Nascido em Navarra e formado em Paris, Francisco Xavier tornou-se um dos primeiros companheiros de Inácio de Loyola. Enviado como missionário ao Oriente, evangelizou as Índias, as Molucas e o Japão com um zelo incansável e numerosos milagres. Faleceu em 1552 na ilha de Sancian, ao tentar entrar na China.
Seus contemporâneos
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SÃO FRANCISCO XAVIER, APÓSTOLO DAS ÍNDIAS
Juventude e estudos em Paris
Nascido em Navarra em 1506, Francisco Xavier prosseguiu brilhantes estudos de filosofia em Paris e tornou-se professor no colégio de Beauvais.
São Francisco Xavier nasceu no c astelo de Xavier, château de Xavier Local de nascimento do santo em Navarra. em Navarra, no dia 7 de abril de 1506. Teve como pai Dom João de Jasso, senhor de grande mérito e que ocupava um dos primeiros lugares no conselho de Estado de João III, e como mãe Maria Azpilcueta de Xavier, filha única e única herdeira de Dom Martin Azpilcueta e de Joana Xavier, chefes destas duas famílias, que eram as mais ilustres do reino. Depois de ter concluído as suas humanidades na sua terra natal, veio a Pa ris f Paris Local de nascimento, ministério e morte do santo. azer o seu curso de filosofia, e nele obteve tanto sucesso, tanto pela subtileza do seu espírito, que penetrava facilmente as maiores dificuldades, como pela sua assiduidade ao estudo e à discussão, que, tendo passado a mestre em artes, foi julgado digno de ensinar ele próprio no colégio de Beauvais, um dos principais da Universidade, as ciências que acabara de aprender. A beleza do seu génio apareceu mais do que nunca neste novo exercício, e a grande reputação que aí adquiriu fez com que tivesse muito mais alunos do que poderia esperar na sua idade.
Encontro com Inácio e fundação da Companhia
Sob a influência de Santo Inácio de Loyola, ele renuncia às suas ambições eclesiásticas para se consagrar a Deus e participa da fundação da Companhia de Jesus em Montmartre, em 1534.
Santo Inácio Saint Ignace Fundador da Companhia de Jesus e amigo de Filipe. chegou também nessa época a Paris, para se aperfeiçoar nas letras humanas. Como Deus lhe inspirara o desígnio de reunir uma companhia de homens s ábios e zelosos, que não t compagnie d'hommes savants Ordem religiosa à qual pertence Pedro Canísio. ivessem outro objetivo e outra ocupação senão trabalhar pela glória de Deus e pela salvação das almas, ele voltou seus olhos para este professor, para fazer dele um dos fundamentos mais sólidos desta sociedade. Para isso, hospedou-se próximo a ele, no colégio de Santa Bárbara. Francisco Xavier era ambicioso: devido ao sucesso extraordinário de suas lições, esperava ascender, pelo grau das ciências, a alguma alta dignidade da Igreja. Inácio o desenganou da vaidade de todas as coisas da terra, cujo brilho passa como um sonho e um relâmpago, repetindo-lhe frequentemente estas palavras de Nosso Senhor: "Que serve ao homem ganhar o universo inteiro se for tão infeliz a ponto de perder a sua alma?". Persuadiu-o, enfim, a empreender com ele uma vida evangélica e a consagrar-se a este nobre emprego da conversão dos pecadores. Assim, após ter feito os exercícios espirituais sob a direção de tão grande Mestre; após ter apagado as ofensas de sua vida passada pela abundância de suas lágrimas e por penitências muito rigorosas (cobriu-se com um rude cilício sobre a carne nua, atou com cordas os diversos membros de seu corpo, como uma vítima que se oferecia para ser degolada pela faca da justiça divina, passou três e quatro dias inteiros sem tomar nenhum alimento e quase sempre em orações); enfim, após ter terminado o curso de filosofia que ensinava e começado sua teologia, fez voto, com o mesmo Santo Inácio e cinco outros companheiros, na igreja de Montmartre, no dia da Assunção de Nossa Senhora do ano de 1534, de passar o quanto antes para a Terra Santa para ali assistir os cristãos que gemiam sob o jugo de Maomé, e no caso de, após terem esperado um ano, não encontrarem a comodidade de fazer essa viagem, de irem lançar-se aos pés do soberano Pontífice para se oferecerem a servir a Igreja em tal lugar do mundo que Sua Santidade achasse por bem empregá-los. Assim começou a cumprir-se a profecia de uma irmã de nosso Santo, chamada Madalena Xavier, abadessa do mosteiro de Santa Clara, em Gandia, que, sabendo por seu pai que ele tinha o desígnio de retirá-lo dos estudos, pediu-lhe instantaneamente que não o fizesse, assegurando-lhe que ele seria um dia o apóstolo das Índias e um pregador do Evangelho poderoso em obras e em palavras.
Ministério e preparação na Itália
Ele se prepara para o sacerdócio por meio de uma vida de mortificação e caridade nos hospitais de Veneza e Bolonha, antes de ser chamado a Roma pelo Papa.
Desde esse voto, este eleito de Deus completou seus estudos de teologia por conselho de Santo Inácio, que sabia que a piedade e o fervor não são de grande utilidade nos obreiros evangélicos se não forem acompanhados de uma doutrina sólida e de uma perfeita inteligência das Sagradas Escrituras. Ao fim de um ano ou de dezoito meses, partiu de Paris com seus companheiros para se dirigir a Veneza, que era o local onde deveriam embarcar. Em sua partida, o espírito de mortificação de que estava repleto levou-o a envolver ainda os braços e as coxas com pequenas cordas, as quais, por estarem extremamente apertadas na agitação da viagem que fazia a pé, entraram tão profundamente na carne que quase não apareciam mais e os cirurgiões julgaram impossível retirá-las sem lhe fazer incisões muito dolorosas. Seus companheiros, tocados de compaixão e vendo, aliás, que essa operação atrasaria muito a viagem, recorreram a Deus, e suas orações foram tão eficazes que, na noite seguinte, elas caíram por si mesmas e deixaram ao nosso bem-aventurado peregrino a liberdade de caminhar. Quando estava em Veneza, não quis outro alojamento, enquanto esperava o tempo de se pôr ao mar, que o hospital dos incuráveis. Não se pode representar dignamente o que ele fez pela assistência e consolação dos enfermos; não contente em ocupar-se todo o dia em tratar de suas feridas, fazer suas camas e prestar-lhes outros serviços ainda mais baixos e repugnantes, passava noites inteiras ao lado deles. Seus cuidados não se limitavam ao alívio dos corpos. Embora mal soubesse o italiano, não deixava de lhes falar muito frequentemente de Deus e exortava sobretudo os mais libertinos à penitência, fazendo-lhes compreender, o melhor que podia, que, se suas doenças corporais eram incuráveis, as de suas almas não o eram. Ele obteve sobre si mesmo uma vitória insigne e que merece bem ser relatada: um dos enfermos tinha uma úlcera que causava horror ao ver e cujo fedor era ainda mais insuportável que a visão; ninguém ousava quase aproximar-se desse infeliz, e Xavier mesmo sentiu uma vez muita repugnância em servi-lo; mas lembrou-se então de uma máxima de Santo Inácio, seu pai, de que só se avançava na virtude na medida em que se superava a si mesmo e que a ocasião de um grande sacrifício era um desses encontros preciosos que não se devia deixar escapar. Fortalecido por esses pensamentos e animado pelo exemplo de Santa Catarina de Sena, que lhe veio então ao espírito, abraça o enfermo e beija suas feridas; no mesmo instante, toda a sua repugnância cessa, e desde então não teve mais dificuldade em nada, tão importante é vencer-se de uma vez por todas.
Tendo passado dois meses nesses exercícios de caridade, pôs-se a caminho de Roma com os outros discípulos de Santo Inácio, que permaneceu sozinho em Veneza. Tiveram muito que sofrer nessa viagem; as chuvas foram contínuas e o pão faltou-lhes muitas vezes, quando suas forças estavam mais exaustas; mas nosso Santo deu-lhes coragem e ele mesmo se sustentava pela força desse espírito apostólico de que Deus começara a enchê-lo. Visitou em Roma as principais igrejas e consagrou-se ao ministério evangélico sobre os sepulcros dos apóstolos São Pedro e São Paulo. Teve a honra de falar várias vezes ao Papa Paulo III, que fora informado de seu mérito e do de seus companheiros; recebeu sua bênção para a viagem à Terra Santa e obteve, para aqueles que ainda não eram sacerdotes, a permissão de serem promo vidos às Orde pape Paul III Papa que aprovou a ordem dos Somascos em 1540. ns sacras; enfim, sentindo-se animado de um novo fogo para trabalhar na conquista das almas que a corrupção dos costumes fazia perecer por todos os lados, retomou o caminho de Veneza, onde Santo Inácio o esperava.
À sua chegada, fez voto de pobreza e castidade perpétuas com os outros, nas mãos de Jerônimo Varelli, núncio do Papa, e, entrando no hospital dos incuráveis, continuou ali, até o momento do embarque, os exercícios de caridade que a viagem a Roma o fizera interromper. Contudo, a guerra que se acendeu entre os venezianos e os turcos, tendo rompido o comércio do Levante e fechado a porta da Terra Santa, nossos generosos peregrinos foram forçados a tomar outras medidas. São Francisco, para se tornar mais útil ao próximo, em qualquer lugar que a divina Providência o conduzisse, dispôs-se a receber o sacerdócio; recebeu-o efetivamente com sentimentos de piedade, de temor e de confusão que não se podem exprimir. A cidade pareceu-lhe pouco apropriada para se preparar para dizer sua primeira missa. Retirou-se, portanto, para isso em uma cabana, perto de Pádua, coberta apenas de palha, abandonada e toda em ruínas. Que seus exercícios nesse lugar foram diferentes daqueles sacerdotes sem devoção que não se dispõem para sua primeira missa senão por visitas e assembleias inúteis que lhes retiram o pouco recolhimento e espírito interior que tinham recebido em sua ordenação! Passou quarenta dias em uma solidão contínua, exposto às injúrias do tempo, dormindo apenas sobre o chão duro, castigando rudemente seu corpo e vivendo apenas de alguns pedaços de pão que mendigava nos arredores, sem quase romper o silêncio que se prescrevera. Ocupou-se depois mais de dois meses em instruir, por meio de catecismos e discursos familiares, os burgos e as aldeias ao redor e sobretudo o de Monselice, que era o mais próximo, onde o povo era o mais rude e não tinha quase nenhum conhecimento dos deveres do Cristianismo. Enfim, disse sua primeira missa em Vicenza, onde Santo Inácio levou todos os seus companheiros, e disse-a com tal abundância de lágrimas que aqueles que assistiam não puderam eles mesmos deixar de chorar.
Pouco tempo depois, caiu gravemente doente e não teve outro refúgio nessa grande necessidade que um dos hospitais da cidade, onde não lhe deram sequer a metade de uma cama ruim, em um quarto aberto de todos os lados, com remédios e alimentos tão pobres que não eram de modo algum capazes de curá-lo; mas São Jerônimo, a quem era extremamente devoto, apareceu-lhe uma noite no meio de um grande clarão de luz; e, depois de lhe revelar o que lhe aconteceria no futuro, colocou-o em condições de recuperar logo a saúde. Assim, o ano durante o qual sua companhia deveria esperar no Estado da república de Veneza uma ocasião favorável para passar ao Levante, tendo expirado, sem nenhuma aparência de poder ir, dirigiu-se a Bolonha por ordem de Santo Inácio, a fim de trabalhar ali pela salvação das almas, até que o Papa, que alguns outros foram consultar, lhes tivesse prescrito a cada um o que deveriam fazer para a glória de Deus e o serviço da Igreja.
O hospital foi primeiro o lugar de seu retiro; mas não pôde enfim recusar a Jerônimo Casalini, sacerdote de grande mérito e pároco de Santa Luzia, ir morar em sua casa. Recusou apenas sua mesa e nunca quis viver senão do que mendigava de porta em porta na cidade. Todos os dias, depois de ter celebrado os divinos mistérios na igreja desse sábio eclesiástico, ouvia ali as confissões de todos os que se apresentavam. Visitava depois as prisões e os hospitais, dava catecismo às crianças e pregava ao povo nas praças públicas; o que continuou sempre a fazer, não obstante uma febre quartã muito maligna e muito obstinada que o lançou em uma extrema languidez e o emagreceu tanto que não parecia mais que um esqueleto.
Ocupava-se em Bolonha nesses excelentes deveres de caridade, quando Santo Inácio, que tinha sido muito bem recebido pelo Papa, chamou-o a Roma para ajudá-lo no estabelecimento de sua companhia. Encontrou ali novas ocasiões de exercer seu zelo. Sua Santidade designou-lhe para o lugar de suas funções a igreja de São Lourenço in Damaso e ele fez prodígios pela força de suas pregações e por sua assiduidade em ouvir as confissões dos penitentes. A morte, o inferno e o juízo eram o assunto mais ordinário de seus sermões e, embora propusesse simplesmente essas verdades terríveis, fazia-o, no entanto, de uma maneira tão tocante qu établissement de sa compagnie Ordem religiosa à qual pertence Pedro Canísio. e o povo, que viera em multidão ouvi-lo, não saía da igreja senão com lágrimas nos olhos e pensando muito mais em converter-se, para evitar os castigos da justiça de Deus, do que em louvar o pregador. O que não fez esse homem incomparável em uma horrível fome que sobreveio a Roma e que pensou em despovoar toda a cidade? Que cuidado não teve, seja de levar aos hospitais os pobres que encontrava deitados no pavimento e morrendo de fome nas ruas e praças, seja de carregá-los ele mesmo sobre seus ombros, quando estavam fracos demais para se arrastar, seja enfim de lhes procurar assistência, engajando os ricos a abrir suas bolsas e seus celeiros para lhes dar esmola?
O chamado das Índias e a partida
A pedido do rei de Portugal, ele é nomeado por Inácio para levar o Evangelho ao Oriente e embarca em 1541 com o título de núncio apostólico.
Naquele tempo, João III, rei de Portugal e o príncipe mais religioso do seu século, fez instantes pedidos ao Papa, por intermédio de Dom Pedro de Mascarenhas, seu embaixador na corte de Roma, para obter seis companheiros de Inácio que fossem levar a luz do Evangelho às Índias Orientais. O santo Fundado r, a quem Sua Sant le saint Fondateur Fundador da Companhia de Jesus e amigo de Filipe. idade quis remeter o assunto, respondeu que, sendo apenas dez, não poderia de modo algum dar seis, pois a Europa, que estava toda desfigurada pelo vício e pela heresia, não precisava menos de operários evangélicos do que aquelas terras distantes que ainda estavam presas ao paganismo; mas que daria dois de grande mérito, que satisfariam os desejos do rei. O Papa aprovou esta resposta e quis que o próprio Inácio fizesse a escolha desses missionários. O Santo nomeou primeiro o Padre Simão Rodrigues e o Padre Nicolau Bobadilha; mas, tendo este último adoecido de uma febre contínua, e o assunto não podendo sofrer demora, foi inspirado pelo céu a nomear São Francisco, a quem a divina Providência havia destinado desde toda a eternidade para este emprego. Ele o chama, portanto, no mesmo momento e, no movimento do Espírito divino de que estava cheio, declara-lhe a eleição que o céu havia feito de sua pessoa para a conversão dos indianos: «É de Sua Santidade», acrescentou ele, «que deveis receber esta missão: eu não sou senão seu órgão para vo-la anunciar, como ele não é senão o órgão do Espírito Santo para vos explicar suas vontades. Este emprego deve vos ser tanto mais caro quanto satisfará o ardor que tendes de levar a fé além dos mares. Não vos propõem uma província ou um reino do Levante para converter; apresentam-vos um mundo inteiro, composto de mais reinos do que há em toda a Europa. Este campo tão vasto e tão extenso era o único digno de vossa coragem e de vosso zelo. Ide, pois, generosamente, meu irmão, para onde a voz de Deus vos chama e para onde a Santa Sé vos envia, e incendiai tudo com o fogo divino de que estais vós mesmo abrasado».
Não se pode expressar a alegria que esta notícia deu ao nosso Santo. Ele tinha sido frequentemente advertido por sonhos misteriosos de que Nosso Senhor o fizera nascer para ser o apóstolo de um mundo de idólatras; mas, quando viu claramente o que a divina Providência pedia dele e que poderia encontrar a ocasião de sofrer o martírio, rendeu grandes ações de graças a Deus e, sem fazer outra resistência além de testemunhar sua incapacidade, respondeu que estava pronto para ir a qualquer lugar que o Papa quisesse enviá-lo. Ele não teve, para se preparar para esta grande viagem, senão o resto do mesmo dia. Quando foi beijar os pés do Papa e pedir sua bênção, Sua Santidade testemunhou-lhe uma afeição e uma ternura singulares e exortou-o a caminhar sobre os passos dos Apóstolos, como ele tinha parte na excelência de seu ministério. Recomendou-lhe também que tivesse sem cessar recurso à proteção de São Tomé, que foi o primeiro a levar o Evangelho aos indianos. Finalmente, abraçou-o mais de uma vez e deu-lhe uma bênção muito ampla.
São Francisco partiu de Roma em 15 de março de 1540, na companhia do embaixador de Portugal, sem outro móvel que uma pobre batina, um velho manto e um breviário. Fez todo o caminho de Lisboa por terra, passando pela França e pela Espanha. Nesta longa viagem, que durou mais de três meses, deu provas admiráveis de sua virtude. Descia frequentemente do cavalo para fazer subir os lacaios que estavam a pé; cedia aos outros nas estalagens as camas que lá se encontravam e contentava-se, para sua pessoa, com um pouco de palha no canto de uma cavalariça; enfim, fazia-se o servo de toda a companhia e rebaixava-se, para isso, aos ministérios dos menores criados. Receberam-no em Bolonha, onde ele havia anteriormente anunciado a palavra de Deus, com mil demonstrações de respeito e reconhecimento; lá pregou e confessou, e essas funções, que exerceu com um zelo maravilhoso, deram um desejo extremo aos habitantes de poder retê-lo. Vários oficiais do embaixador foram libertados miraculosamente de perigos muito grandes pela força de suas orações. Ele lhes fez também exortações prementes para que se aplicassem seriamente ao assunto de sua salvação, e os sucessos de seus discursos cheios de fogo nos dão motivo para dizer que ele foi o apóstolo deles antes de ser o dos indianos.
Seu desapego de seus pais e de todas as pessoas de seu conhecimento foi, sobretudo, um exemplo das mais raras e heroicas virtudes que se leem na história dos Santos. Sua mãe vivia ainda, e ele tinha muitos irmãos, parentes e antigos amigos, tanto no castelo de Xavier quanto nos arredores; como passou pela Navarra e pela cidade de Pamplona, que não ficava muito longe, o embaixador pressionou-o a honrá-los com uma visita, argumentando que, deixando a Europa para talvez nunca mais voltar, ele não poderia dispensar-se honestamente de lhes dar um consolo tão legítimo. Mas este homem celestial, em quem o mundo estava morto, como ele mesmo estava morto para o mundo, respondeu constantemente a Sua Excelência que reservava-se para ver seus pais no céu, não passando apenas com as mágoas que as separações e as despedidas causam ordinariamente na terra, mas por toda a eternidade e com uma alegria que nunca seria misturada com dor: o que encheu de espanto o embaixador e toda a sua comitiva.
Sua conduta em Lisboa não foi menos admirável do que tinha sido em toda a viagem; foi recebido pelo rei e por toda a corte como um homem vindo do céu, e Sua Majestade deu suas ordens para alojá-lo e tratá-lo honestamente com o Padre Simão Rodrigues, que havia chegado por mar antes dele. Eles não tomaram, contudo, outro alojamento que não o hospital, e não quiseram outra comida que não aquela que pediam pela cidade, pedindo esmola de porta em porta. Esperando o tempo de embarcar, aplicaram-se aos seus exercícios ordinários da pregação, da confissão, da condução das almas e da instrução das crianças pelos catecismos; seus trabalhos tiveram tanto sucesso que reformaram em pouco tempo toda a cidade e até toda a corte; a tal ponto que os gentis-homens que se aproximavam mais do rei confessavam-se, comungavam todas as semanas e davam ao povo raros exemplos de modéstia e devoção.
O rei, que acreditava que seus Estados de Portugal eram preferíveis às terras que possuía no Oriente, tomou a resolução de reter esses santos missionários perto de si e de fazer mudar a obediência que eles tinham para as Índias. O assunto foi levado a Roma, e o Papa, tendo deixado a regulamentação a Santo Inácio, este bem-aventurado fundador mandou aos dois Padres que lhe haviam escrito para impedir uma mudança, que o rei deveria ocupar para eles o lugar de Deus e que era preciso que eles lhe obedecessem cegamente; mas, ao mesmo tempo, mandou a Dom Pedro de Mascarenhas que um e outro estavam à disposição do príncipe, e que ele acreditava que era apropriado usar nisso de temperamento, guardando apenas o Padre Simão Rodrigues para Portugal e deixando ir o Padre Xavier para as Índias. Sua Majestade aceitou esta partilha, e nosso Santo, que temia extremamente que revogassem sua missão, sentiu uma alegria extraordinária de ver-se escolhido de novo para esta grande empresa. Pouco tempo depois, puseram em suas mãos quatro breves apostólicos, dois pelos quais Sua Santidade o fazia seu núncio em todo o Oriente e lhe dava poderes muito amplos para estender e para manter a fé na Pérsia, nas Índias, no Japão, na China e nos outros reinos das redondezas; e dois outros onde o recomendava aos príncipes cristãos que tinham Estados, desde o cabo da Boa Esperança até além do Ganges.
Esta qualidade de núncio do Papa não o fez diminuir em nada sua humildade e sua pobreza. Ofereceram-lhe dinheiro, móveis e provisões para esta viagem; mas ele os recusou constantemente, tendo o desígnio de viver em toda parte como apóstolo e pedindo seu pão, mesmo no navio onde estaria embarcado. Aceitou apenas alguns pequenos livros de piedade dos quais previa que teria necessidade nas Índias, e um hábito de pano grosso contra os frios excessivos que se tem de sofrer além do cabo da Boa Esperança. Ele embarcou no mar em 7 de abril de 1541, cheio do espírito apostólico, com os Padres Paulo de Camerini e Francisco Mancias, portugueses, que, tendo abraçado seu instituto, quiseram também ter parte em seus trabalhos. O vice-rei Dom Martin Afonso de Sousa pediu-lhe que embarcasse na capitânia, e ele não pôde recusar-lhe esta graça que desejava com uma paixão extrema; mas nunca quis comer à sua mesa, permanecendo firme e inabalável na resolução que tinha tomado de viver sempre como mendigo.
Contudo, não se pode acreditar nos serviços que ele prestou no navio, onde não havia menos de mil pessoas de todas as sortes de condições: baniu dele, por sua prudência e por suas sábias admoestações, os jogos de azar, as brigas, as blasfêmias, os juramentos, as maledicências, as palavras dissolutas e os outros desordens que a ociosidade produz ordinariamente nos navios. Pregava lá em todas as festas ao pé do mastro principal com um proveito maravilhoso, e não faltava todos os dias de fazer o catecismo aos marinheiros, que eram pouco instruídos nos princípios de nossa fé. Fazia fazer publicamente a oração, ouvia as confissões com uma assiduidade e uma paciência surpreendentes; assistia os doentes e servia-lhes ao mesmo tempo de médico, de enfermeiro e de padre; enfim, nessa grande diferença de pessoas que enchiam o navio, fazia-se tudo para todos para ganhá-los a todos. Sua caridade e seu zelo brilharam principalmente em doenças incômodas e até pestilenciais das quais a maioria dos passageiros foi atacada além da linha. Ele os enxugava em seus suores, limpava suas úlceras, lavava suas roupas e prestava-lhes os serviços mais abjetos; mas tinha cuidado sobretudo de suas consciências, e sua principal ocupação era dispô-los a morrer cristãmente. Tendo ele mesmo caído em uma extrema languidez, não interrompeu esses ofícios de caridade; e como lhe deram um quarto um pouco melhor do que anteriormente e o vice-rei lhe enviava pratos de sua mesa, ele colocou os mais doentes nesse quarto e distribuiu-lhes os alimentos que lhe eram trazidos, contentando-se com o convés para cama e com alimentos muito pobres para sustento.
A frota, tendo parado em Moçambique, na costa oriental da África, para invernar, ele continuou lá suas assistências para com seus queridos doentes que tinham sido desembarcados, e viam-no no hospital ir de sala em sala e de cama em cama para dar remédios aos uns e administrar aos outros os sacramentos da Igreja. Velava também os moribundos durante a noite e não os abandonava até que tivessem dado o último suspiro. Em uma febre maligna, que tantas fadigas lhe atraíram, não deixou de visitar esses pobres aflitos e de assisti-los tanto quanto sua grande fraqueza lhe podia permitir.
Apostolado em Goa e na Costa da Pescaria
Chegado a Goa em 1542, reforma os costumes da cidade e depois evangeliza os pescadores de pérolas (Palawars) e o reino de Travancor, operando numerosos milagres.
Assim que se recuperou, foi preciso voltar ao mar, e seu navio chegou felizmente, primeiro a Melinde, depois a Socotorá, onde espalhou um tão agradável odor de santidade que, quando foi obrigado a zarpar, os naturais da terra, embora bárbaros e de uma religião muito estranha, choraram amargamente por se verem privados de uma tão amável companhia, da qual esperavam grandes socorros. De Socotorá, foi em pouco tempo a Goa, que era naq Goa Local de transferência dos restos mortais do apóstolo pelos portugueses. uela época a capital das Índias, a sede dos bispos e dos vice-reis, e o lugar do Oriente mais considerável e mais frequentado pelo comércio. Marca-se sua chegada em 6 de maio de 1542. Quando desembarcou, foi hospedar-se no hospital e, após prestar suas homenagens ao anjo da guarda dos indianos e ao apóstolo São Tomé, que foi o primeiro a anunciar-lhes o Evangelho, foi saudar o bispo, que era Dom João de Albuquerque, religioso de São Francisco, prelado de muito grande mérito e um dos mais virtuosos que havia então na Igreja. Explicou-lhe as razões pelas quais o soberano Pontífice e o rei de Portugal o haviam enviado àquele país; apresentou-lhe os breves de Sua Santidade que o estabeleciam como seu núncio apostólico em todo o Oriente, com cartas patentes de Sua Majestade, e declarou-lhe que não queria servir-se de uns nem de outros senão com sua bênção e dependendo de sua autoridade.
Seu primeiro cuidado foi tratar, instruir, consolar e fortalecer os enfermos. Começou então a reformar todas as Ordens da cidade, que estavam em uma estranha depravação; pois via-se ainda um grande número de idólatras cuja vida se assemelhava muito mais à da besta do que à do homem, e que, mudando todos os dias de deuses, faziam em sua honra cerimônias abomináveis. Tolerava-se até, entre os cristãos, o adultério, o concubinato, os tratados usurários e fraudulentos, o assassinato e mil outros desordens dignas dos raios do céu. A justiça era vendida nos tribunais, e os crimes mais enormes permaneciam impunes quando os criminosos tinham meios de corromper seus juízes. A ignorância dos mistérios de nossa religião e das regras da moral cristã era extrema, e ninguém se preocupava nem em instruir-se, nem em enviar os seus às instruções públicas. O uso dos sacramentos da Confissão e da Eucaristia estava quase abolido; e se alguém, por acaso, tocado pelo remorso de sua consciência, quisesse reconciliar-se com Deus junto a um sacerdote, não ousava fazê-lo senão à noite e em segredo, tanto a ação parecia extraordinária e vergonhosa. Enfim, chegara-se a tal desprezo pelas censuras eclesiásticas que elas já não eram capazes de deter essa torrente que precipitava todo o mundo nos infernos.
O que não fez o grande Francisco para remediar tantos males? Começou pelos catecismos das crianças, que instruiu tão bem nas verdades da fé e nas regras da piedade e da modéstia cristã, que elas envergonharam seus pais e os obrigaram, pelo seu exemplo, a vir ouvir esse missionário celestial. Subiu então ao púlpito e começou a trovejar contra o vício, e sua palavra teve tanta força que ganhou os pecadores mais endurecidos e os fez chorar amargamente suas ofensas. Os frutos de penitência que acompanharam essas lágrimas foram provas certas de sua conversão. Romperam-se os falsos contratos e os tratados usurários; restituiu-se o bem mal adquirido; libertaram-se os escravos que se possuíam injustamente; expulsaram-se as concubinas com as quais não se queria casar; devolveu-se à justiça o esplendor e a liberdade que ela deveria ter, e o uso dos sacramentos tornou-se frequente como era nos primeiros fervores daquela Igreja. Foi principalmente nessa época e por esse grande sucesso que começaram a chamá-lo de Apóstolo, assim como sua insigne piedade lhe havia merecido anteriormente o nome de santo Padre.
Assim que os negócios de Goa estiveram no estado que acabamos de descrever, passou para a costa da Pescaria, que se estende desde o cabo Comorim até a ilha de Manaar. Os habitantes daquele país, chamados Palawars, isto é, pescadores, porque sua ocupação era pescar pérolas, haviam recebido o Batismo; mas não lhes restava mais nada de cristão além do caráter. A depravação de seus costumes era geral, e sua vida era mais uma vida de idólatras do que de discípulos de Jesus Cristo. Ao atravessar o cabo Comorim, converteu todo um povoado mergulhado nas trevas da idolatria, pela libertação milagrosa de uma mulher que estava há três dias nas dores do parto. Seus trabalhos entre os Palawars tiveram um sucesso ainda mais completo. Lá, reconquistou para Nosso Senhor trinta povoados dos quais esse cantão era composto; ensinou-lhes, por mil santas indústrias e sem saber sua língua, os primeiros elementos da doutrina cristã; confessou uma infinidade deles que haviam violado por sua infidelidade a pureza de seu batismo; batizou mais de quarenta mil, que ainda não tinham sido lavados e regenerados no sangue de Jesus Cristo; curou centenas deles, seja fazendo sobre eles o sinal da cruz, seja enviando-lhes jovens crianças recém-batizadas, com seu terço, seu crucifixo ou seu relicário, para fazê-los tocar e pronunciar sobre eles a Oração dominical ou o Símbolo dos Apóstolos. Mandou construir em cada povoado uma igreja em honra ao verdadeiro Deus, no lugar dos templos abomináveis que chamavam de pagodes, onde os falsos deuses eram adorados. Enfim, exterminou inteiramente o paganismo e mandou queimar todos os simulacros aos quais se prestara por tanto tempo um culto público.
Sua vida admirável e seus milagres não contribuíram pouco para essas conversões; pois não tinha outro alimento senão arroz e água, que era o dos mais pobres da costa; não dormia por dia mais do que três horas, e, como a terra nua era sua cama, também não tinha outro alojamento senão a cabana de um pescador. O processo de sua canonização faz menção a quatro mortos aos quais Deus devolveu a vida, naquela época, por seu ministério; e as curas das quais acabamos de falar eram tantos prodígios que não vinham dos esforços da natureza, mas da operação da potência divina.
No ano seguinte, após fazer uma viagem a Goa para estabelecer ali um seminário em favor dos jovens indianos, e ter retornado à Pescaria para consolar e socorrer seus queridos Palawars, que os Badages, seus inimigos, haviam saqueado e posto em fuga, dirigiu-se ao reino de Travancor, onde obteve um fruto inestimável pela força de suas pregações. O próprio rei ficou tão tocado que deu permissão ao Santo para pregar em todos os seus Estados e consentiu que todos os seus súditos abraçassem o cristianismo e fossem batizados por sua mão. Foi lá que recebeu o dom das línguas, a fim de poder falar sem intérprete aos idólat ras; que fez fugir u royaume de Travancor Reino indiano onde Xavier batizou milhares de pessoas. m exército de bárbaros que vinham atacar os novos cristãos, dizendo-lhes apenas, com o crucifixo na mão: "Eu vos proíbo, em nome do Deus vivo, de passar adiante, e vos ordeno, da parte dele, que retorneis sobre vossos passos"; que, sendo perseguido e procurado para ser morto pelos brâmanes, que eram os sacerdotes do país, evitou suas emboscadas e foi preservado dos golpes que lhe desferiram, por uma singular proteção da bondade divina; que batizou, em um só mês, dez mil pagãos; que mandou construir quarenta e cinco igrejas e que, enfim, confirmou, pela ressurreição de vários mortos, as verdades católicas e confundiu a obstinação dos infiéis, que não queriam render-se às suas razões nem às suas orações. Essas maravilhas adquiriram-lhe uma tão alta estima entre os indianos que não havia província, cidade ou povoado que não desejasse ardentemente possuí-lo.
Isso o fez desejar ter novos companheiros para ajudá-lo em uma colheita tão abundante. Dizia frequentemente, nesse sentimento, que esse grande número de sacerdotes ociosos, que se via na Europa, eram bem culpados por não virem empregar seus talentos na salvação de tantas almas, que pereciam miseravelmente por falta de pregadores que lhes anunciassem as verdades do Evangelho; e escreveu à Universidade de Paris para excitá-la a enviar-lhe alguns de seu corpo, cheios de ciência e de zelo, para trabalhar em uma tão gloriosa conquista. Teve, nesse mesmo tempo, a consolação de aprender, não apenas a conversão dos habitantes da ilha de Manaar, que um dos sacerdotes que ele havia deixado na Pescaria atraíra à fé, mas também o martírio de seis a setecentos desses neófitos que foram mortos por ordem do rei de Jafanapatnam. A fúria desse príncipe contra os fiéis foi a tal ponto que mandou degolar o mais velho de seus filhos por ter abraçado o cristianismo; e então, tendo o corpo desse glorioso soldado de Jesus Cristo sido enterrado, apareceu sobre seu túmulo uma belíssima cruz que os idólatras nunca puderam apagar e que, tendo permanecido radiante, foi causa da conversão de um muito grande número de bárbaros. Quanto ao tirano, que perseguiu também sua esposa e seu outro filho, como cristãos, morreu miseravelmente e perdeu, com a vida, o reino que havia usurpado de seu irmão.
Missões na Malásia e nas Molucas
Ele prossegue sua obra em Malaca, Amboina e nas Molucas, enfrentando tempestades e convertendo reis locais apesar da hostilidade dos demônios.
Após tantas vitórias conquistadas sobre Satanás, sobre os infiéis e sobre seus sacerdotes, o bem-aventurado Francisco fez uma viagem a Meliapor, que os portugueses chamam de cidade de São Tomé, porque esse santo Apóstolo ali sofreu o martírio e ali recebeu sepultura. Encontrou ali uma capela dedicada em sua honra, com uma grande peça de mármore branco, colocada ao fundo do altar, sobre a qual se sustenta que ele foi morto; é por isso que, na primeira vez que se celebrou a missa naquele oratório, ela destilou sangue à vista de todos. Nosso Santo ali fez frequentemente sua oração, a fim de merecer o socorro e a proteção desse admirável pregador do Evangelho, e logo viu que seus gemidos tinham sido atendidos; pois, tendo os demônios o atacado muito furiosamente, um dia em que ele estava naquela capela, ele zombou de seus insultos e os obrigou, por sua constância, a retirar-se com confusão. Além disso, recebeu naquele lugar consolações maravilhosas e uma luz muito clara sobre as viagens que deveria fazer para aumentar o reino de Deus. Partiu de lá para Malaca, para Amboina, para pequena Malacca Cidade estratégica na Malásia onde o santo permaneceu várias vezes. s ilhas que ficam nos arredores, para as Molucas, das quais Ternate é a capital, e para a grande ilha de Moro, onde fica a cidade de Monoya. Ali adquiriu por toda parte uma infinidade de servos para Jesus Cristo, e realizou ações cheias de glória, das quais várias foram milagrosas e acima das forças de toda a natureza.
Em Malaca, curou um jovem cuja saúde estava inteiramente desesperadora; devolveu a vida a uma jovem que haviam enterrado em sua ausência; obteve para os habitantes uma assinalada vitória no mar, com apenas sete ou oito velhas fustas, contra Soora, almirante de Alaradin, rei de Achem, que viera insultá-los com um exército de sessenta grandes navios e uma quantidade de fragatas, barcas e brulotes. Em Amboina, assistiu com uma caridade infatigável uma frota espanhola que ali havia aportado, e cujos soldados estavam atingidos pela peste; e, não se contentando em procurar esmolas para aqueles que estavam afligidos por esse mal, expôs-se mil vezes ele mesmo a ser infectado, pelos socorros espirituais e temporais que lhes deu. Nos arredores das ilhas vizinhas, mergulhou seu crucifixo no mar para apaziguar uma furiosa tempestade; e, como o deixou cair por descuido, assim que chegou à margem, um caranguejo trouxe-lho de volta em suas pinças, segurando-o ereto e elevado, como para fazer aparecer os triunfos que a Cruz havia conquistado sobre tantos corações infiéis. Nas Molucas, converteu o rei Tabarigia e a rainha Néachile, com duas princesas, irmãs de Cacil, rei de Ternate, e tocou-as mesmo tão fortemente que entraram nas vias do maior desapego e da mais alta piedade. Finalmente, em Monoya e na ilha de Moro, que lhe tinham descrito como incapaz de instrução e de comércio com os cristãos, desde que os habitantes tinham renunciado ao seu batismo, por causa dos maus-tratos dos portugueses, ele falou com tanta força e unção das penas eternas do inferno, que lançou o terror em seus espíritos e os obrigou a retornar aos exercícios do Cristianismo.
A epopeia japonesa
De 1549 a 1551, ele implanta o cristianismo no Japão, notadamente em Cangoxima e Bungo, debatendo com os bonzos e superando invernos rigorosos.
É tempo de falar das viagens que ele fez aos diversos reinos do Japã o, os Japon País do Extremo Oriente evangelizado pelo santo. quais, pelo seu feliz sucesso, lhe fizeram merecer o nome de apóstolo desta nação, assim como daquela das Índias. Ele passou antes pelas ilhas, cidades e províncias que havia regado com a chuva salutar do Evangelho. Lá, plantou cruzes nas praças públicas e nas ruas mais frequentadas; confirmou os cristãos na doutrina da fé e da verdadeira moral que lhes havia ensinado; combateu de viva voz e por escrito o libertinagem daqueles que desmentiam a santidade de sua religião pela corrupção de seus costumes; fez aparecer em mil ocasiões seu zelo pela glória de Deus, seu ardor pela salvação das almas e os dons eminentes que havia recebido, tanto de falar línguas quanto de curar todo tipo de doenças. Isso fez com que tentassem desviá-lo de sua grande empresa da conquista espiritual do Japão; mas como ele sabia, certamente, pelas luzes sobrenaturais que Deus lhe havia dado, que era Sua vontade que ele a prosseguisse, montou corajosamente ao mar e, após mil perigos que correu, seja pela fúria das tempestades, seja pela malícia de um capitão chinês que o havia levado em seu navio e que, no falso zelo de sua idolatria, esteve muitas vezes prestes a massacrá-lo ou jogá-lo ao mar, ele aportou finalmente com felicidade em Cangoxima, uma das primeiras cidades do Japão, em 15 de agosto de 1549.
Sua primeira retirada foi na casa de um homem chama do Anger, Cangoxima Primeira cidade do Japão onde Xavier desembarcou. a quem havia convertido em Goa e a quem dera, no batismo, o nome de Paulo de Santa Fé. Teve, por seu intermédio, acesso ao rei de Saxoma e ganhou de tal forma suas boas graças e as da rainha, sua esposa, que obteve a permissão de pregar a lei cristã em todas as terras sob sua obediência. Fê-lo primeiro em Cangoxima e teve a consolação de ver ali uma quantidade de grandes senhores abraçarem, por seu ministério, a doutrina do Salvador do mundo. Os bonzos, que eram como os religiosos do país, encerrados em diversos mosteiros, opunham-se ao progresso de suas pregações. Caluniaram-no e fizeram o possível para difamá-lo diante do povo; entraram frequentemente em discussão com ele e empregaram toda a sutileza de seu espírito para fazê-lo cair em confusão; inspiraram aos primeiros da corte desconfianças secretas de sua conduta; mas avançaram pouco com esses artifícios. Francisco dissipou suas calúnias pela inocência e pureza de sua vida, que foi sempre irrepreensível. Sua austeridade e seu desinteresse foram provas de que não buscava nem prazeres nem riquezas, mas que era o único desejo de ganhar almas para Deus que o havia feito percorrer mais da metade da volta ao mundo. Refutou com tanta força as extravagâncias desses maus doutores e estabeleceu tão solidamente a unidade de um Deus e os outros mistérios do Cristianismo, que eles não ousaram mais entrar em combate com ele.
Finalmente, confirmou por milagres as verdades que ensinava. Passeando um dia à beira-mar, avistou pescadores que estendiam sua rede vazia e se queixavam de não ter pescado nada. Teve piedade deles e, após sua oração, aconselhou-os a pescar novamente; então Nosso Senhor deu uma bênção tão grande ao seu trabalho, e eles pescaram tantos peixes e de tantas espécies, que mal puderam puxar a rede. Continuaram sua pesca nos dias seguintes com o mesmo sucesso e, o que é mais surpreendente, o mar de Cangoxima, que quase não tinha peixes, tornou-se extremamente farto desde então. Curou uma criança, que um inchaço em todo o corpo tornava extraordinariamente disforme, apenas tomando-a entre seus braços e repetindo-lhe três vezes estas palavras: «Deus te abençoe!». Curou também um leproso, separado do convívio dos outros homens, fazendo sobre ele três sinais da cruz, depois que ele assegurou que acreditava em Jesus Cristo e que se batizaria. Ressuscitou uma menina cujo pai veio implorar seu socorro, dizendo simplesmente a este homem: «Vá, sua filha está viva». Um idólatra, levado por sua própria fúria ou animado pela dos bonzos, carregou-o um dia de injúrias atrozes. Viu na mesma hora o castigo terrível que a justiça divina lhe preparava e disse-lhe com um ar um pouco triste: «Deus lhe conserve a língua!». Imediatamente, este infeliz sentiu a língua comida por um cancro, e saiu de sua boca uma quantidade de pus e vermes com um fedor insuportável.
Esses milagres e essa punição, que foram novas fontes de conversões, não fizeram, contudo, senão irritar ainda mais os bonzos. Finalmente, eles conspiraram tão bem na corte de Saxuma que o rei, que havia demonstrado tão grandes disposições ao Cristianismo e que havia até feito expedir cartas patentes pelas quais dava poder a todos os seus súditos de abraçá-lo, mudou inteiramente de sentimento e proibiu, por uma declaração totalmente contrária, de abandonar ou de combater de viva voz ou por escrito a antiga religião do Japão. São Francisco, reconhecendo por isso que a divina Providência o queria em outro lugar, após ter confirmado essa igreja nascente de Cangoxima com discursos poderosos e cheios da unção do Espírito Santo, saiu de seu reino com alguns companheiros cheios de zelo e tomou a rota de Firando.
No caminho, ganhou para Jesus Cristo quase todo um castelo que pertencia a um senhor chamado Hexandono; batizou ali sua esposa e seu filho mais velho, deu a forma das assembleias e das orações cristãs e marcou um lugar no castelo para realizá-las; finalmente, lançou ali, assim como em Cangoxima, os fundamentos de uma igreja florescente que se formou desde então, quando se enviou um número suficiente de padres e ministros para conferir os sacramentos e celebrar os santos Mistérios. Ao partir, deixou à dama um pequeno livro escrito de sua mão e, ao intendente de Hexandono, uma disciplina de ferro da qual havia se servido, que foram desde então fontes de curas sobrenaturais.
A acolhida que lhe fez o rei de Firando foi maravilhosa. Concedeu-lhe a permissão que o rei de Saxuma lhe havia retirado, a saber, de pregar a fé em suas terras: e ele o fez com tanta felicidade que, em menos de vinte dias, batizou ali mais pagãos do que havia feito em todo um ano em Cangoxima.
Essa facilidade fez com que acreditasse que um de seus companheiros seria suficiente para aumentar essa nova igreja cristã. Assim, querendo atacar a heresia até em seu forte, pôs-se a caminho de Méaco, que era a sede do império do Japão. Como foi preciso passar por Amanguchi, capital do reino de Naugata, encontrou ali uma corrupção de costumes tão grande que se julgou obrigado a fazer alguma estadia para tentar trazer remédio; mas suas admoestações e exortações foram inúteis: as paixões vergonhosas e brutais das quais os habitantes daquele lugar se haviam tornado escravos impediram-nos de ouvir as palavras de vida que ele lhes pregava e de ver a luz celestial que lhes apresentava. O rei não foi mais dócil que seu povo; quis ouvir Xavier, mas rejeitou sua doutrina como uma fábula e permaneceu obstinado no culto aos ídolos e aos demônios, sem querer reconhecer o verdadeiro Deus, que tinha a bondade de se manifestar a ele pela boca de seu servo.
O mesmo aconteceu em Méaco. Não se pode acreditar nas penas que o Santo e sua companhia sofreram nessa viagem; era inverno, que os ventos, as chuvas e as neves tornam extraordinariamente rudes naquele país; estavam mal vestidos e não tinham dinheiro, nem qualquer provisão para sua subsistência; iam a pé e, por falta de bons guias, perdiam-se frequentemente nos bosques e nas voltas das águas e das montanhas. Pode-se julgar por isso qual era a coragem de Xavier, de não sucumbir sob uma fadiga tão terrível. Teria sido consolado se seu trabalho tivesse contribuído para a conversão de um único idólatra; mas encontrou toda a cidade em tão grandes preparativos de guerra que ninguém pensava nas coisas da religião; de modo que, não tendo podido ter audiência nem do imperador, nem do sac, que é o grande Pontífice, sobretudo porque lhe pediam muito dinheiro para agendá-la, retomou a rota da cidade de Amanguchi.
Foi então que, por persuasão de seus amigos, ou melhor, por uma inspiração celestial que lhe fez conhecer que o pregador evangélico deve algumas vezes acomodar-se à fraqueza de seus ouvintes para ganhá-los mais facilmente, tomou um hábito um pouco mais limpo do que aquele que usava anteriormente, tendo frequentemente comprovado que um hábito tão rasgado o fazia ser rejeitado pelos príncipes e pelas pessoas de condição, e lhe fechava a porta de seus palácios. Essa precaução foi-lhe útil junto ao rei de Amanguchi, com algumas raridades da Europa das quais lhe fez presente. Pois esse príncipe, que lhe tinha sido tão pouco favorável na primeira vez que viera à cidade, deu-lhe desta vez todo o poder de pregar, discutir, batizar e compor uma assembleia de fiéis. Sobre essa permissão, fazia-se todos os dias um grande concurso de doutores do país, no lugar onde ele morava, para submeter-lhe dúvidas. Ele os ouvia atentamente e, o que é surpreendente e do qual não se encontra outro exemplo na História eclesiástica, por uma única resposta, satisfazia ao mesmo tempo dez ou doze dificuldades todas diferentes e sobre assuntos que não tinham nenhuma ligação; de modo que cada um daqueles que o haviam interrogado encontrava, na palavra que ele respondia, o verdadeiro esclarecimento de sua dúvida. Deus lhe devolveu também o dom das línguas que lhe havia concedido nas Índias, em diversas ocasiões; pois, sem nunca ter aprendido a língua chinesa, e tendo estudado apenas muito pouco a japonesa, pregava todas as manhãs, em chinês, aos mercadores da China que trafegavam em Amanguchi, e à tarde pregava aos japoneses, em sua língua, mas tão facilmente e tão naturalmente que, ao ouvi-lo, não o teriam tomado por um estrangeiro.
Por esse meio, uma quantidade de idólatras reconheceu seus erros e abriu os olhos às luzes sagradas do Evangelho; os bonzos perderam seu crédito, seus costumes corrompidos tornaram-se horrorosos, seus mosteiros despovoaram-se e seus colégios foram abandonados. Fizeram estranhos esforços para se sustentar, renovaram frequentemente a discussão com São Francisco, inventaram mil calúnias contra ele, tiveram até a astúcia de reconquistar o rei e de engajá-lo em uma cruel perseguição contra os cristãos; mas todas as suas intrigas não puderam impedir o progresso da religião. O número de fiéis subiu em poucos dias a mais de três mil naquela cidade, e eram todos tão fervorosos que não havia um que não estivesse pronto, não apenas a perder seus bens, mas ainda a verter seu sangue pela defesa da fé. Entretanto, diferentes razões obrigaram nosso Santo a retomar o caminho das Índias, onde os negócios de sua Companhia e da nova cristandade exigiam necessariamente sua presença. Deixou, pois, o Padre Cosme de Torrez e o irmão João Fernandez em Amanguchi, e dirigiu-se ao porto de Figen, perto de Funay ou Fuchéo, capital do reino de Bungo, para subir em um navio português que ali havia chegado cheio de mercadorias.
Não nos deteremos a descrever aqui as honras que lhe fizeram quando chegou a esse navio, e quando de lá foi conduzido a Fuchéo, ao palácio do príncipe; sua marcha não foi menos augusta que a de um soberano; a acolhida que recebeu do rei de Bungo foi tão gloriosa que jamais se tinha visto um homem particular no Japão tratado com tanto respeito e magnificência. Esse rei, após ter-lhe feito render mil honras por seus oficiais, inclinou-se por três vezes diante dele até a terra, tomou-o pela mão, fê-lo sentar ao seu lado e, deixando o orgulho da majestade real, do qual os reis do Japão nunca se desfazem em público, entreteve-se familiarmente com ele como com seu amigo particular. Em seguida, por um favor totalmente extraordinário, fê-lo comer à sua mesa; e, como concebeu uma alta ideia da religião cristã, deu-lhe poder de anunciá-la em seus Estados e de conferir o batismo a todos aqueles que o pedissem. Francisco teve ainda, nesta cidade, que sustentar a fúria dos bonzos. Entrou frequentemente em discussão regrada com eles e fez ver a loucura de suas imaginações e a extravagância de sua seita. Estabeleceu, por outro lado, com uma luz e uma solidez maravilhosas, a verdade do cristianismo, e Deus espalhou tanta unção sobre suas palavras que os próprios idólatras, sobretudo o rei, os príncipes e os senhores da corte, aplaudiram tudo o que ele dizia e lhe deram ganho de causa. Contudo, poucos daqueles que o ouviam foram julgados dignos de receber o sacramento da regeneração; pois, embora submetessem seu espírito às verdades da fé, estavam, contudo, engajados em vícios vergonhosos que não estavam ainda resolvidos a abandonar. Isso só se fez alguns anos depois, quando novos missionários foram enviados para cultivar esse campo que nosso bem-aventurado apóstolo havia descoberto e sobre o qual havia lançado as primeiras sementes da doutrina cristã.
Última viagem e morte em Sancian
Tentando entrar na China, adoece na ilha de Sancian e morre na miséria em 2 de dezembro de 1552.
Estando tudo pronto no porto de Figen para o embarque, São Francisco despediu-se finalmente do rei de Bungo, que lhe havia feito tantas gentilezas. Era o dia 20 de novembro de 1551, dois anos e quase quatro meses após sua chegada ao Japão. Seu desígnio era ir a Malaca, que ele sabia, por revelação, estar sitiada por mar e por terra por um poderoso exército de javaneses e malaios, e de lá seguir para Goa, onde o Espírito Santo o chamava e lhe dizia interiormente que sua presença era necessária. A navegação foi inicialmente bastante feliz; mas, nas proximidades da ilha de Méleitor, levantou-se uma tempestade tão furiosa que não se pode imaginar uma mais terrível. A chalupa, onde estavam quinze homens, foi arrancada pelos ventos das bordas do grande navio e levada para mares muito distantes. Esse mesmo navio viu-se a dois dedos do naufrágio, de modo que os passageiros, quase inundados por uma montanha de água, não esperavam mais do que o golpe final da morte; mas o Santo fez tanto por suas lágrimas, aos pés do crucifixo, que obteve de Nosso Senhor a salvação de toda a sua companhia. A tempestade acalmou-se, o navio onde ele estava foi posto fora de perigo, e aqueles que navegavam na chalupa viram-no sentado perto deles, segurando o leme e conduzindo-a, em meio às tempestades e tormentas, direto ao navio do qual os ventos a haviam separado. Muitos outros milagres ocorreram no curso desta viagem; mas o que é bem mais considerável é que, tendo dito ao seu piloto que nenhum dos navios em que ele embarcasse naufragaria jamais, viu-se desde então a verdade desta predição, pois, tendo este piloto embarcado em vários navios em péssimo estado, confiando nesta promessa, nunca lhe aconteceu qualquer acidente. Semelhantemente, tendo o Santo assegurado sobre um navio chamado Santa Cruz que ele não pereceria no mar, mas que se desfaria por si mesmo no lugar onde havia sido construído, ele percorreu desde então, durante mais de trinta anos, todos os mares da Ásia, em meio a mil perigos e com cargas muito mais pesadas do que poderia suportar, sem sofrer com a calmaria nem com as tempestades, e foi finalmente desfazer-se no litoral de Cochim, que era o lugar onde havia sido montado.
A brevidade que este resumo exige não nos permite estender sobre o que fez São Francisco Xavier, tanto em Malaca quanto em Goa, no tempo de seu retorno. Diremos apenas que ele tomou a resolução de executar o mais cedo possível o que havia proposto desde que estava no Japão, isto é, ir levar a fé à China, porque reconheceu cada vez mais que toda a corrupção das Índias e do Japão vinha de lá, e que nunca se conseguiria arruinar a idolatria nesses vastos países sem que antes a tivéssemos arruinado na China. Ele fez com que o vice-rei de Portugal e o bispo de Goa, cuja autoridade se estendia sobre todas as Índias, aceitassem seu desígnio. Regulou os assuntos das outras missões e os da Companhia e proveu as necessidades de todos os cristãos que havia ganhado para Jesus Cristo desde sua chegada ao Levante. Nomeou como reitor do colégio de Goa e vice-provincial das Índias o reverendo Padre Gaspar Barzée, que era um homem de prudência e virtude consumadas; deu-lhe por escrito instruções admiráveis para bem governar seus subordinados e para trabalhar utilmente para a glória de Deus e a salvação das almas. Finalmente, reconhecendo-o então como seu superior, pôs-se de joelhos diante dele, na presença de toda a comunidade, e prometeu-lhe obediência. Assim, estando tudo disposto para levantar âncora, embarcou na Quinta-Feira Santa, 14 de abril de 1552, e tomou o caminho da China. Passando por Malaca, entregou-se ao serviço dos pestilentos com a mesma generosidade que o fizera em tantas outras ocasiões. Ressuscitou também um morto, que se havia matado inconsideradamente, colocando em sua boca a ponta de uma flecha envenenada. Mas sua viagem foi atravessada pelo governador da cidade de uma maneira tão maligna e obstinada que nunca houve nada mais bárbaro. Foi forçado a deixar em Malaca o embaixador de Portugal, que deveria conduzi-lo à China, a subir em outro navio que não o que o havia trazido e a colocar-se na companhia das pessoas desse pérfido governador, que, a exemplo de seu mestre, não tinham senão dureza para com ele. Ele não deixou, no caminho, de cumulá-los de favores. Estando a água deles consumida, transformou a do mar em água doce, para livrá-los de uma cruel sede que lhes inflamava as entranhas. Pregou-lhes frequentemente, para fazê-los renunciar à volúpia e ao interesse, que são as paixões que mais dominam os mercadores. Fez-lhes diversas predições, cujo evento não deixou de justificar a verdade. Tendo uma criança caído no fundo do mar, ele a fez voltar seis dias depois, e a entregou cheia de saúde e vida ao seu pai: o que foi causa da conversão desse homem, que era maometano.
Chegou finalmente a Sancian, que é uma ilha que olha para Cantão, cidade da China, e que dela dista apenas seis léguas. Teria sido fácil para ele passar, não fosse a proibição que estava então em vigor d e não p Sancian Ilha próxima à China onde faleceu Francisco Xavier. ermitir a entrada de nenhum estrangeiro, fosse ele quem fosse; mas, como essa ordem era exatamente observada e as portas eram para isso guardadas com extrema rigor, foi forçado a procurar diversos meios para conseguir sua abertura. Enquanto empregava para esse fim ora as orações e as lágrimas ao pé do crucifixo, ora o que Deus lhe havia dado de prudência e luz, adoeceu gravemente de uma febre maligna, acompanhada de nojo, cólicas e dores de cabeça, que logo fizeram julgar que não se curaria. Retirou-se primeiro para o navio, que era o hospital comum dos doentes, a fim de morrer pobre, como sempre havia vivido pobre. Mas, como a agitação contínua que ali sentia aumentava sua dor de cabeça e o impedia de aplicar-se tão livremente ao seu Deus, pediu, no dia seguinte, para ser levado a terra. Transportaram-no e deixaram-no no litoral, exposto às injúrias do ar e a um vento do norte muito cortante, que soprava então. Teria morrido privado de todo socorro, se um português, mais caridoso que os outros, chamado Jorge Álvares, não o tivesse levado para sua cabana, que não valia, contudo, muito mais que o litoral, e que era aberta por todos os lados. Este servo de Deus passou treze dias nessa extrema pobreza, privado geralmente de todas as coisas. Sangraram-no duas vezes; mas sangraram-no tão mal que os nervos foram ofendidos e ele caiu cada vez em fraqueza e convulsão. Não teve outro alimento, nessa extremidade, senão um pouco de amêndoas que o capitão do navio lhe deu por caridade.
Entretanto, quanto mais sua hora final, da qual Deus lhe havia dado conhecimento, estava próxima, mais ele se abrasava do desejo da eternidade bem-aventurada. Não eram senão aspirações devotas, orações curtas e afetuosas. Dizia sem cessar: "Jesus, Filho de Davi, olhai-me com um olho de misericórdia"; ou então, adorando as três pessoas divinas: "Ó trindade santíssima!"; ou invocando a Rainha do céu: "Mostrai que sois Mãe". Finalmente, no dia 2 de dezembro, que era uma sexta-feira, tendo os olhos banhados em lágrimas e ternamente fixos em seu crucifixo, pronunciou estas palavras: "Tenho esperança em vós, meu Senhor, e estou seguro de que nunca serei confundido". E, ao mesmo tempo, cheio de uma alegria celestial que apareceu em seu rosto, entregou suavemente o espírito por volta das duas horas da tarde. Foi em 1552, no quadragésimo sexto ano de sua idade.
Culto, incorruptibilidade e relíquias
Seu corpo, encontrado intacto, foi transferido para Goa. Seu braço foi enviado a Roma e ele foi canonizado em 1622 por Gregório XV.
[ANEXO: CULTO E RELÍQUIAS.]
São Francisco Xavier foi enterrado no domingo seguinte à sua morte. Seu corpo foi colocado em uma caixa bastante grande, à maneira dos chineses, e essa caixa foi preenchida com cal viva, para que, estando as carnes consumidas mais rapidamente, pudesse-se levar os ossos para Goa. Em 17 de fevereiro de 1553, abriu-se o caixão para ver se as carnes estavam consumidas; mas, quando retiraram a cal de cima do rosto, encontraram-no fresco e rosado, como o de um homem que dorme suavemente. O corpo estava também muito bem conservado e sem qualquer marca de corrupção. Cortou-se, para se ter maior certeza, um pouco de carne perto do joelho, e fluiu sangue. A cal também não havia danificado as vestes sacerdotais com as quais ele havia sido enterrado. O santo corpo exalava um odor mais doce e mais agradável que o dos perfumes mais requintados. Foi colocado no navio e levado a Malaca, onde chegaram em 22 de março. Os habitantes desta cidade receberam-no com o maior respeito. A peste que ali fazia sentir seus estragos há algumas semanas cessou subitamente. O corpo do santo missionário foi enterrado no cemitério comum. Tendo sido encontrado fresco e inteiro no mês de agosto seguinte, transportaram-no para Goa, e depositaram-no na igreja do colégio de São Paulo em 15 de março de 1554. Ocorreram nesta ocasião várias curas milagrosas.
Em 1612, quando quiseram destacar do corpo, ainda fresco, flexível e corado, o braço direito para enviá-lo a Roma, encontraram grandes dificuldades; enfim, o Santo, cedendo às súplicas dos assistentes, apresentou ele mesmo este braço ao cirurgião, e, logo após a primeira incisão, o sangue fluiu com tanta abundância como se o corpo estivesse cheio de vida! Impregnaram-se panos com ele, que os Padres de Goa enviaram a Filipe IV, rei da Espanha, e recolheu-se em um frasco que foi enviado com o braço à Casa de Roma. A mão foi partilhada entre os colégios de Cochim, de Malaca e de Macau. O navio que levava estas santas relíquias para a Europa foi encontrado e perseguido por corsários; estava prestes a ser alcançado, quando o capitão exclamou: "Que levem o braço do santo Padre para a gávea! Ele colocará os piratas em fuga". A ordem foi executada, e os piratas viraram de bordo, afastaram-se a todas as velas e não reapareceram mais.
Destas preciosas relíquias, o braço permaneceu em Roma, o frasco de sangue está na Casa Professa de Paris. A corte de Roma, solicitada pelos soberanos do Japão e pelo rei de Portugal a proceder à canonização de Francisco Xavier, examinou sua causa, reconheceu vinte e quatro reintegrações juridicamente provadas e oitenta e oito milagres brilhantes operados durante a vida do ilustre Santo; uma bula do papa Paulo V, datada de 25 de outubro de 1605, declarou-o Bem-aventurado. Foi canonizado por Gregório XV, em 12 de março de 1622, com todas as c Grégoire XV Papa que elevou a congregação ao nível de ordem regular em 1621. erimônias ordinárias; mas a morte de Gregório XV retardou a publicação da bula, que foi dada por Urbano VIII, seu sucessor, sob a data de 6 de agosto de 1623.
Em 1670, por um decreto de 14 de junho, o papa Clemente X fixou a festa de São Francisco Xavier em 3 de dezembro, e ordenou, pelo mesmo decreto, que seu ofício seria de rito duplo para toda a Igreja.
Desde a morte de nosso Santo, o número de ressurreições obtidas pela invocação de seus méritos — reconhecidas pela corte de Roma, somadas aos atos da canonização, seja antes ou depois da publicação da bula — elevava-se, em 1715, ao número enorme de vinte e sete, das quais quatro haviam sido obtidas há poucos anos.
Seria difícil dizer em que país católico este Santo não é invocado com uma devoção ardente; por toda parte publicam-se numerosos milagres devidos à sua intercessão.
Eles se multiplicaram talvez ainda mais do que em outros lugares no castelo de Xavier. Fizeram uma capela do quarto no qual ele havia nascido, e os peregrinos acorreram em multidão. Navarra escolheu-o como padroeiro, e, ainda hoje, todos os navarros dão no batismo o nome de Xavier a seus filhos, e as peregrinações são sempre numerosas a esta capela, entregue ao público pelos descendentes da família de nosso Santo. Todos conservaram, com um respeito religioso, este nobre solar, ilustrado por tão gloriosas lembranças. O castelo de Xavier ainda é o que era em 1524, quando Dom Francisco dele se afastava para sempre... A capela da nobre família permaneceu o que era no tempo em que a feliz e triste mãe do grande apóstolo do Oriente ia ali buscar a força para agradecer a Deus por tanto sofrimento e felicidade.
Em 1744, por ordem do rei João IV, o arcebispo de Goa e o marquês de Castel-Nuovo, vice-rei das Índias, acompanhados de todos os grandes dignitários, fizeram a visita aos restos de São Francisco Xavier, e constataram, com todas as formalidades requeridas, a perfeita conservação de seu corpo. O papa Bento XIV, vendo os milagres sem número que se obtinham cada dia por seus méritos, declarou-o protetor do Oriente, por um breve de 24 de fevereiro de 1747.
Em 1762, o Padre Cicala, da Congregação dos Lazaristas, assistiu à exposição das relíquias do grande apóstolo, nos dias 10, 11 e 12 de fevereiro. Ele escrevia que o concurso do povo havia sido tão considerável naquele ano, que superava tudo o que se tinha visto nos últimos trinta anos, em seu empenho em vir visitar o santo túmulo. Acorreu-se de todas as partes das Índias. O caixão, de oito pés de comprimento, de dois pés de altura e fechado por três fechaduras, foi aberto na presença do bispo de Cochim, administrador da diocese de Goa, de todo o clero, de todas as Ordens religiosas, do vice-rei e de todos os grandes dignitários e magistrados. O corpo do Santo estava inteiramente recoberto por um véu de tecido de seda que foi retirado, e todos os assistentes puderam contemplar o que restava do grande apóstolo do Oriente. Ele estava revestido das vestes sacerdotais; sua casula, presente da rainha de Portugal, e bordada por sua mão, estava da maior frescura. O corpo não tinha o menor indício de corrupção; mas não tinha mais as aparências de vida que havia conservado durante mais de um século. "A pele", escrevia o Padre Cicala, "a pele, e a carne que está ressecada, está totalmente unida aos ossos; vê-se um belo branco no rosto; falta-lhe apenas o braço direito que está em Roma, e dois dedos do pé direito, assim como os intestinos". Os pés, sobretudo, conservaram-se na maior beleza.
Um fragmento do braço direito havia sido concedido ao colégio que a Companhia de Jesus havia estabelecido em Macau; mas sob a influência ou melhor, sob a dominação inglesa, o colégio dos Jesuítas foi transformado em quartel, a igreja apenas foi conservada. Em 1824, uma imprudência dos soldados pôs fogo no quartel; os socorros foram mal dirigidos, o incêndio devorou os edifícios, atingiu a igreja e não deixou senão ruínas... Enganamo-nos: no meio desta grande e deplorável destruição, um milagre marcante foi constatado: quatro estátuas apenas haviam sido respeitadas pelas chamas; quatro estátuas apenas haviam permanecido de pé, e todas as quatro perfeitamente intactas: eram as de Santo Inácio de Loyola, de São Francisco Xavier, de São Francisco de Borja e de São Luís de Gonzaga.
Numerosas relíquias dos Mártires do Japão desapareceram neste desastre... A de São Francisco Xavier foi a única salva! Hoje, a múmia ainda se vê, revestida do traje que o Santo usava em vida. O rosto é rosado, alguns cabelos grisalhos adornam as têmporas, o globo ocular faz saliência sob suas arcadas fortemente acentuadas de sobrancelhas espessas; o nariz apenas parece ter sofrido um pouco. Expunha-se outrora esta santa relíquia sem ter a precaução de colocá-la em uma vitrine; uma dama demasiado fervorosa destacou com uma dentada um dos dedos do pé do Santo; desde esse tempo, teve-se de tomar precauções para que tais atos não se renovassem.
Poderíamos citar fatos ainda mais recentes, atestando que a potência dos méritos do ilustre apóstolo está muito longe de estar enfraquecida. Na Bélgica, formou-se uma associação para a conversão dos pescadores, sob o patrocínio de São Francisco Xavier, e esta associação obtém numerosos milagres de conversões. Quem não conhece o bem que se opera por uma associação de outro gênero, fundada em Paris, para os operários, sob o mesmo patrocínio e a mesma invocação? E quem não conhece os progressos maravilhosos e sempre crescentes daquela da Propagação da Fé, igualmente colocada sob sua proteção?
O túmulo de São Francisco Xavier tendo sido aberto em Goa em 1859, o corpo do Santo foi encontrado intacto e tão bem conservado quanto no dia seguinte à sua morte.
Este relato é do Padre Giry. Nós o completamos com a Revue catholique de Louvain, 1859. — Cf. Histoire du Saint, por Daurignac.
ARQUICONFRARIA DO SAGRADO CORAÇÃO DE MARIA.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de São Francisco Xavier (Apóstolo das Índias)
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Nascimento no castelo de Xavier, em Navarra (1506)
- Estudos e ensino no colégio de Beauvais em Paris
- Encontro com Santo Inácio de Loyola no colégio de Santa Bárbara
- Votos em Montmartre (1534) e fundação da Companhia de Jesus
- Partida para as Índias como núncio apostólico (1541)
- Missão em Goa, na costa da Pescaria e no Japão (1549)
- Falecimento na ilha de Sancian, às portas da China (1552)
Citações
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De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro se for tão infeliz a ponto de perder a sua alma?
Palavras de Nosso Senhor repetidas por Inácio de Loyola -
Já basta, Senhor, já basta, poupai meu pobre coração.
Francisco Xavier em êxtase