Abade do Monte Sinai, São João Clímaco é o autor da Escada mística, um tratado de espiritualidade estruturado em trinta degraus que conduzem à perfeição cristã. Sua obra, escrita em um estilo conciso e humilde, destaca a obediência, a penitência e a humildade como fundamentos da vida religiosa.
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A ESCADA DE SÃO JOÃO.
Estilo e mérito da obra
A obra de São João Clímaco caracteriza-se por um estilo conciso e humilde, privilegiando exemplos concretos de virtude, obediência e penitência.
Este livro é escrito na forma de aforismos ou sentenças, que oferecem um grande sentido em poucas palavras. O estilo é simples, mas sem vulgaridade, conciso, mas sem obscuridade. Encontra-se nele uma unção admirável e um tom de humildade que conquista a confiança do leitor; mas o que constitui o principal mérito desta obra é a nobreza e a elevação dos sentimentos, unidas a uma descrição perfeita de todas as virtudes. O autor não se limita ao detalhe dos preceitos: ele os torna sensíveis por meio de exemplos, e entre esses exemplos, escolhe particularmente aqueles onde transparece o amor à obediência e à penitência. Eis um deles:
O exemplo do cozinheiro
João Clímaco relata o exemplo de um cozinheiro de mosteiro que mantinha um recolhimento constante ao ver em seu trabalho o serviço a Deus.
São João Clímaco fi Saint Jean Climaque Autor da Escada da Ascensão Divina e abade no Monte Sinai. cou singularmente impressionado com a virtude do cozinheiro do mosteiro. Como o via sempre recolhido e banhado em lágrimas em meio às suas ocupações, que não ofereciam nada além de terreno, perguntou-lhe de que meio se servia para manter assim sua alma no recolhimento e na compostura. «Quando sirvo os monges», respondeu o bom religioso, «imagino-me servindo, não homens, mas o próprio Deus, na pessoa de seus servos, e a visão deste fogo, que tenho incessantemente diante dos olhos, lembra-me daquelas chamas que queimarão eternamente os pecadores».
Os primeiros graus da ascese
A Escada mística começa com a renúncia ao mundo, a obediência e a penitência, definida como um novo contrato com Deus.
A escada mística de São João com L'échelle mystique de saint Jean Obra espiritual maior composta por trinta degraus. põe-se de trinta graus. O primeiro grau é a renúncia à vida do mundo. Três colunas sustentam o monumento augusto da renúncia: a inocência, a mortificação, a temperança. — O segundo grau consiste em despojar-se não apenas dos bens, mas das afeições da terra; a religião é um porto onde se encontra a salvação, mas aqueles que fogem à maneira da mulher de Ló podem também ali encontrar o naufrágio. — O terceiro grau consiste em renunciar até mesmo à afeição pelos seus pais. — O quarto grau é a obediência. — O quinto é a penitência. A penitência, diz ele, é o restabelecimento do batismo. É uma espécie de contrato pelo qual prometemos a Deus corrigir-nos dos defeitos de nossa vida passada. A penitência está encarregada dos interesses da humildade; ela purifica os cinco sentidos; ela é a filha mais velha da esperança, a inimiga do desespero, etc. — O sexto grau é o pensamento da morte: «Lembrai-vos dos vossos fins últimos e não pecareis mais». «O amor à sabedoria não é outro senão o temor da morte». Foi a desobediência dos primeiros homens que deu nascimento ao temor da morte. Mas o que demonstra este temor? Que nossa alma não está perfeitamente lavada nem purificada pelas austeridades da penitência. — O sétimo grau é a tristeza que produz a alegria. Por esta santa tristeza, o escritor entende o dom das lágrimas. «Meus ternos amigos», exclama ele, «na hora de nossa morte o soberano Juiz não nos imputará como crime não ter feito milagres durante a vida, não ter tratado com sutileza as matérias elevadas da teologia e não ter chegado a um alto grau de contemplação; mas não ter chorado nossos pecados de maneira a merecer o perdão». — O oitavo grau é a mansidão que triunfa sobre a ira. Um homem escravo da ira é um epilético espiritual. O momento da ira é o momento da perda e da ruína de uma alma. A ira é uma prova evidente de que se é dominado pelo orgulho. Visto que o Espírito Santo é a paz da alma e que a ira é um distúrbio da alma, não devemos concluir que é sobretudo a ira que nos priva da presença de Deus? ... Manter nossa língua em cativeiro e guardar silêncio quando nosso coração está violentamente agitado, eis as primeiras armas da mansidão e as primeiras vantagens que ela obtém sobre a ira; saber acalmar o tumulto interior de nossos pensamentos e de nossos sentimentos nos momentos em que estamos agitados, eis os primeiros progressos que fazemos na mansidão; mas conservar nossa alma na paz e na tranquilidade em meio aos ventos e às tempestades desencadeadas, eis a perfeição da mansidão, e a vitória que se deve buscar alcançar sobre a ira. — O nono grau é o esquecimento das injúrias. Aquele que conserva em seu coração a lembrança das injúrias ali
Luta contra os vícios e domínio próprio
O autor detalha a luta contra a ira, a maledicência, a mentira e a preguiça, defendendo o silêncio e a doçura como remédios.
guarda um ninho de serpentes venenosas e carrega consigo o veneno em seu seio; ora, este veneno é mortal. A lembrança das injúrias é o auge da ira; é como a sua cauda, isto é, a parte mais hedionda. É ela que nutre nas almas o ódio e a injustiça, dá a morte às virtudes, rói o coração, obscurece a inteligência, reserva uma vergonha eterna àqueles que recitam a oração dominical nessas más disposições, etc. É sobretudo na meditação dos sofrimentos de Jesus Cristo e de sua inalterável paciência que se deve buscar tanto o exemplo quanto a força para imitar esse exemplo. — O décimo grau é a fuga da maledicência. A maledicência é como uma sanguessuga muito grande e muito voraz que se esconde habilmente para trair e para sugar todo o bom sangue da caridade. Quem quer que esteja resolvido a vencer em si mesmo o espírito de detração, nunca atribuirá o pecado ao homem que o cometeu, mas ao demônio que arrastou o livre-arbítrio do homem. O caminho, e o mais seguro para chegar à remissão de nossos pecados, consiste em nunca julgar nem condenar nossos irmãos. É o que nos ensina o próprio Jesus Cristo quando diz: «Se não julgardes os outros, não sereis julgados vós mesmos». Em matéria de faltas e defeitos, não se deve nem mesmo julgar o próximo pelo relato de nossos próprios olhos. — O décimo primeiro grau é o silêncio. A comichão de falar é como um trono sobre o qual se senta a vanglória. A intemperança das palavras é a porta da maledicência, a mestra dos divertimentos tolos, o instrumento da mentira, a ruína da composição, a obra da preguiça e da negligência, a precursora do sono, a inimiga da meditação e da vigilância: ela gela a devoção, extingue a piedade. O silêncio, ao contrário, dá o espírito de oração, observa atentamente os movimentos do inimigo da salvação, faz considerar os juízos de Deus, é muito favorável a uma santa tristeza, combate o espírito de presunção, dá a ciência da salvação e nos faz subir até Deus. Sim, quem quer que ame o silêncio torna-se o amigo particular de Deus. São Pedro, por não tê-lo guardado, teve de chorar sinceramente. Ele havia esquecido estas palavras de Davi: «Observarei cuidadosa mente todas Saint Pierre Apóstolo mencionado para a fixação da data da procissão. as minhas palavras, a fim de não pecar com a minha língua»; e esta sentença do Espírito S anto: David Segundo rei de Israel, escolhido por Deus para suceder a Saul. «É menos perigoso escorregar, menos funesto cair, do que fazer um mau uso de sua língua». — O décimo segundo grau é a fuga da mentira. A intemperança nas palavras produz a mentira, quase da mesma maneira que um isqueiro produz o fogo. Em nossos livros santos, não encontramos vício contra o qual o Espírito Santo tenha pronunciado sentenças mais assustadoras do que contra a mentira. A hipocrisia é a mãe, a matéria e o sujeito da mentira; pois muitos doutores ensinam que a hipocrisia não é outra coisa senão a ação de inventar, preparar e trazer à luz a mentira: a hipocrisia e a mentira, portanto, nunca andam separadas. — O décimo terceiro grau consiste em combater o tédio e a preguiça. Os outros vícios atacam e destroem apenas as virtudes que lhes são contrárias. A preguiça, por si só, destrói todas as virtudes. — O décimo quarto grau é a prática da temperança. A gula, diz São João Clímaco, é um ato hipócrita de nosso estômago, que nos diz que, ao saciá-lo, ele não se sacia... Quando temos bem contentado o demônio da intemperança, ele se retira para dar lugar a outro demônio, o da impureza... É pela lembrança de nossos pecados que se deve declarar guerra a ele. — O décimo quinto grau é a castidade. A castidade é um dom de Deus: para tê-la é preciso dirigir-se a Ele, pois não é dado à nossa natureza vencer-se por suas próprias forças. Os começos da castidade consistem em recusar todo consentimento aos pensamentos impuros e aos movimentos da concupiscência. É feliz, e solidamente feliz, aquele que não é mais atingido nem tocado pela beleza, pelo colorido e pelas graças elegantes das pessoas que encontra. — O décimo sexto grau é a pobreza oposta à avareza. A avareza é uma verdadeira idolatria: ela é filha da incredulidade. Para se satisfazer, ela se serve do especioso pretexto das doenças e das necessidades do corpo; é por isso que ela não cessa de ameaçar com a velhice e com mil necessidades ou acidentes diversos. A avareza critica, censura e viola os preceitos do Evangelho. Aquele que venceu a avareza possui a caridade, libertou-se dos cuidados da vida presente, é rei do universo, mereceu sua recompensa no céu e caminha para seus fins últimos sem qualquer espécie de embaraço. — Os quatro graus seguintes falam do endurecimento do coração, que é a morte da alma, do sono, do calor das paixões, das vigílias e da timidez efeminada. — O vigésimo primeiro, o vigésimo segundo e o vigésimo terceiro graus tratam da vanglória, do tolo orgulho e da blasfêmia. Há entre a vanglória e o orgulho a diferença que existe entre uma criança e um homem feito, entre o trigo e o pão; a vanglória pode ser considerada como o começo do orgulho, e o orgulho como a terrível perfeição da vanglória. Fujamos deles, construtores, como da peste, e lembremo-nos desta palavra: «Será profundamente humilhado aquele que se tiver elevado». São João define o orgulho como a invenção por excelência dos demônios, a renúncia a Deus, o desprezo pelos homens, o fiel guardião de nossos pecados, a fonte das leis injustas. Quanto aos pensamentos de blasfêmia, o único meio de combatê-los é desprezá-los e abrir-se com seu confessor. Quem quer que quisesse expulsar de outra forma o demônio da blasfêmia e do desespero, pareceria um homem que quisesse agarrar o relâmpago ou aprisionar os ventos em sua mão. — No vigésimo quarto grau, São João volta à doçura, que é a aurora da humildade. Uma alma cheia de doçura, acrescenta ele nesta bela linguagem figurada do Oriente, é o leito nupcial da simplicidade. A simplicidade é um feliz hábito que torna uma alma incapaz de duplicidade e de todo pensamento pernicioso: ela é o oposto do que se chama maldade. — O vigésimo quinto grau é a humildade, que dá a morte a todas as paixões.
Humildade e realização espiritual
O texto explora a humildade como virtude central e termina com os graus superiores que conduzem à oração, à paz da alma e à caridade.
São João Clímaco diz que é muito difícil falar da humildade: filha do céu e toda celestial ela mesma, é incompreensível ao espírito humano. Ele se esforça para nos fazer conhecê-la por suas propriedades e comparações. É nos santos vales da humildade, diz-nos ele, que se colhe com abundância o trigo e os outros frutos espirituais. Situadas como vales no meio das montanhas do orgulho, as almas humildes colhem nos abaixamentos. A penitência, as lágrimas e a humildade são uma venerável trindade na unidade da humildade que as contém todas, e uma admirável unidade nesta maravilhosa trindade. Elevar-se, não se elevar e humilhar-se são três coisas bem diferentes. Aquele que se eleva, atreve-se a julgar tudo; aquele que não se eleva, não julga ninguém e condena a si mesmo; e aquele que se humilha, ainda que seja inocente, olha-se sempre como culpado. Quando se pratica a humildade de todo o coração, toma-se muito cuidado para não ser despojado dela pela indiscrição das palavras, pois a humildade não tem língua nem porta. É bem difícil tirar fogo da neve; mas seria menos difícil encontrar a humildade no coração de uma criança obstinada pelo erro? A humildade não é um bem próprio aos filhos da Igreja Católica, às pessoas piedosas, àquelas que levam uma vida pura e irrepreensível? Muitas pessoas alcançaram a salvação sem te Église catholique A instituição depositária da fé ortodoxa. r feito milagres ou ter sido favorecidas por revelações; mas jamais alguém a alcançará sem a humildade. — O vigésimo sexto grau é a visão interior, isto é, esta luz que nos faz conhecer com certeza, em todo tempo, em todos os lugares, e em todas as nossas ações, qual é a santa vontade de Deus: é a consciência aperfeiçoada, purificada, desfrutando de uma visão mais clara: apenas aqueles que são puros em suas afeições, suas ações e suas palavras a possuem. — O vigésimo sétimo grau é a paz da alma na vida eremítica e solitária. — O vigésimo oitavo consiste na oração e no recolhimento. Eis o segredo de ser ouvido por Deus: testemunhar-lhe uma viva gratidão pelos benefícios que recebemos de sua bondade, fazer uma humilde confissão de nossos pecados e de nossas faltas. É a oração que conserva o mundo, reconcilia o céu com a terra, produz as lágrimas do arrependimento, nos consola e nos protege. Ela é, na pessoa que reza, uma espécie de palácio e de tribunal onde o soberano juiz, sem esperar pelo último dia, profere a cada momento suas sentenças de justiça e de misericórdia. — O vigésimo nono grau é a paz da alma; ora, a paz da alma é o céu na terra: as virtudes são os ornamentos do céu, como as estrelas são as pedras preciosas do firmamento. — Sobre o trigésimo e último grau, estão sentadas as três virtudes rainhas: a Fé, a Esperança e a Caridade.
Deveres do pastor
Em uma carta ao abade de Raithu, o santo define as responsabilidades de um pastor, aliando firmeza, doçura e a santificação das almas.
Além d a Escada Santa, l'Échelle Sainte Obra espiritual maior composta por trinta degraus. temos ainda uma carta de São João Clímaco ao bem-aventurado abade de Raithu. Nela, abbé de Bâthé Destinatário de uma carta de São João Clímaco sobre os deveres pastorais. fala-se dos deveres de um verdadeiro pastor, cujos principais são ser casto de corpo e espírito, trabalhar incansavelmente pela santificação das almas, corrigir aqueles que se desviam do caminho reto e levá-los a cumprir fielmente as obrigações de seu estado; ser firme e cheio de vigor, de modo, contudo, que a severidade seja temperada pela doçura, compadecer-se da fraqueza humana, acomodando-se aos diversos caracteres, a fim de ganhar a todos para Jesus Cristo. «De todas as ofertas que se pode fazer a Deus», diz este Santo, «a mais agradável aos seus olhos é, sem dúvida, a das almas santificadas pela penitência e pela caridade».
Edições e traduções
Apresentação das principais edições gregas e latinas, bem como das traduções francesas históricas da obra.
São João escreveu em grego. A melhor edição de seu texto original é a de M. Migne, c om a tra M. Migne Editor do texto original grego. dução latina de Rader. Existe uma tradução francesa feita por Arnaud d'And illy. O abade Gr Arnaud d'Andilly Tradutor francês da obra. im es apresentou um M. l'abbé Grimes Autor da obra 'L'Esprit des Saints'. a análise da Escada do Paraíso em seu Esprit des Saints.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Abade do mosteiro do Monte Sinai
- Redação da Escada Mística (A Escada do Paraíso) composta por trinta degraus
- Redação de uma carta ao bem-aventurado abade de Raithu sobre os deveres do pastor
Citações
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A penitência é o restabelecimento do batismo.
A Escada de São João -
O amor à sabedoria não é outro senão o temor da morte.
A Escada de São João -
De todas as ofertas que se pode fazer a Deus, a mais agradável aos seus olhos é, sem dúvida, a das almas santificadas pela penitência e pela caridade.
Carta ao abade de Raithu