Nascida miraculosamente em Corbie, Coleta dedica-se a uma vida de austeridade antes de se tornar a grande reformadora da Ordem de Santa Clara. Apoiada pelos papas e pelos príncipes, ela funda dezessete mosteiros e trabalha pela unidade da Igreja durante o Grande Cisma. Morre em Gante em 1447, deixando atrás de si uma obra espiritual imensa confirmada por numerosos milagres.
Seus contemporâneos
Figuras e referências situadas em torno do período normalizado desta ficha.
Leitura guiada
7 seçãos de leitura
SANTA COLETA OU NICOLE, VIRGEM,
REFORMADORA DAS TRÊS ORDENS DE SÃO FRANCISCO
Contexto histórico e origens
Santa Coleta nasce em Corbie em 1381 em um clima de crise marcado pelo Grande Cisma do Ocidente e a Guerra dos Cem Anos.
1380-1447. — Papas: Clemente VII; Eugênio IV. — Reis da França: Carlos VI; Carlos VII.
« Senhor Deus, não quero nada senão conhecer-Vos simplesmente e aos meus pecados. »
Como diz Monsenhor São Bernardo, não há coisa que seja mais conveniente para sanar (curar) a consciência das chagas do pecado, e para purificar o coração dos ordes (maus) pensamentos, do que meditar e pensar frequentemente na Paixão de Nosso Senhor...
Vida de Santa Coleta, por P. de Vaux.
Todos os Santos são instrumentos da misericórdia de Deus para com o gênero humano. Mas há alguns cuja missão é tão grande e a influência tão profunda, que merecem sozinhos o título de homens providenciais. Tais foram, para não remontar mais alto, São Francisco de Assis, São Domingos, São Tomás de Aquino, São Boaventura, e entre as mulheres, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa, etc. Entre esses grandes personagens deve ser colocada Santa Coleta, reformadora das três Ordens de São sainte Colette Virgem e reformadora das três ordens de São Francisco. Francisco, fundadora de um grande número de mosteiros de um e de outro sexo, chamada por Deus a contribuir com seus méritos e sua influência para a extinção do grande cisma do Ocidente.
Com efeito, no final do século XIV, quando ela nasceu, a Igreja encontrava-se no estado mais lamentável, dividida entre duas, logo até mesmo entre três obediências que disputavam os fiéis ao preço de dispensas abusivas e favores desordenados. A autoridade aviltada, desprezada; as leis mais santas pisoteadas, a corrupção dos costumes, a propagação de doutrinas funestas, as famílias religiosas infiéis às suas regras, perto de uma dissolução completa; os fiéis escandalizados perdendo todo sentimento religioso, eis os frutos naturais desse longo cisma.
Durante esse tempo a França, talvez mais culpada que qualquer outra nação pelo nascimento desse cisma, era invadida pelo estrangeiro, dilacerada por facções internas sob um monarca acometido de demência, ensanguentada por toda parte pela guerra estrangeira e a guerra civil. Estava perdida sem uma enviada sobrenatural, Joana d'Arc.
É durante todos esses tristes eventos que Santa Coleta cumpre sua grande missão. Por suas orações, por suas macerações, pelas virtudes de seus discípulos, pelo brilho de sua santidade, por sua ação sobre os espíritos dos grandes da terra, ela teve uma grande parte na cura dos males da sociedade cristã.
Na cidade de Corbie, na diocese de Amiens, vivia nessa época um homem honesto, de costumes irrepreens íveis, em uma cité de Corbie Local de um concílio ao qual o santo assistiu. humilde condição, carpinteiro de profissão. Chamava-se Robert Boeliet. Ele tinha um dom particular para reconciliar os inimigos e trazer de volta à virtude as pecadoras públicas. Ele as acolhia em uma casa onde serviam a Deus e praticavam a caridade para com os pobres e os infelizes sem abrigo. Tinha por esposa Marguerite Moyon, mulher de virtude comprovada e de grande piedade. Ela se confessava e comungava frequentemente; meditava sem cessar na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Após terem vivido muito tempo no matrimônio sem filhos, por um dom especial da bondade divina e contra as leis ordinárias da natureza, tiveram enfim uma filha. Marguerite era sexagenária quando deu à luz, no dia da oitava da Epifania de 1381, a criança que foi chamada Coleta ou pequena Nicole, do nome de São Nicolau que seus pais haviam invocado para obter uma posteridade.
Juventude e vida de reclusa
Após uma infância piedosa e a morte de seus pais, Colette encerra-se como reclusa em Corbie, onde recebe visões que a chamam a reformar a ordem franciscana.
Ao atingir a idade de quatro anos, esta criança manifestou um conhecimento tão elevado de Deus que não se pôde duvidar de uma intervenção extraordinária da graça. Assim, ela se afastou dos jogos e das vaidades ordinárias das crianças. Escondendo-se nos retiros mais secretos, ela derramava diante de Deus orações contínuas e já praticava a oração mental. Crescia em idade e em virtudes, encorajada pelos exemplos de sua mãe, que a ensinou a meditar a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sua caridade e sua mortificação eram tão engenhosas quanto admiráveis. Privava-se de suas refeições para dá-las aos pobres. Vigiava longamente para rezar e tornava sua cama mais dura, colocando nela pedaços de madeira. Estas virtudes lhe deram um grande domínio sobre os homens e sobre o coração de Deus. Por um lado, exercia uma atração que empregava para levar à virtude todas as pessoas que dela se aproximavam; por outro, obteve de Deus favores miraculosos, entre outros, para consolar seu pai, um crescimento súbito que lhe deu uma estatura muito elevada e, para preservar sua pureza, o desaparecimento das cores vivas de sua tez.
Mortos seus pais, ela distribuiu todo o seu patrimônio aos pobres. Fez várias tentativas de vida religiosa em diferentes comunidades, mas não encontrou em lugar algum o que lhe era necessário para satisfazer sua paixão por sacrifícios e sua sede de perfeição. Queria, contudo, separar-se do mundo e, em uma clausura absoluta, servir a Deus mais livremente. Foi o que lhe foi concedido. Algumas pessoas piedosas, com o consentimento do abade de Corbie, fizeram-lhe construir uma morada contra os muros de uma igreja dedicada à Santíssima Virgem, não longe da igreja de São João Evangelista. O abade presidiu sua entrada nesta cela. Foi entre suas mãos que ela fez profissão da Terceira Ordem de São Francisco. Nesta nova vida, seja para abraçá-la, seja para praticá-la, teve como diretor e confessor um homem de virtude notável, um fervoroso religioso, o Padre Jean Pinet, franciscano do convento de Hesdin e custódio da Picardia. Ele a formou na prática da regra. Em sua ausência, era guiada por Jean Guyot, pároco de Saint-Martin. Em sua cela, Deus continuou a lhe conceder favores extraordinários. Fez-lhe ver o estado miserável do mundo, o número incalculável de crimes e as almas precipitando-se nos abismos eternos em multidão mais apressada que os flocos de neve em uma tempestade de inverno. Ficou tão aterrorizada com essas chamas do inferno que as devoravam, que agarrou as grades de sua janela, e sua mão se contraiu tão fortemente que, por muito tempo, não pôde retirá-la. Outra vez, nosso Salvador mostrou-se a ela todo sangrento, todo desfigurado como estava em sua Paixão, dignando-se a explicar-lhe familiarmente a medida infinita de suas dores e a maneira como as havia suportado. O demônio, por sua vez, a assaltou de diferentes maneiras, como fizera desde sua infância. Ela escapou de suas emboscadas e não se deixou atemorizar nem por suas ameaças, nem por suas violências.
O venerável Padre Pinet percebeu em uma visão uma virgem maravilhosamente bela, que cultivava uma vinha com grande labor e atenção sustentada. Ela arrancava com cuidado tudo o que era nocivo ou inútil e plantava cepas vigorosas e férteis. Foi-lhe revelado que esta vinha era o estado religioso e esta virgem era a irmã Colette, que toda a sua vida trabalhou, de fato, para reformar o estado de sua Ordem, como suas obras excelentes provaram posteriormente.
Quanto a ela, encerrada durante quase quatro anos em sua estreita morada, praticou ali uma extrema austeridade e uma abstinência severa. Coberta por um cilício, cingiu-se ainda com uma corrente de ferro armada de pontas agudas. Dormia sobre a terra e não tinha por travesseiro senão um tronco de árvore; suas vigílias e suas orações eram contínuas. Foi assim que reduziu seu corpo à servidão e o submeteu ao espírito. Conheceu sobrenaturalmente e anunciou a morte de seu diretor quando ainda estava em sua reclusão. Desde esse momento, todos os anos, no dia do aniversário de sua morte, o Padre Pinet aparecia à sua filha espiritual, todo resplandecente e cheio de alegria. Esta visão a enchia de uma grande alegria e a fortalecia singularmente no amor de Deus. Fazia todos os dias progressos nessa penitência rigorosa que havia abraçado. Visões frequentes ora a sustentavam em suas austeridades, ora a lançavam em perplexidades muito penosas. Um dia, viu-se transportada ao pé do trono de Jesus Cristo. De um lado, São João e Santa Madalena pediam que ela pudesse continuar sua vida solitária; mas São Francisco e Santa Clara a reclamavam para a reforma de suas Ordens. O Senhor remetia a decisão às mãos de sua mãe, e a Santíssima Virgem aquiescia ao pedido de São Francisco. Contudo, temendo ser enganada pelas astúcias da antiga serpente, Santa Colette não ousou empreender essa obra nem dar crédito a essas visões. Por isso, consultou sobre este assunto homens distintos por sua ciência e sua piedade. Todos, unanimemente, foram de opinião que ela deveria consentir em fazer essa obra comandada pelo próprio Deus. Ela duvidava, contudo, ainda, imitando a incredulidade de Zacarias. Foi atingida por mudez e, três dias depois, por cegueira durante outros três dias; ao fim desse tempo, tendo prometido empreender a reforma, recuperou a fala e a visão.
O Senhor a havia derrubado; quis aperfeiçoar seu assentimento por uma ação mais doce e, ao mesmo tempo, mostrar-lhe os efeitos maravilhosos da obra que lhe impunha. Em sua cela, viu crescer de repente uma árvore alta, de forma graciosa, coberta de flores admiráveis, cintilantes como ouro. Elas espalhavam um perfume muito doce. Ao redor desta bela árvore, brotaram vários rebentos. Vendo isso e temendo algum prestígio diabólico, ela arrancou e jogou fora a grande árvore e os pequenos. Poucos dias depois, viu no mesmo lugar uma árvore semelhante com outros rebentos. Desta vez, as árvores mudavam de lugar e se transportavam de um lugar para outro. Ela foi advertida de que essa grande árvore a representava, e os pequenos figuravam todas as almas que, por seus cuidados e seus labores, seriam arrancadas ao vício, levadas a uma vida melhor e dirigidas na prática das mais altas virtudes. Enfim, essa obra deveria se produzir nos diversos estados da sociedade e em diferentes regiões da terra.
O chamado à reforma e o encontro com o Papa
Acompanhada por Henri de la Balme, ela vai a Nice encontrar o Papa Bento XIII, que a autoriza a reformar as Clarissas e a nomeia superiora.
Refletindo sobre essas maravilhas e revelações, ouvindo os conselhos de pessoas sábias, eclesiásticas e seculares, ela temeu ofender a Deus se resistisse obstinadamente ao seu chamado. Por isso, em fervorosas orações com um profundo sentimento de humildade, ofereceu-se inteiramente a Deus para cumprir o seu beneplácito. Imediatamente, Deus lhe enviou tudo o que era necessário para tal empreendimento. Deu-lhe primeiro um conhecimento perfeito de tudo o que ela deveria fazer para realizar a reforma. Ela escreveu essas coisas imediatamente e fez delas um memorial. Em seguida, o céu lhe enviou, para dirigir sua consciência, um homem de grande virtude, da Ordem de São Francisco de Assis, exato observador da regra, o Padre Henri de la Balme, originário de Bugey. Ele partia para uma peregrinação à Terra Santa quando uma reclusa de Avinhão o advertiu de que Deus lhe impunha outra viagem e uma missão importante. Ele veio, então, oferecer-se para conduzir Santa Colette ao soberano Pontífice e assisti-la em todos os seus empreendimentos. Ele havia trazido consigo a Corbie uma generosa dama, viúva do senhor de Brissay e filha de uma família muito honrada, chamada de Rochechouart. Ela desejava cooperar com a obra de Deus. Oferecia sua pessoa, sua família e seus bens para conduzir a serva de Deus ao soberano Pontífice. Essa oferta espontânea e tão benevolente inspirou em Santa Colette uma grande gratidão para com a senhora de Brissay e fervorosas ações de graças a Deus, que fazia conhecer cada vez mais que aquela era a sua obra e que era preciso esperar dele um feliz sucesso.
Contudo, para observar as regras canônicas, a reclusa precisava da dispensa de sua clausura. Antoine de Chalant, legado da Santa Sé, chegado recentemente a Paris, deu comissão ao bispo de Amiens, em 23 de julho de 1406, para examinar se as razões alegadas eram reais e, nesse caso, promulgar a dispensa. Por cartas de 1º de agosto, o prelado enviou a Corbie seu vigário geral para executar as ordens do legado. Este, tendo discutido e examinado com prudência todas as circunstâncias e motivos, a liberou de seu voto de reclusão perpétua para permitir-lhe executar as ordens do céu. Ela saiu de sua cela no dia 3 de agosto.
Naquela época, o cisma ainda assolava a Igreja; segundo o julgamento dos homens mais sábios, os particulares deviam submissão ao Pontífice em cuja obediência se encontravam, até que um concílio geral tivesse se pronunciado. Havia santos em ambos os partidos. A França estava na obediência de Bento XIII; foi, portanto, a ele que Santa Colette teve de se dir igir, como Benoît XIII Papa que elevou o Instituto a Ordem religiosa em 1725. já havia feito por intermédio do Padre Henri para obter a dispensa de sua clausura.
A humilde serva de Deus foi conduzida pela baronesa de Brissay ao soberano Pontífice, que habitava então em Nice. Prevenido a seu favor por certas circunstâncias extraordinárias e pelas informações que havia recebido de diferentes personagens, ele a acolheu com grande benevolência, a ela e a toda a sua comitiva, o Padre Henri, a baronesa de Brissay, etc. Ele conheceu até mesmo, dizem, por uma inspiração divina, sua alta virtude e seu desígnio. Por isso, coisa maravilhosa, à sua aproximação ele se levantou e veio ao seu encontro. Recebeu de sua mão um pequeno saco onde estava a súplica que ela havia feito para pedir o que era necessário à execução de seu projeto. Ele tomou conhecimento e depois a deixou expor mais longamente suas visões. Ela pedia sobretudo duas coisas: 1º ser admitida à profissão da regra que Santa Clara recebeu de São Francisco e que foi confirmada por Ino cêncio IV; 2º que se providenciasse a reforma e règle que sainte Claire reçut de saint François Ordem religiosa cujo modo de vida foi adotado por Margarida. o restabelecimento da segunda Ordem de São Francisco.
Esses pedidos pareceram tão razoáveis ao soberano Pontífice que ele estava disposto a concedê-los imediatamente. Contudo, a maioria de seus conselheiros foi da opinião de adiar. Eles estavam assustados com a juventude da postulante e com a carga enorme que ela queria assumir sobre si. Por isso, a resposta foi remetida para outro momento. Uma peste eclodiu de repente em Nice. Ela atingiu os opositores, de tal sorte que se viu ali o dedo de Deus. O soberano Pontífice, tendo chamado Santa Colette, dirigiu-lhe um discurso notável sobre a perfeição do estado evangélico que ela queria abraçar. Ele a admitiu na Ordem de Santa Clara, cingindo-a com a corda e colocando-lhe o véu sobre a cabeça; fez com que ela professasse; enfim, estabeleceu-a como mãe e superiora de todas aquelas que ela reformaria ou admitiria na Ordem. Foi com tanta humildade, fervor e respeito que ele cumpriu essa função, que todos expressavam sua admiração. Ele lhes parecia como um anjo. Os cardeais e o ministro geral dos franciscanos protestavam que nunca tinham visto aquele pontífice cumprir qualquer função eclesiástica com tanta piedade e respeito. Após ter-lhe dirigido ainda advertências salutares, tendo-lhe dito com que discrição e prudência ela deveria agir, ele a assegurou da presteza com que sempre a ajudaria na reforma que ela empreendia. Enfim, recomendou-a vivamente ao seu pai espiritual, o Padre Henri de la Balme, e à baronesa de Brissay, e acrescentou em voz alta: "Quem me dera ser digno de mendigar o pão necessário a esta religiosa!"
A expansão da reforma na Borgonha e além
Apesar das oposições iniciais, ela fundou numerosos mosteiros, notadamente em Besançon, Poligny e Auxonne, estendendo sua influência sobre as três ordens franciscanas.
A humilde serva de Deus retornou à sua pátria e procurou por si mesma e por amigos, nas dioceses de Amiens, Noyon e Paris, um lugar adequado para construir um mosteiro. O Papa a havia autorizado e lhe dado o poder de admitir até mesmo religiosas de outros mosteiros e reclusas que se apresentassem. Mas o antigo inimigo, sempre ardente contra as obras das pessoas de bem, suscitou-lhe grandes obstáculos. Seu piedoso projeto encontrou adversários que lhe causaram muitas penas e a perseguiram de todas as maneiras. Mais ainda, seus antigos amigos voltaram-se contra ela com violência e viu-se verificar nela a palavra do Apóstolo: «Todos os que querem viver piedosamente em Jesus Cristo sofrerão perseguição.» Ela foi finalmente obrigada a deixar o lugar de seu nascimento. Seu diretor, a quem o Papa havia ordenado que a dirigisse e a apoiasse, vendo esse desencadeamento de todas as más paixões, levou-a com duas companheiras fiéis que a haviam assistido em sua reclusão, Marie Sénéchal e Guillemette Chrétienne, para a Borgonha, à casa de seu irmão Alard de la Balme, que as recebeu com muita bondade. Ele foi imediatamente recompensado pelo nascimento feliz, após vários dias de temor, daquela que seria mais tarde a irmã Perrine, companheira inseparável de Santa Coleta durante trinta anos.
O Padre Henri dirigiu-se à duquesa de Genebra, Blanche de Savoie, e obteve a livre disposição de uma parte do castelo que ela possuía em La Balme. Santa Coleta instalou-se nesse asilo com suas companheiras. Logo admitiu Odile de la Balme, sobrinha do Padre Henri, e muitas outras noviças. Ela começou com elas os exercícios da vida religiosa segundo a regra de Santa Clara. A santidade de sua vida, seu fervor maravilhoso, sua perfeição em todas as coisas começaram a irradiar e a suscitar admiração. Concebeu-se por ela um grande respeito, uma piedosa afeição e uma profunda veneração.
Contudo, a duquesa de Genebra obteve de Bento XIII uma bula para a ereção de um mosteiro na cidade de Rumilly, que lhe pertencia. Mas essa cidade aberta não era adequada naqueles tempos de perturbação. Por isso, ela quis solicitar ao Santo Padre a concessão do mosteiro das Clarissas de Besançon, que estava quase abandonado. Havia apenas duas religiosas. Foi concedido à reformadora por uma bula datada de 27 de janeiro de 1408, com o encargo de prover a manutenção das duas religiosas com os bens do mosteiro. Todavia, a venerável abadessa não se apressou em tomar posse; ela só se dirigiu a Besançon em 14 de março de 1410, acompanhada pela duquesa de Genebra e sua sobrinha, Mahault de Savoie. Uma multidão inumerável, tendo à frente o próprio arcebispo, veio recebê-la muito longe fora da cidade. Veneravam-na como uma santa. Foi um triunfo. Seu primeiro cuidado foi despojar-se das rendas pertencentes ao convento e prover as necessidades das duas religiosas. Uma abraçou a reforma, a outra entrou para as Beneditinas. Ela restabeleceu a mais exata observância da regra de Santa Clara, e a graça divina logo lhe trouxe um grande número de filhas de reis, duques, príncipes, condes, barões, burgueses de todo estado e de toda condição. Viviam em extrema austeridade e verdadeira pobreza, não tinham rendas nem bens assegurados, nem em particular nem em comum. Durante todo o ano jejuavam e nunca comiam carne; verão e inverno caminhavam descalças; separadas por uma estreita clausura da sociedade e de todo contato com os homens, tanto eclesiásticos quanto seculares, viviam em uma pureza delicada e um fervoroso devotamento, praticando a obediência absoluta segundo a regra do primeiro fundador e glorioso chefe São Francisco. Para favorecer essa exata observância, o ministro geral dos franciscanos lhes havia dado como confessor o Padre Henri.
Logo o mosteiro de Besançon, tornado deserto pelo relaxamento, não pôde conter todas as almas de elite que a exata observância atraía. Um primeiro enxame foi fundar a casa de Auxonne em 1412; um segundo, a de Poligny em 1415. Esta, pobre e nua, foi sempre mais agradável à amante apaixonada da pobreza. Ela fez ali uma estadia mais longa do que em todas as outras. Será por isso que a Providência quis que seus restos mortais encontrassem ali seu repouso e as honras das quais são di gnos? Q Poligny Local de sepultamento atual das relíquias de Santa Coleta. uando essas três casas foram bem reguladas, o desenvolvimento da reforma tomou um novo impulso. Santa Coleta instalou suas filhas em Bellegarde ou Seurre e em Moulins em 1423, em Aigue-Perse e Décize em 1424, em Vevay na Saboia em 1425, em Orbes em 1427, em Le Puy em 1432, em Castres, em Lezignan e em Béziers em 1433. O Padre Henri, por seu lado, sob a inspiração de Santa Coleta, trabalhava na reforma dos mosteiros de homens. Havia em Dole um convento de recente fundação onde uma tentativa de reforma parece ter fracassado. Esta casa foi dada a Santa Coleta e ao Padre Henri pela autoridade apostólica. A jovem abadessa, ao conduzir suas religiosas a Auxonne, parou ali e, em meio a êxtases multiplicados, implantou a reforma. Um processo movido por alguns religiosos relaxados não pôde destruir a obra, e Dole tornou-se para os homens o que era Besançon para as mulheres, um viveiro abundante. Ao mesmo tempo, foram fundados também outros mosteiros em Charieux, perto de Vesoul, e em Sellières, não longe de Lons-le-Saulnier. Mais tarde, a própria Santa Coleta estabeleceu a reforma no convento de Azille, perto de Narbonne. Sua obra não poderia subsistir, mesmo entre as Clarissas, se não tivesse para dirigi-la religiosos animados de seu espírito, e não partidários de funestas mitigações. Além disso, se a segunda Ordem exerce uma ação salutar sobre o mundo por seus exemplos e conselhos, a primeira, pelos mesmos meios, e ainda mais pela pregação e suas relações mais frequentes com os fiéis, trabalha muito mais para a regeneração da sociedade cristã. E tal era a missão de Santa Coleta. Por isso, seus religiosos multiplicaram-se rapidamente. Eles foram aprovados e encorajados pelo concílio de Constança. «Pela pureza de sua vida», diz Wadding, «a perfeita observância de sua regra, eles adquiriram uma reputação tão alta, que por toda parte se quis ter tais homens». Assim, antes de sua morte, Santa Coleta teve a felicidade de vê-los chamados pelo soberano Pontífice para a reforma da Casa-Mãe de toda a Ordem, o convento de Ara Coeli em Roma. Finalmente, seus progressos foram tão rápidos que, trinta e oito anos após Santa Coleta, segundo seus necrológios, eles deveriam ser em número de trinta e quatro mil, trabalhando para reanimar a vida cristã no mundo. Que poder de ação! que fecundidade! A história conservou menos vestígios da reforma dos mosteiros de homens, porque Santa Coleta a operou por intermediários; contudo, não é menos certo que ela foi o centro vivo desse imenso movimento de renovação que ocorreu no século XV. Mesmo para a segunda Ordem, as crônicas tiveram o erro de falar apenas dos conventos onde Santa Coleta habitou pessoalmente. Ora, por seus discípulos, ela também desenvolveu imensamente sua obra, que, em vida, atravessou os Pirenéus e os Alpes, pelo concurso de São Bernardino de Sena. Os mosteiros que ela fundou pessoalmente foram focos que espalharam ao longe o fogo sagrado da caridade, e a maioria, após ter atravessado a tormenta revolucionária, guarda ainda fielmente sua regra e suas observâncias. Eles ainda são suficientemente ardentes para fornecer, sem se enfraquecer, brasas acesas com as quais são acesos outros focos espirituais.
Papel na Igreja e milagres
Coleta interage com os grandes de seu tempo, encontra São Vicente Ferrer e trabalha pela unidade da Igreja durante os concílios de Constança e Basileia.
Essas obras colocaram Santa Coleta em contato com as maiores personalidades do mundo. Foi o duque João de Borgonha quem lhe deu seu arsenal para o convento de Poligny; o duque de Bourbon fundou o mosteiro de Moulins. O ex-rei de Nápoles, Jacques de Bourbon, da família real da França, após ter cooperado na fundação de vários conventos e entregue suas filhas à reforma, converteu-se ele mesmo, tornou-se discípulo de Santa Coleta e abraçou a reforma. Outros os imitaram em outros lugares.
A recompensa que todos esses grandes da terra ambicionavam era ver, por vezes, a serva de Deus, participar de suas orações, receber seus conselhos e, por vezes, suas repreensões inspiradas pela caridade cristã. Não é de se estranhar que tivessem tanta confiança em sua intercessão. Sua vida era mais angélica do que humana, e o céu confirmava sua missão, provando o poder de suas orações por meio de prodígios e milagres.
À imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo e de São Francisco, ela jejuou durante quarenta dias e quarenta noites sem qualquer alimento. Suas vigílias e orações eram contínuas; seus sofrimentos corporais, suas tribulações, suas perseguições incessantes. O Senhor permitiu ao demônio atacá-la de maneira visível por meio de todo tipo de prestígios terríveis, hediondos ou cruéis.
Mas também Ele a sustentou por favores extraordinários. Um dia, sentada na terra, no meio de suas filhas, ela as entretinha sobre a extrema pobreza que Nosso Senhor, com sua santa Mãe e os Apóstolos, quis sofrer por nós. Ela as exortava a imitá-lo. Enquanto ela falava, os doze Apóstolos, como doze anciãos veneráveis, vestidos de túnicas brancas, a cercaram e permaneceram ao seu lado até que ela cessasse de falar. Então, elevaram-se aos ares e a serva de Deus com eles, até que desapareceram aos olhos das irmãs arrebatadas. Frequentemente, em sua oração, ela caía em êxtase, era elevada da terra e, por vezes, tão alto que desaparecia. Um favor semelhante lhe foi concedido quando se dirigia a Auxonne e a Dôle, mesmo na presença dos religiosos. Seu êxtase durou durante quase toda a viagem. Ela permanecia muito frequentemente arrebatada durante vários dias. A obediência a trazia de volta a si mesma. À palavra do Padre Henrique, ela saía do colóquio divino. Outra vez, uma chama maravilhosa escapando de sua boca iluminava seu oratório.
Por intermédio do apóstolo virgem, São João Evangelista, um anel de ouro, insígnia de sua incomparável pureza, foi colocado em seu dedo como à verdadeira esposa do Rei dos reis. Muitos viram e tocaram esse anel, e ela o dava por vezes aos religiosos a quem confiava uma missão perigosa, para preservá-los de qualquer acidente. Ela recebeu igualmente do céu uma cruz de ouro contendo uma relíquia da verdadeira cruz, que ainda é conservada no mosteiro de Poligny. Deus tomava sua defesa por meio de prodígios. Ela é ameaçada de morte em Décize, porque as religiosas tinham, por erro, tocado as Matinas antes da hora e os habitantes tinham acreditado em um sinal pérfido dado aos inimigos; mas o dia é avançado para essa cidade e Santa Coleta glorificada. Em suas numerosas viagens, suas orações acorrentam os ladrões de estrada ou os homens de guerra, tão perigosos naquele tempo. Elas acalmam os rios inchados, tornam os rios vadeáveis ou firmam as águas sob seus pés.
Um santo movia então o mundo por suas pregações e os prodígios inumeráveis que as acompanhavam: era São Vicente Ferrer. Ele tinha retornado à Espanha quando Santa Coleta lhe foi mostrada, prostrada diante da Majestade divina, pedindo graça com extrema fervor pelos pecados e iniquidades dos homens. O Deus de toda miser icórdia e de toda con saint Vincent-Ferrier Pregador dominicano que foi o guia espiritual de Margarida. solação lhe respondia assim: «Minha filha, o que queres que Eu faça? Todos os dias sofro injúrias e opróbrios da parte dos pecadores; eles blasfemam sem cessar e me desprezam. Eles não levam em conta meus mandamentos.» É por causa dessa revelação que o grande doutor voltou de Aragão para a Borgonha, sempre pregando. Ele foi passar quinze dias em Poligny, junto a Santa Coleta. Eles se consolaram e se edificaram mutuamente em conversas celestes.
Sobretudo, ocuparam-se dos males da Igreja e das medidas a tomar para fazê-los cessar. O concílio de Constança estava então reunido. Eles lhe escreveram uma carta comum para encorajar os Padres em seus esforços, assegurando-lhes um feliz sucesso. Esses graves interesses foram sempre a grande preocupação dessa alma seráfica. É por isso que ela se mortificava tão cruelmente, que ela rezava e fazia rezar. Em suas relações com o mundo, com os grandes da terra, ao trabalhar por sua conversão, ela não perdia de vista essa grande causa da Igreja. Quando o concílio de Basileia foi reunido, antes que degenerasse completamente em conciliábulo cismático, ela manteve uma admirável correspondência com o cardeal que o presidia. Ele reclamava insistentemente o socorro das orações daquela a quem chamava de sua mãe, e até pediu em nome do concílio sua intervenção em assuntos delicados.
Por seus conselhos e suas orações, ela se esforçou para impedir Amadeu de Saboia de se deixar impor uma tiara sacrílega pelo conciliábulo de Basileia. Foi em vão. Mas ela foi firme em sua resistência ao antipapa que tinha sido, como príncipe, seu protetor e seu amigo. Suas filhas de Vevay e de Orbe não se submeteram a ele, embora habitassem uma região que o reconhecia.
Para não prolongar demais esta nota, é preciso passar em silêncio muitos outros fatos admiráveis e prodígios operados por suas orações. Ela conhecia o segredo dos corações e possuía o dom de profecia em um grau muito elevado. Mais ainda, ela ressuscitou vários mortos, quatro pessoas adultas que viveram depois por muito tempo, e crianças natimortas em número de mais de cem. Uma delas já estava enterrada fora da Terra Santa quando tiveram a ideia de apresentá-la a ela. Ela também trouxe de volta à vida, mas apenas por alguns instantes, uma religiosa de Poligny que tinha morrido em estado de pecado e que, após ter se confessado, voltou para o caixão.
Últimas fundações e falecimento em Gante
Ela termina sua missão fundando conventos na Flandres e na Picardia antes de falecer em Gante em 1447.
A vida espiritual, a ordem e a regularidade estavam asseguradas nos estabelecimentos da Borgonha e do sul. Santa Coleta não podia esquecer a Picardia, que, aliás, a reclamava. Soberano desta província, o duque da Borgonha queria também santificá-la por meio de conventos de Clarissas. Ele havia escolhido Hesdin. Em 1441, Coleta partiu com um número adequado de suas filhas e veio fundar um convento nesta cidade. Gante a solicitava há doze anos; ela conduziu para lá uma colônia em 1442 e, finalmente, outra a Amiens, em 1444. Ela desejava proporcionar o mesmo bem a Corbie. As obras foram até iniciadas; mas a resistência obstinada dos religiosos beneditinos fez fracassar este empreendimento, apesar da intervenção sucessiva do duque da Borgonha, do rei da França e do próprio Papa.
A obra de Santa Coleta estava terminada. Por sua solicitude e seus cuidados, ela havia construído inteiramente, ou reconduzido à observância das regras primitivas, fortificadas por seus sábios regulamentos, dezessete mosteiros de irmãs. Ela havia, por sua influência, feito reformar muitos outros. Para o serviço destas casas, ela havia fundado ou reformado um grande número de mosteiros de homens. Muitos nobres ou simples cristãos, mulheres de toda condição, estimulados por seus exemplos e seus sábios conselhos, haviam abraçado a Terceira Ordem de São Francisco, de modo que as três Ordens haviam sido por ela reformadas e renovadas. Chegou o tempo em que o Senhor quis livrar das penas e dos labores deste mundo sua fiel servidora, exaltá-la, coroá-la e glorificá-la. Ele a conduziu ao lugar onde ela deveria terminar sua vida penitente.
Ela conhecia a vontade de Deus sobre ela. Havia recebido em Hesdin novos favores, conhecimentos ainda mais profundos dos mistérios, um sentimento mais vivo das dores de nosso Salvador, sobretudo de sua agonia no Jardim das Oliveiras. Ela participava profundamente de suas angústias. Sofrer
assim, era sua vida. Para ela, o dia mais infeliz teria sido o dia em que não tivesse nada a sofrer; esta é uma de suas palavras. Deus a saciou. Toda a sua vida, seus sofrimentos foram contínuos e indizíveis. Eles só eram suspensos quando ela tinha assuntos a tratar. Retomavam depois, mais pungentes do que nunca. Foi para aperfeiçoar sua semelhança com o Salvador que a misericórdia divina acrescentou ainda algo a dores já sem medida. Assim preparada, ela se dirigiu a Gante por volta do dia de São Nicolau de 1446.
No final de fevereiro do ano seguinte, ela deu suas últimas instruções às suas religiosas, fez suas últimas recomendações ao seu confessor Pierre de Vaux, assegurando-lhe ainda que a reforma era obra de Deus e que ela não tinha nada a mudar no que havia feito. Finalmente, na segunda-feira, 6 de março de 1447, às oito horas da manhã, ela entregou sua alma a Deus. Seu corpo permaneceu flexível e adquiriu até uma maior beleza após sua morte. Mais de trinta mil pessoas quiseram contemplá-lo. Foi preciso abrir uma porta especial para deixar sair essa multidão que não podia retornar sobre seus passos, pressionada que estava por aqueles que chegavam. Ele foi depositado sem pompa no cemitério do mosteiro, como ela havia ordenado.
Culto, relíquias e canonização
Suas relíquias foram transferidas para Poligny durante a Revolução; ela foi oficialmente canonizada em 1807 pelo Papa Pio VII.
[ANEXO: CULTO E RELÍQUIAS DE SANTA COLETTE. — SEU ELOGIO.]
Na hora de seu falecimento, em uma de suas casas, ouviu-se uma multidão de anjos produzindo uma harmonia celestial, e um deles disse: A venerável religiosa irmã Colette foi para junto do Senhor. Em outra, ela apareceu toda resplandecente a uma religiosa que tinha uma devoção singular por ela. Em uma terceira, ela também se mostrou em traje de religiosa, mas com tamanha beleza e o rosto tão radiante que a irmã não conseguia explicar nem encontrar um ponto de comparação. Como essa irmã nunca a tinha visto, uma criança que acompanhava Santa Colette disse: É a irmã Colette, é a irmã Colette.
Muitas outras maravilhas se realizaram, mantiveram e até aumentaram a veneração que lhe haviam dedicado durante sua vida. Povos e religiosos a invocavam igualmente e obtinham dela favores assinalados. Contudo, só se pôde iniciar os processos para sua canonização vinte e quatro anos após sua morte. Seu túmulo, de onde escapava um perfume delicioso, foi coberto por um oratório. Em 1482 e 1483, fez-se o reconhecimento das relíquias e adornou-se esse túmulo. Logo começaram as instâncias dos príncipes e dos personagens eclesiásticos para obter sua canonização. Não houve oposição. Os soberanos Pontífices testemunhavam o desejo de poder pronunciá-la o mais cedo possível. Mas as viagens eram longas; os procedimentos multiplicados; um papa morria; distúrbios surgiam e os atos realizados tornavam-se em parte insuficientes. Era preciso recomeçar. Foi assim que o caso se arrastou. São Pio V queria terminá-lo dispensando formalidades, quando morreu sem ter podido realizar seu desígnio. Finalmente, em 1604, concedeu-se às Clarissas de Gante celebrar o ofício de Santa Colette, e sucessivamente a outras casas. Em 1624, sua cela em Corbie, que se tornara um oratório muito frequentado, foi reconstruída, e uma capela erguida ao lado pela munificência dos príncipes de Lorena e da família real da França. Desde então, o concurso de peregrinos a esse santuário tornou-se inumerável. Vinham de toda a Picardia e das províncias limítrofes. Em 1620, os Capuchinhos fizeram por toda parte informações muito regulares e, finalmente, em 1746, Bento XIV declarou que ela gozava de um culto imemorial muito legítimo.
Enquanto se procedia aos atos preparatórios da canonização, o espírito filosófico e cismático de José II, imperador da Áustria, preparava grandes amarguras para as filhas de Santa Colette. Em 1753, ele suprimiu o convento de Gante com tantos outros. As religiosas, pela intervenção de Mme. Louise da França, filha de Luís XV e carmelita de Saint-Denis, obtiveram levar as relíquias de sua fundadora. Recebidas em Poligny com uma caridade toda cristã, trouxeram para lá seu precioso tesouro. Ele atravessou honestamente a Revolução e ainda hoje está cercado pela veneração e pela piedade de todos os cristãos.
Finalmente, em 24 de maio de 1807, o soberano Pontífice pôde colocar em execução o decreto emitido desde 1790 e proceder à canonização solene de Santa Colette. A urna de Poligny foi aberta então para extrair várias relíquias. Em 1º de maio de 1867, foi aberta novamente para extrair uma costela concedida à cidade de Corbie. Esta relíquia é venerada na antiga igreja contra a qual estava o recluso de Santa Colette. Ela está quase no lugar onde ficava a abertura pela qual Santa Colette se confessava, recebia a comunhão e adorava o Santíssimo Sacramento. Vêem-se abaixo pedaços da antiga grade que fechava essa abertura, e que é conservada em Bruges, e parcelas de um hábito da Santa e de um véu que foi parcialmente queimado pela chama que saía de sua boca.
« A padroeira de Corbie e de Gante é honrada, no dia 6 de março, nas dioceses de Amiens, de Paris, de Besançon e em todas as da Bélgica. Seu nome está inscrito nos martirológios franciscanos, de época recente, nos de Molanus, Canisius, Ferrari, du Saussay, etc.
« O recluso de Santa Colette, em Corbie, tinha sido destruído na época em que a igreja de Santo Estêvão foi vendida a um particular. O abade Douillet, zeloso em devolver ao culto de Santa Colette seu antigo esplendor, resgatou esse monumento, do qual uma parte serve de capela e a outra de orfanato paroquial, sob a direção das irmãs franciscanas de Calais.
« O zeloso decano de Corbie não se limitou a restaurar, em sua paróquia, o culto e os monumentos de Santa Colette; há algum tempo, ele solicita junto à Santa Sé que seu ofício seja introduzido no breviário romano ».
A humildade de Santa Colette foi tão profunda quanto possível. A seus olhos, suas ofensas eram horríveis. Ela era vil e abjeta, indigna de viver no estado religioso. Estas são suas expressões. É porque ela estava tão completamente despojada de si mesma que Deus pôde operar por ela coisas tão grandes.
Ela tinha um zelo ardente, um ardor incansável pela glória divina. Conhecendo desde sua mais tenra infância a grandeza da majestade soberana e sua imensa bondade, ela se voltava ao seu serviço com um ímpeto sempre mais vivo. Ela esquecia suas fadigas, sua fraqueza, seus sofrimentos e, superando tudo por sua coragem, após ter parecido de manhã estar prestes a sucumbir, ela estava à noite, ao fim de uma viagem penosa, mais forte e capaz de passar ainda uma noite em orações, lágrimas e sofrimentos.
Não é de se admirar que, animada por tais sentimentos, ela tenha sobretudo deplorado e combatido a profanação dos domingos e dos dias de festa. Era para ela uma espada de dois gumes que lhe atravessava o coração. Por isso, em toda ocasião, ao dar seus conselhos aos pregadores, aos príncipes, às autoridades de todos os graus, aos simples particulares, ela rezava, conjurava que se observassem exatamente as festas. Ela via a glória de Deus e a felicidade dos homens igualmente interessados no cumprimento desse dever.
Seu seráfico amor por Deus abraçava naturalmente o próximo em suas chamas ardentes. Ainda criança, ela deu provas admiráveis disso. Durante toda a sua vida, ela não se contentou em rezar pelos pobres nem em ensinar-lhes, pelo exemplo de sua pobreza voluntária, a suportar pacientemente suas penas e privações, o que é tão importante, mas ela sempre defendeu junto aos grandes e aos ricos a causa dos pequenos e dos indigentes. Seus exemplos eram poderosos. Ela se tornava o canal de esmolas abundantes. Ela despojava suas casas para suprir as necessidades prementes. Por isso, mais de uma vez, Deus multiplicou milagrosamente as provisões para recompensá-la e permitir-lhe continuar suas abundantes esmolas.
Ao ler estas poucas páginas sobre sua vida, pode-se ver quais eram sua fé, sua confiança em Deus, sua caridade divina, sua obediência, sua mortificação. Precisamos louvar sua delicada e incomparável pureza? O milagre que ela obteve em sua juventude, e que extinguiu as cores vivas de seu rosto, não diz o suficiente? Essa delicadeza nunca se desmentiu, é evidente. Sua presença inspirava, comandava a pureza ou, pelo menos, o desejo dessa angélica virtude. Aqueles que não sofriam esse ascendente eram logo punidos e confusos. Dois cavaleiros visitando-a, um deles nutria em seu espírito pensamentos inconvenientes. Santa Colette solta um grito de horror que o faz voltar a si mesmo. Ela tinha lido em seu coração.
Nós apenas indicamos anteriormente as inumeráveis maravilhas que ela operou durante sua vida, os favores assinalados que ela obteve do céu. Não podemos nos estender mais sobre os milagres obtidos por sua intercessão desde sua gloriosa morte. Ela assiste aqueles que a invocam em todos os seus males espirituais e corporais. Contudo, alguns parecem ser o objeto especial de seu poder junto a Deus. Ela obtém uma posteridade aos esposos estéreis; ela protege as crianças contra os perigos multiplicados nos primeiros tempos de sua existência, sobretudo o de não receber o batismo. Ela livra de nevralgias. Pela água benta com seus ossos, ela cura os olhos doentes e muitas outras enfermidades.
Ela ajuda a resistir às tentações, aos distúrbios, às ilusões causadas pelo demônio, etc., etc.
Poderíamos citar exemplos recentes, que provam a eficácia de sua intercessão nessas diferentes circunstâncias.
Eis os fatos que se podem reproduzir nas pinturas e esculturas destinadas a representar Santa Colette:
São Francisco de Assis e Santa Clara aparecem para ela para lhe recomendar a reforma da Ordem seráfica.
A fim de recompensar sua terna devoção pelos sofrimentos do Salvador, a Santíssima Virgem lhe entrega entre os braços o corpo de Nosso Senhor, tal como estava quando o desceram da cruz. Por causa dessa devoção, todos os dias, por volta do meio-dia, ela sentia em sua pessoa as dores do Calvário.
Pássaros voejam ao redor de sua cabeça; um cordeiro está deitado a seus pés, ou então se mantém sobre seus dois joelhos dianteiros. Tanto quanto Santa Colette tinha horror aos animalzinhos impuros: as lesmas, as formigas, as moscas, tanto ela amava aqueles que são o símbolo da pureza e da inocência: os cordeiros, as rolinhas. Trouxeram-lhe uma vez uma cotovia, esse pássaro melodioso que sem cessar canta os louvores de Deus, e que, verdadeiro discípulo do Evangelho, não se preocupa nem com o viver, nem com o abrigo; ela fez dele seu companheiro e partilhou com ele o pobre pão do convento. A partir desse momento, as cotovias dos campos vieram gorjear seus concertos na janela de seu oratório, bicar e comer em sua mão. Outra pessoa lhe ofereceu um cordeiro, o que lhe foi um grande consolo, tanto porque ele lhe representava o cordeiro sem mancha, quanto porque, no momento da consagração, esse encantador companheiro de sua solidão dobrava os joelhos diante do Santíssimo Sacramento; após o que ele se levantava sozinho.
Anjos cercam seu leito. Se é preciso acreditar no primeiro autor de sua vida, que era seu confessor, quando a bem-aventurada mãe Colette estava doente e permanecia sozinha durante a noite, os anjos vinham visitá-la, velavam por ela e, tornando-se seus enfermeiros, prestavam-lhe todos os serviços que reclamavam seus sofrimentos e sua dignidade de esposa do Soberano Rei.
« O Pe. Ignace, em sua História dos Prefeitos de Abbeville (p. 814), deu a gravura de um quadro que se encontrava em seu tempo na igreja de Saint-Gilles de Abbeville. A seguinte inscrição indicava o assunto:
S. COLETTE, VIRGEM, REZANDO À SANTÍSSIMA MÃE DE DEUS PARA INTERCEDER PELOS PECADORES JUNTO AO SEU FILHO. ELA LHE APARECEU SEGURANDO SEU PEQUENO MENINO JESUS, TODO SANGRENTO EM UM PRATO, E LHE DISSE: COMO REZAREI, MEU FILHO, POR AQUELES QUE TE DESMEMBRAM POR SUAS OFENSAS?
« O Sr. Crouck, de Amiens, é o autor de uma bela e grande composição que nos mostra a virgem de Corbie libertando uma alma das chamas do purgatório.
« Mencionemos, entre as estátuas, a estátua colossal que o abade Douillet mandou erguer na montanha que chamam de Carreira Santa Colette. A tradição relata que ela residiu algum tempo nessas pedreiras, quando, após seu retorno de Nice, foi mal acolhida por seus compatriotas.
« Martin de Vos gravou uma imagem popular, tornada rara hoje em dia, de Santa Colette, padroeira dos carpinteiros ».
Oração composta pelo cardeal Bona para o breviário romano: — Senhor Jesus Cristo, que cumulastes de dons celestiais a bem-aventurada virgem Colette, concedei-nos, nós vos pedimos, que imitando suas virtudes na terra, gozemos com ela das alegrias eternas nos céus. Assim seja!
Outra Oração que um anjo trouxe do céu para Santa Colette: (Recita-se a Ave Maria e o Glória ao Pai, antes de dizer a Oração). Que a hora do nascimento do Homem-Deus seja bendita; que o Espírito Santo, de quem Jesus Cristo foi concebido, seja bendito; que a gloriosa Virgem Maria, de quem este Deus-Homem nasceu, seja bendita; que o Senhor atenda minhas preces, pela intercessão desta gloriosa Virgem Maria, e pela lembrança desta hora sacratíssima na qual o Homem-Deus nasceu; que todos os meus desejos se cumpram para sua glória e para minha salvação. Ó bom Jesus! Ó Jesus Redentor! não me abandoneis e não punais meus pecados como eles merecem; mas atendei minha humildíssima prece, e concedei-me o que vos peço, pela intercessão da Santíssima Virgem, e para a glória de vosso santo Nome. Assim seja.
O senhor bispo de Amiens concedeu quarenta dias de indulgência àqueles que recitam esta oração.
Devemos esta bela Vida de Santa Colette ao abade Douillet, cura-decano de Corbie, que quis abreviar, para os Pequenos Bolandistas, um trabalho considerável que publicou sobre a santa reformadora cujo berço foi sua paróquia. A obra do abade Douillet apareceu em 1809, em Paris, na Bray et Estaux, 10-12 de 360 páginas. É a Vida mais exata e mais completa de Santa Colette. — Apenas as passagens entre aspas são do Sr. Corblet, que prestou um verdadeiro serviço à língua francesa ao publicar, em sua *Hagiografia da diocese de Amiens*, a Vida da Santa escrita no estilo ingênuo, untuoso e inimitável do século XV.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de Santa Coleta (Nicole)
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Nascimento em Corbie em 1381
- Reclusão voluntária em Corbie durante quatro anos
- Profissão na Ordem Terceira de São Francisco
- Viagem a Nice para encontrar o Papa Bento XIII em 1406
- Reforma da Ordem das Clarissas e fundação de numerosos mosteiros
- Contribuição para a extinção do Grande Cisma do Ocidente
- Falecida em Gante em 1447
Citações
-
Senhor Deus, não quero nada além de vos conhecer simplesmente e aos meus pecados.
Texto fonte -
O dia mais infeliz teria sido o dia em que ela não tivesse nada a sofrer.
Texto fonte