O texto detalha a história, a autenticidade e a dispersão dos instrumentos da Paixão de Jesus Cristo, nomeadamente a Verdadeira Cruz, a Coroa de Espinhos e a Santa Túnica. Baseia-se em pesquisas arqueológicas e históricas para defender a veracidade destas relíquias face às críticas. Os locais de conservação principais incluem Roma, Paris, Tréveris e Jerusalém.
Seus contemporâneos
Figuras e referências situadas em torno do período normalizado desta ficha.
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OS INSTRUMENTOS E AS RELÍQUIAS DA PAIXÃO.
Autenticidade e história da Verdadeira Cruz
Defesa da autenticidade histórica da Verdadeira Cruz através dos testemunhos antigos e sua jornada de Jerusalém a Constantinopla sob Heráclio.
*A verdadeira Cruz.* — O relato da Invenção da verdadeira Cruz foi dado por Eusébio, São Cirilo, Santo Ambrósio, Teófanes, Rufino, Paulus, Nicéforo, Calisto, etc. Não se pode, portanto, objetar nada contra essa autenticidade, pode-se dizer de primeira ordem. Temos o número e a qualidade dos historiadores; eles eram, em sua maioria, contemporâneos. Eles estão perfeitamente de acordo; escreveram em línguas e países diferentes. Dir-se-á que é impossível que a madeira da verdadeira Cruz tenha se conservado por tanto tempo sob a terra e desde tantos séculos após a invenção? Responderemos que se encontra em Herculano e Pompeia madeira antiga muito bem conservada. O Sr. Robault de Fleury, e M. Robault de Fleury Autor do memorial sobre os Instrumentos da Paixão, fonte principal dos dados técnicos. m seu importante memorial sobre os *Instrumentos da Paixão*, p. 53, relata que madeiras, certamente antigas, foram encontradas na construção de Cartago. Um pedaço dessa madeira foi submetido ao exame da Academia, e o Sr. Pelligot, em seu memorial, declarou que pertencia a uma porção de aqueduto antigo onde estava inserida no taipa e, no entanto, de uma conservação perfeita.
Sob o reinado de Heráclio, Cosroes II apoderou-se da cidade santa, saqueou as igrejas e levou o que restava da Cruz de Jesus Cristo. Após dez anos de reveses, Heráclio derrotou o rei da Pérsia, libertou os cristãos levados ao cativeiro e obrigou o sucessor de Cosroes a devolver a verdadeira Cruz, que o imperador levou de volta a Jerusalém c omo o mai Jérusalem Cidade santa onde a Cruz foi perdida e depois recuperada. s belo troféu de suas vitórias. Ele a carregou pessoalmente sobre seus ombros até o Calvário, através das ruas de Jerusalém, com os pés descalços, seguido por seus soldados e por um povo imenso que derramava lágrimas de alegria. Essa foi a origem da festa da Exaltação da Santa Cruz, que a Igreja celebra em 14 de setembro. Pouco tempo depois, a Santa Cruz foi enviada a Constantinopla ao arcebispo Sérgio, e foi levada de volta a Jerusalém.
No ano de 1099, quando os cruzados entraram na cidade santa, um de seus primeiros cuidados foi indagar sobre a madeira sagrada. Os cristãos, confinados na cidade, a haviam escondido dos olhares dos muçulmanos (Cedreno, I. 1º, p. 171); mas não restava dela senão uma pequena parte, pois, segundo a expressão de Alberto de Aix, ela tinha apenas meia onça de comprimento. Seu aspecto inspira os mais vivos transportes entre os peregrinos. «Desta coisa, diz uma velha crônica citada por Michaud, ficaram os cristãos tão alegres como se tivessem visto o corpo de Jesus Cristo pendurado nela».
Pouco depois, vemos os guerreiros cristãos saírem de Jerusalém, tendo à sua frente o patriarca Arnulfo, que carregava a Santa Cruz; foi assim que marcharam contra o califa do Cairo, que avançava em direção a Ascalão. Eles a carregaram depois em um grande número de batalhas. No desastroso dia de Hattin, a Santa Cruz caiu em poder de Saladino. Ela era carregada pelo bispo de Ptolemaid a, que, Saladin Sultão aiúbida que capturou a Verdadeira Cruz na batalha de Hattin. mortalmente ferido, deixou-a para o bispo de Lida. Este foi capturado, assim como o rei e todos aqueles que a defendiam. «A grande Cruz foi tomada», diz Amad-Eddin, autor muçulmano, «a grande Cruz foi tomada antes do rei, e muitos ímpios (cristãos) se deixaram matar ao redor dela. Quando a mantinham erguida, os infiéis dobravam o joelho e inclinavam a cabeça. Eles dizem que é a verdadeira madeira onde foi pregado o Deus que adoram. Eles a tinham enriquecido com ouro fino e pedras brilhantes. Eles a carregavam nos dias de grandes solenidades; e quando seus sacerdotes e bispos a mostravam ao povo, todos se inclinavam com respeito. Eles consideravam como seu primeiro dever defendê-la; a tomada dessa Cruz lhes foi mais dolorosa que o cativeiro de seu rei; nada pôde consolá-los dessa perda. (*Bibliothèque des croisades*, t. IV, p. 195)».
Quando o bispo de Salisbury visitou a cidade santa em nome do rei Ricardo, Saladino mostrou-lhe a madeira da verdadeira Cruz. Os historiadores árabes contam que os francos e os gregos quiseram resgatar a verdadeira Cruz, e que Saladino respondeu-lhes que o rei dos georgianos havia inutilmente oferecido duzentas peças de ouro... (Boad., *de vita Salad.*, c. 164). Ela só foi devolvida aos cristãos trinta e dois anos após a tomada de Damieta. Já vários fragmentos haviam sido destacados dela, e desde esse momento, ela foi dividida ao infinito, de modo que hoje se encontram parcelas dela em todos os países do mundo.
Independentemente do fragmento que está em Roma, do qual já falamos, e do de Constantino, vemos na história da Noruega por Torfeus, que o rei Sigur pediu e obteve, como preço do serviço que prestou aos cruzados no cerco de Sidon, com seus dez mil noruegueses, um pedaço da verdadeira Cruz, que, ao retornar à sua pátria, depositou na cidade de Koughell. Valdemar III, rei da Dinamarca, obteve também um fragmento do Papa Urbano V, com a condição de que marcharia para a libertação dos Lugares Santos.
Dimensões e natureza física da Cruz
Análise técnica da forma, do peso (estimado em 90kg) e da essência da madeira (abeto) da Cruz, comparada à do bom ladrão.
*Forma da cruz, suporte e dimensão.* — O Sr. Robault (página 66) cita uma passagem de São Justino e outra de Santo Agostinho, para provar que a forma da cruz, que prevaleceu na arte católica, é verdadeiramente aquela que estava em uso no momento da morte de Nosso Senhor. Inocêncio confirma esta opinião dizendo: *Fuerunt autem in cruce dominica ligna quatuor : stipes erutus, et lignum transversale troncus suppositus et titulus superpositus.*
A cruz de Jesus Cristo não era, portanto, um simples *tau* T, nem a cruz grega +, nem a cruz de Santo André X, mas a cruz *in missa*, onde a travessa se encontra a cerca de dois terços da altura †.
O autor do memorial que acabamos de citar apoia-se em Plauto, São Justino, São Jerônimo e Gregório de Tours para estabelecer que o crucificado tinha um apoio para os pés, e esta opinião é confirmada pelas pinturas do século VIII, nos subterrâneos de São Clemente. O mesmo autor, após diversas considerações muito judiciosas, seja sobre o que um homem válido pode carregar durante um trajeto de oitocentos a novecentos metros, seja sobre o estado em que se encontrava Nosso Senhor, chegou à conclusão de que a cruz deveria ter cento e setenta e oito milhões de milímetros cúbicos e pesar cerca de noventa quilogramas.
Segundo uma antiga tradição relatada por Gretzer, a Cruz compunha-se de um montante cuja altura era de quinze pés (quatro metros e oitenta centímetros), e de uma travessa de sete ou oito pés (dois metros e trinta centímetros a dois metros e sessenta centímetros). Pela inspeção da cruz do bom ladrão, que ainda está em Santa Cruz de Jerusalém, em Roma, vê-se que este grande pedaço corresponde ao comprimento de uma travessa de dois metros e vinte e cinco centímetros ou cinco côvados. A peça tem cento e cinquenta e cinco milímetros de comprimento, mas a espessura não pôde ser determinada; é provável que este pedaço de madeira fosse quadrado, e que se não o é mais hoje, é porque, para multiplicar esta relíquia, ter-lhe-ão serrado. Este pedaço da cruz do bom ladrão tem precisamente um entalhe no meio com um furo para o pino, o que confirma que este instrumento era uma cruz *in missa*, isto é, que a haste perpendicular ultrapassava a forma do tau.
O Sr. Robault, após o exame da essência da madeira da verdadeira Cruz, estabeleceu que é uma essência resinosa. Após o exame da cruz do bom ladrão, Dimas, não pode restar dúvida; como este pedaço é mais considerável, a verificação foi mais fácil. É evidente que esta madeira é uma espécie de abeto; mesmo antes de qualquer exame, deveria parecer provável que a cruz de Nosso Senhor e a dos dois ladrões, tendo sido preparadas no mesmo dia e para o mesmo fim, deveriam ser da mesma essência.
Segundo uma tradição recordada pela tábua que se encontra no claustro de São João de Latrão, Jesus Cristo era de estatura muito alta (um metro e oitenta e quatro centímetros). Simão Cirineu deveria ser mais baixo, e São Lucas é rigorosamente exato quando o coloca atrás de Jesus Cristo, *post Jesum*; a inclinação da madeira sagrada colocando-a à altura do seu ombro. A liturgia romana segue, portanto, a tradição e a razão mais severa, ao admitir que o peso era partilhado entre Jesus Cristo e Simão.
Cálculo do volume e dispersão mundial
Estudo estatístico de Robault de Fleury demonstrando que o volume total dos fragmentos conhecidos é bem inferior ao volume original da Cruz, refutando as críticas de Calvino.
*Pesquisas das relíquias.* — Citamos na íntegra o § V do Sr. Robault:
«Tentei constatar tudo o que se conhece de relíquias existentes, ou das quais se conservou a memória. Calculei o seu volume em milímetros cúbicos. Ora, tudo o que pude recolher está muito longe de igualar a décima parte do volume da verdadeira Cruz. Os nove décimos, que não se encontram mais, devem ter sido suficientes para formar miríades de relíquias desconhecidas ou destruídas».
Anseau, por sua correspondência com Galon, bispo de Paris, de quem falarei novamente por ocasião das relíquias de Notre-Dame de Paris, dá alguma ideia do que tinham se tornado, no século VII, as relíquias da Paixão. Ele conta que, após a morte de Heráclio, em 636, a igreja do Santo Sepulcro foi queimada em parte pelos infiéis, e que, para salvar a cruz, os cristãos decidiram dividi-la em dezenove partes, das quais fizeram cruzes que deram, a saber:
Em Constantinopla, 3; na ilha de Chipre, 2; na ilha de Creta, 1; em Antioquia, 3; em Edessa, 1; em Alexandria, 1; em Ascalão, 1; em Damasco, 1; em Jerusalém, 4; na Geórgia, 2.
É bastante difícil saber qual era a dimensão dessas relíquias. Anseau menciona apenas a medida de uma das quatro que tinham sido depositadas em Jerusalém e que se conservavam na igreja do Santo Sepulcro. Ela tinha uma palma e meia de comprimento por uma polegada de largura e a mesma espessura; ele não fala da travessa que suporei, como na verdadeira Cruz, igual à metade do montante. Com base nisso, o volume desta Cruz seria de cerca de quinhentos mil milímetros cúbicos; e, considerando-a como uma média, encontrar-se-ia para as dezenove cruzes, ou melhor, para o pedaço de Jerusalém, que se dividiu, nove milhões e meio de milímetros, podendo representar um pedaço duas ou três vezes menor que a relíquia da cruz do bom ladrão de Santa Cruz de Jerusalém.
Tal foi o começo da grande dispersão das relíquias da verdadeira Cruz; ela aumentou rapidamente nos séculos seguintes. Villani relata um documento muito curioso, no início do século IX, indicando as cidades onde se deveria encontrar o maior número de relíquias. É um testamento de Carlos Magno, que deixou ao morrer um terço do seu rico tesouro a todos os pobres da cristandade, e os do is terços a Charlemagne Imperador dos Francos e tio de São Folquino. os arcebispos e bispos do seu império. Nesses tesouros encontravam-se, sem dúvida, uma grande quantidade de relíquias. Eis algumas datas que interessam à história das relíquias da verdadeira Cruz.
Em 1187, no dia de Tiberíades, os muçulmanos vencedores tomaram a cruz de São João de Acre, carregada pelo bispo. (Morand, *Histoire de la sainte chapelle*, p. 9. Paris, 1790). Em 1191, Filipe Augusto e Ricardo, tendo se cruzado, fizeram com que lhes entregassem esta cruz após a tomada de São João de Acre, e trinta dias de cerco. Em 1204, no saque de Constantinopla pelos latinos, abominações foram cometidas, os relicários roubados; mas almas piedosas recolheram as relíquias que os apóstatas desdenhavam, e de lá as espalharam pelo mundo. O doge de Veneza, Dandolo, teve uma porção da verdadeira Cruz, que se dizia ter sido carregada por Constantino na guerra. O imperador Balduíno tomou a coroa de espinhos. Em 1217, Raul, patriarca de Jerusalém, partiu de Acre, carregando consigo uma porção da verdadeira Cruz. Em 1239, Balduíno II, pressionado pelos búlgaros, veio à França solicitar a piedade de São Luís, e ofereceu-lhe a coroa de espinhos como preço de seus serviços.
Os séculos vieram sucessivamente reduzir o nosso precioso tesouro, dissipado ao vento das revoluções e ao sopro da impiedade. Resta bem pouco, e essa indigência, tornando cada uma dessas relíquias mais preciosa, tomei a liberdade de fazer um apelo ao mundo católico, e as informações que recebi permitiram-me descrever aquelas que ainda existem, e formar um quadro que se encontrará a seguir.
Resulta deste quadro que o volume total das relíquias que nos chegaram é de cerca de cinco milhões de milímetros, incluindo relíquias talvez destruídas, como as de Amiens, Donauwörth, Schira, Grammont, Jaucourt, etc.; mas levantadas com base em descrições que me pareceram exatas. Se pensarmos na pequenez das parcelas que podem se encontrar em igrejas e conventos, e com particulares, estaremos bem além da verdade. Triplicando, para o desconhecido, o volume conhecido, chega-se assim a quinze milhões de milímetros cúbicos, que não perfazem a décima parte dos cento e oitenta milhões de milímetros que encontramos para o volume da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Quadro dos volumes conhecidos da verdadeira Cruz expressos em cubos de um milímetro.
| Aix-la-Chapelle | 150 | Laon | » » | | --- | --- | --- | --- | | Amiens | 4.500 | Libourne | 3.000 | | Angers | 2.640 | Lille | 15.112 | | Inglaterra | 30.516 | Limburgo | 133.768 | | Arles | 8.000 | Longpont | 1.136 | | Arras | 10.314 | Lorris | » » | | Athes (Moul-) | 878.360 | Lyon | 1.696 | | Autun | 50 | Mâcon | 2.000 | | Avignon | 220 | Maestricht | 10.000 | | Baugé | 104.000 | Marselha | 150 | | Bernay | 375 | Milão | 1.920 | | Besançon | 1.000 | Montepulciano | 500 | | Bolonha | 15.000 | Nápoles | 10.000 | | Bonifacio | 47.960 | Nevers | 876 | | Bordeaux | 3.420 | Nuremberg | » » | | Bourbon Larchambault | 20.275 | Pádua | 64 | | Bourges | 22.275 | Paris | 237.731 | | Bruxelas | 516.090 | Pisa | 8.175 | | Chalinargues | » » | Poitiers | 870 | | Châlons | 200 | Pontigny | 12.000 | | Chamirey | 605 | Ragusa | 169.324 | | Châtillon | » » | Riel-les-Eaux | 671 | | Cheffes (Anjou) | 100 | Roma | 537.587 | | Chelles | » » | Royaumont | » » | | Compiègne | 1.696 | Saint-Bié | 99 | | Conques | 108 | Saint-Florent | 460 | | Cortona | 3.000 | Saint-Quentin | 5.000 | | Courtrai | 200 | Santo Sepulcro | 200 | | Dijon | 33.091 | Sens | 69.545 | | Donauwörth | 12.000 | Siena | 1.680 | | Faphine | » » | Tournay | 2.000 | | Fiume | 5.250 | Tréveris | 18.000 | | Florença | 37.640 | Troyes | 201 | | Gand | 436.450 | Turim | 6.500 | | Gênova | 26.438 | Veneza | 445.582 | | Grammont | 5.000 | Venloo | » » | | Jaucourt | 3.500 | Valcourt | 2.000 | | Jerusalém | 5.045 | Vambach | » » | | Langres | 200 | TOTAL | 3.941.957 |
Diante desses fatos e das observações que precedem, pergunta-se como Calvino pôde dizer que cinquenta homens não carregariam a madeira da verdadeira Cruz, que a credulidade do católico adora por todo o universo; e Lutero, que com as relíquias da verdadeira Cruz, admitidas pela Calvin Reformador citado como opositor à titulação real de Maria. mesma superstição, far-se-ia a estrutura de um imenso edifício. Quando, de fato, não resta no mundo a décima parte de uma única cruz, o que pensar dos milhões de dissidentes a quem se deixa acreditar nessas singulares exagerações, o que pensar da alta crítica dos nossos célebres pensadores que compartilham esses preconceitos e nos reprovam a leviandade da nossa crença? Eis as humilhações que se prepara quando se pretende encontrar Jesus Cristo em falta. Quanto a nós, após este estudo, apresentamos a história da Cruz de Jesus Cristo como um testemunho irrecusável da sua paixão.
Os Santos Cravos e o Título da Cruz
Exame dos quatro cravos da Paixão e do Titulus Crucis conservado em Roma, incluindo uma análise linguística das inscrições hebraicas, gregas e latinas.
*Os santos cravos.* — A primeira questão que se apresenta é a do número de cravos. O Sr. Robault de Fleury cita mais de vinte autores e diferentes monumentos para provar que Jesus Cristo foi pregado na cruz com quatro cravos, e isso tanto por testemunhos profanos quanto pelo dos santos Padres e dos arqueólogos das catacumbas. (V. p. 166.) Os médicos consultados sobre o assunto dizem que a crucificação dos dois pés por um único cravo dificilmente seria praticável. Os cravos deviam ser muito grandes, para que Nosso Senhor convidasse São Tomé a colocar seu dedo neles. Ora, os cravos da Paixão conservados respondem a essas condições.
Ao retirar Nosso Senhor, os cravos devem ter sido arrancados antes da deposição, pois a cabeça dos cravos não poderia ter passado através da carne. Os cravos foram certamente jogados ao chão à medida que a deposição avançava, assim como a coroa e o título. Ora, tudo o que vinha de Nosso Senhor era tão precioso que aqueles que o depositaram devem ter recolhido essas relíquias fáceis de transportar, às quais juntaram mais tarde os santos lençóis e os inúmeros panos que devem ter servido para o sepultamento da vítima divina. Pode-se, neste ponto, confiar no zelo atento e tão amoroso da augusta Mãe de Deus e das santas mulheres. São esses os objetos que Santa Helena recolheu, seja junto às piedo sas fiéis, qu sainte Hélène Mãe do imperador Constantino, que foi rezar no túmulo do santo. e os haviam recebido de seus pais, seja no sepulcro.
Calvino conta quatorze ou quinze santos cravos, que ele pretende que os católicos reconheçam como verdadeiros; mas ele nomeia vários dos quais nunca se tinha ouvido falar antes dele; tais são: o da igreja de Santa Helena em Roma (esta igreja é a mesma que a da Santa Cruz); os de Siena, de Veneza, das Carmelitas de Paris, da Sainte-Chapelle, de Draguignan, do vilarejo de Ténaille (este vilarejo é imaginário).
O verdadeiro cravo que está em Roma, na igreja da Santa Cruz, foi limado e não tem mais ponta hoje em dia. Enclausurou-se essa limalha em outros cravos feitos da mesma maneira que o verdadeiro e, por esse meio, multiplicou-se de certa forma. Encontrou-se ainda outro meio de multiplicá-lo: foi fazendo com que cravos semelhantes tocassem nele, os quais eram distribuídos em seguida. São Carlos Borromeu, prelado muito esclarecido e da mais escrupulosa exatidão em matéria de relíquias, tinha vários cravos feitos como aquele que se guarda em Milão, e os distribuía depois de terem tocado nele. Ele deu um ao rei Filipe II, como uma relíquia preciosa. Há vestígios de uma devoção semelhante em séculos muito distantes do nosso. São Gregório Magno e outros antigos Papas davam como relíquia um pouco de limalha das correntes de São Pedro; colocavam-na também em outras correntes feitas da mesma maneira. Lê-se no Pe. Honoré de Sainte-Marie um fato que confirma ainda o que acabamos de dizer. Trata-se de um milagre autêntico operado por meio de um coração de tafetá feito à semelhança do coração de Santa Teresa. O autor citado não era homem de acreditar em tudo indiferentemente; ele ocupa um lugar distinto entre os críticos mais judiciosos.
Voltemos aos verdadeiros cravos que Santa Helena havia encontrado com a cruz do Salvador. Esta piedosa princesa, estando em perigo de perecer no mar Adriático, agitado por uma v iolenta tempe sainte Hélène Mãe do imperador Constantino, que foi rezar no túmulo do santo. stade, lançou nele um dos cravos, que acalmou as ondas imediatamente, Gregor. Turon., l. 1, glor. mart. c. 6. Lê-se em Santo Ambrósio, *de obst. Theod.*, n. 47, e em outros autores, que Constantino, o Grande, colocou um no rico diadema que usava nos dias mais solenes, e outro em uma brida magnífica de seu cavalo, considerando-o como um baluarte seguro nos perigos da guerra. Havia, segundo o relato de São Gregório de Tours, *loc. cit.*, dois cravos na brida do cavalo do imperador. A igreja metropolitana de Paris possui dois pedaços desses cravos, um proveniente do tesouro da abadia de Saint-Denis e o outro da abadia de Saint-Germain-des-Prés. No momento em que o primeiro lhe era devolvido, o Monsenhor de Quebec, arcebispo de Paris, notou um pequeno pedaço de madeira que estava aderente. Ao examinar essa madeira com uma lupa, reconheceu-se que era da mesma natureza que a do grande pedaço da verdadeira Cruz, do qual acabamos de falar e que está agora na igreja de Notre-Dame.
O Sr. Robault, em sua conclusão, assegura-nos que a história não perdeu de vista essas relíquias. O círculo de ferro de Monza, onde havia parte do verdadeiro cravo, o cravo de Tréveris completado pelo de Toul, parecem-lhe de uma autenticidade incontestável. (V. p. 151.)
*O título da Cruz.* — Com a verdadeira Cruz, o título da Cruz é uma das relíquias mais incontestáveis da Paixão de Jesus Cristo. Este título nos foi conservado, pelo menos em parte notável; e é uma grande felicidade para os cristãos poder ainda ler essa inscrição, que é como o selo de nossa história sagrada, diz o Sr. Robault de Fleury.
Lê-se em Niquet (cap. 24, p. 152), citado pelo memorial onde bebemos tão felizmente, que a opinião geral é que Santa Helena havia enviado este título, com as outras relíquias da Paixão, a Roma, com uma quantidade suficiente de terra retirada do Calvário para cobrir o local onde hoje está a Santa Cruz de Jerusalém em Roma, e que é daí que esta igreja tirou seu nome.
Um séc Rome Cidade natal de Maximiano. ulo depois, Placidius Valentinianus III, filho de Constâncio-César, sobrinho dos imperadores Arcádio e Honório, por sua irmã Gala Placídia, filha do grande Teodósio, adornou com mosaicos o lugar onde Santa Helena o havia colocado. Felizmente, ele tinha sido colocado sob o topo do arco desta igreja, onde permaneceu durante a invasão dos bárbaros sem atrair seu olhar; e mesmo após essa tempestade, e durante vários séculos de tormenta, perdeu-se de vista. Mas em 1492, o cardeal da Santa Cruz, mandando reparar este edifício, os operários descobriram o rico tesouro: foi uma alegria universal, e vieram vê-lo durante três dias. Há duas coisas nesta insigne relíquia, o invólucro e a relíquia em si. O invólucro é um quadrado de tijolo de terracota de trezentos e vinte milímetros por duzentos e dez milímetros, maior que o título e podendo, portanto, esconder bem o nicho onde foi encerrada, durante mil anos, a caixa de chumbo que o continha. Sobre este tijolo leem-se estas palavras gravadas com cinzel: *Titulus crucis*; as letras antigas de cinquenta milímetros de altura são de uma bela época.
É preciso notar que se possui em Roma apenas um fragmento do título que representa o centro da inscrição em três tipos de caracteres, indo todos da direita para a esquerda: a linha inferior deixa ler distintamente em latim: NAZARINVS RE. A segunda linha em grego: ΝΑΖΑΡΕΝΟΥΣ; enfim, a linha superior deixa perceber apenas a extremidade inferior das letras da linha sobreposta, que acusam letras hebraicas, que não se pode mais ler. É preciso agora responder a dificuldades que foram levantadas e que reclamam sérias explicações.
O padre Durand, que viveu pouco tempo depois de São Luís, diz que viu em Paris uma tábua contendo a inscrição inteira: *Jesus nazarenus Rex Judæorum*. (Rationale, div. aff., l. VI, p. 354.) O monge Antonino, viajando a Jerusalém antes da invasão dos bárbaros, diz também ter segurado em suas mãos, na igreja do Santo Sepulcro, o título da Cruz.
O Sr. Robault de Fleury responde com uma explicação que me parece aplainar essas dificuldades. É que Santa Helena tratou o título como havia feito com a Cruz; ela o dividiu em vários pedaços, cujo centro foi oferecido a Roma, e as duas extremidades tiveram outro destino. Uma das extremidades permaneceu em Jerusalém, a outra veio a Paris. E pode-se acrescentar que, para ajudar na leitura deste título, ter-se-á acrescentado um pedaço de madeira em harmonia com o pedaço restante do verdadeiro título, e assim ter-se-á podido dizer que se tinha lido o título inteiro. Quanto ao pedaço de Roma, ele permaneceu em seu estado incompleto, tal como estava em seu primeiro estado de divisão, e a leitura do título inteiro encontra-se apenas em uma placa separada, de terracota, e essas letras são necessariamente antigas, e não pertencem à Idade Média.
Esta porção do título da verdadeira inscrição que se vê em Roma traz consigo um selo de sua antiguidade; e tudo o que a acompanha nos diz que é uma porção do título que foi colocado sobre a cruz de Jesus Cristo. E digamos com o Sr. Robault de Fleury: "Portanto, possuímos, em sua integridade primitiva, a relíquia dada a Roma por Santa Helena. As objeções de detalhe às quais vamos responder com o mesmo autor aumentam, em vez de diminuir, a medida de autenticidade e de veracidade, pois mostram as dificuldades invencíveis que um falsificador teria tido que superar".
Disse-se: "Nessa época não se colocava ainda 'para' em grego, nem a terminação '...' para '...'"; ora, *Gretzer e Montfaucon mostraram vários exemplos disso.* (Ver Mém., p. 193). Objetou-se que não se encontrava mais escrita *Bustrofédon* na língua grega e romana, isto é, de caracteres indo da direita para a esquerda, e eis que em Pausânias e em várias inscrições da Itália, encontram-se exemplos. Quem ousaria dizer que um falsificador teria tido a ideia de se conformar a essas exceções? Ele teria se guardado de dar a si mesmo essa aparência de inverossimilhança. Vê-se por aí que o escritor do título foi levado naturalmente a seguir esse modo excepcional para as duas últimas linhas, porque, tendo começado por escrever o hebraico, colocou as duas últimas linhas em harmonia com a primeira, porque esse sistema não era desconhecido. Chamo a isso pegar a sinceridade no flagrante.
Há, do ponto de vista da gramática, diversas anomalias, nesta escrita, que nos conduzem igualmente a concluir que este título é obra de um soldado romano, que quis, por exemplo, fazer pronunciar o *la* latino, ou em grego, em *Nazarenous*. De qualquer lado, portanto, que se contemple este título, é um título certo e uma testemunha irrecusável da Paixão de Jesus Cristo.
A Coroa de Espinhos e São Luís
História da aquisição da Coroa de Espinhos por São Luís junto a Balduíno II e sua conservação na Sainte-Chapelle e, posteriormente, na Catedral de Notre-Dame de Paris.
*A coroa de espinhos.* — Esta insigne relíquia, talvez a mais notável entre as que possuem os cristãos, devido à sua integridade relativa, provém sem dúvida de São Luís e é conserva da no tesou saint Louis Rei da França de quem Thomas Hélye foi capelão. ro da catedral de Paris; aqui, vamos apenas abreviar um pouco o Sr. Robault de Fleury. (P. 293.)
Como as outras relíquias da paixão, ela permaneceu oculta durante os três primeiros séculos sob os imperadores pagãos, aos olhos dos quais se escondia tudo o que era santo para os cristãos. Em 409, São Paulino, bispo de Nola, admitia sua existência como um fato notório; São Gregório de Tours parece ser o primeiro a ter falado explicitamente sobre ela; o *patriarca de Jerusalém*, por volta do ano 800, enviou a Carlos Magno um cravo, espinhos e um pedaço considerável da Cruz. Carlos, o Calvo, doou essas relíquias à abadia de Saint-Denis. Uma inscrição do século XII, colocada sobre seu túmulo, recorda essa doação.
No tempo da primeira cruzada, para incentivar os latinos a tomarem Constantinopla, Aleixo Comneno escreveu, em 1100, a Roberto, conde de Flandres, que se conservavam muitas relíquias insignes em Constantinopla; eis as relíquias às quais ele fazia alusão:
* A coluna à qual Nosso Senhor foi atado; o chicote com o qual foi flagelado; a túnica de púrpura com a qual foi revestido; a coroa de espinhos; o caniço que lhe deram como cetro; as vestes das quais foi despido; uma parte considerável de sua cruz; os cravos que serviram para sua crucificação; os lençóis encontrados em seu túmulo.
Em 1228, o imperador de Constantinopla, Balduíno II, havia tomado emprestado dos venezianos uma soma de 13.075 hipérperos, correspondente a 156.900 libras de nossa moeda. Não podendo quitar a dívida, dirigiu-se ao rei da França, que pagou o valor e tornou-se possuidor das relíquias que o imperador havia consignado como garantia nas mãos de seus credores (1239).
Alguns anos depois, tendo São Luís recebido do imperador Balduíno uma porção considerável da ve rdadeira Cr saint Louis Rei da França de quem Thomas Hélye foi capelão. uz com outras relíquias, mandou construir, no local da antiga capela do Palácio, aquela que vemos hoje. Este edifício, iniciado por volta de 1244 e terminado em 1248, custou ao piedoso monarca cerca de 40.000 libras de seu tempo, avaliadas comumente em 800.000 libras de nossa moeda.
Foi na mesma época que, por uma singular coincidência, os pisanos consagraram um relicário do mesmo gênero a outra porção da santa coroa de espinhos. E a *Santa Maria della Spina* de Pisa é, como a Sainte-Chapelle de Paris, uma maravilha da arquitetura; é lá que foram conservadas duas partes da coroa, suficientes para nos fazer conhecer bem esse horrível instrumento de suplício de Nosso Senhor, e por outra coincidência, que marca bem a instabilidade das coisas humanas, nem uma nem outra urna de mármore ou pedra guardou até o presente sua relíquia; mas essas duas relíquias estão inteiras, e as urnas restauradas poderiam ainda recebê-las. (Robault, p. 204.)
A urna de Notre-Dame de Paris recorda a memorável história da relíquia com a qual São Luís havia enriquecido a filha mais velha da Igreja. Lê-se na primeir a fac Paris Local de nascimento, ministério e morte do santo. e: «A santa coroa de Jesus Cristo, conquistada por Balduíno na tomada de Constantinopla, em 1204, empenhada aos venezianos em 1228, foi recebida com grande piedade por São Luís em Villeneuve, perto de Sens, em 10 de agosto de 1239». Na segunda face: «Transferida da Sainte-Chapelle para a abadia de Saint-Denis, na França, por ordem de Luís XVI, em 1791, trazida de volta a Paris em 1793, despida na Casa da Moeda e levada à Biblioteca Nacional em 1794, foi finalmente restituída à igreja de Notre-Dame, por ordem do governo, em 26 de outubro de 1804». Na terceira face: «Reconhecida em 5 de outubro de 1805 por P. Dienaz e Ch.-N. Warin-Flot, vigário-geral de Coutances, encarregado em 1791 de retirar uma parcela para Port-Royal, foi transportada solenemente para a igreja de Notre-Dame, por J.-B., cardeal de Belloy, arcebispo de Paris, em 10 de agosto de 1806». Ela está encerrada em um anel de cristal unido por bronze dourado e fios de seda vermelha.
A coroa em si compõe-se de pequenos juncos reunidos em feixes. O diâmetro interno do anel é de duzentos e dez milímetros; a seção tem quinze milímetros de diâmetro; os juncos são unidos por quinze ou dezesseis amarras de juncos semelhantes. Um fio de ouro corre no meio das amarras para consolidar esses piedosos restos. O diâmetro dos juncos, que são muito finos, varia de um milímetro a um milímetro e meio; alguns estão dobrados e mostram que a planta é oca; sua superfície, examinada à lupa, é sulcada por pequenas nervuras.
Eis agora uma reflexão muito judiciosa do Sr. Robault de Fleury. Independentemente da autenticidade que a história assegura à relíquia de Notre-Dame, a espécie de inverossimilhança que a envolve à primeira vista, e que cessa logo após um exame atento, prova que ela era verdadeiramente a coroa de Nosso Senhor. Se tivessem querido compor uma coroa de acordo com a ideia muito natural que se deveria ter dela, e que as pinturas seguiram sem reflexão, não teriam simulado um anel de juncos em vez de espinhos, e não a teriam feito, aliás, grande demais para a cabeça.
Para bem compreender o valor desse selo de autenticidade, é preciso que o leitor saiba que, de acordo com as observações cientificamente especiais do Sr. Robault, está constatado que a santa coroa de Paris não é uma coroa de espinhos, mas um círculo de junco, *Juncus balticus*, originário de países quentes, e este círculo, largo demais para ser adaptado sozinho à cabeça de Nosso Senhor, serviu na paixão apenas como suporte para adicionar e sobrepor uma coroa cheia de espinhos que cobria toda a cabeça e se prendia a esse círculo. Os espinhos eram uma espécie de *rhamnus*.
Após essa feliz descoberta, compreende-se o uso exato da coroa de Notre-Dame; por que ela é de natureza diferente dos outros ramos de espinhos que são conservados em diversas igrejas e que foram a coroa propriamente dita, e o verdadeiro instrumento do suplício; não se fica mais espantado ao ver uma coroa aparentemente inteira em Paris e, além disso, diversos pequenos ramos e espinhos isolados e destacados em cento e três cidades da cristandade; mas a parte mais notável encontra-se em Pisa, em Tréveris e em Bruges. As de Tréveris, vindas de Santa Helena, têm um grande caráter de autenticidade e assemelham-se perfeitamente às de Pisa.
Acrescento que fiquei muito impressionado ao ler o versículo 14 do capítulo IX do livro dos Juízes, que diz: *Dixerunt omnia ligna ad rhamnum: Veni, et impera super nos*. É possível não ver aí o papel que esse arbusto deveria desempenhar na grande cena do Calvário? O *rhamnus* torna-se o sinal e a ilustração da realeza de Jesus Cristo; e essa realeza, o *rhamnus* a escreveu com um sangue divino.
As Santas Túnicas de Tréveris e de Argenteuil
Distinção entre a túnica longa de Tréveris e a túnica sem costura de Argenteuil, ambas identificadas como vestes autênticas de Cristo.
*As santas túnicas de Tréveris e de Argenteuil.* — Cheguemos agora às vestes do Salvador. Fala-se, no relato da paixão, de sua túnica sorteada, e isso foi o cumprimento de uma profecia. Ora, esta túnica, nós a possuímos ainda como uma prova; possuímos com ela várias outras vestes que tiveram a honra de cobrir a santa humanidade de Jesus Cristo.
Jesus Cristo devia ter, segundo o costume dos judeus, uma túnica, espécie de camisa sem costura, uma veste por cima, semelhante à batina dos eclesiásticos, e finalmente um manto, veste exterior que se tirava facilmente e não se conservava no interior dos aposentos. Considera-se como certo que Jesus Cristo, em sua paixão, não havia conservado senão uma de suas vestes habituais, e em duas circunstâncias ele foi revestido com vestes de escárnio, a veste branca diante de Herodes, e a veste de escarlate diante de Pilatos e do povo judeu.
As cidades de Tréveris e de Argenteuil possuíam cada uma uma túnica que se diz ter pertencid o a No Trèves Cidade natal do santo. sso Senhor, e cada uma acreditava outrora possuir a túnica sem costura; o que colocava nos espíritos uma confusão lamentável. Mas estudos recentes demonstraram que ambas podem ser verdadeiras. É certo que a túnica longa, conservada e honrada em Tréveris, é diferente da de Argenteuil. É a primeira que chegou primeiro à Europa, porque foi a própria Santa Helena quem a enviou a Evagrius, bispo de Tréveris.
Não se deve ficar surpreso que a cidade de Tréveris não possa mostrar documentos escritos que atestem a autenticidade senão a partir do século XIII. Quem não conhece as desgraças desta cidade durante a invasão dos Bárbaros, particularmente no século V? Cem vezes a posse desta cidade foi disputada entre os gauleses, os francos, os suevos, etc., e sempre ela foi vítima tanto por parte dos vencidos quanto dos vencedores. Como buscar monumentos escritos sob esses escombros? Mas as tradições cresceram, e todas, diz o Sr. Robault, estão de acordo sobre a autenticidade das relíquias.
Contudo, a igreja de Tréveris tem um monumento escrito: é um díptico em marfim, obra romana da decadência, que representa a introdução das relíquias de Tréveris nesta cidade e sua recepção por Santa Helena. Em 1196, o arcebispo João, fazendo obras na catedral, encontrou a caixa que continha a santa túnica. A partir desse momento até 1512, ela permaneceu sob o altar-mor sem ser exposta; e após muitas vicissitudes, de 1512 a 1810, ela retornou a Tréveris, de onde havia sido afastada durante um século. A caixa contendo a santa túnica foi depositada na câmara das relíquias e aberta.
A alta antiguidade da veste é evidente. A santa túnica é mais escura por dentro do que por fora, esbranquiçada em alguns lugares, acinzentada no restante. Acreditou-se não encontrar nela nenhuma espécie de costura; mas o dorso havia sido coberto com gaze, porque o tecido se desfazia em muitos lugares, e os fios pendiam. Os fios são tão finos que mal se distinguem a olho nu. O material parece ser filamentos de urtiga. Comprimento, um metro e cinquenta e cinco centímetros; manga, setenta e três centímetros; largura, na parte inferior, um metro e dezesseis centímetros. Quando esta relíquia foi exposta em 1810, mais de duzentos mil peregrinos afluíram até ela.
Os títulos de autenticidade da túnica de Argenteuil estão perfeitamente estabelecidos e distribuídos de século em século, de maneira que não se perde de vista desde Gregório de Tours, que faz o histórico desde a origem. Ele diz que e Argenteuil Local de conservação da Santa Túnica sem costura. sta túnica, comprada pelos fiéis, foi levada a uma cidade da Galácia, província da Ásia Menor, a cento e cinquenta milhas de Constantinopla. A relíquia era conservada ali em uma basílica consagrada aos santos arcanjos, e em um cofre secreto, em uma caixa de madeira; de lá ela foi transportada para Jafa para estar a salvo dos ataques do rei da Pérsia, marchando sobre a Armênia e a Ásia Menor, em 590, onde ele destruía todas as igrejas. No ano 594, esta túnica foi solenemente transportada para Jerusalém por três patriarcas, Gregório de Antioquia, Tomás de Jerusalém e João de Constantinopla, e uma multidão de povo. (Gretzer, l. IV, c. 97.) Vinte anos depois, Cosroes a tomou e a levou para a Pérsia. Heráclio a retomou em 627, e a transportou para Constantinopla, depois para Jerusalém, para levá-la finalmente a Constantinopla, onde estava mais segura. A imperatriz Irene, enviando ricos presentes a Carlos Magno, incluiu neles a túnica sem costura de Nosso Senhor. Carlos Magno tinha uma irmã chamada Gisela, que habitava há algum tempo um mosteiro em Argenteuil, perto de Paris, e dependente de Saint-Denis. Teodrada, filha de Carlos Magno, consagrou-se a Deus no mesmo mosteiro, e o imperador pediu que ela fosse abadessa. Como ele amava muito esta princesa, ele fez, em seu favor, a trasladação solene para esta abadia da preciosa relíquia, em 13 de agosto de 800.
O pároco de Argenteuil teve a infeliz ideia de dividir a santa túnica em várias partes para melhor subtraí-la às profanações, de modo que hoje é difícil restituí-la à sua primeira forma. Mas as antigas descrições estão lá para nos dizer o que ela era, isto é, a mesma forma que a de Tréveris, apenas um pouco mais curta. Segundo o Sr. Davin, o tecido é de pelo de camelo bastante frouxo, e parece um cânhamo cujos fios seriam muito torcidos. Os fios são distribuídos a dois milímetros para três fios. Ela é feita à agulha, tecida de cima para baixo em toda a sua extensão, no mais simples dos teares, tal como uma tábua recebendo nas duas faces a urdidura e a trama. Os braços não eram cobertos senão até a metade, e a veste podia descer até a parte inferior do joelho.
Parece demonstrado, diz o Sr. Robault, que Tréveris possui a túnica longa de cima, tecida em linho fino, ornamentada com desenhos, etc., e Argenteuil, a túnica mais curta, sem costura, grosseiramente tecida de um só fio em pelo de camelo. Ambas foram usadas por Nosso Senhor; mas é a última que ele tinha no Calvário. Moscou acredita possuir uma túnica de Jesus Cristo. Poderia ser que fosse uma parte do manto, de acordo com o que o Sr. Prilejoff comunicou ao Sr. Robault a este respeito. Nada impede que haja em vários outros lugares relíquias das vestes de Jesus Cristo; pois, ao adicionar os pedaços que se encontram em Saint-Frazède, em Saint-Roch, em Roma, o vestiário conhecido de Jesus Cristo não é muito considerável, e certamente nem tudo chegou até nós. Em Veneza, há um pedaço da veste branca de escárnio usada diante de Herodes. Mostram-se em São Francisco de Philipo-Anagni, na Itália, em São João de Latrão e em Santa Maria Maior, pedaços da veste de púrpura, com a qual Nosso Senhor foi revestido no palácio de Pilatos.
Santo Sudário e outros instrumentos da Paixão
Apresentação dos lençóis funerários, da Santa Lança, da esponja, do caniço e da coluna da flagelação espalhados pela cristandade.
*Os santos sudários.* — O que não se disse de insultante contra a piedade dos fiéis e contra a dignidade da Igreja sobre a facilidade com que a censuram por deixar expor à veneração dos cristãos um grande número de sudários, túnicas e véus, como instrumentos da paixão? Aqui, como em tantos outros pontos da crença religiosa, estudos mais aprofundados ensinarão aos temerários críticos que é perigoso condenar a Igreja. Quando, pois, o nosso século quererá resignar-se a não pronunciar condenações senão quando tiver conhecido bem as peças do processo?
O que nos diz a história sobre a maneira de embalsamar entre os judeus, no tempo de Nosso Senhor? Já se poderia saber por São João (cap. XX) que, no embalsamamento dos mortos, utilizavam-se vários invólucros; fala-se de *linteamina* no plural, e de *sudarium*, outro objeto colocado à parte no sepulcro após a ressurreição. É preciso, portanto, desfazer-se de uma ideia extraída dos usos modernos, que representam apenas um único sudário para um único morto. No capítulo XI, 44, São João nos mostra Lázaro saindo do túmulo; mas ele tinha os pés e as mãos ligados com panos e faixas. O Sr. Robault pensa, com Langellé e muitos outros sábios, e isso é incontestável, que a maneira de sepultar os mortos entre os egípcios foi praticada também pelos hebreus e conservou-se até o tempo de Nosso Senhor. Havia três maneiras de embalsamar entre os egípcios. Segundo Diodoro, uma custava um talento, cinco mil e quinhentos francos; a outra, duas minas, mil oitocentos e cinquenta e três francos; e a terceira, muito pouco. Sem dúvida, as múmias que nos chegaram foram objeto de um embalsamamento muito cuidadoso. Pode-se ver o detalhe no mesmo historiador (Livro I, cap. 91). Heródoto diz as mesmas coisas. Querem saber que quantidade de tecido entra nessas suntuosas sepulturas? O árabe Abdallatif lhes dirá. Há, diz ele, algumas nas quais entram mais de mil côvados de tecido de cânhamo. Pode-se compreender por aí que se fazia ainda uma despesa considerável, mesmo nos sepultamentos de segunda classe. Em 1867, todo Paris foi testemunha, na exposição, do desnudamento de múmias que deu uma quantidade prodigiosa de panos. Antes de ir mais longe, insistamos ainda para estabelecer que, neste ponto, os usos dos dois povos eram semelhantes. Pode-se dizer que, em tudo o que não era proibido pela lei, os hebreus tinham tomado emprestado muito do povo junto ao qual viveram vários séculos, cuja ciência Moisés conhecera, cuja língua era ainda conhecida no tempo de Abraão, uma vez que ele falava ao rei sem intérprete. Eis o que diz o Gênesis, e é um fato importante (Gênesis, cap. 50, v. 2): José ordenou aos seus servos e aos médicos que embalsamassem o corpo de seu pai, e foram necessários quarenta dias para terminar esse embalsamamento. Era evidentemente o método egípcio, descrito pelos historiadores dos quais acabamos de falar. A similitude dos usos está, portanto, bem estabelecida. O cavaleiro de Rossi mostrou ao Sr. Robault, no cemitério de São Calisto, um corpo embalsamado e envolvido exatamente à maneira egípcia, e sabe-se que as inumações das catacumbas são dos primeiros séculos da era cristã.
Pode-se acreditar agora que um homem rico, como José de Arimateia, e as santas mulheres não prodigalizaram o que tinham de mais precioso em suas casas, em joias, em aromas, em panos, para fazer uso ao Mestre venerado?
Apesar do cuidado que o bem-aventurado José e as santas mulheres tiveram de estancar o sangue, como o sepultamento ocorreu imediatamente após a morte, é muito verossímil dizer que o sangue pôde atravessar várias dobras dos lençóis e dar lugar à existência de vários sudários portando impressões, que foram venerados em diferentes cidades da cristandade, e pode-se afirmar que nem todos os lençóis chegaram até nós. Se, portanto, há uma coisa que deve causar espanto, não é que tenha havido santos sudários em Besançon, em Turim, em Cahors, em Cadouin, em Carcassonne e em Roma; mas que não tenham restado mais, e isso prova a sinceridade e a boa-fé dos cristãos, a quem repugna naturalmente empregar a fraude em uma matéria tão grave. Somente a dúvida sobre a santidade das coisas não impede o abuso; mas é preciso que haja um interesse humano considerável. Aqui, onde estaria ele? A excomunhão ameaça aqueles que fazem tráfico disso.
*A santa scala, o caniço, a esponja, a lança.* — A escadaria do palácio de Pilatos foi transportada a Roma por Santa Helena, em 326, e depositada em São João de Latrão. Em 850, São Leão IV estabeleceu a devoção de subi-la de joelhos. Como só se podia subir essas escadas de joelhos, os degraus estavam tão gastos que foi preciso recobri-los com revestimentos de madeira de nogueira; esses revestimentos são vazados pela frente, de maneira a deixar ver a relíquia, que se compõe de vinte e oito degraus em mármore branco, cujos veios, levemente cinzentos, estão no sentido do comprimento dos degraus. Não há molduras na frente; os oito primeiros têm 3 m e 30 cm de comprimento; e os outros, 2 m e 50 cm.
O domo de Florença possui um pequeno fragmento do caniço da realeza irrisória de Jesus Cristo; outro mais considerável, de cento e dez milímetros, está no convento de Andechs, na Baviera, e outro de cento e oitenta milímetros no convento de Vatopedi, no Monte Atos. Reunindo todos esses fragmentos, mal passamos de trezentos milímetros: o caniço deveria exceder muito esse comprimento. Aqui também, como para a maioria das santas relíquias, houve perda, em vez de falsa multiplicação.
Na tomada de Jerusalém pelos persas, em 614, a santa esponja foi levada a Constantinopla em 14 de setembro do mesmo ano. São Gregório de Tours, alguns anos antes, fala dela como de uma relíquia que se venerava publicamente em Jerusalém com a lança e o caniço, a coroa de espinhos e a coluna, sem marcar o lugar onde as guardavam. O venerável Beda viu-a em Jerusalém no cálice de Nosso Senhor, cálice de prata que se acreditava ter servido na ceia. Um fragmento da santa esponja veio para a França com as relíquias oferecidas a São Luís; São Tiago de Compiègne teve uma pequena parcela. Veem-se também fragmentos em Roma nas igrejas de São Silvestre, de São João de Latrão, de Santa Maria Maior, Santa Maria in Trastevere, São Marcos e Santa Maria in Compitelli. Todas reunidas formariam, segundo toda a aparência, apenas uma esponja de tamanho bastante medíocre.
No tempo do venerável Beda, a santa lança estava encerrada em uma cruz de madeira sob o pórtico do Mártir, igreja construída por Constantino. O bispo Francisco Adolfo viu-a igualmente. Segundo Gregório de Tours, ela foi transportada de Jerusalém para Constantinopla, no tempo de Heráclio. Em 1092, os cruzados encontraram-na em Antioquia; em 1243, Balduíno cedeu a ponta a São Luís. sainte lance Lança que perfurou o lado de Cristo. Uma parte da lança foi enviada por Bajazeto, em 1492, a Inocêncio VIII, que a colocou em São Pedro de Roma, onde é objeto de grande veneração. Bajazeto fez dizer que a ponta estava na França. Bento XIV fez vir de Paris a ponta da santa lança, a fim de aproximá-la da lança propriamente dita, depositada na basílica de São Pedro, e constatou que a adaptação era satisfatória.
*A pedra onde foi colocada a cruz: — a pedra da unção.* — Monsenhor Mislin denunciou uma fraude dos gregos. A cavidade, que está no cume do Calvário, não é aquela onde a cruz foi plantada. No tumulto ocorrido no incêndio de 1808, eles retiraram a pedra na qual a verdadeira cruz tinha sido fincada, para transportá-la a Constantinopla, e colocaram outra pedra no lugar, e a verdadeira perdeu-se em um naufrágio. Mas, se o zelo ciumento dos cristãos retira as pedras, não se pode retirar os lugares.
Ao descer do Calvário, encontra-se imediatamente a pedra da unção sobre a qual José de Arimateia embalsamou o corpo de Jesus. Com oito pés de comprimento e dois de largura, ela está hoje revestida por uma mesa de mármore vermelho que tem apenas alguns centímetros de espessura. Ela é cercada por grandes candelabros e dez lâmpadas de prata.
*A coluna da flagelação; — o santo sangue.* — A coluna, à qual Jesus Cristo foi ligado durante sua flagelação, guardava-se antigamente em Jerusalém no Monte Sião com outras santas relíquias. É o que aprendemos de São Gregório de Nazianzo, *or.* 1, *in Julien.*, de São Paulino, *ep.* 34; de São Gregório de Tours, *l.* 1, *de glor. mart.*, c. 7; do venerável Beda, *de locis sanctis*, c. 3; de São Prudêncio; de São Jerônimo, etc. Esta coluna vê-se presentemente em Roma, através de uma grade de ferro, em uma pequena capela da igreja de Santa Praxedes. Segundo uma inscrição colocada acima da capela, ela foi trazida para lá, em 1223, pelo cardeal João Colonna, legado da Santa Sé no Oriente, sob o papa Honório III. Ela é de mármore cinzento e tem um pé e meio de comprimento. Tem, na sua base, um pé de diâmetro e apenas oito polegadas no topo. O pedestal da coluna é conservado no rico tesouro de São Marcos, em Veneza. Vê-se ali ainda um anel de ferro ao qual se prendiam os criminosos. Alguns pensam que ela é apenas a parte superior da coluna da qual fala São Jerônimo: mas não se percebe nela nenhuma marca de fratura. Os judeus açoitavam os criminosos, primeiramente nas costas, depois (pelo menos frequentemente) no ventre, e depois nos dois lados. Parece que a mesma coisa era observada entre os romanos.
O *sangue* de Jesus Cristo, que se guarda em alguns lugares, e cujo mais famoso é o de Mântua, provém do que algumas vezes fluiu milagrosamente dos crucifixos que judeus ou pagãos perfuraram em ódio ao Salvador. Esses milagres tão comoventes são contados e estabelecidos de maneira peremptória em histórias muito autênticas. Ver São Tomás, *l.* III, p. 54, a. 2, ad 5; e *quod*, l. V, a. 5.
O Santo Vendar de Lunegarde
Foco em uma relíquia local de Quercy, a faixa que cobriu os olhos de Cristo, doada por Carlos Magno à abadia de Marcillac.
*O santo vendar.* — O Sr. Baras, pároco de Saint-Céré (Lot), assinalou à nossa atenção a existência de uma preciosa relíquia de Nosso Senhor Jesus Cristo, esquecida há muito tempo, e que é possuída por uma pequena igreja rural, na diocese de Cahors. Esta relíquia está ligada à vida de São Namfase, cujo túmulo se encontra na igreja de Caniac. São Namfase foi o restaurador da abadia de Marcillac, à qual foi doada, por Carlos Magno, a preciosa Charlemagne Imperador dos Francos e tio de São Folquino. relíquia da qual falamos. É o santo vendar com o qual foram cobertos os olhos de Nosso Senhor, na casa de Caifás, durante a cena descrita pelo Evangelho: «Começaram a vendar-lhe o rosto, a esbofeteá-lo e a perguntar-lhe quem o havia golpeado». A pequena igreja de Saint-Julien de Lunegarde tem a felicida de de pos Lunegarde Vila de Quercy que possui o Santo Sudário. suir esta insigne relíquia há vários séculos.
Este vendar é um pedaço de tecido de linho longo o suficiente para dar a volta na cabeça, e com cerca de dez centímetros de largura; apresenta numerosas manchas de sangue.
O historiador Dominicy, em sua obra *De Sudario capitis Christi*, impressa em Cahors em 1640, diz: *Asservatur in ecclesia S. Juliani de Lunegarde (cujus praesentatio ad abbatem Marciliacensem pertinet), tenue velum ex lino ægyptio ; idemque illud esse dicunt quo Christi faciem militas obduxere, dum per ludibrium colaphis cæderetur. Est et in eadem Ecclesia, frustum arundinis, et in signum regni affectati, pro sceptro traditæ, p. 47... Hanc porro camobio Marciliacensi, cum velo quo Christus eadem in cena obductus fuit, a Carolo Magno illius monasterii restauratore olim vetus affirmat traditio, eamque postmodum ecclesiæ de Lunegarde, ab illius camobii abbatibus traditam, et locus ille (qui ab hoc monasterio ad hoc pendet), vasta superioris Cadurcinii solitudine et sylva horrenda obsitus, tantorum pignorum gratia, a populis devotionis ergo adeuntibus in posterum frequentaretur... Sacros quamplures reliquias in multis Galliarum ecclesiis (Carolum Magnum) depaeuisse nemo potest inficiari, illosque maximè ab oriente quæzitas, p. 50.*
Estes textos tão precisos do historiador de Quercy adquirem, aos nossos olhos, uma nova autoridade a partir de um documento que me foi comunicado pelo Sr. Abade Ayrales, retirado em Saint-Chigues, paróquia de Saigros, cantão de Saint-Céré. É um ato notarial em pergaminho no qual é relatado: 1º a apresentação feita pelo abade de Marcillac de um chamado Jeanny de Podio de Cardailhac em substituição a um certo Valette, renunciante à cura de Saint-Julien de Lunegarde; 2º a nomeação feita deste mesmo de Podio (provavelmente Dupuy) à referida cura, pelo irmão e vigário geral de Dom Antoine d'Alamand, bispo de Cahors. Este ato é do ano de 1468. — Este ato supõe que o direito de apresentação, exercido pelo abade de Marcillac, existia antes dessa época. Não se pode concluir razoavelmente que o santo vendar já havia sido depositado em Lunegarde em uma época anterior ao ano de 1468?
Creio que Dominicy comete um erro ao falar de um *fragmento do caniço*. Estou convencido, como diz a inscrição anexada à relíquia, que é da verdadeira cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo que foi depositada na igreja de Saint-Julien de Lunegarde ao mesmo tempo que o santo vendar.
O título autêntico destas relíquias não existe mais. O Sr. Pons, pároco de Lunegarde antes de 1789, e falecido, creio, em 1834, disse a várias pessoas que me relataram: «que ele tinha tido este título em sua posse, mas que o havia perdido na época de sua emigração». Isto nos foi atestado pela falecida Sra. Pons de Reilhac, mãe do Sr. Antoine Pons, notário; pela falecida Sra. Claretty, mãe da Sra. Pégourie du Grand-Domaine, e pelo Sr. Laveyflières, pároco de Saint-Martin-de-Désarnat, antigo pároco de Lunegarde, anteriormente vigário do Sr. Pons.
É certo que, desde tempos imemoriais, houve peregrinos dirigindo-se, por devoção, a Lunegarde. 1º A fonte, onde os peregrinos ainda vão buscar água, é uma prova disso. Seu nome *Font-Roumine* quer dizer fonte dos peregrinos, *Font des Roumious*. Na Idade Média, havia-se dado, na linguagem local, o nome de *Roumious*, aquele que vai a Roma, àqueles que empreendiam uma peregrinação qualquer, porque sendo a peregrinação de Roma a mais célebre, chamava-se *Roumious* aqueles que para lá se dirigiam. Existe, em Rocamadour, um caminho que chamam de *lou Comi des Roumious*. 2º Os idosos que conheci em Lunegarde me afirmaram que, de todo o tempo, a peregrinação havia sido frequentada, sobretudo antes da grande Revolução. Iam até lá inclusive da Auvergne, como atestou um comerciante mascate daquela terra que me dizia «ter ouvido dizer ao seu avô, falecido nonagenário, quando ele mesmo era uma criança pequena, que se ia da Auvergne em peregrinação a Lunegarde». Este comerciante chamava-se Andrieu e tinha mais de sessenta anos. Este testemunho é anterior a 1850. Atesto, diz ao terminar o Sr. Abade Baras, a veracidade dos testemunhos acima.
Cl. *La Bible sans la Bible*, 2 gr. v. in-8°, 2ª ed., Bar-le-Duc, 1871-72.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de Jesus Cristo (Relíquias da Paixão)
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Invenção da verdadeira Cruz por Santa Helena
- Tomada da Cruz por Cosroes II em 614
- Retorno da Cruz a Jerusalém por Heráclio
- Descoberta do título da Cruz em 1492
- Tradução da coroa de espinhos por São Luís em 1239
Citações
-
Titulus crucis
Inscrição no tijolo de terracota em Roma -
Nazarinus Re
Fragmento do título da Cruz em Roma