8 de marco 15.º século

São João de Deus

FUNDADOR DOS RELIGIOSOS HOSPITALARES, DITOS DA CARIDADE

Nascido em Portugal, João Ciudad leva uma vida aventureira de pastor e soldado antes de se dedicar totalmente aos pobres em Granada. Após fingir loucura por penitência, funda a Ordem dos Irmãos Hospitalares para cuidar dos indigentes. Sua caridade heroica, marcada por visões místicas, faz dele um dos maiores santos da Espanha do século XVI.

Leitura guiada

9 seçãos de leitura

SÃO JOÃO DE DEUS,

FUNDADOR DOS RELIGIOSOS HOSPITALARES, DITOS DA CARIDADE

Vida 01 / 09

Juventude e primeira errância

Nascido em Portugal em 1493, João deixa sua família aos oito anos para seguir um viajante rumo à Espanha, marcando o início de uma vida aventureira.

A esmola é uma flor da terra cujos frutos se colhem no céu.

No dia 8 de março de 1493, nascia em Monte-Mor-o-Novo, pequena cidade da diocese de Évora, em Portugal, uma criança que recebeu no batismo o nome de João Jean Fundador da ordem hospitalar epônima. . Foi criado por seu pai, chamado André Cidade, e por sua mãe, chamada Teresa, em sentimentos cristãos. Seus pais não eram dos mais ricos; de modo que seu maior tesouro consistia em seu filho, e prometiam a si mesmos que ele seria um dia o amparo de sua velhice; mas viram-se privados dele no momento em que começavam a receber alguma satisfação: pois mal completara oito anos quando começou para ele a vida mais aventureira, que deveria mergulhá-lo no vício, mas retirá-lo dele; lançá-lo no mundo, depois desprendê-lo dele, fazendo-o encontrar por toda parte desgraças, e nenhum repouso fora de Deus.

Certa noite, seus pais, piedosos e caridosos, acolheram sob seu teto hospitaleiro um viajante que se dirigia à Espanha. A descrição que este último fez das igrejas de Madri e das outras magnificências da grande cidade impressionou vivamente a imaginação do jovem João.

No dia seguinte, ao romper do dia, o viajante pôs-se a caminho após ter agradecido afetuosamente aos seus anfitriões. Um pensamento culpado apossara-se do espírito de João, pensamento que foi o primeiro elo da longa corrente de sofrimentos que ele deveria percorrer. Ele dissera a si mesmo que, seguindo de longe os passos do estrangeiro, poderia chegar a Madri. Não calculando, portanto, nem a extensão do caminho, nem sua falta absoluta de dinheiro, nem o desespero no qual iria mergulhar sua família, ele deslizou para fora de casa e tomou a direção da Espanha; fez assim várias milhas sem quase parar.

André Cidade e Teresa não tinham a princípio concebido inquietações, pois supunham que João tinha ido, segundo seu hábito diário, visitar um tio que morava na outra extremidade de Monte-Mor; contudo, ao fim de algumas horas, não o vendo voltar, alarmaram-se vivamente; André correu à casa de seu irmão e gritou de longe: — Onde está João? — Teu filho? disse o tio, eu não o vi hoje.

Épico de medo, André retornou precipitadamente para casa para aconselhar-se com sua esposa. Vários dias se passaram em buscas infrutíferas. Foi preciso que André se decidisse a voltar sozinho e com o coração partido.

Ao chegar certa noite à porta de casa, ele parou um momento. Triste mensageiro, não conseguia decidir-se a anunciar más notícias.

A vida do verdadeiro Sr. Mofait, falecido pároco da catedral de Arras, em 1059, sustenta uma bela palavra sobre esta virtude. «Ele fazia a esmola igualmente», diz o cônego Van Drival, seu biógrafo, «seguindo o conselho dos Santos. Veja, dizia ele um dia a um padre amigo seu, ao avistar uma velha que fazia a guarda e o esperava, está vendo ali? eis uma esmola que floresce...»

Quando, finalmente, ele bateu e disse: «Sou eu!» ficou assustado por não ouvir a voz de Teresa, Teresa que habitualmente saudava seu retorno com tanta alegria! E contudo ela não estava ausente; pois o raio de uma luz brilhava através das frestas da porta. Uma velha camponesa veio abrir. O rosto desta mulher expressava tal aflição, que André não pôde reprimir um grito de pavor. Ele avançou precipitadamente e avistou sua pobre Teresa estendida em sua cama e presa de uma febre ardente. André, com os olhos inundados de lágrimas, inclinou-se para a cama e pronunciou com uma voz dilacerante o nome de Teresa. Esta respondeu com um sorriso afetuoso e estendeu-lhe uma mão ardente que ele cobriu de lágrimas e beijos.

Quando o primeiro momento de emoção passou, a doente murmurou estas palavras: — É então você, André? Eis-te sozinho!... — Sim, disse ele com uma voz surda, todas as minhas buscas foram infrutíferas. João nos deixou... Ele não nos amava! ele que nós tanto amamos... Não penses mais nesse ingrato e recupera a saúde. — André, teus votos são inúteis; o mal do qual estou atingida, eu o levarei para o túmulo. — Ó minha Teresa, serias arrebatada de mim!... Sem ti, sem meu filho, que faria eu aqui embaixo? — Eu vou te ensinar: mas sê mais calmo, mais corajoso, teus soluços me perturbam. Escuta, André, escuta bem. Deus falou-me; ele dignou-se a enviar-me o anjo da guarda do nosso pequeno João. O espírito imortal exortou-me a ser paciente, a não mais murmurar. Ele me tranquilizou sobre a sorte de nosso filho;... João deve atravessar longas provações que fortalecerão sua virtude. — Teresa, isso é um sonho... é o efeito da vertigem... — Não, André, não: eu não dormia, eu nem sofria quando o céu me revelou assim o futuro... Escuta ainda. Quando eu não estiver mais, quando eu repousar em minha última morada, distribui aos indigentes o pouco que possuímos e consagra-te ao serviço de Deus na Ordem de São Francisco. — Eu seguirei este conselho... oh! eu te prometo. — Pois bem! eu morro feliz; pois eis-me tranquilizada sobre a sorte dos dois seres que eu mais amei. Adeus, André, até logo... lá no alto. E ela expirou.

Vida 02 / 09

Pastor em Oropeza e soldado de Carlos V

João torna-se pastor para Gonzalès em Oropeza antes de se alistar no exército de Carlos V, onde enfrenta provações militares e espirituais.

João, seguindo sempre de longe os passos do viajante, tinha chegado a Castela. O cansaço o oprimia; alimentado pela caridade pública, muitas vezes teve dificuldade em encontrar um pedaço de pão preto, e teve de dormir nas estradas, exposto a todas as intempéries. Quantas vezes lamentou os cuidados tão ternos, tão multiplicados, da boa Teresa! Quantas vezes imaginou seus pais entristecidos, acusando-o de ingratidão! À medida que se afastava, seu pensamento voava para a casa paterna. Sentia quão fraca é uma criança quando a proteção de sua família lhe falta; mas uma espécie de medo, de vergonha, o retinha. Se continuava a avançar, não era mais para satisfazer sua necessidade de viajar, era porque não ousava voltar atrás. Talvez também fosse necessário que a vontade de Deus se cumprisse, essa vontade que Teresa conhecera em sua visão.

Ele estava em Oropeza quando foi obrigado a parar. Devorado pela fome, desprovido de todos os recursos, sentou-se chorando sobre um fragmento de rocha. Ali, deixou cair a cabeça entre as mãos e começou a fazer amargas reflexões.

Uma voz rude o tirou desse estado de torpor... Ele levantou os olhos e avistou um mayoral, que o observava atentamente. — O que fazes aí? perguntou esse homem. João contou francamente sua aventura sem tentar desculpar-se. O mayoral refletiu por um instante, depois disse: — Tiveste grande culpa em abandonar tua família, pensa na dor que lhe causaste. Eu, que amo ternamente minha filha, minha pequena Mariquita, jamais me consolaria se a tirassem de mim. Contudo, já que o mal está feito, apliquemos um remédio. Quando um viajante de meu conhecimento for a Portugal, eu o encarregarei de dar notícias tuas aos teus pais. Enquanto isso, como deves viver honradamente, e não como um vagabundo, se quiseres guardar um de meus rebanhos, tratar-te-ei bem, palavra de Gonzalès. O rapaz aceitou com prontidão.

Durante vários anos, João exerceu esse rude ofício. Sempre só e na presença da natureza, sentia sua alma elevar-se, sua inteligência ampliar-se; frequentemente pensava em André, em Teresa: sua esperança mais cara era revê-los um dia, surpreendê-los com seus progressos. Com a ajuda de um monge que vinha às vezes pedir esmolas na fazenda, aprendera a ler; e, graças à biblioteca do convento desse bom religioso, pôde aproveitar para instruir-se nas longas horas que passava nos campos. Às graças da infância sucedera nele a força do adolescente; sua estatura se desenvolvera, seu rosto adquirira um caráter viril. Gonzalès, satisfeito com sua excelente conduta e apreciando sua viva inteligência, colocou-o à frente da fazenda. A administração de João foi tão boa que, em pouco tempo, a fortuna do mayoral tornou-se considerável.

Um dia, Gonzalès convidou João a segui-lo em seu jardim; lá ele lhe disse: — Estou contente com teus cuidados, foste um servo fiel; quero recompensar-te dignamente dando-te a mão de minha gentil Mariquita; seus bens serão teus. Estou ficando velho e não preciso mais do que repouso: ficarei, portanto, feliz em ver minha filha unida a um homem honesto e, ao mesmo tempo, proporcionar-te um bem-estar que talvez nunca obtivesses com teus trabalhos. Em vez de acolher com alegria uma oferta tão brilhante, João pareceu consternado. — Ó meu mestre, respondeu ele, não ouso alegrar-me com sua generosidade, pois sou indigno dela. O que fiz para que o senhor se digne a oferecer-me o que tem de mais precioso? Cumpri meu dever, isso é tudo. Se um pobre jovem como eu aspirasse a uma rica aliança, não poderiam acusá-lo de obedecer a um cálculo interesseiro? Além disso, uma voz secreta me diz que não devo, agora pelo menos, pensar em me casar; parece-me que minha liberdade não me pertence, que não tenho o direito de dispor dela. — Refletirás, retomou Gonzalès com bondade; amanhã pedirei tua resposta, é impossível que recuses a felicidade e a fortuna.

À noite, João, recolhido em seu quarto, ajoelhou-se diante de uma imagem da Santíssima Virgem, único ornamento daquele modesto refúgio; sua oração foi longa e fervorosa. Quando se levantou, sentiu-se mais forte, mais calmo. — Não, disse a si mesmo, não abusarei da generosidade de Gonzalès; mais tarde ele talvez lamentasse sua obra. Entrei pobre em sua casa, sairei dela pobre. Ignoro para que fim Deus guiará meus passos; mas meu coração me anuncia que minhas provações não devem estar terminadas e que não expiei suficientemente minhas faltas para com minha família.

Tomou então uma resolução que deveria poupar-lhe o embaraço de uma explicação com Gonzalès; ao romper do dia, saiu da fazenda sem ser notado e afastou-se com toda a pressa.

Após a primeira hora de caminhada, a reflexão iluminou o espírito do fugitivo; o fantasma horrível da miséria ergueu-se diante de seus olhos. João sentiu a necessidade de abraçar uma profissão nova, ou então de colocar-se a serviço de outro mayoral; mas o que desejava sobretudo era deixar o país para não ser trazido de volta pela gratidão à casa de Gonzalès.

Ao entrar em Oropeza, avistou uma companhia de milicianos que ocupava a praça principal, onde executava manobras. João aproximou-se e observou esses exercícios militares. O oficial, cuja tropa não estava completa, pensou logo em fazer a aquisição desse jovem camponês, que prometia tornar-se um soldado vigoroso e determinado. Chamou-o e ofereceu-lhe alistar-se no exército de S. M. Carlos V: — Tão certo quanto me chamo dom Feruz, disse ele, haverá para ti lucro e glória em seguir nossa bandeira; pois vamos ao cerco de Fuenterrabía, nas fronteiras da França.

Alguns dos milicianos que conheciam João Ciudad e sabiam de que favor ele gozava junto ao mayoral, divertiram-se em voz baixa às custas do capitão; mas qual não foi s eu espanto qu Charles-Quint Imperador envolvido nas guerras que levaram à destruição do convento. ando ouviram João responder com gravidade que aceitava as propostas de dom Feruz!... Imediatamente fizeram João vestir uma casaca e puseram-lhe nas mãos uma lança. Daquele momento em diante, ele estava a serviço do rei.

A vida nos acampamentos era então turbulenta e dissipada; a maioria dos recrutas que compunham os exércitos tinha comprometido sua liberdade por um pouco de ouro; eram geralmente vagabundos, pobres estudantes, lacaios sem emprego, ou então aventureiros como os mercenários alemães ou os condottieri italianos; saqueadores descarados, tão perigosos para seus aliados quanto para seus inimigos; impiedosos na vitória, mas cedendo ao primeiro choque dos verdadeiros guerreiros. Lançado no meio desses soldados, João não podia subtrair-se à influência perniciosa de seus maus princípios. Sem imitar suas ações infames, sem sujar seus lábios com os mesmos blasfêmias, não ousava mais, contudo, entregar-se ostensivamente às práticas da religião; escondia-se por ser um homem honesto, como se esconderia por ser um assassino. Logo, até a conduta de seus camaradas causou-lhe menos vivo horror; naquele turbilhão que o arrastava, não ousava mais interrogar-se sobre o estado de sua alma. Mais alguns passos, e talvez tivesse caído no abismo! Uma circunstância ao mesmo tempo funesta e feliz veio arrancá-lo desse perigo.

A companhia carecia de víveres; João foi enviado, como o mais jovem, para buscá-los na aldeia vizinha; estava montado em uma égua recentemente tomada dos franceses. O animal, reconhecendo de longe sua antiga morada, quis voltar para lá; o cavaleiro resistiu; então a égua empinou-se com tal fúria que João foi lançado por ela sobre um monte de pedras. O infortunado perdeu os sentidos. A dor o despertou finalmente, mas foi para mostrar-lhe um novo perigo. O acampamento dos franceses era tão próximo que João podia ouvir o passo das sentinelas. Tremia que um inimigo o avistasse; pois, machucado como estava, não teriam o trabalho de levá-lo, e um golpe de lança teria terminado sua vida. Como evitar esse perigo iminente, já que não podia dar um passo?

Nesse momento a fé inundou-o com seus raios; lembrou-lhe que a melhor proteção desce do céu, e que, na falta dos homens, Deus podia socorrê-lo. Então dirigiu uma fervorosa oração à Santíssima Virgem; mal a tinha terminado, suas forças voltaram miraculosamente; conseguiu chegar às trincheiras espanholas.

A poucos passos dali, sua constância foi ainda posta à prova. Tinham-no encarregado de guardar um rico espólio que deveria ser partilhado entre os homens da companhia. Ladrões astutos apoderaram-se da maior parte desse depósito; João foi acusado de ter sido conivente com os bandidos. Desde então, alvo do desprezo de seus chefes, do ódio de seus camaradas, e não podendo, apesar de seus protestos, lavar-se dessa acusação infame, teve de deixar o serviço.

Os passos errantes de João Ciudad levaram-no de volta à fazenda de Oropeza. Sua chegada foi o sinal da alegria geral. Gonzalès abraçou-o ternamente e renovou-lhe suas propostas: — O tempo não me mudou, disse esse excelente homem; estou ainda pronto a dar-te minha filha com todos os meus bens; reflete maduramente, em vez de fugir como um insensato. — Por que me tenta assim com tanta generosidade? respondeu tristemente João Ciudad. Não compreende que não sou chamado aqui embaixo para desfrutar do repouso que a riqueza proporciona? Seja qual for meu destino, sinto que ele não está cumprido. Há em mim pressentimentos vagos que me agitam e dos quais não me dou bem conta. Ó meu caro mestre! se voltei aqui, foi para revê-lo, e não para tornar-me seu herdeiro.

Contou ao mayoral as circunstâncias que se seguiram à sua partida e acrescentou: — O rei da Espanha propõe-se a fazer guerra aos turcos na Hungria. Embora eu tenha motivo para estar descontente com o serviço militar, contudo marcharia voluntariamente nas fileiras dos soldados de Cristo; parecer-me-á, combatendo os inimigos de nossa santa fé, que me purifico de minhas manchas. Tanto quanto as lutas entre cristãos são odiosas, é nobre derramar seu sangue pela defesa da Igreja. — Vai, meu filho, exclamou o mayoral, é o céu que te inspira! todos os interesses devem calar-se diante de tal empreendimento. Apenas, se algum dia voltares à Espanha, pensa que Gonzalès te receberá sempre com prazer sob seu teto. — Meu principal pesar, disse João, é que ainda não me tenha sido dado rever meus pais. Várias vezes pedi a viajantes que levassem minhas cartas, mas não recebi nenhuma resposta..., e preciso adiar ainda meu retorno a Monte-Mayor! Se eu escapar dos perigos desta guerra, meu primeiro cuidado será voar para os lugares onde nasci, abraçar os seres queridos que me esperam sem dúvida impacientemente... — Encontrá-los-ás? disse o mayoral balançando a cabeça. — Oh! não me inspire esse dúvida cruel... O senhor quebraria toda a minha força.

Conversão 03 / 09

O choque do arrependimento e a dedicação na África

Após descobrir a morte de seus pais, João dedica-se ao serviço de um nobre exilado na África, trabalhando arduamente para suprir as necessidades dos outros.

O sol nascia radiante sobre Monte-Mayor-el-Novo, onde ainda reinava o silêncio. Um homem vestido com uma casaca militar, tendo uma longa espada suspensa a um largo talabarte e segurando na mão um cajado nodoso, entrou na pequena cidade. Este homem tinha o rosto bronzeado, emagrecido e coberto de cicatrizes. Embora parecesse extremamente cansado, apressava o passo à medida que se aproximava da rua afastada onde ficava a casa de André Ciudad. De repente, fez um movimento brusco e soltou uma exclamação viva ao avistar um velho que havia parado para observá-lo — Meu tio Fabrício! exclamou ele. O velho repetiu num tom de espanto: — Eu, seu tio? — Sem dúvida, disse o soldado; estou então tão mudado, que o senhor não me reconhece? — Como! és tu, João?... Depois de tantos anos! De fato, estás muito mudado... Mas o que vens fazer aqui, infeliz? — Pode me perguntar isso?... Venho expressar meu arrependimento aos ternos pais que ofendi. O tio levantou as mãos ao céu e disse: — Eles estão lá, agora... Há muito tempo não sofrem mais.

João seguiu maquinalmente com os olhos os gestos do velho; esta notícia era tão avassaladora que não pareceu, a princípio, tê-la compreendido. — O que me anuncia? perguntou ele. Como! meu pai, minha boa mãe... — Teu pai e tua mãe deixaram este mundo.

Abundantes lágrimas inundaram o rosto de João, e estas palavras entrecortadas escaparam de seu peito oprimido: — Eles morreram! e fui eu quem lhes deu o golpe fatal!... Eles me haviam cumulado de ternura, e eu os paguei com ingratidão!... Contavam comigo para o alívio e a alegria de sua velhice, e eu fugi levando sua felicidade! Não sou mais digno de ver a luz do dia!

Após esta explosão de dor, João recolheu-se um pouco e pediu ao tio que o acompanhasse até o cemitério.

Guiado por Fabrício, chegou logo diante da simples pedra sob a qual repousava a esposa de André. Uma inscrição grosseiramente traçada, e que o tempo havia apagado pela metade, lembrava o nome de Teresa, a data de sua morte, e invocava para ela as orações dos cristãos. Ao redor do modesto monumento, a erva havia crescido espessa; algumas flores silvestres inclinavam seus cálices em direção à grade de madeira.

À vista deste mausoléu, João soltou um grande grito... Seus soluços o sufocavam. Batia no peito, machucava o rosto, chamava sobre sua cabeça o rigor do céu e repetia constantemente: «Fui eu... fui eu quem a matou!... Perdão; perdão!... Ó minha mãe!... Uma eterna penitência!»

Resolvido a chorar este infortúnio, ou melhor, este crime, pois se considerava um parricida que havia matado a mãe pelo desgosto, deixa seu país, passa à Andaluzia e aluga-se a uma mulher rica do território de Sevilha, na qualidade de pastor. Seu desígnio era, sem dúvida, entregar-se aos conselhos da solidão: diante do céu que ultrajou, diante de sua alma, que esqueceu, negligenciou, perdeu, ele geme, ele chora dia e noite, todo o tempo que seu dever lhe deixa livre. Procura como poderá reparar sua ingratidão para com Deus. Vislumbra já vagamente que será pelo sacrifício de si mesmo pelo próximo, a forma mais visível que Deus reveste para se oferecer ao nosso amor. Obedece a esta voz que o chama. Põe-se a caminho da África, onde quer levar socorro aos escravos cristãos, resgatá-los se puder. Em um hospital onde parou, assistiu os pobres e disse em voz alta «que Deus tiraria vingança daqueles que tinham mais cuidado com seus cavalos do que com os pobres e os doentes», e fazia outras advertências semelhantes.

Em Gibraltar, encontrou um fidalgo português, rodeado por oficiais do rei João III. A profunda aflição que se lia nos traços deste fidalgo fixou a atenção de Ciudad. Aproximou-se e, saudando respeitosamente o viajante, disse-lhe: — Senhor cavaleiro, o senhor está sob vigilância:... seria prisioneiro? O fidalgo, longe de se ofender com esta aparente curiosidade, respondeu em meia voz: — Sim, meu amigo... O rei despojou-me de meus bens e condenou-me ao exílio. Levam-me a Ceuta, nas costas da Barbária. Não é minha fortuna que lamento. Já sou idoso... Pouco me importaria terminar meus dias em Portugal ou na África... Mas minha família foi envolvida em minha desgraça... Minha esposa, minhas filhas sucumbirão talvez aos ataques de um clima mortífero... Exilam-nos, e contudo eu não era culpado! — Console-se, pois, senhor. Feliz quem possui a paz da consciência!

O navio que deveria transportar o conde da Silva estando pronto para deixar Gibraltar, os oficiais portugueses ordenaram ao nobre velho que os seguisse, e a João que se retirasse.

Mas este disse com firmeza: — Não tenho o direito de me ligar à pessoa deste fidalgo? Se ele se dignar a aceitar-me como seu servo, acompanhá-lo-ei à África. — Ai de mim, meu amigo, disse por sua vez o comte da Silva Fidalgo português exilado a quem João serviu na África. conde da Silva, não possuo mais nada... Não poderia pagar-te salários. — Que importa!... Ao menos o senhor nunca duvidará do meu zelo.

Quando o navio içou velas e levou o conde com sua família, levava também João Ciudad.

Mal os exilados tinham tocado o solo da África, minados pela miséria, extenuados pelos calores excessivos do clima, adoeceram uns após os outros. A consequência fatal deste estado de coisas foi que o pouco que lhes restara de sua fortuna logo se esgotou. Mas Deus, bom e misericordioso, havia deixado a João a saúde e seus dois braços. Pressionado por uma necessidade extrema, o fidalgo, um dia, levou-o à parte e revelou-lhe todo o horror de sua posição; terminou dizendo-lhe: — Se pudesse resolver-se a trabalhar nas fortificações de Ceuta e a dividir conosco seu salário, estaríamos salvos... tenha piedade de minha esposa e de minhas quatro filhas! João consentiu neste arranjo inaceitável para qualquer outro. Esgotou primeiro todos os seus recursos a fim de suprir as necessidades de seu senhor. Depois, não contente em velar cada noite pelo doente, cumpria durante o dia inteiro os trabalhos mais fatigantes; nenhuma tarefa o desencorajava: era ele quem se via primeiro no porto, pronto para alugar seus braços para descarregar os navios. Era preciso armar-se com uma picareta e abrir uma estrada, ou trabalhar nas muralhas: ele dava aos trabalhadores o exemplo do ardor. Enfim, parecia incansável. Um dia em que João não havia encontrado trabalho, consolou seu senhor e alimentou-o com uma parte de suas roupas que vendeu. Apesar de suas numerosas ocupações, encontrava ainda meios de penetrar nas prisões e de fazer ouvir aos cativos palavras consoladoras. Lá, sentado sobre a pedra fria, ao lado dos sofredores, derramava lágrimas com eles; sua caridade inteligente havia lhe ensinado a arte de cuidar de suas feridas. Ele era, ao mesmo tempo, para eles, o médico da alma e o médico do corpo.

O conde da Silva sentiu chegar o termo de seus males. João não o havia deixado um só momento desde que reconhecera a gravidade de seu estado. Aproveitando um resto de força, um último sopro de vida, o exilado disse ao seu fiel servo: — Quero agradecer-te, tu que foste meu verdadeiro amigo,... tu que me mostraste uma dedicação à prova de tudo. Antes que nos separemos, recebe meus agradecimentos, minhas bênçãos. Tua parte na terra é modesta, será magnífica no céu. Lá, não há mais distinção de classe nem de fortuna... Irmãos, eleitos, um Deus!... Não te preocupes com a sorte de minha família... O capitão Martinez me informou que o rei se digna a chamá-la de volta a Portugal e a devolver-lhe uma parte de seus bens... Se quiseres segui-la, teu futuro estará assegurado. — Não, digno senhor, respondeu João. Esta calma não é feita para mim. Minhas provações terminariam cedo demais. Uma vez já recusei a fortuna, e me congratulo por isso. Se eu fosse rico ou mesmo simplesmente abrigado da necessidade, talvez não sentisse mais a mesma comiseração pelas penas alheias. Devo viver e morrer pobre. — E eu, murmurou o conde, uma voz do céu me diz que serás um dos mais gloriosos apóstolos de que a Espanha jamais se honrou. Sim, serás grande diante de Deus e diante dos homens!

Missão 04 / 09

A visão da romã e a loucura por Cristo

Uma visão do Menino Jesus chama-o a Granada, onde um sermão de João de Ávila o impele a uma penitência pública extrema, percebida como loucura.

No entanto, um de seus companheiros de trabalho tendo abjurado o cristianismo para se tornar muçulmano, o confessor de João aproveitou a oportunidade para expor-lhe o perigo de viver em contato com infiéis e determinou que ele retornasse à Europa. Cedendo a esses conselhos, nosso Santo voltou para a Espanha.

O navio em que estava foi surpreendido por uma tempestade tão furiosa, na passagem do estreito de Gibraltar, que não se esperava mais do que a hora da morte. João, atribuindo esse infortúnio aos seus pecados, pediu ao piloto que o jogasse ao mar para fazer cessar a tempestade; e ele o havia persuadido tanto que estavam prestes a fazê-lo, quando João, tendo implorado o socorro da Santíssima Virgem e dito uma Ave-Maria, a tempestade acalmou-se subitamente.

Não tendo mais com que subsistir, nosso Santo, quando desembarcou na Espanha, vendia imagens de papel e pequenos livros, particularmente catecismos: quando compravam dele essa piedosa mercadoria, ele não a entregava sem fazer alguma exortação à virtude. Um dia, enquanto ia vender imagens em um povoado, Jesus Cristo apareceu-lhe sob a figura de um menino mal vestido e com os pés descalços; ele teve compaixão, carregou-o sobre os ombros com seu fardo e o levou, suando sob o peso; de modo que, após ter caminhado um pouco, precisou descansar e se refrescar em uma fonte que estava bem próxima. Pediu então ao pequeno menino que descesse, mas Jesus aproveitou essa ocasião para se dar a conhecer, mostrou-lhe uma romã aberta , no me Grenade Cidade sob domínio mouro da qual foi bispo e onde foi martirizado. io da qual estava a figura da Cruz, e disse-lhe estas palavras: «João de Deus, Granada será a tua cruz»; após o que desapareceu. O Santo, conhecendo por isso a vontade de Deus, dirigiu-se prontamente a Granada, alugou uma pequena loja sob a porta de Elvira e continuou a vender suas imagens, até que Nosso Senhor o fizesse empreender outra coisa para sua glória; o que aconteceu algum tempo depois.

O doutor João de Ávila, tão célebre pela santidade de Jean d'Avila Pregador cuja oração fúnebre marcou Francisco. sua vida e pela eminência de sua doutrina, pregava, no dia de São Sebastião, em uma ermida dedicada a sua honra. João, por uma disposição particular da divina Providência, encontrava-se em seu sermão; sentiu-se fortemente tocado pela palavra de Deus, que lhe atravessou o coração tão felizmente quanto as flechas dos soldados haviam atravessado o corpo de São Sebastião; resolveu, na hora, sofrer todo tipo de injúrias e penas, à imitação do Santo cujas virtudes ouvia pregar. Pressionado por um extremo arrependimento de suas faltas passadas e por um ardente desejo de suportar algo para satisfazê-las, assim que a pregação terminou, saiu para a rua, gritando com todas as suas forças: «Misericórdia, Senhor, misericórdia, a este grande pecador que vos ofendeu!» e foi assim por toda a cidade, arrancando os cabelos, batendo no rosto e rolando na lama e contra o pavimento. Isso o tornou objeto de riso do povo e das crianças, que o tomavam por um louco; de fato, ele não esqueceu nada para dar mais crédito a essa opinião. Um dia entrou na igreja catedral e, lançando-se ao chão, gritou ainda mais alto do que antes: «Misericórdia! misericórdia!» Algumas pessoas piedosas, movidas de compaixão à vista de um objeto tão extraordinário, acreditando que ele havia efetivamente perdido o juízo, fizeram com que fosse conduzido caridosamente ao hospital destinado aos insanos. João, feliz por se ver assim desprezado, continuou a fazer o louco; de modo que se acreditaram obrigados a empregar nele os remédios mais violentos, como açoitá-lo todos os dias até o sangue. Ele suportava esse castigo com uma paciência admirável e, entre suas extravagâncias, dizia às vezes: «Batam, batam nesta carne rebelde; é justo que ela suporte a pena do mal que fez». Recebeu mais de cinco mil golpes, e teriam continuado a maltratá-lo se o Pe. Ávila, sob cuja direção ele estava, advertido da crueldade que exerciam sobre ele, não o tivesse feito entender, da parte de Deus, que era hora de pôr fim à sua loucura voluntária e de se empregar em algo mais útil para si e para o próximo.

Ao sair do hospital, fez a viagem a Nossa Senhora de Guadalupe, para render graças à santíssima Virgem pelos favores que havia recebido de seu Filho por sua intercessão e pelos perigos que havia evitado por seu socorro. No caminho, o demônio apareceu-lhe sob a figura de um senhor e apresentou-lhe uma bolsa cheia de dinheiro, pedindo-lhe que a recebesse para suprir suas necessidades, que eram extremas; mas o Santo respondeu-lhe que a pobreza que havia prometido a Jesus, seu mestre, proibia-o de aceitar qualquer dinheiro, a não ser com a condição de distribuí-lo aos padres da igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, para mandar rezar missas em honra de Maria, Rainha dos céus; o demônio desapareceu, não podendo ouvir os nomes de Jesus e Maria. Assim que pôde descobrir a igreja, prostrou-se contra a terra, beijou-a várias vezes e arrastou-se de joelhos até a porta. Em seguida, redobrando o fervor de sua devoção, foi saudar o santo Sacramento e de lá fazer sua oração na capela da Virgem. Como recitava o Salve Regina, nestas palavras: «Volvei a nós os vossos olhos misericordiosos», o véu que cobria a imagem retirou-se para lhe dar o meio de vê-la; o sacristão, tendo corrido ao ruído que a cortina havia feito e não vendo ninguém além de João de Deus, tomou-o por um ladrão e levantou o pé para expulsá-lo; mas sua perna tendo ficado subitamente paralisada, ele não pôde ser curado senão pela oração do Bem-aventurado: o que fez conhecer o mérito de sua santidade.

Fundação 05 / 09

Fundação do primeiro hospital

Em 1540, João fundou um hospital em Granada para os pobres e doentes, recebendo o apoio do arcebispo e o nome de 'João de Deus'.

Ao retornar desta piedosa excursão, que havia prolongado até Oropeza para rever seus antigos benfeitores, e até Baëça para se apresentar a João de Ávila, começou a vender no mercado de Granada a madeira que ia cortar em uma floresta, e consagrou o ganho que retirava de sua venda diária para alimentar vários pobres. Alguns meses depois, em 1540, alugou uma casa no mercado de peixes, não longe da catedral, para ali receber pobres doentes e enfermos, e com uma esmola de trezentos reais que lhe fora entregue por um padre da capela real, montou quarenta e seis leitos, cada um guarnecido com uma esteira, lençóis, cobertores e um travesseiro. Sozinho, supriu os cuidados multiplicados que todos esses doentes exigiam, aliviando-os em seus sofrimentos, preparando sua comida, arrumando suas camas; em uma palavra, soube prover com tanta inteligência às prementes necessidades dos infelizes que havia acolhido, que os habitantes de Granada, grandemente edificados por seu zelo, apressaram-se em competir para ajudá-lo em sua caridosa empresa. O próprio arcebispo, Dom Pedro Guerrera, tendo sido informado de tudo o que se passava, quis visitar o estabelecimento fundado por João e, satisfeito com a ordem admirável com a qual era administrado, tomou este estabelecimento sob sua proteção, deu somas consideráveis para assegurar-lhe uma existência estável e, a seu exemplo, várias pessoas ricas da cidade dotaram igualmente o novo hospital.

Para procurar alimentos convenientes aos infelizes doentes que enchiam sua casa, João, com um cesto nas costas e uma panela em cada braço, percorria as ruas de Granada gritando: «Meus irmãos, pelo amor de Deus, façam o bem a si mesmos».

Esta nova maneira de pedir esmola teve o poder de uma varinha mágica; tão verdadeiro é que, na maioria dos homens, o interesse pessoal é o móbil das ações, mesmo das melhores.

No curso de uma dessas coletas, João foi retido para jantar por Dom Sebastião Ramirez, bispo de Tuy e presidente da chancelaria real de Granada. Tendo o prelado lhe perguntado como se chamava, nosso Bem-aventurado respondeu ingenuamente que a pequena criança que o havia enviado a Granada o chamara de João de Deus, mas que, como esse nome não poderia convir a um homem tão pouco virtuoso quanto ele, não ousava portá-lo.

O bispo , admirando Jean de Dieu Fundador da ordem hospitalar epônima. essa profunda humildade, ordenou-lhe que o portasse no futuro e que se fizesse chamar João de Deus, se não quisesse desautorizar o Mestre a quem servia. «A Deus não apraza, Monsenhor», respondeu o Bem-aventurado; «já que é sua vontade, eu o quero bem, embora eu seja indigno de ser o servo de um tão grande Mestre». E este prelado, tendo notado que ele não usava outro hábito senão o do pobre a quem dava o seu, mandou comprar-lhe uma túnica de pano grosso, com um pequeno manto que o fez vestir após tê-lo abençoado; e, desde então, nosso Santo nunca mais usou outro.

Missão 06 / 09

Uma caridade universal e milagrosa

João multiplica as ações em prol dos órfãos, das prostitutas e dos necessitados, vivenciando milagres como o lava-pés de Cristo disfarçado de pobre.

A solicitude de João não se limitava apenas aos doentes do seu hospital, estendia-se ainda a todos os infelizes que encontrava, a todos aqueles que solicitavam a sua caridade tão ardente. Ele despia-se para cobri-los, entregava-lhes todo o seu dinheiro e, por vezes, quando já não tinha nada para distribuir, entregava-lhes um bilhete assinado de próprio punho, que endereçava a uma pessoa piedosa, pedindo-lhe que socorresse o portador daquele bilhete. Foi assim que, ao regressar um dia, por volta do meio-dia, ao seu hospital, com o pão necessário para o jantar dos seus doentes, viu-se rodeado na rua por um grupo de operários sem trabalho, que lhe suplicaram que tivesse piedade da sua profunda miséria. Profundamente comovido com as queixas daqueles pobres operários, João de Deus deu-lhes todo o pão que trazia; e como esse socorro lhe pareceu ainda insuficiente, acrescentou doze reais, o único dinheiro que tinha consigo. Noutra ocasião, foram jovens órfãos, cobertos de trapos repugnantes, que encontrou num vilarejo próximo de Granada, e cujo estado miserável lhe inspirou uma piedade tão profunda que, conduzindo-os imediatamente a uma loja de roupas usadas, vestiu-os inteiramente. E se esses infelizes abusavam da boa-fé de João de Deus, se o avisavam de que as suas esmolas eram mal empregadas, ele respondia: «Isso não é problema meu; o que dou, faço-o sempre por amor a Deus». Procurava por toda a parte os pobres envergonhados e ia levar-lhes consolações aos lugares onde se escondiam; ou então, todas as noites, ao cair da noite, passeava em torno do seu hospital e encontrava frequentemente pessoas honestas de diversas condições, que o esperavam à parte para lhe confiar a sua pobreza solitária. Ora era um burguês da cidade envolvido num processo que a avareza do juiz tornava interminável, e que recebia o dinheiro necessário para terminar esse processo; ora era uma jovem de família nobre que carecia de dote para entrar na vida religiosa, e a quem João de Deus abria as portas de um mosteiro; ora era uma pobre viúva que não tinha podido pagar o seu aluguel, um camponês, arruinado por uma má colheita, que não podia pagar as suas dívidas, e ambos retiravam-se satisfeitos. Não havia até o soldado endividado por falta de soldo cujas despesas ele não pagasse, até o pobre estudante que ele não socorresse ao domicílio. Outra obra muito difícil, a conversão de mulheres e moças devassas, excitava ainda o seu zelo. Primeiro, mantinha-se nas proximidades de um bairro de má fama, detinha todos os que para lá se dirigiam e, lançando-se aos seus joelhos, suplicava-lhes que renunciassem ao desígnio que os conduzia a tal lugar. Se persuadia a maioria, era frequentemente também vaiado, repelido, ultrajado mesmo; no entanto, continuava corajosamente esta prática caridosa e, mais tarde, quando já não tinha nada a temer da opinião pública, ousou penetrar nas casas onde essas infelizes pecadoras exerciam o seu infame ofício; apresentava-se com o crucifixo na mão, falava-lhes com tanta veemência dos juízos de Deus, que as forçava a corar do seu estado, a abandoná-lo. Então, alimentava-as para impedi-las de recair na desordem, colocava-as depois em algum convento, ou então casava-as por vezes. Mas esta obra oferecia grandes dificuldades, e João de Deus experimentou frequentes desilusões. Uma vez, tendo quatro mulheres pedido que as afastasse do teatro das suas desordens a fim de se converterem mais facilmente, conduziu-as a Toledo e alugou cavalos para lhes proporcionar um transporte mais cômodo, enquanto ele e o seu companheiro seguiam a pé. Quando chegaram, três dessas mulheres desapareceram, apenas uma perseverou no seu piedoso projeto; e como o companheiro de João de Deus se queixava de ter feito uma viagem inútil, ele respondeu: «Teremos ganho muito se, pelos nossos cuidados, pudermos salvar uma alma»; depois acrescentou: «Se nos enviassem do porto de Motril quatro cargas de peixe para o hospital, e se encontrássemos três estragadas, não ficaríamos, contudo, muito satisfeitos por receber uma carga de bom peixe?». As crianças de tenra idade tinham igualmente uma parte nas suas solicitudes; pois, tendo sabido que uma menina, nascida há poucos dias apenas, ficara órfã e não tinha ninguém que quisesse cuidar dela, dirigiu-se imediatamente ao local, levou a criança no seu hábito e colocou-a numa ama no vilarejo de Gavia, perto de Granada. A ama não tendo correspondido à expectativa de João de Deus, procurou outra mais cuidadosa e continuou a vigiar a educação dessa pobre pequena órfã, chamada Geneva Pulida. Fez ainda mais, e confiando a um negociante probo uma soma de cinquenta ducados para que os fizesse prosperar no seu comércio em benefício da sua protegida, pôde casá-la e proporcionar-lhe assim um estabelecimento muito vantajoso. Finalmente, a sua caridade era tão vasta que compreendia até os mortos. Fazendo a sua esmola habitual, atravessava um bairro pobre e deserto de Granada e encontrou o cadáver de um infeliz que jazia abandonado na via pública, sem mortalha e sem sepultura. Aflito com tal espetáculo, correu a casa de um personagem rico e pediu-lhe que lhe desse a soma necessária para sepultar aquele corpo morto; não tendo recebido senão uma resposta seca, voltou para junto do cadáver, que carregou sobre os seus ombros, e veio depositá-lo no limiar desse rico impiedoso, dizendo-lhe: «Como o senhor tem os meios que eu não tenho de prestar os últimos deveres a este morto, que é seu irmão tanto quanto o meu, conjuro-o a fazê-lo em nome de Deus, ou então deixo-o aqui». Estas palavras, e sobretudo a ação enérgica que as acompanhava, apavoraram a tal ponto aquele a quem João se dirigia, que obteve uma larga esmola para enterrar convenientemente o pobre infeliz de quem tinha recolhido os restos mortais. Todos os hagiógrafos que escreveram a vida de São João de Deus dizem que, novo Tobias, recebeu nesta ocasião um testemunho sensível de Deus, e relatam que, poucos dias após o evento que precede, tendo João encontrado no pavimento o corpo de um infeliz, percebeu que ainda respirava. Levou-o suavemente para o seu hospital, colocou-o numa cama e, enquanto beijava religiosamente os pés desse moribundo, depois de os ter lavado, recebeu uma claridade divina que o fez ver sobre esses pés os santos estigmas do crucificamento todos brilhantes de luz. Reconheceu então que era a Jesus Cristo que acabava de lavar os pés, e imediatamente o divino Redentor disse-lhe: «João, o bem que fazes aos pobres é feito a mim mesmo; sou eu quem recebe a esmola que lhes dás, que se cobre com as roupas com que os vestes, e tu lavas-me os pés tantas vezes quantas cumpres este cuidado caridoso para com um pobre». A estas palavras, o doente desapareceu, e João permaneceu com a alma penetrada de uma alegria tão celeste, de um desejo tão vivo de aliviar o seu próximo, que, tendo ocorrido um incêndio no grande hospital de Granada, viram-no lançar-se por diversas vezes no meio das chamas para arrancar à morte um grande número de doentes. Envolvido de todos os lados pelo fogo que tinha transformado os edifícios do hospital num braseiro ardente, permaneceu lá mais de meia hora, de tal modo que se pensou por um instante que tinha perecido vítima da sua dedicação; e quando reapareceu, não se constatou outra queimadura nele senão a das suas sobrancelhas. Apesar do tempo que empregava na realização de todas estas boas obras, fazia, no entanto, todos os dias uma esmola pelas ruas de Granada, e essa esmola era ainda mais para ele uma ocasião de mostrar a sua paciência, a sua humildade. Um dia, ao passar na rua Gomelez, foi empurrado pela multidão em frente a um senhor que subia a rua a pé. João de Deus apressou-se a desviar-se para dar passagem a esse senhor; mas, na sua precipitação, um cesto largo que trazia ao braço enganchou-se no manto do fidalgo e tirou-lho do ombro. Este apostrofou rudemente o miserável desconhecido que tinha diante de si; mas a sua cólera tornou-se mais viva quando João de Deus lhe disse, seguindo o seu costume de se expressar: «Perdão, meu irmão». Então, deu uma bofetada ao audacioso que o tratava tão familiarmente; e como não recebia desculpas, e João lhe respondia: «Eu bem a mereci, pode dar-me uma segunda», fez sinal aos seus criados para castigarem aquele homem insolente e grosseiro. Os criados apressaram-se a fazer chover golpes sobre aquele que o seu mestre tinha designado, quando um homem honrado da vizinhança acorreu e pronunciou o nome de João de Deus. A este nome venerado em toda a Granada, o senhor voltou-se estupefato e consternado; quis lançar-se aos joelhos de João, que o levantou abraçando-o, e separaram-se pedindo perdão mutuamente. No dia seguinte, João de Deus recebeu um convite para jantar daquele fidalgo, que lhe enviou além disso cinquenta escudos de ouro. Outro dia, ao atravessar o pátio do velho palácio da inquisição, um lacaio empurrou-o bruscamente para dentro de um tanque cheio de água, e ele saiu sem manifestar a menor emoção, sem dar o menor sinal de descontentamento. Noutra circunstância, tendo um homem atirado uma pedra ao seu rosto, ele desculpou-o dizendo que podia bem perdoar àquele homem uma ofensa única, ele que tinha tantas a perdoar diante de Deus. Suportava, enfim, com a maior calma as palavras ultrajantes daqueles que recusavam participar na sua esmola; mas toda a pessoa de João de Deus respirava uma virtude tão alta, tão venerável, que, na maioria das vezes, ele dobrava sob o peso das esmolas; então, regressava muito tarde ao seu hospital e, embora estivesse sobrecarregado de fadiga, passava uma parte da noite à cabeceira dos doentes, entretendo cada um em particular, prodigalizando-lhes consolações, mostrando-lhes, numa palavra, o mais terno interesse. Sem crédito e sem autoridade, não possuindo nem bens nem rendimentos, era o único a preocupar-se com os meios de dar os alívios necessários aos infelizes que afluíam em tão grande número ao seu hospital, que por três vezes teve de ser transferido para edifícios mais vastos. Na sequência de uma dessas transferências, tinha mesmo ido a Valladolid, onde se encontrava a corte de Espanha, para obter socorros e, acolhido muito favoravelmente, recebeu abundantes esmolas dos infantes de Espanha e dos senhores que os acompanhavam. Mas a sua caridade não podendo sofrer a visão dos infelizes sem os assistir, distribuiu tão liberalmente tudo o que lhe deram, que teve em pouco tempo, em Valladolid, quase tantos pobres envergonhados para alimentar quantos tinha em Granada. E como o seu companheiro lhe repreendia que devia reservar aquele dinheiro para o seu hospital: «Meu irmão», disse-lhe ele, «que se dê aqui ou em Granada, é sempre dar para Deus, pois Ele está em todos os lugares e em todos os pobres».

Teologia 07 / 09

Ascetismo e ataques demoníacos

O santo leva uma vida de severas mortificações e sofre agressões físicas e tentações por parte do demônio.

Este sentimento de compaixão que ele tinha pelos outros não se estendia a si mesmo e, se era tão doce para com o próximo, era extremamente severo para com o seu próprio corpo. Fazia todo o possível para deitar os doentes de forma macia e confortável; quanto a ele, tinha apenas uma esteira e uma pedra como cama e travesseiro. Todo o seu vestuário consistia em uma túnica de tecido grosso, e nunca usava linho ou qualquer tecido fino; andava sempre descalço e com a cabeça descoberta, independentemente do tempo que fizesse. Sua alimentação habitual era apenas um pouco de legumes; e, ainda assim, nunca comia mais de um tipo em cada refeição; e, quanto às sextas-feiras, passava-as sempre apenas a pão e água. Em uma palavra, tratava o seu corpo como um escravo a quem, segundo a palavra do Sábio, depois do pão, não se deve poupar a disciplina nem o trabalho. É por isso que não lhe poupava este tipo de mortificação; não parava de se açoitar senão quando o sangue corria do seu corpo em abundância.

Estes eram os seus exercícios exteriores: eles não o privavam dos interiores, aos quais se dedicava noites inteiras. Empregava na oração todo o tempo que lhe restava depois de ter assistido os doentes, e quando o sono o pressionava, dizia em voz alta, para se despertar: «Ah! quão indigno é, para aquele que quer servir a Deus, pensar em dormir». O seu fervor, durante as suas orações, transparecia pelas lágrimas que corriam dos seus olhos e pelo esplendor extraordinário que brilhava no seu rosto.

Tão felizes progressos foram logo atravessados pelo inimigo comum da salvação dos homens, pois ele atacou o servo de Deus por todos os meios, e, primeiramente, pelas mulheres devassas que ele tinha retirado do vício. Abusando da sua bondade, elas insultavam-no sem cessar com palavras cheias de ultrajes, e chamavam-no de hipócrita, de beato, quando não tinham o que pediam conforme o seu desejo; mas o Santo apenas ria, e estava tão persuadido de que lhe faziam justiça, que uma vez deu dois reais a uma dessas criaturas, para que ela dissesse em voz alta, no meio da rua, os insultos que lhe dizia em particular. E um homem honesto, tomando um dia o seu partido, o Bem-aventurado pediu-lhe que não o fizesse: «Conjuro-o pela caridade», disse-lhe ele, «deixe-as fazer; elas conhecem-me melhor do que o senhor, e sabem que sou o homem mais perverso do mundo».

Finalmente, o demônio, vendo que nada podia através dos homens, quis atacá-lo por si mesmo. Com efeito, uma noite em que o servo de Deus fazia a sua oração, apareceu-lhe sob uma forma hedionda que lançava fogo pela boca, e maltratou-o tão cruelmente que os irmãos, acorrendo ao ruído, encontraram-no todo em prantos, cansado e abatido, e exclamando, com os olhos fixos num crucifixo: «Jesus, livrai-me de Satanás! Jesus, estai comigo!» Pouco tempo depois, ele voltou ao seu quarto, sob a figura de uma jovem; mas o Santo, reconhecendo, pelas suas respostas, quem ele era, invocou o nome de Jesus e fez o fantasma desaparecer. Outra vez, tomou a aparência de um pobre que pedia esmola; mas o bem-aventurado João recusou-se a dá-la, a menos que ele a pedisse por amor de Deus; o demônio desferiu-lhe um golpe tão rude contra o estômago que o fez recuar muito longe. Em uma palavra, perseguiu-o tanto que o Santo ficava, por vezes oito dias, por vezes um mês, a recuperar dos golpes que tinha recebido.

Vida 08 / 09

Último sacrifício e reconhecimento eclesial

João morre em 1550 após tentar salvar um homem que se afogava. Ele é beatificado em 1630 e canonizado em 1690.

Mas se Deus, para provar a virtude de seu servo, permitia que ele fosse afligido dessa maneira, não deixava, por outro lado, de consolá-lo de várias formas, por graças e favores particulares, e sobretudo por uma abundância milagrosa de esmolas para o sustento de seus pobres. João de Deus encontrou um dia Dom Pedro Henriquez, marquês de Tarisa, que jogava com outros senhores; todos eles lhe deram, como esmola, até vinte e cinco ducados; à noite, o marquês foi ao hospital, disfarçado, e, fingindo ser um pobre fidalgo caído em necessidade, pediu-lhe que tivesse piedade dele e lhe desse socorro. O Santo, tocado pela compaixão, disse-lhe: «Espere Naquele que não desespera ninguém, e em quem os mais desesperados encontram sua consolação e o remédio para suas infortúnios: eis o que acabaram de me dar»; e ele lhe deu efetivamente vinte e cinco ducados. Henriquez os recebeu e foi mostrá-los aos outros senhores; no dia seguinte, voltou a ver o Santo e devolveu-lhe os vinte e cinco ducados; deu-lhe ainda cento e cinquenta escudos de ouro, mandou-lhe enviar cento e cinquenta pães, quatro carneiros e oito galinhas, e ordenou ao seu mordomo que lhe desse essa provisão todos os dias, enquanto permanecesse em Granada.

Ele também teve o dom da profecia, seja para descobrir segredos presentes, seja para prever o futuro: pois declarou em particular a várias pessoas pecados enormes que elas escondiam ao se confessarem, o que serviu para sua perfeita conversão. Estando no leito de morte, viu com os olhos do espírito um pobre tecelão que ia se enforcar em uma árvore de seu jardim: o Santo pediu seu hábito, vestiu-se, correu em socorro desse miserável e o libertou. Ele previu, antes de seu falecimento, que várias pessoas, cheias de zelo pelo serviço dos enfermos, estabeleceriam, a seu exemplo, no mundo, uma congregação que se dedicaria a esse ministério: e viu-se isso cumprir-se pelos cuidados do Papa Paulo V, que erigiu sua Ordem em uma verdadeira congregação, sob a regra de Santo Agostinho: esses religiosos obrigam-se, a lém d Ordre Ordem religiosa hospitalar fundada com base no exemplo de João de Deus. os três votos ordinários de obediência, castidade e pobreza, a um quarto, de hospitalidade para com os pobres enfermos; o que o Papa Pio V já havia concedido para a Espanha, por uma Bula de 4 de janeiro de 1572.

É ainda uma graça particular o cuidado com que a divina Providência o exaltava quando ele se humilhava, ou quando se expunha ao desprezo, ou quando seus inimigos queriam sobrecarregá-lo. Eis ainda um exemplo: Acusaram-no, junto ao arcebispo de Granada, de manter em seu hospital ociosos e pessoas de má vida, que comiam o pão dos pobres; o arcebispo mandou chamá-lo para que se justificasse. O Santo obedeceu e, indo encontrar o prelado, disse-lhe no tom mais natural do mundo que não conhecia ninguém no hospital que não fosse de boa vida; e que ele próprio era tão inútil e vicioso que não merecia ali se hospedar. Essa humildade encantou tanto o arcebispo que ele lhe disse estas palavras: «Irmão João de Deus, governe sua casa como bem entender, eu lhe dou o poder; e, quanto a mim, confio inteiramente em você».

Além de todas as graças de que falamos, Nosso Senhor quis honrá-lo várias vezes com sua presença sensível. Como ele rezava um dia diante do crucifixo na igreja de Nossa Senhora, pareceu-lhe ver Jesus Cristo, acompanhado da Santíssima Virgem e de São João Evangelista; a Santíssima Virgem, vindo a ele com uma coroa de espinhos na mão, colocou-a com força sobre sua cabeça, dizendo-lhe: «João, é pelos espinhos e pelos sofrimentos que deves merecer a coroa que meu Filho te reserva no céu». E, ao mesmo tempo, sentiu dores muito agudas; mas seu amor fê-lo responder: «Receberei de vossa amável mão esses espinhos e esses sofrimentos como belas flores e agradabilíssimas rosas».

Mas tantos trabalhos, somados às rudes mortificações que João de Deus se impunha, esgotaram logo suas forças, e um ato dessa ardente caridade que o consumia veio ainda apressar seu fim já prematuro. Durante o inverno de 1550, o Xenil, que corre sob as muralhas de Granada, arrastava uma grande quantidade de madeira em suas águas torrenciais, inchadas pelo degelo da Serra Nevada. João, desejando utilizar essa madeira para o serviço de seu hospital, entrou no rio, e o frio que sentiu determinou nele um tremor tão violento que tiveram de retirá-lo da água; mas, percebendo que um servo do hospital havia avançado imprudentemente no meio da torrente, precipitou-se novamente no Xenil para tentar arrancar da morte esse jovem, que desapareceu arrastado pelas correntes. Desesperado por não ter conseguido realizar seu caridoso desígnio, João de Deus caiu em profundo abatimento, e sua indisposição fez grandes progressos em poucos dias, porque ele foi visitar todos aqueles de quem era devedor, a fim de acertar suas contas. Logo ficou tão gravemente doente que, apesar dos cuidados dedicados de uma dama virtuosa, chamada Ana Ossorio, que quisera recebê-lo em seu palácio para que fosse melhor assistido em sua doença, seu estado piorou tanto que não restou nenhuma esperança de conservá-lo. Imediatamente viu-se a corte e a nobreza se apressarem ao redor do leito de João de Deus; os magistrados de Granada correram para pedir-lhe que desse sua bênção à cidade, e o arcebispo, Dom Pedro Guerrera, veio administrar ele mesmo este indigente vendedor de livros e imagens, este humilde mercador de madeira, este pobre soldado, este homem obscuro, enfim, que a caridade cristã havia transformado e de quem fizera um santo ilustre.

O arcebispo quis ele mesmo dar-lhe os últimos Sacramentos: confessou-o e, ao final da missa que disse no quarto do enfermo, deu-lhe a comunhão e, algum tempo depois, deu-lhe a Extrema-Unção. Quando lhe perguntou se não tinha nada no coração, o Santo lhe fez esta bela resposta: «Não há senão três coisas que me dão inquietação: a primeira, que tendo recebido muitas graças de Deus, não as reconheci, não lhe tendo prestado senão serviços muito pequenos; a segunda, que as mulheres que retirei do vício e os pobres envergonhados não sofram muito após minha morte; e a terceira, que aqueles a quem devo não sejam pagos pelo que me emprestaram para alimentar os pobres». O arcebispo, desfazendo-se em lágrimas, exortou-o à confiança na misericórdia de Deus e prometeu-lhe ser o protetor de seus pobres e pagar as dívidas do hospital.

Finalmente o Bem-aventurado, sentindo aproximar-se a hora de seu falecimento, fez com que todos saíssem de seu quarto, levantou-se, pôs os joelhos em terra; e, abraçando um crucifixo, entregou a alma ao seu Criador, pronunciando estas docíssimas e amorosíssimas palavras: «Jesus, Jesus, recomendo minha alma em vossas mãos!». Era sábado, 8 de março de 1550, pouco tempo depois da meia-noite. Ele foi beatificado por Urbano VIII, em 1630, e canonizado por Alexandre VII, em 1690.

Legado 09 / 09

A Ordem dos Irmãos da Caridade

Sua obra perdura através da Ordem dos Irmãos Hospitalários, reconhecida pelos papas e difundida mundialmente, notadamente na França.

São João de Deus é especialmente honrado em Granada. Os livreiros também se colocaram sob sua proteção, porque ele havia sido por algum tempo vendedor ambulante de livros e imagens religiosas.

Ele é representado com uma corda ou correia passada ao redor do pescoço, de onde pende o pote de barro que lhe servia para recolher as esmolas. Em sua mão esquerda, uma romã, ordinariamente encimada por uma cruz, recorda que uma voz do céu lhe disse, em meio às suas indecisões: «Granada será tua cruz». Foi, de fato, na cidade de Granada que ele estabeleceu seu primeiro hospital. É figurado sendo coroado de espinhos pela mão da Virgem e de São João Evangelista. Vê-se também carregando homens em suas costas. — Cartas patentes de Luís XIII, expedidas do acampamento diante de La Rochelle, em 15 de fevereiro de 1631, permitiam aos Irmãos da Caridade estabelecidos na França afixar «as armas, estandartes e bastões reais nas portas e lugares eminentes dos conventos e hospitais que desejassem». Devido a este privilégio, os religiosos de São João de Deus adotaram como armas o escudo da França com uma romã de ouro encimada por uma cruz, no meio de três flores-de-lis, com estas palavras como lema: *Reges cœli et terrœ dederunt*: «Os reis do céu e da terra no-lo deram».

Em sua profunda humildade, o santo fundador da Ordem da Caridade nunca havia concebido o pensamento de estabelecer uma nova congregação religiosa na Igreja; ele queria apenas formar uma sociedade de pessoas seculares para servir aos diversos empregos de seu hospital. Por isso, durante sua vida, não deu outro regulamento aos seus discípulos senão o exemplo de suas virtudes a imitar; e a regra que leva seu nome só foi feita em 1556, isto é, seis anos após sua morte. Mas o Papa Pio V, ao aprovar a Ordem da Caridade, por uma bula de 1º de janeiro de 1571, impôs aos religiosos desta Ordem a obrigação de seguir a regra de Santo Agostinho. Prescreveu-lhes, além disso, a forma do hábito que deveriam usar, autorizou-os a promover às ordens sacras, em todos os hospitais da Ordem, um religioso para administrar os sacramentos; permitiu-lhes fazer esmolas e, finalmente, submeteu todos os estabelecimentos dos Irmãos da Caridade à jurisdição do ordinário.

Na Espanha, chamam os religiosos de São João de Deus de Irmãos hospitalários; na França, Irmãos da Caridade; na Itália, Fate ben, Fratell i (fazei o bem, Irm Frères hospitaliers Ordem religiosa hospitalar fundada com base no exemplo de João de Deus. ãos), ou simplesmente Ben Fratelli.

No final do século XVIII, a Ordem contava na Europa e na América 281 hospitais, 2.915 religiosos e 10.689 leitos; na França, onde haviam sido chamados por Maria de Médici, havia 335 religiosos, encarregados de servir 3.181 leitos, distribuídos em 36 casas diferentes. Em Paris, os Irmãos da Caridade desempenhavam em parte as funções dessa administração complicada e custosa que chamamos hoje de Assistência Pública.

A igreja da Caridade, em Paris, possuía o *radius* do braço de São João de Deus: esta relíquia e outras ainda, os quadros, as esculturas que decoravam a capela dos Irmãos hospitalários, foram destruídos ou dispersados durante o furacão revolucionário do final do século XVIII; mas o edifício ainda existe e, após ter sofrido diversas transformações, é ocupado pela academia de medicina, que ali realiza suas sessões. Poucas pessoas sabem hoje por que o hospital da rua dos Saints-Pères (corrupção de Saint-Pierre) ainda se chama *Hôpital de la Charité*; é porque, antes da Revolução, ele era confiado aos Irmãos de São João de Deus.

Após 1789, o hospital da Caridade perdeu se u nome e tornou-se *H Hôpital de la Charité Hospital parisiense outrora gerido pelos Irmãos de São João de Deus. ôpital de l'Unité*, título que conservou até 1802; mas, desde o mês de fevereiro de 1801, passou sob a direção da *Administração dos hospitais e hospícios civis de Paris*, que acabava de ser organizada. O que é particular é que o agente de vigilância e o ecônomo, nomeados para o hospital da Caridade por este novo sistema administrativo, eram antigos religiosos da Ordem de São João de Deus, que haviam sido secularizados pelos decretos da Assembleia Constituinte, e que vieram terminar sua carreira nos lugares testemunhas de seus primeiros votos.

Desde a Revolução, a lembrança da admirável dedicação dos irmãos de São João de Deus parecia apagada na França, quando, no mês de março de 1819, piedosos celibatários se reuniram em Marselha sob a bandeira do fundador: eles substituíram, como enfermeiros nas alas do hospital desta cidade, os servos homens. Em 1823, alguns irmãos, partidos de diversas comunidades, foram solicitar em Roma o restabelecimento canônico do instituto dos religiosos da Caridade: atenderam aos seus pedidos em 20 de agosto, duas ou três horas antes da morte de Pio VII. Hoje, os irmãos da Caridade possuem estabelecimentos em Lyon, Lille, Marselha, Dinan e Paris. Na maioria dessas cidades, dedicam-se particularmente ao cuidado dos alienados. Em Paris, seu estabelecimento na rua Oudinot é uma casa de saúde.

Ver a vida de São João de Deus, escrita em espanhol pelo Padre François Castro, reitor do hospital de sua Ordem, em Granada, traduzida, em italiano, pelo Padre François Bourdais, um dos primeiros padres da congregação do Oratório, em Roma, e, desde então, em nossa língua, por François de Harlay de Chanvalon, arcebispo de Rouen. De Loyac, doutor em teologia, também compôs uma; e o Padre Hilarion de Coste, da Ordem dos Mínimos, em sua História católica do século XVII, não deixou de fazer o elogio deste grande servo de Deus, que foi, de fato, uma das maiores ilustrações deste século. Em matéria de obras modernas, consultamos particularmente, para refazer esta vida, os Acta Sanctorum; um Estudo histórico sobre a Ordem de São João de Deus, pelo Sr. Leguay; a Lenda celeste, por Des Essarts.

Fonte oficial Les Petits Bollandistes, por Mons. Paul GUÉRIN, camareiro de Sua Santidade Pio IX.

Rede do relato

Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.