásio do Ocidente, ele se opõe frontalmente ao imperador Constâncio e aos líderes arianos durante os concílios de Arles, Milão e Béziers.
Mas é tempo de ver o seu mais belo título de glória, a maneira heroica como combateu um dos maiores flagelos que assolaram o mundo, o arianismo, cuja história faremos mais adiante, desde a sua origem até a época em que São Hilário entrou na liça. Devo apenas dizer aqui que esta heresia, depois de ter lançado a discórdia no Oriente, depois de ter feito depor e exilar várias vezes Santo Atanásio, o bispo de Alexandria, esse invencível campeão da fé católica, espalhava-se então no Ocidente sob a proteção do imperador Constâncio. Quase todos os bispos do Ocidente l’empereur Constance Imperador romano que exilou Eusébio por sua oposição ao arianismo. mostraram muito mais coragem do que os orientais: proclamaram a inocência de Atanásio e excomungaram os chefes do arianismo, entre outros, Ursácio de Singiduno e Valente de Múrcia; depois, enviaram ao imperador Constâncio uma deputação para pedir que os bispos exilados pela fé fossem chamados de volta e que, doravante, a autoridade secular não se intrometesse mais nos assuntos religiosos. O imperador Constâncio, envergonhado do papel que os arianos e os semi-arianos (ou eusebianos) o faziam desempenhar, tornou-se mais justo e chamou Atanásio de volta à sua sede (349). Mas, como era tão fraco quanto tirânico, deixou-se persuadir novamente pelos arianos, que o lisonjeavam e lhe diziam sem cessar que Atanásio, ao defender a Igreja, atacava o Império. Foi por volta desta época que Hilário começou a mostrar-se o Atanásio do Ocidente. Constâncio, encontrando-se em Arles (353), realizou ali um concílio, no qual ordenou que se subscrevesse a heresia ariana e a condenação de Santo Atanásio.
Paulino, bispo de Tréveris, tendo resistido a estas ordens, foi condenado pelos arianos e exilado por Constâncio. Desconhecem-se os outros detalhes deste conciliábulo; foi o início dos males trazidos ao Ocidente pela heresia ariana, que tinha por protetor um déspota e por agentes um Ursácio, um Valente, um Saturnino, bispo de Arles; este último, corrom pido no espírito e nos c Saturnin, évêque d'Arles Arcebispo ariano de Arles que condenou Ursicino. ostumes, impetuoso e faccioso, tiranizava as Gálias com todos os meios de terror que Constâncio lhe deixava à disposição.
Em outro concílio, em Milão (355), o imperador empregou todos os esforços para destruir a fé de Niceia e extorquir dos bispos a condenação de Atanásio. Os legados da Santa Sé ousaram representar-lhe que era contrário às «leis» da Igreja condenar um ausente sem ouvi-lo. — «As leis», replicou Constâncio, «são as minhas vontades». Mas os legados, tendo mais horror a esta máxima do que a todos os suplícios, deixaram-se condenar ao exílio em vez de trair a causa da justiça e da inocência. Outros bispos pediram para serem incluídos na mesma sentença. É difícil saber se São Hilário assistiu a este concílio: mas nada é mais conhecido e mais brilhante do que a sua oposição à violência, à injustiça e ao erro. Ele poderia ter vivido em repouso na sua igreja de Poitiers, no meio de todas as vantagens do favor imperial; Constâncio teria até honrado com a sua amizade um prelado tão eminente, tê-lo-ia cercado de consideração e tornado todo-poderoso; o santo doutor só precisava submeter-se à vontade imperial e deixar a outros o cuidado de defender a verdade evangélica; talvez até lhe bastasse calar-se, e mais de um pretexto se teria oferecido a ele para justificar a sua conduta perante o seu povo. Mas todas as suas esperanças estavam no céu, e a caridade unindo-o a Deus por laços indissolúveis, não havia nada na terra cujo desejo ou temor pudesse separá-lo; ele nunca hesitou sobre o partido que deveria tomar, disse sempre intrepidamente: «Adero ao nome de Deus e do meu Senhor Jesus Cristo, ainda que tal confissão me atraia todos os males; rejeito a sociedade dos ímpios e o partido dos infiéis, ainda que me oferecessem todos os bens». Tendo tomado esta inabalável resolução, empreendeu deter o Ocidente na inclinação do erro: pois muitos, assustados pelas ameaças, enganados pelas intrigas e astúcias, tinham entrado em comunhão com os arianos, no concílio de Milão. A heresia espalhava-se como um contágio.
O nosso Santo dirigiu-se primeiro ao imperador; é, pelo menos, a opinião mais comum de que se deve reportar a esta época o seu primeiro livro a Constâncio.
É uma petição apologética tendente a que este príncipe concedesse aos católicos a liberdade de exercer a sua religião com os seus bispos. Ele protesta que o imperador não tem a temer da parte dos católicos nenhuma sedição, nem mesmo qualquer murmúrio perigoso; que apenas os arianos perturbam a paz pública pelas violências que empregam para impor os seus erros. Os católicos pedem apenas a liberdade comum; que lhes devolvam os seus bispos exilados e que seja permitido a cada um ouvir a palavra de Deus da boca de quem quiser. Se o imperador quisesse usar de coação para estabelecer a verdadeira religião, como se faz para o arianismo, os bispos católicos o desviariam disso, dir-lhe-iam que Deus é o mestre do universo, que não tem necessidade de uma submissão forçada e que não exige uma confissão que tem por princípio a violência. Esta petição não teve pleno sucesso; contudo, segundo Barônio, deve-se considerar como um dos seus frutos uma lei de Constâncio, datada, no código teodosiano, do nono dia antes das calendas de outubro, sob o consulado de Arbício e Loliano, isto é, de 23 de setembro do ano 355: ela remete aos bispos o conhecimento das causas dos seus confrades e proíbe que qualquer um seja levado perante os tribunais seculares.
Ao mesmo tempo, Hilário e a maioria dos bispos das Gálias, dos quais ele era o chefe, separaram-se da comunhão de Saturnino, de Ursácio e de Valente, e concederam aos outros que tinham entrado no partido desses arianos o perdão da sua falta, contanto que se arrependessem e que a indulgência que lhes concediam fosse aprovada pelos confessores exilados pela fé.
O exílio e os grandes tratados
Exilado na Frígia, aproveita seu degredo para evangelizar o Oriente e redigir suas obras principais, incluindo o Tratado da Trindade e o Tratado dos Sínodos.
Saturnino e os de sua facção, não podendo suportar ver-se manchados por um decreto que os bispos das Gálias haviam tornado público, obrigaram-nos a comparecer a um concílio que realizaram em Béziers (356), e no qual há indícios de que Saturnino presidiu. São Hilário compareceu, com sua intrepidez habitual, e nesta assembleia de inimigos e arianos, ofereceu-se para refutar, ali mesmo e de viva voz, o erro deles. Mas os hereges, que temiam ser confundidos publicamente, não quiseram que ele fosse ouvido. Saturnino enviou a Constâncio um falso relato do que havia ocorrido naquele concílio, e embora São Hilário se queixasse e Juliano, César das Gálias, fosse testemunha da verdade, as calúnias dos arianos prevaleceram. Não se sabe de que crime o acusavam, mas São Hilário indica claramente em seu segundo livro a Constâncio que se tratava de uma ação indigna não apenas de um bispo, mas até mesmo de um leigo de bons costumes. Foi exilado na Frígia com São Rodânio, bispo de Toulouse que, naturalmente m enos vi Phrygie Região de origem de Santa Florença na Ásia Menor. goroso que Hilário, só se sustentava contra os inimigos da Igreja por sua união com ele. Nosso Santo, com a alegria dos Apóstolos e dos mártires quando tinham de sofrer algo por Jesus Cristo, dirigiu-se ao local de seu exílio, onde o esperava uma bela missão e grandes vitórias: Deus levava este facho ao Oriente para dissipar ali as trevas do arianismo. Ele não deixou, contudo, de ser a alma das igrejas da Gália: pois os bispos católicos daquelas regiões não permitiram que ninguém ocupasse seu lugar na sede de Poitiers; o grande doutor continuou em relação com eles e a governar sua igreja; ficou muito aflito com o triste estado em que encontrou as igrejas da Ásia: ele nos assegura, em um de seus livros, que encontrou dificilmente, nas províncias onde fora relegado, um bispo que conhecesse a Deus e conservasse algum resto da verdadeira fé. Impôs-se nessas circunstâncias dois deveres que indicam a conduta mais sábia e razoável: aplicou-se primeiro a manter-se muito firme na confissão de Jesus Cristo; depois, a não rejeitar nenhum acordo nem nenhum meio honesto e razoável para pacificar as coisas. Por isso, usou de muita moderação nos escritos que fez então, temendo que, se neles empregasse mais força, atribuíssem isso mais ao ressentimento do que ao amor pela verdade. Levou a condescendência até ao ponto de rezar, falar com os hereges e dar-lhes a saudação e a paz. Essa indulgência custava-lhe pouco: pois seu exílio, longe de irritá-lo contra seus inimigos, era-lhe, pelo contrário, muito agradável, já que era o triunfo da verdade. Ele se alegrava ao ver cumprir-se nele a profecia do Apóstolo: «Existirá um tempo em que não se poderá suportar a verdadeira doutrina». De fato, a iniquidade mostrava, ao exilar esses corajosos bispos, que não podia suportar nenhuma contradição, que temia a luz, que não consultava outra justiça senão seus desejos. «Que meu exílio dure sempre», dizia ele, «contanto que a verdade seja finalmente pregada. Os inimigos da verdade podem bem exilar seus defensores, mas a ela, a verdade, acreditam eles exilá-la ao mesmo tempo? Ao exilar meu corpo, puderam também acorrentar e deter a palavra de Deus? Se estou longe demais do meu rebanho para falar-lhe com minha boca, não serei menos bispo da minha igreja. A distância não me impede de estar em relação e em comunhão com os bispos das Gálias, e do fundo da Frígia exerço sempre meu ministério em Poitiers, distribuo sempre a comunhão aos meus diocesanos pela mão de meus sacerdotes. Enganam-se se acreditam ter-me imposto silêncio: falarei por meio de livros e a palavra de Deus, que ninguém pode vencer, voará livre». A primeira obra que compôs assim em seu exílio, para desmascarar o erro e defender a verdade, foi seu *Tratado da Trindade*.
«Está dividido em doze livros. O Santo prova ali da maneira mais sólida a consubstancialidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensina que a Igreja é uma, e que todos os hereges estão fora de seu seio; que ela se distingue de suas diferentes seit Traité de la Trinité Obra maior em doze livros redigida durante o exílio. as pelo fato de que, conservando sempre sua unidade, ela as combate e as confunde todas, embora sozinha contra elas; que ela encontra a matéria de seus mais belos triunfos nas divisões perpétuas que reinam entre os partidários do erro. Faz ver em seguida que o arianismo não pode ser a verdadeira doutrina, uma vez que não foi revelada a São Pedro, escolhido para ser o fundamento inabalável da Igreja até a consumação dos séculos; a São Pedro, cuja fé será indefectível, porque Jesus Cristo rezou para que ela nunca falhasse; a São Pedro, que recebeu as chaves do reino do céu, e cujos julgamentos Deus ratifica, embora proferidos na terra». Apresenta ainda em outros lugares os mesmos argumentos. É que, de fato, eles são decisivos, e é difícil para a heresia eludir sua força. O artigo da divindade de Jesus Cristo é também tratado com uma superioridade de luz que não deixa nenhum recurso aos arianos. O santo doutor demonstra-a pelos milagres operados nos túmulos dos Apóstolos e dos Mártires, bem como pela virtude de suas relíquias; demonstra-a ainda por fatos brilhantes e miraculosos que não se podem revogar em dúvida sem renunciar aos primeiros princípios, sobretudo pelos terríveis rugidos que soltavam os demônios, forçados a fugir na presença dos sagrados ossos daqueles que haviam derramado seu sangue por Jesus Cristo!».
São Hilário havia escrito várias vezes, de diversos lugares, aos bispos das Gálias, e não havia recebido resposta. Temeu que esse silêncio fosse afetado e que eles tivessem caído no erro como tantos outros; assim, resolveu calar-se também de sua parte e não ter mais comunicação com eles, após tê-los advertido várias vezes, segundo os preceitos de Nosso Senhor. Qual não foi, portanto, sua consolação quando recebeu finalmente cartas deles e soube que, se não lhe haviam escrito antes, era porque não sabiam onde ele estava. Aprendeu com extrema alegria que eles haviam conservado a pureza inteira da fé, que haviam permanecido unidos a ele em espírito e rejeitado a comunhão de Saturnino, o autor de seu exílio; que, desde pouco, como lhes haviam enviado a segunda profissão de fé redigida em Sirmio pelos arianos, em 357, eles não apenas a rejeitaram, mas expressamente a condenaram. Pediam-lhe também que lhes explicasse claramente qual era a fé dos orientais sobre a divindade do Filho de Deus e o que queriam dizer tantas diferentes confissões de fé que haviam redigido desde o Concílio de Niceia.
O santo exilado respondeu aos bispos das Gálias com seu tratado dos Sínodos, onde reconcilia o Oriente e o Ocidente católico; pois os bispos do Ocidente acusavam os orientais de arianismo, e estes, os primeiros de sabelianismo. São Hilário explica as diferentes fórmulas de fé que os orientais haviam feito desde o Concílio de Niceia, a fim de mostrar aos ocidentais que elas eram boas ou, pelo menos, toleráveis, e que não deveriam considerar como arianos aqueles que as recebiam. Pede-lhes que julguem eles mesmos essas fórmulas, das quais lhe haviam pedido a explicação, e que suspendam seu julgamento até o fim de seu escrito. Não é que ele se faça garante da ortodoxia de todas essas fórmulas: ele as transmite convidando os bispos das Gálias a julgá-las com moderação e a levar em conta as circunstâncias nas quais foram feitas; pois, no Oriente, «tudo está cheio de escândalos, de cisma, de infidelidade. Como sois felizes, vós», diz ele aos bispos das Gálias, «por ter conservado em sua pureza a fé apostólica, por ter ignorado até aqui essas profissões escritas e por ter-vos contentado em professar de boca o que credes de coração!». Explica em seguida os termos cuja ambiguidade tornava suspeita aos orientais a fé dos ocidentais, para convidá-los, uns e outros, a não se suspeitarem pelas palavras, já que todos parecem entender-se sobre a coisa.
São Hilário havia também recebido uma carta de Abra, sua filha, provavelmente pela mesma via que as dos bispos das Gálias. Essa carta não chegou até nós, e não conhecemos seu conteúdo; seja que ela informasse ao pai que era cortejada em casamento por um homem de condição, seja que São Hilário o soubesse por outra via, ele achou que devia levá-la a não tomar outro esposo senão Jesus Cristo. Temos a carta onde ele lhe dá esse conselho, e é sem razão que alguns críticos quiseram fazê-la passar por uma peça suposta e pouco digna da gravidade desse santo bispo. Se o estilo não é tão elevado quanto em seus outros escritos, é porque a matéria não o exigia e porque ele falava ali a uma jovem de doze a treze anos, com a qual a qualidade de pai lhe permitia, de certa forma, balbuciar. São Hilário teve a ocasião de enviar essa carta com o livro dos Sínodos, endereçado aos bispos das Gálias. Indicava àquela querida criança que, se ela fosse generosa o suficiente para não desejar um esposo mortal, roupas magníficas e tudo o que lisonjeia a vaidade dos mundanos, ela receberia de Jesus Cristo uma pérola infinitamente preciosa da qual não poderia sequer formar uma ideia. Contudo, ele lhe dá simples conselhos, não lhe manifesta senão seus desejos, não lhe impondo sobre esse ponto nenhuma necessidade. Mas ele lhe pede uma resposta e quer que ela a faça sem o auxílio de ninguém. Anuncia-lhe ao mesmo tempo que lhe envia dois hinos, um para a manhã e outro para a noite, e acrescenta que, se ela encontrar algo difícil de entender, seja nesses hinos, seja em sua carta, que peça a explicação à sua mãe. Fortunato nos ensina que, em seu tempo (século VI), o original dessa carta era guardado cuidadosamente na igreja de Poitiers. Abra seguiu o conselho de seu pai e morreu santamente, como relataremos em breve.
O retorno triunfal e os prodígios
Após desafiar os arianos em Constantinopla, ele retorna à Gália, realiza milagres no mar e ressuscita uma criança em Poitiers.
No entanto, dois concílios haviam sido convocados, com intenções pérfidas, pelo imperador (359). Um realizou-se em Rimini, na Itália, onde vários prelados, mesmo dos mais santos e melhores, depois de Santo Hilário, como Febádio de Agen e Servácio de Tongeren, foram enganados pelos artifícios e pelas propostas capciosas dos arianos; o outro, em Selêucia (360), metrópole da Isáuria, composto por uma maioria de semi-arianos, um certo número de arianos e cerca de quinze católicos. Santo Hilário encontrou-se lá por uma disposição particular da Providência. Embora não houvesse nenhuma ordem específica para ele, contudo, pela ordem geral de enviar todos os bispos ao concílio, o vigário do prefeito do pretório e o governador da província obrigaram-no a comparecer e forneceram-lhe os meios para chegar a Selêucia. Durante essa viagem, ele parou num domingo em uma pequena cidade e entrou na igreja dos católicos, na hora em que o povo estava reunido. De repente, do meio da multidão, lança-se uma jovem que, iluminada por uma luz sobrenatural, reconheceu o santo Doutor, lança-se aos seus pés e pede-lhe a bênção, depois o batismo, que ela recebeu alguns dias depois. Seu pai, Florentius, sua mãe e toda a sua família também aproveitaram a passagem de nosso Santo, que os regenerou na água do batismo. Florença seguiu seu pai espiritual, em seu retorno à França, e tornou-se, sob sua sábia condução, uma santa honrada em Poitiers, no primeiro dia de dezembro.
À sua chegada, foi recebido muito favoravelmente e atraiu a atenção de todos. Perguntaram-lhe primeiramente qual era a crença dos gauleses, pois os arianos os haviam tornado suspeitos de reconhecer a Trindade apenas nos nomes, como Sabélio. Ele explicou sua fé em conformidade com o concílio de Niceia e prestou aos ocidentais o testemunho de que eles mantinham absolutamente a mesma crença. Assim, tendo dissipado todas as suspeitas, foi admitido à comunhão dos bispos e recebido no concílio. Teve a dor de ouvir ali blasfêmias horríveis saindo da boca dos arianos, espíritos sem energia e sem decência, audazes contra Deus, escravos diante do olhar dos mestres da força, dando ao imperador o atributo de eterno, que eles recusavam ao Filho de Deus. Ele estremeceu de horror ao ouvir um deles, que viera para sondá-lo, dizer que Jesus Cristo é dissemelhante a Deus, porque não é Deus, nem nasceu de Deus, e recusou-se a acreditar que aquele fosse o sentimento deles, até que o declararam publicamente no concílio. Os semi-arianos condenaram até mesmo esses ímpios e os depuseram.
Mas estes apelaram a Constâncio: uns e outros foram a Constantinopla, como se Nosso Senhor tivesse dito aos seus Apóstolos: «Quando estiverdes embaraçados sobre qualquer ponto da doutrina que vos encarreguei de ensinar, ide pedir a solução aos Césares». Santo Hilário acompanhou esse triste concílio à corte, não para compartilhar sua servidão, mas para defender a verdade e saber o que pretendiam fazer com sua pessoa. Viu ali a verdade oprimida pelos arianos de Rimini reunidos aos de Selêucia: esses hereges, vendo-se em número na própria capital de um império que colocava sua espada e suas torturas à disposição deles, acreditaram que a ocasião era favorável para realizar um concílio à sua maneira (360). Disputou-se ali sobre a fé, isto é, abalou-se até em seus fundamentos. Mas o grande atleta da fé estava lá: Santo Hilário dirigiu ao imperador uma petição na qual, justificando-se das acusações que Saturnino havia formulado contra ele e defendendo a autoridade da Igreja, pediu duas coisas: primeiro, conferenciar com o autor de seu exílio, Saturnino, bispo de Arles, que se encontrava então em Constantinopla, deixando ao imperador a escolha do lugar e da maneira como essa conferência deveria ser feita; segundo, que o imperador lhe concedesse uma audiência na qual lhe fosse permitido tratar a matéria da fé segundo as Escrituras, em sua presença, diante de todo o concílio que então a disputava e à vista de todo o mundo. «Eu o peço», disse ele, «não tanto por mim, mas por vós e pelas Igrejas de Deus. Tenho a fé no coração e não preciso de uma profissão exterior; guardo o que recebi; mas lembrai-vos de que não há herege que não pretenda que sua doutrina é conforme às divinas Escrituras». Falando das variações contínuas dos arianos, ele ridiculariza finamente essa multidão de símbolos contraditórios que eles forjavam continuamente. «No ano passado», acrescentou ele, «produziram quatro: a fé já não é a fé dos Evangelhos, mas a fé dos tempos, ou melhor, há tantas espécies de fé quanto vontades, tanta diversidade na doutrina quanto nos costumes, tantas blasfêmias quanto vícios. Os arianos fazem aparecer todos os anos, e até todos os meses, novos símbolos para destruir os antigos e anatematizar aqueles que a eles aderem». Ele indica o remédio para essa chaga: «Como durante as tempestades de inverno», diz ele, «o único meio de se salvar é retornar ao porto de onde se saiu, da mesma forma, não há, para se livrar do embaraço e da desordem que causam todas essas diferentes fórmulas de fé, outro meio senão retornar ao porto da fé na qual fomos batizados». Os arianos não ousaram aceitar o desafio de Santo Hilário: para se livrarem desse terrível adversário, persuadiram o imperador a enviá-lo de volta às Gálias, como um homem que semeava por toda parte a discórdia e perturbava a paz do Oriente. Seus votos foram atendidos: o santo bispo foi enviado de volta à sua pátria, no ano 360 de Jesus Cristo. Não se revogou, contudo, a sentença que o havia inicialmente exilado. O imperador não quis parecer ter reconhecido sua inocência. É preciso confessar que defensores da verdade tão incorruptíveis embaraçam singularmente os déspotas e os cortesãos; mas nada é mais digno de admiração do que esse invencível doutor, que nada pode forçar a desanimar e a render-se, e cuja coragem e luzes tornam-se mais incômodas no exílio do que em sua própria casa.
Essa decisão do imperador foi recebida pelo Santo com sentimentos bem contrários; pois, por um lado, a alegria de rever mais uma vez seus queridos filhos e suas ovelhas dilatava seu coração, e por outro, ele estava extremamente aflito por se ver frustrado da ocasião do martírio que esperava obter após seu exílio. No entanto, foi preciso obedecer às ordens, não tanto do imperador, mas da divina Providência, que fez ver bem, por meio de milagres, o quanto esse retorno lhe era agradável. Com efeito, quando ele desembarcou por mar na ilha chamada Gallinaria, que era então inabitável para os homens, porque servia de refúgio a uma multidão de serpentes extremamente venenosas, todos esses animais retiraram-se na presença do Santo assim que ele pôs o pé em terra, fugindo diante dele como se ele tivesse vindo expulsá-los em nome de Jesus Cristo; pois, tendo fincado seu cajado em um certo lugar da ilha, que ele lhes deu como limite, ordenou a essas serpentes que não passassem adiante, ao que elas obedeceram. É dessa ilha Gallinaria que São Martinho, que já era seu discípulo, foi buscá-lo em Roma, ao ouvir o boato de que ele retornava à França; mas, sabendo que ele estava mais longe, seguiu-o até Poitiers, onde ele aproveitou tão bem, uma segunda vez, sob a disciplina de um tão bom mestre, q ue foi visto saint Martin Santo cujas relíquias foram honradas pelos missionários em Tours. desde então aparecer como um grande prodígio de santidade na Igreja de Deus.
Não é fácil descrever com que alegria o santo prelado foi recebido por todas as ordens do clero da Igreja da França: «Foi então», diz São Jerônimo, «que a França abraçou seu grande Hilário, retornando vitorioso da derrota dos hereges e com a palma na mão». Deus mesmo honrou seu retorno com milagres bem notáveis. Uma criança tendo morrido sem batismo, o Santo, comovido pelas orações e lágrimas de seus pais, restituiu-lhe a vida do corpo e acrescentou a da alma, milagre que recorda um monumento de escultura conservado até nossos dias pela devoção reconhecida da cidade.
Restauração da ortodoxia na Gália e na Itália
Ele organiza concílios para reerguer os bispos que caíram e dirige-se à Itália para combater a influência de Auxêncio em Milão.
Mal Hilaire foi restabelecido em sua sede, pôs mãos à obra para a qual a Providência o trouxera de volta; as medidas violentas e as armadilhas empregadas com perseverança pelo imperador haviam arrancado, mesmo dos bispos católicos do concílio de Rimini, a adoção de um símbolo equívoco, ao qual o papa Libério, Vicente de Cápua e Gregório de Elvira opuseram uma invencível resistência. Então, exclama São Jerônimo, o universo gemeu e se espantou por ser ariano. Tratava-se de reerguer essas ruínas: Hilário empreendeu a tarefa, não sem inquietação sobre o meio que deveria empregar. A maioria de seus confrades queria absolutamente excluir de sua comunhão todos aqueles que haviam subscrito o formulário de Rimini. Mas ele preferiu seguir, como haviam feito São Cipriano de Cartago, São Cornélio de Roma e outros pastores caridosos da Igreja, o conselho que o Apóstolo dá àqueles que permaneceram firmes, de corrigir com doçura os que caíram. Estendeu, portanto, a mão a todos aqueles que quiseram se reerguer. Reuniu para este fim diversos concílios nas Gálias, onde a maioria dos bispos que haviam sido enganados, intimidados ou corrompidos, reconheceram sua falta com humildade. Condenou-se ali o que havia sido feito em Rimini e restabeleceu-se a fé da Igreja em sua pureza, apesar da oposição de Saturnino de Arles, que foi deposto por sufrágio de todos os prelados e expulso da Igreja, após ter sido convencido de vários crimes enormes, além do de heresia (361). Hilário mereceu nesta circunstância o título de Salvador, de Pai da Pátria; pois foi ele quem livrou as Gálias das trevas e do veneno do erro, e fez como que renascer nossas Igrejas na verdadeira fé, tanto mais que ele nos continuou esta proteção após sua morte. Quando 146 anos depois, o primeiro rei cristão dos francos, Clóvis, marchava para combater o ariano Alarico, rei dos godos, viu uma grande luz sair da basílica de São Hilário de Poitiers e avançar em sua direção; compreendeu então que o Pontífice, que havia derrubado a heresia durante sua vida, serviria de auxiliar contra os batalhões heréticos; ao mesmo tempo, uma voz advertiu o guerreiro católico a se apressar, assim que tivesse feito sua oração naquele lugar venerável, para iniciar a batalha. Então Clóvis avançou diante de Alarico, cheio de confiança na proteção celeste que lhe havia sido prometida; o sucesso coroou tão bem seus esforços que, antes da terceira hora do dia, contra toda esperança humana, ele havia alcançado uma vitória completa. Ao celebrar este triunfo, Fortunato diz que sente bem (e é o próprio São Hilário quem lhe inspira este pensamento) que o santo bispo, em seu túmulo ou melhor, no céu, não tem menos solicitude pela religião católica do que quando ainda vivia. Deve-se datar desta época (361), em que São Hilário faz esforços heroicos para banir o arianismo das Gálias, seu livro contra o médico Dióscoro; não podemos falar dele, uma vez que não nos resta mais do que o título transmitido por São Jerônimo.
Ele publicou também seu livro contra Constâncio; ele o havia composto em 360, quando lhe recusaram, como vimos, em Constantinopla, a audiência que ele havia pedido com muita submissão e respeito ao imperador, diante do qual ele se oferecia para convencer os arianos de erro. Acreditou então que não tinha mais nada a poupar com Constâncio, e que deveria até mesmo revelar publicamente sua impiedade, a fim de que ele deixasse de se fazer passar por protetor da religião, enquanto era apenas o protetor da heresia.
O remédio era violento, mas necessário, visto o infortúnio daquele tempo, e o Santo nos assegura que o empregou, não por sua própria causa, que ele sempre defendeu com moderação, mas pela de Jesus Cristo; seu desígnio sendo menos invectivar contra Constâncio do que defender a doutrina da Igreja. De fato, unicamente atento aos males que este príncipe havia feito à Igreja, ele passa em silêncio todos os seus outros desordens. Há quem tenha censurado a dureza de suas expressões, onde pareceria quase ter esquecido suas obrigações como súdito do imperador; mas é preciso considerar que sua linguagem era menos o efeito de um zelo exagerado e excessivo do que de seu amor pela verdade e do ardor de sua caridade por Deus e seu povo. Além disso, suas palavras não são mais fortes do que aquelas que Jesus Cristo e o mártir Santo Estêvão empregaram contra os judeus. Pode-se dizer de São Hilário o que São Gregório de Nazianzo disse de vários grandes personagens daquele tempo: «Por mais pacíficos e moderados que sejam, há um caso em que não podem mais ser dóceis e fáceis, é quando o repouso e o silêncio trairiam a causa de Deus; então, eles são totalmente belicosos, e na luta mostram-se audazes, intratáveis; precipitar-se-ão antes além das conveniências do que permanecer aquém de seu dever».
A morte surpreendeu Constâncio antes que nosso Santo tivesse podido lhe dirigir seu eloquente escrito, 3 de novembro de 361.
Após ter restabelecido a fé católica nas Gálias, São Hilário passou para a Itália (364) para livrar também aquela região do flagelo da heresia. Ele foi secundado nesta empresa por Santo Eusébio de Vercelli e Filástrio de Bréscia; essas grandes luzes conseguiram iluminar com o esplendor de seus raios a Ilíria e a Itália, e banir dos países mais remotos e dos cantos mais secretos, as trevas do erro. Mas a maior parte desta glória retorna a São Hilário, porque naturalmente doce e pacífico e ao mesmo tempo muito instruído, e possuindo tudo o que é necessário para persuadir, ele tinha sucesso mais rápido e melhor. Em meio a essas consolações, nosso Santo encontrou dois grandes motivos de tristeza que eram ao mesmo tempo dois grandes obstáculos: Lúcifer de Cagliari, até então seu amigo, e como ele, ilustre defensor da ortodoxia, não se contentou em culpar a doçura de Hilário, de Atanásio, do papa Dâmaso e dos outros bispos que permaneceram fiéis à fé, que perdoavam os bispos que caíram no arianismo, desde que se reerguessem; ele pretendeu que isso era trair a verdade e que não podia permanecer em comunhão com aqueles que comunicavam, dizia ele, com hereges: ele fez um cisma onde o seguiram alguns partidários, e os esforços de São Hilário e de seus colegas não puderam trazê-lo de volta ao seio da Igreja.
O que não afligia menos São Hilário era o triste estado da igreja de Milão: Auxêncio, um dos chefes do arianismo, que havia usurpado o governo, a mantinha sob opressão. Como livrá-la dessa serpente, cujo veneno era tanto mais perigoso quanto ele o escondia? De fato, quando o imperador Valentiniano, que parecia resolv ido a r Auxence Bispo de Milão e partidário do arianismo deposto por Dâmaso. eprimir a turbulência dos arianos, veio fixar-se em Milão, por volta do mês de novembro do ano 364, Auxêncio preveniu-o contra São Hilário e Santo Eusébio, dizendo que eram sediciosos, caluniadores que o acusavam de arianismo, embora ele não ensinasse senão a fé católica. O imperador, que queria estabelecer a paz em sua residência, deixou-se persuadir por Auxêncio, e proibiu por um edito urgente, a qualquer pessoa, de perturbar a Igreja de Milão. São Hilário não pôde sofrer que um imperador católico, sob pretexto de paz e unidade, entregasse uma ilustre igreja a um herege. Ao risco de ser importuno, ele empreendeu desenganar este príncipe por uma petição, onde se oferecia para lhe mostrar que Auxêncio era um blasfemador, que era preciso tê-lo por um dos maiores inimigos de Jesus Cristo, que sua crença não era tal como o príncipe e todos os outros pensavam. Valentiniano, tocado por esta admoestação, ordenou que Hilário e Auxêncio conferissem em comum com cerca de dez outros bispos, na presença do questor e do mestre do palácio. Auxêncio, obrigado a entrar na disputa com seu terrível adversário, recorreu primeiro a diversos expedientes para evitar a questão. Mas pressionado por São Hilário, e vendo o perigo que haveria em se declarar contra a fé de Niceia, ele tomou a decisão de fingir que reconhecia a divindade de Jesus Cristo, a fim de conservar por este meio sua dignidade e as boas graças do imperador. Ele deu até mesmo uma profissão de sua fé escrita em termos equívocos, com os quais preveniu Valentiniano a seu favor. Hilário teve em vão representar que aquele farsante zombava de Deus e dos homens; o imperador, vendo que o bispo de Poitiers perturbava a tranquilidade da qual ele estava bem satisfeito em desfrutar, ordenou-lhe que saísse de Milão. Ele obedeceu, não podendo permanecer naquela cidade contra as ordens do príncipe; como não lhe restava mais nenhum outro meio de combater pela verdade, ele publicou um escrito, endereçado a todos os bispos e a todos os povos católicos, no qual descobre os maus sentimentos e as trapaças de Auxêncio, e conjura os católicos a se separarem de sua comunhão.
Últimos trabalhos e falecimento
Ele conclui seus comentários sobre os Salmos e morre em 368, cercado por seus discípulos, após ter visto sua esposa e filha precedê-lo no céu.
Era tempo de que o santo pastor, assim mantido longe de seu povo pelos interesses da Igreja, lhe fosse finalmente devolvido, para que sua presença o alegrasse, que suas luzes o instruíssem e que seus exemplos o formassem na verdadeira piedade. Além disso, era muito justo que ele mesmo desfrutasse, nos últimos anos de sua vida, da paz que seus trabalhos e suas penas tinham tanto contribuído para proporcionar à Igreja. Deixando, portanto, a Itália por volta do final do ano 364, ele retornou a Poitiers e retomou seu ministério pastoral. Continuou a explicar ao seu povo as Sagradas Escrituras e compôs, nesta ocasião, seus Comentários sobre os Salmos. O método que ele segue é desenvolver igualmente a letra e o espírito, o sentido histórico e o sentido alegórico. Embora, ao trabalhar nesta explicação dos Salmos, ele recorresse à oração para obter a compreensão, e que Deus o atendesse, como ele reconhece com modéstia e ações de graças, isso não o impediu de aproveitar os trabalhos anteriores, especialmente os comentários de Orígenes, que ele soube apropriar-se.
Quanto ao texto dos Salmos, ele seguia a versão latina, mas recorria frequentemente ao grego e, por vezes, até ao hebraico. Esta obra, que atraiu a atenção de São Jerônimo e de Santo Agostinho, e da qual o XXV capítulo do livro da Predestinação, de Hincmar de Reims, é quase exclusivamente composto, não nos chegou na íntegra. Ao desenvolver assim o sentido dos Salmos, ele queria que o canto fosse mais útil e mais agradável; pois ele mesmo nos ensina que era o costume cantar essas odes sagradas, para que os fiéis encontrassem nesses cânticos e nas cerimônias santas os descansos e o prazer que outros buscam nos espetáculos e nas vãs alegrias do mundo; e, em outro lugar, «que o dia, para os católicos que recitam ou cantam Matinas e Vésperas, comece com orações a Deus e termine com hinos a Deus». Ele também fez, tocante à celebração dos mistérios, uma coletânea de hinos e ritos piedosos que ele havia trazido das igrejas do Oriente. Pode-se dizer dele, aplicando-lhe as palavras de São Jerônimo, que «sua mão preparava o alimento da alma, e que seu espírito se alimentava dele pela leitura». Ele mesmo transcrevia os livros sagrados, como vemos pelo testamento de São Perpétuo, bispo de Tours, que deixava em 474, a Eufrônio, bispo de Autun, um livro dos Evangelhos que havia sido escrito outrora por Hilário, bispo de Poitiers.
Todas as ramificações da religião católica se desenvolviam em flores e frutos admiráveis, cultivadas por um homem cuja vida era tão santa quanto seu espírito era distinto. Já o dissemos, Santa Florença de um lado, São Martinho do outro, avançavam a passos largos no caminho da perfeição sob sua condução. São Bento, bispo de Samaria, com o santo sacerdote Vivêncio e quarenta outros discípulos, expulsos da Palestina por uma perseguição, vieram buscar em Poitiers um guia e um consolador. Santo Hilário deu-lhes uma de suas propriedades, situada a uma légua de Poitiers, e chamada pelos historiadores mais antigos de castelo Gravion. Os exilados estabeleceram-se ali; suas grutas e suas celas foram o berço da abadia de Saint-Benoît de Quincey. A fim de rezar mais eficazmente sobre o túmulo de sua esposa e de sua filha, Santo Hilário ergueu ali uma igreja, sob a invocação de São João e São Paulo, que acabavam de colher a palma do martírio na perseguição de Juliano, o Apóstata, e cujas relíquias ele provavelmente trouxera da Itália. Ele oferecia frequentemente, naquele lugar tão santo e tão caro, o divino sacrifício da missa, acompanhado de São Martinho, que o servia ao altar, primeiro como acólito, depois como diácono. Entre os assistentes encontrava-se, sem dúvida, Santa Triáise, mais uma piedosa mulher, que se preparava para o céu sob sua condução, bem perto dali, em uma cela.
Santo Hilário rezava assim, meditava e oferecia Nosso Senhor sobre seu próprio túmulo: pois ele ordenou que seus restos fossem depositados junto aos restos queridos de sua esposa e de sua filha. Tendo chegado o tempo em que esse voto deveria se cumprir, uma revelação advertiu São Materniano, bispo de Reims, que desejava há muito tempo ver nosso santo: ele correu, portanto, a Poitiers e desfrutou da felicidade pela qual suspirava. Quanto aos últimos momentos de Santo Hilário, eis como o Sr. Auber, historiador da diocese de Poitiers, os relata:
«As tradições de nossa Igreja relatam que os habitantes de Poitiers, tendo aprendido, após muitas inquietações sobre o estado de saúde de seu bispo, que finalmente ele logo os deixaria, reuniram-se ao redor de sua casa, situada então perto da catedral já estabelecida no solo que ela ainda ocupa. Esta casa episcopal, que tinham habitado por último a esposa e a filha do santo homem, erguia-se ela mesma sobre o local dado depois ao pequeno edifício paroquial fundado sob o vocábulo de Saint-Hilaire-entre-Église, isto é, entre São Pedro e seu batistério dedicado a São João. Os fiéis congestionavam, portanto, as ruas adjacentes, informando-se com ansiedade dos menores detalhes da doença e lamentando a perda da qual estavam ameaçados. Perto do leito onde o ilustre moribundo esperava a renovação de sua vida, dois de seus discípulos, os sacerdotes São Justo e São Lieno, rezavam ajoelhados e escondiam suas lágrimas dos olhares de seu pai tão justamente amado. Ele, de tempos em tempos, informava-se com eles se as reuniões ainda duravam. À meia-noite, ele soube que todos tinham se retirado, e no instante uma luz deslumbrante envolveu seu leito; os dois discípulos ficaram a princípio como cegados: mas insensivelmente ela tornou-se mais suportável, diminuiu e desapareceu finalmente após meia hora, no instante mesmo em que o Santo entregou sua alma a Deus na paz de seu último suspiro, e antes de ter atingido seu sexagésimo ano».
Culto, relíquias e doutorado
Suas relíquias, salvas das invasões, são honradas em Puy e em Poitiers. Ele foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio IX em 1851.
Foi, como se acredita comumente, em 13 de janeiro do ano 368. Outros situam esta gloriosa morte em 367, mas, neste caso, deve-se dizer que ocorreu no início de novembro. Os milagres que ele operou então foram numerosíssimos: Fortunato, que escreveu um livro sobre eles dois séculos depois, diz que muitos ainda ocorriam em seu tempo, e São Nicécio, bispo de Tréveris, escrevia que seus milagres eram em número tão grande que ele não poderia enumerá-los; Gregório de Tours presta o mesmo testemunho.
O corpo do santo bispo, que Deus honrou com tantos prodígios, foi primeiramente depositado em um túmulo de mármore, entre sua esposa e sua filha, na basílica de São João e São Paulo, fora dos muros de Poitiers. Esta igreja foi inteiramente destruída no século V pelos vândalos e godos; e o santo corpo permaneceu por muito tempo esquecido sob os escombros. Mas, em 507, um globo de fogo, elevando-se das ruínas da igreja onde repousava Santo Hilário, avançou em direção à tenda de Clóvis, acampado a sete léguas dali, e no dia seguinte o rei católico punha fim, nas planícies de Voulon, à dominação dos bárbaros heréticos que haviam derrubado a igreja de Santo Hilário. Algum tempo depois, o mesmo Santo Hilário apareceu a um santo abade chamado Fridolino, que governava o mosteiro estabelecido naquele local. Ele lhe deu a conhecer onde repousava e ordenou-lhe que construísse, com o auxílio do rei da França e do bispo de Poitiers, Adélfio, um novo sepulcro para ali transladar seu corpo; o abade obedeceu, e quando o templo foi concluído, procedeu-se a uma translação solene que não foi, a rigor, senão uma elevação. Apenas mudou-se este corpo de lugar, sem transportá-lo de um edifício para outro. A nova igreja onde se pretendia colocá-lo foi construída sobre o local da antiga. Quando, portanto, abriram a cripta onde repousava o santo corpo, dela saiu uma luz brilhante e o odor mais suave; depois, viram-no levantar-se por si mesmo e, levado sem dúvida pelas mãos invisíveis dos anjos, foi repousar por si mesmo no lugar que lhe era destinado. É assim que o relata expressamente o cardeal Pedro Damião, em um sermão sobre Santo Hilário.
Alguns séculos mais tarde, a cidade de Poitiers, a igreja que levava o nome de Santo Hilário e suas relíquias sofreram muito por parte dos normandos, que se tornaram senhores desta região até três vezes, sob os fracos sucessores de Carlos Magno. A igreja foi até inteiramente queimada. Foi para arrancar as santas relíquias dessas profanações que as transportaram, por volta do século X, para a cidade de Puy-en-Velay, onde foram reencontradas em 1655, após terem permanecido esquecidas por seis ou setecentos anos. A pedido do capítulo de Santo Hilário de Poitiers, Henrique de Maupas du Tours, bispo de Puy, tendo reconhecido a autenticidade dessas relíquias, quis ceder à célebre colegiada de Santo Hilário «o maior osso, inteiro, do braço esquerdo de Santo Hilário, bispo de Poitiers, osso que se chama úmero, e que quase sozinho, entre os outros membros do mesmo santo, escapou da lesão do fogo, com uma parte do crânio do santo, enegrecida pelo fogo e semiqueimada». É este osso do braço esquerdo que a catedral de Santo Hilário de Poitiers ainda possui. Ele está inteiro, exceto por uma pequena parte de uma apófise que foi extraída há alguns anos para ser doada ao soberano Pontífice Pio IX, por ocasião da declaração do doutorado de Santo Hilário. Na mesma urna, venera-se uma relíquia (um rádio) de São Jorge, o apóstolo de Velay, que os cônegos de Puy presentearam ao mesmo tempo à igreja de Santo Hilário de Poitiers. Quanto à parte do crânio mencionada no mesmo auto, ela foi perdida durante a Revolução; mas, em 1823, o Sr. de Bouillé, bispo de Poitiers, obteve de Dom de Bonald, então bispo de Puy e falecido cardeal arcebispo de Lyon, uma nova porção da cabeça do santo Doutor, que é conservada no tesouro da catedral e que permanece exposta todos os anos no santuário, durante toda a Oitava de sua festa. Outras parcelas são honradas em diferentes igrejas da diocese de Poitiers. Deus serviu-se, há apenas alguns anos, de uma dessas relíquias, na igreja de Santo Hilário de Loudun, para curar subitamente uma pobre mulher que era coxa.
Mostra-se em Faye-l'Abbesse, na Vendeia, o mármore de Santo Hilário, cuja conservação durante a Revolução de 1793 é atribuída a um milagre: é o pedaço de mármore contendo relíquias autênticas colocado na cavidade do altar portátil que Santo Hilário usava em suas viagens apostólicas. O mármore de Santo Hilário é ainda hoje objeto de grande veneração: os peregrinos afluem a Faye-l'Abbesse.
O Bocage está cheio da memória do grande bispo: é assim que a via romana entre Poitiers e Ajone ainda é chamada de caminho de Santo Hilário.
Santo Hilário foi muito popular na Idade Média e encontrou lugar na Legenda Áurea.
Um grande número de igrejas são dedicadas sob o nome de Santo Hilário e possuem relíquias suas na Lorena, no Franco-Condado, no Palatinado do Reno, na Alsácia, na Suábia e entre os suíços católicos. Foi São Fridolino quem difundiu esta devoção durante o curso de suas viagens.
Resta-nos dizer que muitos Padres e Concílios proclamaram Santo Hilário um dos maiores doutores da Igreja. Ele era, desde tempos imemoriais, honrado sob este título em várias dioceses, notadamente na de Poitiers. Finalmente, em 1850, por proposta de Dom Pie, digno sucessor de Santo Hilário, o concílio de Bordéus pediu ao soberano Pontífice Pio IX que confirmasse este título para a Igreja universal. Sobre um relatório da Sagrada Congregação dos Ritos, este desejo foi atendido, e desde então a missa e o ofício dos santos Doutores tornaram-se obrigatórios no dia de sua festa «que é marcada neste dia pelo martirológio de São Jerônimo e geralmente por t odos o Pie IX Papa que canonizou Josafá em 1867. s latinos. Santo Hilário tem isto de particular com São Martinho, seu discípulo, que são os dois primeiros Confessores conhecidos cujo ofício público a Igreja celebrou. Vê-se mesmo por um missal muito antigo para o uso da França, escrito após o início do século VI, mas que passou da França para a biblioteca da rainha da Suécia, que se fazia menção a esses dois santos Confessores no cânone da missa, após São Cosme e São Damião.
Herança teológica e iconografia
Representado derrotando serpentes, ele permanece o defensor por excelência da Trindade e da divindade de Cristo.
«São Hilário reunia em sua pessoa todas as excelentes qualidades que fazem os grandes bispos. A uma natureza doce e pacífica, a um dom particular de insinuar-se nos espíritos e de persuadir, ele juntava um santo vigor que serviu de dique às heresias nascentes. Se ele fez admirar sua prudência no governo da Igreja, fez brilhar nela também, quando a ocasião o exigiu, um zelo e uma firmeza apostólicos que nada podia abater».
São Hilário é ordinariamente representado com os atributos de um bispo, esmagando serpentes.
Para tornar de uma maneira sensível o poder de sua eloquência, pintaram-no algumas vezes de pé sobre um montículo que se eleva à medida que ele fala: o pintor supunha que o céu fornecia ao santo Doutor a cátedra que lhe recusavam os arianos.
A Legenda Áurea conta, de fato, a respeito do montículo, que em um Concílio, ninguém querendo lhe dar lugar, ele o sofreu pacificamente e sentou-se no chão dizendo: «A terra é de Nosso Senhor». E então a terra sobre a qual ele estava sentado elevou-se até a altura dos outros bispos.
Sem dúvida, as serpentes que lhe colocam sob os pés ou que se afastam de seu báculo expressam também simbolicamente a serpente da heresia posta em fuga por ele.
Representaram-no ainda com a criança que ele ressuscitou; com sua filha santa Abra, com santa Florença, com santa Triais.
Poder-se-ia convenientemente fazer entrar nas representações de São Hilário o atributo da Trindade que ele tão valentemente defendeu por sua palavra e seus escritos. — Invoca-se São Hilário contra as serpentes.
## ANÁLISE DO II LIVRO CONTRA CONSTÂNCIO POR DOM CEILLIER.
Ele começa assim: «É tempo de falar, já que o tempo de calar passou. Defendamos Jesus Cristo, já que o Anticristo domina, e que os pastores criam, já que os mercenários fugiram. Percamos a vida por nossas ovelhas, porque os ladrões entraram e o leão furioso ronda ao redor. Vamos ao martírio com estes gritos, já que o anjo de Satanás se transformou em um anjo de luz». Ele representa então a aflição que o arianismo causa à Igreja como a maior que houve desde o começo do mundo, e ele encontra na conduta de Constâncio e dos outros protetores desta heresia o cumprimento desta profecia de São Paulo: que virá um tempo em que os homens não poderão mais suportar a sã doutrina; que tendo uma extrema comichão de ouvir o que os lisonjeia, recorrerão a uma multidão de doutores próprios para satisfazer seus desejos, e que, fechando o ouvido à verdade, abri-lo-ão a contos e fábulas. «Mas aguardemos», acrescenta ele, «a execução da promessa daquele que nos disse: «Sereis bem-aventurados quando os homens vos carregarem de injúrias e reprovações, quando vos perseguirem, e que por minha causa disserem falsamente toda sorte de mal contra vós». Comparaisons, pelo nome de Jesus Cristo, diante dos juízes e magistrados, porque aquele será salvo que perseverar até o fim. Sigamos a verdade pelo socorro do Espírito Santo, de medo que o espírito de erro não nos leve a crer na mentira. Morramos com Jesus Cristo, para reinar com ele. Calar-se por mais tempo seria desconfiança e não moderação. É tão perigoso calar-se sempre quanto não se calar nunca». Ele relata então como se separou da comunhão de Saturio, de Ursácio e de Valente, com vários santos prelados das Gálias, concedendo todavia àqueles que haviam entrado no partido dos arianos o perdão de suas faltas, se quisessem corrigir-se, e contanto que esta indulgência fosse autorizada pelo julgamento dos confessores. Ele diz como, sendo obrigado a encontrar-se no Concílio de Béziers, reunido pela facção dos arianos, ofereceu-se para demonstrar claramente que eles estavam no erro; mas que não quiseram escutá-lo. Desde esse tempo, continua ele, tendo sempre sido retido no exílio, comportou-se para com seus adversários com muita moderação, não rejeitando nenhum acordo nem nenhum meio de pacificar as coisas, que fosse honesto e razoável, não escrevendo nada de muito forte contra eles, nem que fosse digno da impiedade dos arianos; acreditando mesmo que se podia sem crime rezar com eles nas igrejas e dar-lhes o cumprimento, sem todavia unir-se a eles pela participação dos mistérios, a fim de fazê-los retornar do Anticristo a Jesus Cristo, e fazê-los obter o perdão de seu erro pela penitência.
«Para mostrar que não escreve por paixão, mas pelo interesse da religião, ele alega o silêncio que guardava desde há tanto tempo que o perseguiam, e testemunha desejar ter tido que defender a verdade sob Nero ou sob Décio, «porque», diz ele, «sendo perseguido por inimigos do nome cristão, os povos fiéis teriam tido isso mesmo uma razão de seguir sua doutrina. Mas nós combatemos contra um perseguidor disfarçado, contra um inimigo que não ousa senão por artifício e lisonja, e que, sem pretexto de honrar Jesus Cristo e de procurar a união da Igreja, destrói a paz e renuncia a Jesus Cristo». Ele declara que se os fatos que ele avança são falsos, quer bem passar por um infame difamador; mas ele não avança nada que não seja verdadeiro, não se deve reprová-lo por passar os limites da liberdade e da modéstia apostólica na maneira como ele repreende desordens sobre as quais se calou por tanto tempo. Ele trata Constâncio de Anticristo, e sustenta que não é nem a temeridade nem a imprudência, mas a fé e a razão que o fazem falar assim; ele alega, para autorizar-se, a maneira como São João falou a Herodes, e um dos sete irmãos Macabeus a Antíoco. Ele o compara a Nero, a Décio e a Maximiano por suas crueldades contra a Igreja e as perseguições que exercia para com os Santos. Então, vindo às más qualidades que ele acreditava serem-lhe particulares: «Vós fingis», diz-lhe ele, «ser cristão, vós que sois um novo Anticristo; vós precedeis o Anticristo, e operais seus mistérios. Vós vos intrometeis em fazer decisões tocando a fé, vós cuja vida é contrária à fé; e ensinais coisas profanas, porque ignorais a piedade. Vós dais bispados àqueles de vosso partido, e os tirais de bons bispos para dá-los a maus. Vós aprisionais os padres; vós colocais vossos exércitos em campanha para lançar o pavor na Igreja. Vós convocais concílios; vós constrangeis os do Ocidente a deixar a fé para abraçar a impiedade. Vós os reunis em uma cidade para espantá-los por vossas ameaças, para enfraquecê-los pela fome, para fazê-los morrer pelo rigor do inverno, para corrompê-los por vossa dissimulação. Vós fomentais as divisões do Oriente por vossos artifícios. Vós empregais em vossos desígnios pessoas que se servem de carícias para ganhar os outros. Vós animeis vossos partidários. Vós lançais o transtorno em coisas que estão estabelecidas há muito tempo, e profanais aquelas que não o estão senão há pouco». Ele diz então que a Igreja sofreu muito menos da parte das perseguições pagãs do que da parte de Constâncio: e a razão que ele dá é que, no tempo deles, a perseguição era aberta, os milagres que Deus operava em favor dos mártires animavam à constância aqueles dos fiéis que deles eram testemunhas; ao passo que a perseguição de Constâncio, não se fazendo senão de uma maneira escondida, não se podia olhar senão como uma tentação. Entre os milagres que ele diz terem acontecido durante as grandes perseguições, pela virtude das relíquias dos mártires, ele relata que os demônios eram atormentados nos corpos que obsediavam, os doentes curados, e que se tinham visto mulheres suspensas no ar pelos pés, sem o socorro de nenhuma máquina, sem contudo que suas vestes lhes caíssem sobre o rosto, de sorte que a modéstia não era em nada ferida.» Continuando suas invectivas contra o imperador, ele o reprova por tirar daqueles que ele perseguia a glória do martírio; por tirar ao Pai eterno a qualidade de Pai, negando que Jesus Cristo fosse seu filho; por adornar o santuário com o ouro do público, por oferecer a Deus os despojos dos templos de ídolos, ou confiscados de criminosos; por saudar os bispos com o beijo pelo qual Jesus Cristo foi traído, por baixar a cabeça para receber sua bênção, e por pisar aos pés sua fé; por recebê-los à mesa como Judas, que dela saiu para trair seu mestre; por ter condenado às minas ministros do Senhor, por ter feito morrer São Paulino, bispo de Tréveris, mudando-o de um lugar para outro e relegando-o a países onde o nome cristão não era conhecido, a fim de que ele não pudesse receber seu alimento dos armazéns públicos, mas que fosse obrigado a mendigar seu preço junto aos montanistas, por ter colocado o transtorno nas Igrejas de Alexandria, de Milão, de Roma, de Toulouse, exilando aqueles que eram seus bispos; por ter feito bater em mães e filhas, e colocado a mão até sobre Jesus Cristo, isto é, como se crê, por ter profanado o mistério de seu corpo e de seu sangue.
«São Hilário vem depois disso ao que se tinha passado no concílio de Selêucia, onde ele mesmo tinha assistido com um grande número de bispos. Ele se levanta contra a fórmula de fé que ali tinha sido redigida, na qual se dizia o Filho semelhante ao Pai, mas não a Deus, ele faz ver a falsidade do princípio de Constâncio, que queria que se rejeitassem absolutamente todos os termos que não se encontram na Escritura. Ele acrescenta que não cabe aos príncipes cristãos prescrever aos bispos o que devem crer. Constâncio, ao arrogar-se esta liberdade, derrubava as regras estabelecidas pelos Apóstolos; ele que não queria que se usasse de termos que não se leem na Escritura, empregava os de imutável e de semelhante ao Pai, que nela não se leem. De resto, embora São Hilário repreenda em Constâncio e nos arianos os termos de semelhante ao Pai, ele reconhece que se pode admiti-los, contanto que antes de todas as coisas se diga também o Filho semelhante a Deus, e que esta semelhança signifique igualdade entre o Pai e o Filho. Ele reprova ao imperador sua leviandade e sua inconstância na fé, que tinha ocasionado tantas fórmulas de fé diferentes, desde a de Niceia. Ele reprova-lhe ainda com firmeza a guerra que ele fazia não somente aos vivos, mas mesmo aos mortos, isto é, aos santos bispos de Niceia cujos sentimentos ele tinha feito condenar sem poupar o grande Constantino, que tinha tido a mesma fé que eles».
A vida de São Hilário encontra-se no Padre Giry; mas ela nos pareceu tão curta, que acreditamos agradar ao leitor refazendo-a a partir de Dom Constant (*Vita sancti Hilarii Pictaviensis episcopi ex ipsius scriptis ac veterum monumentis nunc primum concinnata*) e Dom Cellier (*Hiérarchie générale des Ordres sacrés et ecclésiastiques*). Servimo-nos, para tudo o que era mais particularmente local, das *Vies des Saints de l'église de Poitiers*, pelo abade Auber. Para mais detalhes sobre os escritos de São Hilário, ver Dom Rivet, *Hist. littér. de la France*, t. 267, p. 147.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de Santo Hilário de Poitiers
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Conversão ao cristianismo na idade adulta após o estudo da filosofia
- Eleição como bispo de Poitiers por volta de 353
- Oposição ao arianismo no concílio de Béziers em 356
- Exílio na Frígia pelo imperador Constâncio
- Redação do Tratado sobre a Trindade durante o exílio
- Participação no concílio de Selêucia em 360
- Retorno triunfal a Poitiers em 360
- Luta contra o bispo ariano Auxêncio em Milão em 364
Citações
-
Calar-se quando se deve falar é pusilanimidade e não modéstia.
Livro contra Constâncio -
Episcopus ego sum (Eu sou bispo)
Palavras dirigidas ao imperador