Sobrinho do Papa Pio IV, Carlos Borromeu tornou-se arcebispo de Milão e foi uma das figuras principais da Contrarreforma. Destacou-se pelo seu zelo na aplicação dos decretos do Concílio de Trento, pela sua caridade inesgotável durante a peste de 1576 e pela sua vida de austeridade radical. Fundador de numerosos seminários e colégios, morreu aos 46 anos, exausto pelos seus trabalhos apostólicos.
Seus contemporâneos
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SÃO CARLOS BORROMEU,
ARCEBISPO DE MILÃO E CARDEAL
Origens e formação
Nascimento de Carlos Borromeu em 1538 em uma ilustre família milanesa e seus primeiros anos marcados por uma piedade precoce e estudos de direito em Pavia.
Carlos Borromeu nasceu no castelo de Arona, situado no Lago Maggiore, em 2 de outubro do ano de 1538. Teve como pai o senhor Gilberto Borromeu, conde de Arona, fidalgo milanês, bom católico e muito piedoso, que alguns fazem descender dos antigos reis da Itália e de um grande capitão, chamado Vitaliano, que, por ter salvo Roma da fúria de Átila, fora chamado Borromeu, isto é, bom romano. Sua mãe foi Margarida, da ilustre família dos Médici de Milão, aliada à de Florença. Ela era irmã do famoso Jaime de Médici, castelão de Musso e marquês de Marignano, que encheu todo o século XVI com a glória de seus belos feitos militares, e de João Ângelo de Médici, que foi elevado à Santa Sé apostólica sob o nom Jean-Ange de Médicis Papa que autorizou o culto de Conrado. e de Pio IV.
O nascimento desta criança foi tornado ilustre por uma claridade extraordinária e um fogo celeste que apareceu sobre o castelo de Arona, no momento em que veio ao mundo, duas horas antes do dia. Deu, desde seus anos mais tenros, marcas evidentes da alta santidade que possuiria um dia; pois, desde então, via-se que se inclinava tanto à devoção, que não se podia alegrá-lo mais do que dando-lhe a liberdade de empregar-se em obras de piedade. Seu pai compreendeu por isso que o céu o destinara à Igreja, e assim que pôde receber a tonsura clerical, fê-lo usar a batina. Seu tio, Júlio César Borromeu, renunciou também em seu favor à sua abadia de São Gratiniano e São Felino, a fim de secundar as boas inclinações que ele tinha pelo estado eclesiástico. Carlos, sem saber que ser abade é ser pai, o foi, não de seus religiosos, que ainda não podia governar, mas dos indigentes que podia socorrer por sua caridade. Aos doze anos, começou a compreender que as rendas eclesiásticas são o patrimônio dos pobres, e que retirá-las deles é cometer um furto e um sacrilégio. Assim, advertiu livremente seu pai para não empregar as rendas de seu benefício nas necessidades de sua família, mas para deixar-lhe toda a disposição para fazer esmolas; e ele era nisso tão religioso que, se algumas vezes aquele senhor lhe tivesse emprestado algo para um pagamento urgente, ele tinha tanto cuidado em reavê-lo dele como se tivesse sido um estranho.
Sua juventude passou-se em grande inocência e perfeita integridade de costumes. Sua modéstia e sua honestidade encantavam a todos, e ele era tão contido e atento a si mesmo que nunca se ouviu proferir uma mentira nem uma palavra indecente. Ainda muito jovem, trabalhou na reforma de sua abadia, e nela obteve tanto sucesso que não se poderia esperar mais de uma pessoa já consumada em prudência, autoridade e santidade. Os exercícios de piedade não o impediram de dedicar-se muito cuidadosamente ao estudo. Tendo feito suas humanidades em Milão, foi para Pavia, onde aprendeu o direito civil e canônico sob o sábio Francisco Alciato. Não havia nada tão devasso quanto os estudantes daquela Universidade; mas Carlos saiu de lá tão puro quanto entr ara, Pavie Cidade da Itália, sede do bispado do santo e local de conservação de suas relíquias. e não pôde sequer ser abalado pelas solicitações de uma má pessoa, que um dos criados de seu pai, que morrera durante esse tempo, teve a temeridade de fazer entrar em seu quarto.
Carreira em Roma e Concílio de Trento
Chamado por seu tio, o Papa Pio IV, torna-se cardeal e arcebispo de Milão aos 22 anos, desempenhando um papel fundamental na conclusão do Concílio de Trento.
Ao mesmo tempo em que se tornava doutor em Pavia, seu tio, João Ângelo Médici, foi eleito e coroado papa em Roma. Ele recebeu esta notícia com tanta modéstia e reserva como se ela lhe fosse indiferente. E recorreu imediatamente ao adorável sacramento da Eucaristia, a fim de extrair dele força para não se perder nas grandezas que pareciam estar preparadas para ele. O novo Papa, logo em seguida, chamou-o para junto de si, fê-lo protonotário participante, de ambas as assinaturas, cardeal de São Vito e São Modesto, e finalmente arcebispo de Milão. Deu-lhe também, como a seu querido sobrinho, embora tivesse apenas vinte e dois anos, toda a administração dos assuntos de seu pontificado. Carlos encarregou-se desses grandes cargos, não por ambição, mas por pura obediência; nem com confiança em suas próprias forças, mas apoiando-se apenas no socorro da divina Bondade. O Papa estava feliz por ter um ministro tão justo e fiel. Não precisava temer que ele fosse corrompido por presentes, nem ganho por lisonjas, nem que, para criar seus próprios seguidores, concedesse algo contra seu dever e contra as regras eclesiásticas. Nada podia abalá-lo; e como não tinha outro objetivo senão a maior glória de Deus e o restabelecimento da antiga disciplina da Igreja, não podia ceder quando lhe pediam graças que lhes eram opostas.
No início, contudo, cedendo um pouco ao costume, alojou-se, vestiu-se e mobiliou-se com certa magnificência, como para sustentar sua qualidade de príncipe, de cardeal e de sobrinho do Papa; mas a morte do conde Frederico, seu irmão, que Sua Santidade também havia chamado a Roma para cumulá-lo de todas as honras de que um príncipe leigo é capaz, desiludiu-o completamente dessas vaidades. Quando se acreditava que ele deixaria o chapéu cardinalício para se casar, não havendo outro senão ele que pudesse manter a grandeza de sua família, recebeu as ordens sacras e até mesmo o sacerdócio, consagrando-se assim a Deus de maneira irrevogável. Antes de celebrar seu primeiro sacrifício, fez os exercícios sob a direção do reverendo Padre Ribera, jesuíta, e recebeu dele as instruções necessárias para bem fazer a oração mental, não querendo deixar de fazê-la duas vezes por dia. O Papa, reconhecendo por isso sua constância e firmeza na resolução de servir à Igreja, mudou seu título de cardeal e deu-lhe um sacerdotal, que foi o de Santa Praxedes. Fê-lo também grande penitenciário da Igreja romana, arquipreste de Santa Maria Maior, protetor da Germânia inferior, do reino de Portugal, das províncias de Flandres, dos cantões suíços católicos e de diversas Ordens religiosas, a saber: as de São Francisco, dos Humilhados, dos cônegos regulares de Santa Cruz de Coimbra, dos cavaleiros de Malta e dos cavaleiros da Ordem de Cristo em Portugal, enfim, legado de Bolonha, da Romanha e da Marca de Ancona. Essas honras não o deslumbraram, e embora dividissem seu espírito em uma infinidade de assuntos diferentes e muitas vezes muito espinhosos, deixavam-lhe sempre aplicação suficiente para se desincumbir perfeitamente de cada um deles em particular. Uma das principais das quais cuidou foi a conclusão do santo Concílio de Trento, que, tendo começado em 1545, sob o papa Paulo III, só pôde ser terminado em 1563, sob o papa Pio IV.
A grande reforma da diocese de Milão
Retorno a Milão para restaurar a disciplina eclesiástica, reformar o clero corrompido e impor os decretos tridentinos, apesar das resistências.
Não podendo deixar Roma, onde o soberano Pontífice o retinha para o bem da Igreja universal, enviou a Milão, na qualidade de vigário-geral, Nicolau Ormanete, sábio jurisconsulto, homem prudente e cheio do espírito de Deus. Tendo este excelente eclesiástico encontrado a diocese em um desregramento deplorável, aplicou-se por algum tempo a reformá-la; mas, como a doença era grande demais para ser curada na ausência do médico, escreveu ao nosso Santo que era absolutamente necessário que ele visitasse seu rebanho para remediar as desordens pelas quais estava todo desfigurado. Carlos, que até então não havia conseguido obter do Papa a permissão para ir a Milão, pediu-a novamente com instâncias tão prementes e, por assim dizer, tão importunas, que a obteve finalmente como que à força. Dirigiu-se, pois, à sua cidade met ropolitana, onde foi ville métropolitaine Cidade italiana onde o santo possui um altar e uma festa anual. recebido com uma alegria e uma pompa extraordinárias. Em seguida, celebrou seu primeiro concílio provincial, no qual se encontraram alguns cardeais e todos os bispos de sua província, seja por si mesmos ou por deputados, e ali fez estabelecer regulamentos muito sábios para a correção dos costumes dos fiéis e para o restabelecimento da disciplina eclesiástica. Após este concílio, empreendeu a visita ao seu rebanho a fim de conhecer por si mesmo suas necessidades e o que era preciso fazer para impedir que se perdesse inteiramente. Mas, enquanto estava ocupado nesta função, recebeu uma nova ordem de Sua Santidade para se dirigir a Trento a fim de cumprimentar as sereníssimas princesas Joana e Bárbara, irmãs do imperador Maximiliano, que vinham se casar na Itália, e de lá seguir para Roma, onde ele o esperava. Era a Providência divina que o chamava a esta cidade, não para continuar suas aplicações ao governo universal da Igreja, mas para assistir seu tio na morte e para trabalhar no Conclave para lhe dar um sucessor. Fez ambos com muito sucesso. Administrou ele mesmo os últimos sacramentos a Sua Santidade e, não o tendo deixado até seu último suspiro, fechou-lhe os olhos e cuidou de seu sepultamento. Depois, tendo entrado no Conclave sem outra visão que a de procurar a glória de Deus, fez eleger para papa o cardeal Miguel Ghisleri de Alexandria, religioso da Ordem de São Domingos, que tomou o nome de Pio V.
Assim que o novo Papa foi coroado, Carlos Borromeu pediu permissão para retorn ar à Pie V Sucessor de Pio IV, apoiou Carlos Borromeu em suas reformas. sua Igreja, onde, como ele havia conhecido por sua própria experiência, sua presença era absolutamente necessária. Não foi senão com dificuldade que a obteve, porque São Pio V, que o estimava e o prezava singularmente, desejava tê-lo sempre ao seu lado; mas não foi possível resistir às suas razões e às suas orações. Dirigiu-se, pois, o mais cedo possível a Milão e, sem diferir um momento, começou a pôr mãos à obra para arrancar de seu campo as sarças e os espinhos que a negligência dos pastores ali havia deixado crescer. O uso dos sacramentos estava quase banido; o libertinagem era público, sem que se preocupassem em reprimi-lo ou puni-lo; as igrejas eram profanadas pelas impiedades que nelas se cometiam sem qualquer temor. Os padres eram ainda mais desregrados que o povo; sua ignorância era tão grande que a maioria não sabia as formas dos sacramentos; alguns, inclusive, não acreditavam estar obrigados a se confessar, porque confessavam os outros. A embriaguez e o concubinato eram muito comuns entre eles, e a isso acrescentavam sem cessar sacrilégios execráveis pela administração dos sacramentos e a celebração dos santos Mistérios em um estado tão criminoso e escandaloso. Quase não havia mais regularidade nos claustros: a propriedade, a incontinência e a dependência haviam obscurecido sua beleza. A maioria dos religiosos não tinha de sua profissão senão o hábito, e ainda assim desmentiam sua santidade pela forma toda secular e pela delicadeza toda mundana. Os mosteiros de mulheres estavam abertos a todo tipo de dissoluções: cada um entrava livremente; faziam-se ali danças e festins magníficos, e a castidade não estava muito mais protegida do que nos lugares de devassidão. Enfim, a jurisdição eclesiástica havia sido tão negligenciada e chegara a tal desprezo que ninguém se preocupava com seus julgamentos nem com suas censuras.
A primeira coisa que fez São Carlos para remediar tantos males foi mandar publicar em toda a sua diocese os decretos do santo Concílio de Trento e os de seu primeiro Concílio provincial, que tinham muita conformidade entre si, a fim de que ninguém os pudesse ignorar e que não achassem ruim que ele se aplicasse cuidadosamente a fazê-los executar. Para fazer triunfar esta grande e difícil empresa, começou sua reforma por sua própria pessoa e por sua família; desfez-se de um grande número de oficiais e criados que tinha a seu serviço, segundo a eminência de sua condição, e tomou em seu lugar uma bela companhia de eclesiásticos, a maioria doutores em teologia ou em direito canônico, e destinados ao serviço de sua diocese; vendeu seus móveis mais preciosos e guardou apenas os que lhe eram necessários. Mudou suas roupas brilhantes, que só havia adotado para se conformar aos outros cardeais, e não quis mais usar senão roupas simples e sem brilho. Deixou todos os benefícios com os quais seu tio quisera enriquecê-lo, exceto aqueles que julgou próprios para fundações, e dos quais, contudo, distribuía todos os rendimentos aos pobres. De muitas pensões que tinha, reservou apenas aquela com a qual o rei da Espanha o havia gratificado sobre o arcebispado de Toledo. Vendeu até uma parte de seu patrimônio e entregou quase todo o resto nas mãos de seus tios, com a única obrigação de uma renda vitalícia para a assistência dos seminários, das escolas de caridade, dos hospitais, das casas religiosas e dos mendigos. Enfim, ele tinha oitenta mil libras de renda, que reduziu a vinte mil, e só reteve esta quarta parte porque precisava de bens para os estabelecimentos que seu zelo e sua caridade lhe inspiravam.
O regulamento que ele impôs em sua casa é admirável. Não somente não sofria ali o vício, mas queria que cada um vivesse em singular moderação e modéstia, e se aplicasse à perfeição; o juramento, a devassidão, o jogo e as brigas estavam inteiramente banidos. Era composta de cerca de cem eclesiásticos, que todos tinham seus empregos diferentes dentro ou fora, e de alguns leigos para os serviços inferiores. As horas da oração vocal e mental e do exame de consciência eram reguladas, e ninguém teria ousado ausentar-se desses exercícios sem permissão. Os padres eram obrigados a se confessar todas as semanas e a dizer missa todos os dias: e aqueles que não o eram, eram obrigados a ouvi-la, a dar todos os meses um certificado por escrito de que haviam se confessado e a receber em seguida a comunhão da mão de seu bem-aventurado mestre. Comia-se apenas em comum e, durante a refeição, fazia-se sempre a leitura de um livro espiritual, para nutrir a alma ao mesmo tempo que o corpo. Os pratos que ali se serviam eram bons e limpos, mas de modo algum delicados. Fazia-se jejum todas as quartas-feiras do ano e durante o Advento, que começava no dia de São Martinho; jejuava-se todas as sextas-feiras, além de vários dias de devoção, como nas vigílias de todos os santos bispos de Milão, que eram em número de trinta e seis. Os clérigos eram todos vestidos de lã, e não lhes era permitido usar seda nem outros tecidos preciosos. Os leigos eram vestidos de preto e sempre de uma maneira muito modesta. O Santo não admitia nesta companhia senão pessoas de sabedoria e piedade reconhecidas. Tinha um cuidado extremo com eles, visitava-os frequentemente em seus quartos e não sofria que lhes faltasse nada em suas doenças; recompensava-os magnificamente, mas não queria que esperassem ter dele qualquer benefício. Fazia frequentemente com eles conferências e congregações para conhecer o estado de sua casa e de seu rebanho, e para estudar os meios de erradicar o mal e de fazer novos progressos no bem. Enfim, esta companhia era tão honrosa que dela saíram vários grandes homens, entre outros um cardeal e mais de vinte bispos, dos quais a maioria foi empregada, pela Santa Sé apostólica, nas primeiras nunciaturas da Europa.
Se São Carlos se aplicava com tanta prudência e zelo ao bom regulamento de sua casa, não tinha menos cuidado com o da casa de Deus. Como a cidade de Milão era sua metrópole, acreditou que era por ela que devia começar a reforma. Renovou-a inteiramente pela visita exata de sua catedral e dos capítulos, das paróquias e dos mosteiros de mulheres que compunham o estado eclesiástico. Restabeleceu o ofício divino em sua igreja e o esplendor que ele devia ter, aumentando as prebendas, convertendo uma parte do montante em distribuições ordinárias, para obrigar os cônegos a deixar seus outros benefícios e a se tornarem assíduos ao coro. Mostrou-lhes o exemplo primeiro, estando presente nas horas canônicas, tanto quanto o peso de seus grandes negócios lhe permitia. Tentou persuadi-los a viver juntos, e ofereceu para isso colocar todo o seu rendimento em comum. Alguns aquiesceram; mas, como a maioria resistiu, este belo desígnio não pôde ser executado. Embelezou notavelmente sua catedral, que chamam comumente de Duomo; fez elevar o altar-mor, ornamentar todas as capelas, acomodar propriamente a nave e fabricar um belo batistério de pedra de pórfiro. Corrigiu o canto e a música, tornando-os mais devotos e mais majestosos. Aumentou o serviço por pregações, bênçãos e procissões que instituiu, para ocupar santamente o povo nos dias de festa e desviá-lo da devassidão. Criou também três novas prebendas: uma teologal, para pregar publicamente todos os domingos e dar duas vezes por semana uma lição de teologia aos clérigos; uma penitenciária, para absolver dos casos reservados e presidir às conferências dos casos de consciência; e uma doutoral, para ensinar aos eclesiásticos o direito canônico e lhes ensinar as ordenanças da Igreja.
Distribuiu toda a cidade por bairros e em cada um estabeleceu pessoas que tinham o cuidado de velar pelos costumes daqueles que ali moravam e pelas necessidades dos pobres envergonhados, a fim de que fossem socorridos em suas necessidades, tanto para a alma quanto para o corpo. Reformou as confrarias antigas que se aplicavam a diversas obras de piedade e as reuniu no primeiro espírito de sua instituição, do qual haviam quase inteiramente decaído. Restabeleceu seu tribunal eclesiástico e o preencheu com oficiais prudentes e generosos, a quem ordenou não somente punir os eclesiásticos que se afastassem de seu dever, mas também prender e castigar os leigos que permanecessem obstinados em desregramentos públicos e escandalosos; mas seu principal cuidado foi fundar por toda parte escolas cristãs, onde os elementos de nossa religião fossem ensinados gratuitamente, e foi por esta instituição que a ignorância foi banida de Milão e de toda a diocese, e que as crianças ali se tornaram mais sábias nas verdades do Cristianismo do que os pastores o eram anteriormente.
Os mosteiros de mulheres mudaram de face pelos cuidados que ele lhes dedicou. Fez deles jardins fechados e fontes seladas, onde os seculares não tinham mais a liberdade de entrar para murchar as flores e tirar-lhes o perfume e a beleza. Os libertinos que viam essas castas pombas arrancadas de suas garras fizeram muito barulho. Algumas religiosas mesmas murmuraram a princípio, sob pretexto de seus privilégios, não considerando que o santo arcebispo tinha poderes extraordinários e que, na falta de seus próprios superiores, ele tinha o direito de reduzi-las à observância de suas regras; mas Carlos conduziu-se neste assunto com tanta prudência, sabedoria e doçura que as ganhou a todas; a liberdade de que haviam gozado anteriormente lhes causou horror; sua clausura, ordenada pelo Concílio de Trento, não lhes pareceu uma prisão incômoda, mas uma separação honrosa das pessoas do mundo, e encontraram finalmente a perfeita comunidade mais cômoda do que sua antiga propriedade.
Nosso Santo não encontrou a mesma facilidade para reformar os homens. Os cônegos de uma igreja colegiada, chamada da Escada, sob um falso pretexto de isenção, fizeram-lhe insolências estranhas. Ele as suportou com uma humildade e uma paciência que espantou a todos e que encheu seus próprios inimigos de admiração; mas, como perdoou as injúrias que haviam feito à sua pessoa, puniu severamente e pela rigidez das penas canônicas aquelas que haviam feito à sua dignidade; enfim, os revoltosos foram forçados a se humilhar e a submeter-se ao jugo que ele não lhes queria impor senão para devolver à sua igreja o antigo esplendor que ela havia perdido.
O atentado dos Humilhados
Tentativa de assassinato por um membro da ordem dos Humilhados, oposto às suas reformas, da qual ele escapa milagrosamente.
A fúria dos Ir mãos Humilhados Frères-Humiliés Ordem religiosa suprimida após tentar assassinar o arcebispo. , dos quais ele era protetor, foi além. Já não se podia chamá-los de religiosos, uma vez que os superiores, a quem chamavam de prepósitos, haviam se tornado proprietários de todos os bens das casas, como se fossem benefícios, e o pouco que restava de inferiores eram pessoas sem regra que, tendo sido viciosas no mundo e quase todas tiradas da escória do povo, só haviam abraçado aquele estado para seguir mais livremente as suas paixões. O Santo fez, para reformá-los, ordens muito sábias, pelas quais todos os seus bens deveriam ser comuns e os seus superioratos apenas trienais. A maioria submeteu-se a estes regulamentos, e havia esperança de que esta congregação retomasse o seu antigo esplendor; mas alguns dos prepósitos, não podendo suportar esta reforma, resolveram livrar-se do reformador. Um assassino entrou na capela onde ele fazia as orações da noite com os seus criados e disparou-lhe um tiro de arcabuz a apenas quatro braças de distância; uma das balas deu-lhe um grande golpe nas costas, mas, por um milagre da divina Providência, apenas escureceu o seu roquete e caiu aos seus pés. Outra bala perfurou até a carne, mas causou apenas um inchaço e não penetrou. O Santo não se moveu mais do que se o golpe tivesse atingido outro; ele mandou terminar a oração e permaneceu nela constantemente sem se perturbar, o que deu ensejo ao assassino de fugir secretamente sem que se reconhecesse então quem ele era. Este acidente causou grande alvoroço na cidade e até em todas as cortes da Europa. O governador de Milão, embora tivesse tido grandes divergências com o Santo sobre os limites da jurisdição eclesiástica e da jurisdição real, veio, no entanto, oferecer-lhe todo o seu poder para a segurança da sua pessoa. Ele agradeceu-lhe as ofertas, mas protestou que não pedia nem queria qualquer vingança. De fato, ele não mandou perseguir o assassino e, quando este foi preso, empregou orações e lágrimas para obter o seu perdão, o que a justiça, contudo, não pôde conceder-lhe.
Educação e fundações religiosas
Criação de seminários, escolas cristãs e apelo a novas ordens como os Jesuítas e os Teatinos para transformar a vida espiritual.
Se as desordens de Milão eram grandes, as do campo e das outras cidades da diocese eram ainda maiores. Para trazer um remédio eficaz e soberano, ele se serviu de quatro meios diferentes que tiveram sucesso admirável. O primeiro foi a visita geral de todas as suas paróquias. Ele a fez tão exatamente e com tanto zelo e um trabalho tão extraordinário, que não é de se espantar que tenha colhido um fruto muito grande. A das três vales da Suíça, dependentes de sua jurisdição, foi totalmente apostólica. A ignorância ali era extrema, o vício tinha lançado raízes profundas, e os lugares eram terríveis e quase inacessíveis; mas ele foi a toda parte, e por toda parte levou a luz do Evangelho, o temor de Deus, o desejo da salvação e uma santa renovação que colocou aqueles homens bárbaros e selvagens nos caminhos da eternidade bem-aventurada. Ele teve ainda mais dificuldade nas outras gargantas dos Alpes, onde o veneno da heresia já havia se infiltrado e trazido consigo o último libertinagem. Ele era obrigado a ir a pé e muitas vezes com grampos de ferro em seus sapatos para escalar as rochas ou se manter firme entre os precipícios; às vezes também de se arrastar sobre os joelhos ou de se fazer carregar no meio das torrentes para passar seguramente por lugares muito perigosos. Após mil fadigas, ele não encontrava ordinariamente para alimento senão pão preto e seco, água da neve, castanhas e alguns outros frutos grosseiros daquelas montanhas. Contudo, nada era capaz de desencorajá-lo, nem de impedi-lo de cumprir todos os seus deveres da visita: ele pregava, fazia o catecismo, celebrava a missa pontificalmente, ouvia as queixas dos povos, instruía os párocos, abençoava as igrejas, os cemitérios, os sinos e os ornamentos de altar, ia às choupanas ver os doentes, administrava os sacramentos da Confirmação, da Penitência e da Eucaristia. Enfim, ele deixava a todos no espanto de sua coragem, visto que ele tinha muito pouca força e que sua saúde era extremamente frágil.
O segundo meio do qual ele se serviu, seguindo a intenção e a ordenança do santo Concílio de Trento, foi o estabelecimento dos seminários, para ali formar e elevar eclesiásticos capazes de governar as paróquias e de exercer os outros ministérios da diocese. Ele fundou um grande em Milão, onde fez aparecer sua magnificência, sua caridade e sua solicitude pastoral. Ele o construiu soberbamente, destinou-lhe grandes rendas e tomou um cuidado particular de sua conduta. Ele fazia frequentemente a visita, e ela era tão exata, que não havia ninguém cujo progresso no estudo e na piedade ele não examinasse. Ele falava a todos e os exortava, por discursos cheios do fogo com que seu coração estava abrasado, a se tornarem dignos do estado ao qual aspiravam. Ele assistia às conferências públicas que ali se faziam, e levava os cardeais e os bispos que vinham visitá-lo. Enfim, ele fazia dele seu lugar de divertimento e de delícias.
Este seminário era para os jovens de grande esperança, que podiam estudar filosofia e teologia. Ele estabeleceu ainda dois outros na mesma cidade: um chamado Canonica, para os clérigos que não se julgava aptos para essas altas ciências, mas apenas para a da moral e aos casos de consciência; o outro, chamado Santa Maria la Falcorine, para os padres e párocos que tinham sido encontrados incapazes ou indignos de suas funções. Mas como esses três seminários não podiam lhe fornecer tantos eclesiásticos quanto ele precisava para as necessidades de seu rebanho, ele erigiu três igualmente fora da cidade, onde as crianças destinadas à Igreja eram instruídas na gramática, na retórica e nas funções mais baixas da Igreja. Foi pelos operários que se formaram nesses colégios que ele mudou em pouco tempo toda a face de seu bispado. A habilidade dos pastores renovou o redil, as ovelhas desgarradas ali entraram em multidão, e toda a diocese de Milão tornou-se um paraíso terrestre, onde Deus tinha prazer em conversar com seus habitantes.
O terceiro meio que este santo cardeal empregou foi a fundação de várias comunidades de sábios e santos religiosos. De fato, há poucos prelados que tenham fundado tantos quanto ele, e poucos que tenham tirado os serviços que ele tirava de todos os lados, para o bem espiritual de suas ovelhas doentes e em perigo de se perderem. Os primeiros religiosos que ele fez vir a Milão foram os Jesuítas, aos quais ele deu a igreja paroquial de São Fidélis; e como essa igreja se encontrou logo pequena demais para o grande concurso de povo que suas pregações e suas confissões ali atraíam, ele fez construir uma mais Jésuites Ordem religiosa à qual pertence Pedro Canísio. ampla e mais magnífica, da qual ele lançou a primeira pedra em 1567. Desde então, ele lhes deu ainda a casa de Brera, que pertencia anteriormente aos Irmãos Humilhados, cuja Ordem tinha sido suprimida pelo papa São Pio V, a fim de ali fazer um colégio para ensinar as humanidades, a filosofia e a teologia; e, para sua subsistência, ele renunciou em favor deles à sua abadia de Arona, que ele não tinha reservado senão para uma fundação útil ao seu povo. Os frutos maravilhosos que eles fizeram em Milão o levaram a lhes dar ainda duas casas no país dos Suíços: uma em Lucerna, a outra em Friburgo, onde ele os encarregou, não somente da instrução da juventude, mas também da inspeção sobre os padres e os párocos do país, cuja ignorância e longa hábito no mal ele conhecia bem. Após os Jesuítas, ele fez vir os Teatinos à sua cidade metropolitana, e os colocou na posse da igreja e da abadia de Santo Antônio (1570); e como ele foi admiravelmente edificado por seus bons exemplos e pelos socorros espirituais que eles prestavam continuamente aos seus diocesanos, ele não deixou, durante toda a sua vida, de provê-los de tudo o que lhes era necessário para o viver e para o alojamento. Além disso, ele colocou também Capuchinhos na Suíça, e obteve do Papa, não obstante suas constituições, que pudessem receber as confissões dos fiéis; o que produziu um efeito tão bom, que se viu logo a piedade e a devoção se introduzirem naquele país, onde não havia quase mais sombra de religião. Ele deu às Capuchinhas dois conventos em Milão: um de Santa Praxedes, o outro de Santa Bárbara. Tendo trabalhado utilmente na reforma da Ordem de São Francisco, da qual o papa Pio IV o tinha feito protetor, ele fez dela, por esse meio, um poderoso corpo de exército para combater com ele contra Satanás e contra o vício, e para colocar um regulamento perfeito em toda a extensão de seu bispado.
Sua caridade e seu zelo o fizeram fazer um grande número de outros estabelecimentos, tais como: a Companhia dos Oblatos de Santo Ambrósio, que eram padres de uma vida exemplar, dispostos a todo momento a receber suas ordens para as diferentes funções da diocese (1578); o colégio dos nobres, onde as crianças de qualidade eram educadas no temor de Deus, na prática das virtudes e no estudo das belas-letras; o dos Suíç Compagnie des Oblats de Saint-Ambroise Congregação de padres seculares fundada por Carlos Borromeu em 1578. os, onde os clérigos daquele país eram instruídos, para torná-los capazes de levar para casa a luz da doutrina e os princípios sólidos da verdadeira piedade; o de Santa Sofia, onde quantidade de pobres meninas eram recebidas, alimentadas e mantidas, e onde as formavam nos exercícios da vida espiritual; a casa do Socorro, onde se retiravam as mulheres e as meninas penitentes, das quais as Terciárias da Ordem de São Francisco cuidavam; a Assembleia das Damas do Oratório, que era uma associação das primeiras damas de Milão, para diversas práticas de devoção e de caridade; enfim o grande hospital dos mendigos, onde todas as pessoas que não tinham meios de viver encontravam sua subsistência, e eram ao mesmo tempo catequizadas e instruídas de todos os deveres do Cristianismo. Não se pode conceber quanto esses estabelecimentos retiraram de gente da desordem e contribuíram para fazer florescer novamente a religião em todo o Milanesado.
Conflitos com as autoridades civis
Tensões persistentes com o governador e o senado de Milão a respeito da jurisdição eclesiástica e da moralidade pública.
O quarto meio, que foi, sem dúvida, o mais notável, e do qual a Igreja universal retirou maiores vantagens, foi a celebração dos Concílios provinciais e dos Sínodos diocesanos. Jamais um bispo, especialmente em tão poucos anos em que ocupou a sede episcopal, reuniu tantos e com tanto fruto, seja para o corte dos abusos que se haviam infiltrado entre os fiéis, seja para o restabelecimento da disciplina cristã e eclesiástica. Quanto aos Concílios provinciais, celebrou seis, cujos decretos temos nas coleções gerais dos Concílios e no livro intitulado *Acta Ecclesiae Mediolanensis*, e não há quem não admire sua sabedoria e u tilidade para o fim que os f Acta Ecclesiae Mediolanensis Coletânea dos decretos e atos dos concílios e sínodos de Milão sob Borromeu. izera convocar. E, quanto aos Sínodos diocesanos, reuniu onze, que têm a mesma força que os provinciais, e onde se encontram remédios soberanos contra todos os desregramentos que podem ser encontrados nos costumes dos cristãos e na conduta dos eclesiásticos. Estes Sínodos também estão no livro dos *Atos da Igreja de Milão*. São Carlos fazia sempre a abertura com discursos cheios do espírito apostólico e de uma certa unção que penetrava até o fundo dos corações; e sabia tão bem ganhar os espíritos daqueles que os compunham, que não havia nenhum que não se dispusesse voluntariamente ao que ele desejava para a perfeita renovação da diocese.
No entanto, além desses Concílios e Sínodos, ele reunia ainda perpetuamente Congregações, a fim de conhecer mais perfeitamente o estado de seu rebanho e de tomar de seu conselho os avisos salutares para o bom governo de seus diocesanos. Quase não havia dia em que não realizasse várias dessas Congregações; havia as que realizava todos os meses, e outras, enfim, que realizava apenas algumas vezes ao ano: umas eram para o temporal, outras para o espiritual. Tratava-se nelas exatamente de todos os pontos que ofereciam alguma dificuldade. Regulava-se o que concernia aos párocos, aos seminários, às casas religiosas, às escolas de caridade, aos colégios eclesiásticos e leigos, aos hospitais, à distribuição dos benefícios, à execução dos legados pios, à pacificação dos processos e a mil outras coisas que a caridade imensa de nosso santo arcebispo não podia deixar de abraçar. Mas, embora essas ocupações parecessem exigir um homem por inteiro, este pastor não deixava, além disso, de se aplicar com tanta força à pregação, como se tivesse apenas esse único emprego. Sua palavra persuadia seus ouvintes, porque era animada por esse fogo celestial que leva a luz e a unção até o fundo das consciências. Muitos saíam de seus sermões desfazendo-se em lágrimas e na resolução de abandonar, na mesma hora, os compromissos infelizes de seus crimes.
Ele não buscava os grandes auditórios para pregar, mas pregava com tanto fogo nas pequenas aldeias, onde fazia sua visita pastoral, quanto na cátedra de sua catedral de Milão. Diz-se que, um dia, quando se faziam nesta igreja as orações das Quarenta Horas com um concurso incrível de gente, ele pregou durante todo esse tempo, recomeçando cada vez que chegavam novas procissões.
Ele também fazia esmolas muito abundantes; e, após o estabelecimento do grande hospital de Milão e de vários outros na extensão de sua província, ele ainda não podia recusar assistir aos mendigos que se apresentavam a ele. Assegura-se que, tendo vendido seu principado de Oria pela soma de sessenta mil escudos, deu, em um só dia, toda essa soma aos hospitais e aos pobres envergonhados, e que fez o mesmo com uma soma de vinte mil escudos que Virgínia de Rovera, viúva do conde Frederico, seu irmão, lhe legou ao morrer.
Esses grandes trabalhos, contudo, e essas caridades imensas não impediram que ele fosse perpetuamente perseguido pelo governador e pelo senado de Milão. Como ele sustentava com um vigor intrépido os direitos de sua jurisdição arquiepiscopal e as imunidades eclesiásticas; como não teve dificuldade em mandar prender os adúlteros e os concubinários reconhecidos como tais; como proibiu os jogos e as danças públicas nos dias de festa e durante o serviço divino; como não pôde tolerar as loucuras de carnaval na grande praça de sua igreja catedral; e como restabeleceu a abstinência do primeiro domingo da Quaresma, que havia sido mudada para uma dissolução execrável, esses magistrados opuseram-se a esses pios desígnios sob o pretexto de que ele invadia seu poder e que abria brecha à autoridade real. Viu-se acusado por eles, junto ao rei da Espanha, como um homem temerário, imprudente e inimigo de sua jurisdição. Prenderam os ministros de seu tribunal; impediram a liberdade de seu exercício; obrigaram-no a entregar nas mãos do governador o castelo de Arona, que era sua casa paterna, como se sua fidelidade fosse suspeita; alojaram companhias de soldados ao redor de seu palácio, e ele foi incontinenti desertado; publicaram contra ele manifestos muito picantes e muito injuriosos; difamaram-no junto ao Papa e obtiveram de Sua Santidade, por surpresa, um breve contendo poder para absolver o governador da excomunhão que ele havia fulminado contra ele. Seus parentes, seus amigos e pessoas de uma insigne piedade tentaram intimidá-lo pelo relato dos boatos que corriam em Milão, da desgraça de seu rei. Enfim, nessa tempestade, todas as coisas estavam conjuradas contra ele, e não havia aparência de que pudesse se salvar. Mas, no meio desse temporal, a graça de Jesus Cristo conservava a paz e a calma em seu espírito. Nunca o ouviram pronunciar uma única palavra de raiva ou de impaciência. Enquanto seus inimigos fremiam contra suas ordens, ele não abria a boca; ou, se a abria, não era senão para rezar a Deus por eles. Ele não respondia às suas injúrias e às suas maledicências senão com bênçãos. Fazia penitências muito rudes para obter, da divina Bondade, que ela lhes tocasse o coração. Como em toda a sua conduta ele não havia agido por um movimento humano, não empregou também nenhuma defesa humana para se sustentar. As orações fervorosas, os gemidos e as lágrimas aos pés do crucifixo, as vigílias contínuas, os cilícios e as disciplinas foram as armas das quais se serviu nesta guerra. Enfim, ela terminou a seu favor. O Papa aprovou seu zelo, o rei da Espanha reconheceu sua inocência, os próprios magistrados foram convencidos da pureza de suas intenções. Alguns de seus perseguidores foram castigados por Deus com mortes precipitadas. Enfim, por ordem do príncipe, deixaram-no em paz no livre exercício de suas funções episcopais.
Os milaneses, aborrecidos pelo fato de o santo arcebispo lhes retirar os divertimentos dos dias que precedem a Quaresma e os obrigar a começá-la desde o primeiro domingo, ao passo que, por um estranho abuso, eles não queriam começá-la senão na primeira segunda-feira, enviaram deputados a Roma para fazer cassar essas santas ordenanças. Ouviram-nos, examinaram suas queixas, pesaram maduramente suas razões; mas, como sua causa não valia nada, não levaram outra coisa de sua viagem senão o nome de embaixadores do Carnaval. Assim, Carlos domou esse monstro que havia reinado por tanto tempo em sua cidade e que, por uma infelicidade que não se pode deplorar o suficiente, reina ainda na maioria das cortes e das cidades cristãs.
Dedicação durante a peste de 1576
Ação heroica do santo durante a epidemia de peste, vendendo seus bens e arriscando a vida para cuidar dos doentes e administrar os sacramentos.
Uma das ocasiões que fez aparecer com mais brilho a virtude incomparável de nosso santo cardeal e sua caridade sem ressentimento e sem fel, foi uma peste vi olenta que sur peste violente Epidemia grave durante a qual o santo demonstrou uma dedicação heroica. giu em Milão (1576). Não faltou quem o pressionasse a sair, sob o pretexto de se conservar para seu povo e de não privar de seus cuidados todo o resto de sua diocese, onde a doença não reinava; mas ele rejeitou esses conselhos como indignos de serem seguidos por um verdadeiro pastor. Ele permaneceu no meio de sua cidade episcopal e empreendeu até mesmo o socorro de todos os pestilentos. Deu as ordens necessárias para que fossem assistidos, tanto em seus próprios lares quanto nas casas de saúde. Como o número de pobres tornou-se extremo e sua miséria ia além de tudo o que se pode conceber, ele enviou o que lhe restava de prataria à casa da moeda e a fez trocar por dinheiro cunhado para socorrê-los. Deu-lhes também todos os móveis de sua casa que lhes pudessem servir, até suas roupas e sua própria cama, e vendeu o restante para estar em condições de lhes fazer maiores esmolas, de modo que não tinha mais que palha para se deitar. Fez realizar, na cidade e por toda a diocese, grandes coletas para o mesmo fim. Sua solicitude pela salvação eterna de suas ovelhas não foi menor que aquela que tinha pelo alívio de seus corpos. Ele mesmo ia confessá-los, comungá-los e administrar-lhes o sacramento da Extrema-Unção, e, entre outros, deu o viático a um de seus párocos que morreu logo depois. Não houve hospital nem casa, afligidos pela contágio, que ele não consolasse com sua visita, e um dia, ao avistar uma criança viva junto aos seios de sua mãe que acabara de morrer, lançou-se ele mesmo entre os mortos para salvar a vida daquele inocente.
Em um flagelo tão grande, ele recorreu particularmente às devoções e às orações públicas. Fez poderosos sermões ao seu povo para levá-lo à penitência. Ordenou procissões por toda a cidade, onde, fazendo-se hóstia e vítima pelos pecados de toda a diocese, caminhava com uma corda ao pescoço, a cruz entre os braços e os pés nus, que a aspereza dos caminhos deixava muitas vezes ensanguentados. Excitou os magistrados a fazer um voto a São Sebastião, como a um de seus mais poderosos protetores. Enfim, as coisas que se fizeram durante essa doença são tão admiráveis que encheram de espanto toda a corte romana e toda a cristandade. Tantos defuntos preservados das penas da outra vida pelos cuidados da caridade; tantos vivos curados de suas doenças, ou salvos desse incêndio quase geral pela boa ordem que estabeleceu na cidade e nos arredores; tantos pobres, que chegaram enfim ao número de setenta mil, nutridos e mantidos por sua providência e por suas liberalidades; tantas viúvas e órfãos socorridos em suas necessidades por sua magnificência, fazem incomparavelmente melhor seu elogio do que os oradores mais eloquentes poderiam fazer. Sua misericórdia não parou com o contágio (1578). Ele ainda proveu sete mil indigentes que a peste poupara, mas que a pobreza lançava nas últimas misérias. Fundou hospitais e casas de refúgio para as mulheres e filhas que a morte de seus maridos ou de seus pais reduzia à mendicância. Em uma palavra, este generoso cardeal era uma fonte inesgotável de onde uma infinidade de bens fluía incessantemente sobre todo o seu povo.
Últimas missões e falecimento
Missões contra a heresia nos Grisões, retiro espiritual no Monte Varallo e morte em Milão em 1584, aos 46 anos de idade.
A brevidade que somos obrigados a manter nesta obra não nos permite segui-lo em todas as viagens que fez em diversos momentos para a assistência de seus diocesanos, para o bem da Igreja universal e para seu próprio progresso espiritual. Ele ainda veio a Roma em 1572 para a eleição de Gregório XIII, e obteve finalmente dele ser desonerado da grande penitenciaria e de alguns outros ofícios da corte romana, dos quais Pio V não havia querido que ele se demitisse. Veio também em 1575 para participar cedo das indulgências do jubileu do ano santo; em 1579, para sustentar sua autoridade contra as injustas pretensões de seus adversários; e em 1582, para prestar seus deveres à Santa Sé e aplicar-se ali com mais repouso à visita das igrejas e aos exercícios da vida interior. Um ano antes, foi a Vercelli honrar as cinzas de São Eusébio; a Turim, adorar o Santo Sudário de Nosso Senhor; e a Tisitis, no país dos Grisões, prestar seus respeitos às relíquias de São Plácido, mártir, e de São Sigeberto, confessor. Empreendeu a visita de várias dioceses na qualidade de metropolita e teve também diversas missões apostólicas para ir combater e reprimir a heresia. Fez brilhar por toda parte uma humildade profunda, uma paciência invencível, uma coragem e uma firmeza intrépidas, uma prudência celestial, uma devoção terna e generosa e uma caridade toda divina. Poder-se-ia contar suas ações heroicas pelas horas e pelos momentos de sua vida. Dormia muito pouco, empregava quase toda a noite a rezar, a meditar, a ler livros santos, a escrever cartas pastorais e a compor livros para a instrução de seus diocesanos, ou melhor, para a direção de todos os prelados. Quanto ao seu dia, era todo ocupado em pregar, confessar, visitar os prisioneiros e os doentes, reconciliar os inimigos, ouvir aqueles que pediam audiência, realizar congregações e dar ordens para tudo o que concernia à disciplina eclesiástica.
No último ano de sua vida, após ter feito pouco antes a transladação das relíquias de São Simplício, de São João, o Bom, e de alguns outros Santos, e celebrado, com uma piedade extraordinária, as exéquias da rainha e do pequeno infante da Espanha que haviam falecido, após ter também lançado os fundamentos de alguns colégios, começou a visita apostólica do país dos Grisões, que não podia deixar de ser extremamente espinhosa, porque a heresia ali havia entrado e se tornado quase inteiramente senhora. Teve de lidar com calvin pays des Grisons Região de missão onde o santo lutou contra a influência do calvinismo. istas, apóstatas de congregação, feiticeiros, ímpios, ateus, usurários públicos e todo tipo de libertinos. Armaram-lhe emboscadas e tentaram, ameaçando-o, fazê-lo mudar de resolução. Além disso, a dificuldade dos caminhos, a barbárie dos habitantes, o apego que tinham às suas superstições e, sobretudo, a oposição dos governadores do Estado aos homens do Papa e aos súditos do rei da Espanha, eram capazes de fazer fracassar esse grande empreendimento. Mas este bem-aventurado cardeal não deixou de ter sucesso admirável. Converteu vários hereges que pareciam esperar apenas sua vinda para abjurar seus erros e fez vários apóstatas retornarem ao seio da Igreja. Não obstante as intrigas dos pregadores que fizeram todos os esforços para impedi-lo no exercício de sua missão apostólica, restabeleceu a fé e a piedade no vale de Mesolcina e no condado de Bellinzona, e lançou as sementes da inteira conversão de todo o país.
O que serviu muito para essa mudança foi o modo de vida do santo cardeal, que desmentia as imposturas que os pregadores faziam correr sobre a vida dos cardeais e dos prelados eclesiásticos; pois ele se vestia muito pobremente e comia apenas uma vez por dia: o pão e a água eram todo o seu alimento, não obstante as fadigas incríveis de suas visitas, exceto nos dias de festa, em que acrescentava alguns legumes. Dormia muito pouco e não tinha por cama senão um pouco de palha ou tábuas sobre as quais se deitava todo vestido. Castigava frequentemente seu corpo com rudes disciplinas e sofria o rigor do frio, que era então quase intolerável naquele país coberto de neves, com uma coragem e uma paciência invencíveis, sem jamais se aproximar do fogo nem se servir de fogões e estufas. Além disso, fazia grandes esmolas, visitava os doentes, consolava as viúvas, assistia os órfãos, ouvia a todos e até aos mais pobres e aos mais grosseiros, com uma bondade maravilhosa. Enfim, fazia-se tudo para todos para ganhar a todos.
Ao retornar à sua Igreja, instituiu novas devoções para o tempo do carnaval, que desviaram tanto os povos das loucuras e das devassidões ordinárias que não se os via mais senão nos sermões, nas procissões, nas saudações e nos exercícios espirituais. Começou também a magnífica basílica de Nossa Senhora de Rho, que é uma peregrinação a oito milhas de Milão, a colegiada de Legnano para um pároco e cônegos, e um hospital de convalescentes em sua própria cidade episcopal. Em seguida, querendo fazer os exercícios espirituais e sua confissão geral, que não deixava de fazer todos os anos, retirou-se ao Monte Varallo, que é um lugar de grande devoção, na diocese de Novara, onde os diferentes temas da Paixão de Nosso Senhor estão retratados em quadros muito comoventes. Lá, vendo-se um pouco livre daquele peso de negócios que lhe dava seu cargo pastoral, abandonou-se à contemplação das perfeições de Deus e dos sofrimentos de seu soberano mestre Jesus Cristo. Fazia cada dia, nas devotas capelas daquele calvário, seis horas de oração mental, e na noite que precedeu sua confissão geral, permaneceu oito horas em orações contínuas de joelhos e sem apoio, como se estivesse imóvel.
No dia 24 de outubro, sentiu um acesso de febre que não o espantou, porque já havia recebido avisos do céu de que aquele ano de 1584 seria o último de sua vida. Não cortou nada de suas devoções, pelas quais se dispunha ao assunto mais importante de sua vida, que era morrer bem. Mas o primeiro acesso tendo sido seguido, dois dias depois, por um segundo mais violento, seu confessor moderou suas austeridades e suas longas orações, o que ele aceitou sem resistência. Não cessou, contudo, de dizer a missa, como a dizia também todos os dias em qualquer outro momento. E, porque desejava celebrá-la ainda uma vez pontificalmente em sua catedral no dia de Todos os Santos, partiu no dia 29 daquela montanha e dirigiu-se a Arona, que era o lugar de seu nascimento e a principal herança de sua casa. De lá, tomou por água o caminho de Ascona, para ir terminar a fundação de um colégio destinado à instrução das crianças dos suíços: o que fez com um zelo e uma diligência maravilhosos. Retornou então sobre seus passos a Arona pela mesma via; e, como estava em barco, não obstante sua fraqueza, recitou seu ofício de joelhos, fez sua oração mental e entreteve a companhia com discursos espirituais; catequizou os barqueiros e seus filhos, e despachou diversos negócios para a condução de sua diocese. Não pôde chegar a essa cidade senão na véspera de Todos os Santos, à noite. Hospedou-se lá na casa dos jesuítas, disse a missa, comungou os noviços e muito povo, e passou a festa em grandes sentimentos de devoção. No dia seguinte, que era o dia dos mortos, após ter se confessado e ter comungado na igreja, pois não pôde dizer a missa devido à extrema violência de seu acesso, embarcou no Ticino e chegou às duas horas da noite a Milão. Retirou-se imediatamente para seu oratório, segundo seu costume, para ali fazer sua oração; e então, deitando-se, abandonou-se inteiramente à condução dos médicos e aos avisos de seu confessor, que lhe permitia apenas ouvir um de seus capelães recitar o ofício de joelhos junto ao seu leito. Montou-se um altar em seu quarto, sobre o qual mandou colocar um quadro do sepultamento do Salvador; mandou colocar um semelhante sobre sua cama, com outro que o representa no jardim das Oliveiras. No dia seguinte, a seu pedido, o arquipreste do Duomo, acompanhado dos cônegos, administrou-lhe o Viático e a Extrema-Unção, que recebeu revestido de seu roquete, de seu solidéu e de sua estola, com um fervor admirável: fez então cobrir de cinzas bentas uma de suas cilícios, e a colocou sobre seu corpo para ser munido, por essa santa couraça da penitência, contra os últimos assaltos do inimigo da salvação.
Entretanto, o rumor do perigo de sua doença tendo se espalhado pela cidade, todas as Companhias e Confrarias fizeram procissões para pedir a Deus, com humildade e com lágrimas, a vida de seu incomparável prelado, e todo o resto do povo permaneceu quase toda a noite nas igrejas para fazer a mesma oração ao soberano Pastor das almas. Alguns gritavam com uma voz plangente: "Oração, oração pela saúde de nosso bispo". Outros iam pelas ruas com os pés descalços, cobertos de sacos e se flagelando até sangrar para dobrar a divina Misericórdia. Enfim, o concurso de todo tipo de pessoas ao arcebispado foi tão grande que foi preciso mandar guardar as portas pelos suíços do governador. Mas a divina Providência, que contou nossas horas e nossos momentos, e cujas disposições são sempre justas, embora as razões nos sejam desconhecidas, quis que o grande Carlos Borromeu, cardeal e arcebispo de Milão, após ter permanecido três horas em uma agonia bastante pacífica, lançando um doce olhar sobre o crucifixo e conservando um rosto tranquilo, lhe rendesse sua bela alma carregada de troféus. O som dos sinos do Duomo e das outras igrejas de Milão fizeram saber ao povo a morte de seu santíssimo pastor. Não se ouviu mais então senão gemidos, lamentações e gritos. Uns lamentavam a perda de um Santo; outros choravam a de um pai; estes afligiam-se pela de um grande protetor da pátria; todos, enfim, pediam misericórdia, como se tivessem sido culpados de sua morte e que ele lhes tivesse sido tirado porque não se haviam tornado dignos de possuí-lo.
Culto, relíquias e escritos
Canonização em 1610 por Paulo V, descrição de suas relíquias em Milão e importância de seus escritos pastorais para a Igreja universal.
Seus criados recolheram como preciosas relíquias tudo o que lhe havia servido. Seu cilício foi cortado em vários pedaços e distribuído a todos os presentes que, com muita insistência, pediram algumas parcelas. Ao lavarem seu corpo, percebeu-se a marca do golpe que ele havia recebido em ódio ao fato de ter querido restabelecer a disciplina regular. Vestiram-no então com seus ornamentos pontificais e expuseram-no por dois dias na capela pontifical para a veneração de todo o povo. Houve um concurso de gente tão grande que o palácio era pequeno demais para conter aqueles que entravam e saíam. Era como o fluxo e o refluxo de um mar agitado e em tormenta. Cada um se considerava feliz por poder fazer tocar seu rosário ou algum objeto nesta preciosa relíquia.
Ele havia morrido em um sábado, e na quarta-feira seguinte todas as Ordens eclesiásticas iniciaram sua pompa fúnebre. O cardeal Sfondrate, bispo de Cremona, que mais tarde foi papa sob o nome de Gregório XIV, realizou a cerimônia. Os bispos de Alexandria, de Vigevano e de Castro assistiram a ela. O governador do Estado, o senado e os magistrados, com os príncipes, seus parentes, acompanharam-no também, e ele foi seguido por uma multidão tão grande de pessoas que parecia que todas as companhias do país haviam se reunido na cidade para este fim. As damas e as virgens fizeram seu cortejo à parte. Colocaram-se sob o estandarte do crucifixo e das armas do prelado falecido, e foram às sete igrejas que ele havia designado, como em Roma, para fazer suas orações por sua alma; o que continuaram a fazer depois, todos os anos, no primeiro domingo de cada mês. Francisco Panigaroie, da Ordem de São Francisco, e depois bispo de Asti, fez seu elogio fúnebre com tanta eloquência e sentimentos de dor que, chorando ele mesmo, fez chorar todos os seus ouvintes.
Deixamos aos nossos leitores a tarefa de fazer aqui uma ampla reflexão sobre as eminentes virtudes deste bem-aventurado cardeal, e nos contentamos em tocar nos pontos principais para não tornar esta nota muito extensa. Ele demonstrou sua fé pelos cuidados que dedicou à conclusão do santo Concílio de Trento e à impressão do catecismo do mesmo Concílio, endereçado aos párocos; pela guerra imortal que travou contra os cismáticos, os hereges e todos os inimigos da Igreja; e por sua aplicação incansável, seja em instruir seu povo nas verdades do cristianismo, seja em purgar sua diocese das superstições, dos malefícios, dos erros e dos livros perniciosos que nela estavam espalhados.
Ele fez brilhar sua esperança e sua grande confiança em Deus, expondo-se a perigos que pareciam insuperáveis e empreendendo coisas que estavam acima das forças humanas, apenas com o apoio da divina Providência. Assim, ele frequentemente experimentou seu socorro miraculoso em tempos e ocasiões onde tudo parecia desesperador: como quando os ministros reais do Estado de Milão, que se haviam reunido para proceder contra ele, foram mudados em um instante e transformaram sua aversão em uma singular admiração por sua santidade; quando suas esmolas, tendo esgotado seus fundos sem que lhe restasse nada para a subsistência de sua casa, chegou-lhe uma letra de câmbio da Espanha para receber três mil escudos que ainda não lhe eram devidos; e quando, tendo caído em torrentes e fossas profundas, saiu delas felizmente sem ter sentido qualquer incômodo.
Sua vida não foi senão um exercício contínuo do amor de Deus; ele não dizia e não fazia nada que não fosse para sua glória. Ele a desejava com tanto ardor que teria dado mil vidas para ganhar-lhe um coração e para fazê-lo conhecido e servido em um burgo ou em uma aldeia. É o que o fazia caminhar a pé e em jejum, e às vezes todo ensanguentado através das águas, das torrentes e das neves para visitar um povoado ou uma casa de camponeses. É o que o fazia desprezar o frio, o calor, as chuvas e as tempestades, quando havia esperança de converter uma alma e fazê-la entrar nos caminhos da salvação. É o que lhe colocava tão frequentemente na boca palavras inflamadas, pelas quais ele incendiava com o fogo da caridade as pessoas que o viam e que tinham a honra de sua conversa. É, enfim, o que o fazia amar a oração, onde nos aproximamos de Deus, e suspirar sem cessar pela outra vida, onde se desfruta de seus abraços bem-aventurados.
Haveria maravilhas a dizer de sua religião para com Deus, de sua devoção ao Santíssimo Sacramento do altar, de suas ternuras pela santa Virgem, de seu respeito para com os Anjos e os Santos, de sua submissão à Santa Sé apostólica e de sua veneração por todas as coisas sagradas ou bentas. Ele era tão atento e tão cheio de reverência ao dizer seu ofício ou ao cumprir suas funções eclesiásticas que era fácil ver que seu espírito estava todo penetrado pela visão e pelo gosto da presença de Deus. Assim, ele não pensava então em nenhuma outra coisa, e não queria que o interrompessem por qualquer assunto que fosse. Sua oração era eminente, e ele empregava nela frequentemente várias horas da noite e do dia; mas pode-se dizer que ele rezava sem cessar, já que em suas viagens mesmo sua alma estava tão absorvida na contemplação das coisas celestes que ele não percebia as fossas e os precipícios que o cercavam.
Vimos em todo o curso desta história efeitos admiráveis de sua caridade para com o próximo. Se é próprio da caridade procurar sua salvação espiritual e temporal, o que ele fez senão, por suas esmolas, suas fundações, suas visitas, suas pregações, suas conferências e todas as outras ações de seu ministério, socorrer aqueles que estavam na necessidade? Se é dever da caridade expor sua vida pelos amigos, não se colocou ele mil vezes em perigo de perecer para tirar suas ovelhas da boca do lobo e para trazê-las de volta ao redil? E não podemos dizer que ele abreviou notavelmente seus dias pelas fadigas incríveis que assumiu para a reforma e a santificação de sua diocese? Enfim, se a caridade ama os inimigos e perdoa facilmente as injúrias, não era Carlos um homem sem ressentimento e sem fel? Não pediu ele a graça daquele que o quis assassinar, e não se fez mediador junto ao rei da Espanha por um senhor que o havia mais perseguido, tanto em Milão quanto em Roma, sobre o fato de sua jurisdição? Ele amava seus parentes, mas era para o céu, não para a terra. Ele não lhes deixou senão os bens que o antigo compromisso de sua família lhes dava, mas teve o cuidado de corrigi-los de seus defeitos, de animá-los à virtude, de formá-los na devoção e de incendiá-los com o mesmo fogo com que seu coração estava incendiado. Ele era tão desapegado deles que pediu insistentemente ao papa Gregório XIII que lhe permitisse deixar as armas de sua casa para tomar apenas as eclesiásticas, e que as fez retirar de vários lugares onde haviam sido gravadas.
Não se pode falar dignamente o suficiente de sua doçura, de sua paciência e de sua humildade. Ele só era sensível aos interesses da glória de Deus e à correção e ao emendo daqueles cuja conduta a divina Providência lhe havia dado; quanto à sua própria pessoa, ele não fazia caso algum e, não acreditando merecer senão injúrias e perseguições, recebia-as com mansidão e as suportava com uma paz e uma tranquilidade de espírito que nada era capaz de abater ou mesmo alterar. Ele tinha sentimentos tão baixos de si mesmo que se via apenas como a varredura do mundo e, por esse espírito, odiava os louvores e as honras; ele amava conversar com os pobres e hospedar-se em suas casas; ele escondia o quanto podia suas boas obras; ele estava sempre vestido muito pobremente, a tal ponto que, uma de suas vestes que ele deixou, tendo sido apresentada a um mendigo, ele a achou muito gasta e muito rompida e não a quis. Enfim, ele ia a pé e sem comitiva na cidade de Milão. Ele sabia, no entanto, nas ocasiões, agir com magnificência, e é desta maneira que ele se comportou para com o rei Henrique III, quando, vindo da Polônia para tomar posse de seu reino da França, ele passou pelo Milanesado. Aqueles que escreveram que ele o recebeu e o festejou em seu palácio em Milão se enganaram; mas é certo que ele foi saudá-lo em Monza, que teve duas conferências com ele e que lhe fez belos presentes, assim como a todos os príncipes que o acompanhavam.
Este grande prelado morreu em seu quadragésimo sétimo ano, com a mesma pureza que tinha em sua infância; assim, ele tratava seu corpo com tanta severidade que não tinha o cuidado de pensar nos prazeres e de se levar a ações desonestas. Já falamos de seus jejuns, de suas vigílias, de seus cilícios e de suas disciplinas; é preciso acrescentar que ele se havia reduzido a quase não dormir e a fazer tal abstinência, não obstante seus trabalhos imensos e contínuos, que passava semanas inteiras sem tomar outra coisa que figos secos ou tremoços, o que obrigou até o papa Gregório XIII a ordenar-lhe que moderasse seus rigores.
O rei Henrique III disse dele que, se todos os prelados da Itália se parecessem com ele, ele não gostaria de nomear outros para os bispados de seu reino. Filipe II, rei da Espanha, conservava seu retrato em seu gabinete com um singular respeito. Os duques de Saboia tiveram uma grande veneração por sua pessoa e por sua memória. Alexandre Farnésio, duque de Parma, estando prestes a assumir o governo das províncias da Flandres, implorou o socorro das orações do santo Prelado, para bem se conduzir em uma comissão tão espinhosa. Já falamos da alta estima que o bem-aventurado papa Pio V tinha de seu mérito, e da afeição paternal que lhe dedicava. Gregório XIII, sucessor de Pio V, sustentou sempre sua inocência contra seus perseguidores e, tendo aprendido seu falecimento, exclamou: "A luz se apagou em Israel". Sisto V, em testemunho da veneração que lhe dedicava, fez cardeal Frederico Borromeu, seu primo, e lhe deu o arcebispado de Milão para ocupar seu lugar. Gregório XIV, que havia feito a cerimônia de seu sepultamento não sendo ainda senão cardeal, conservou sempre um profundo respeito por sua eminente santidade.
São Carlos Borromeu é representado: 1º curando os enfermos; 2º rezando pelos pestilentos: a santa Virgem apresenta suas orações a seu Filho; 3º dando a comunhão a pestilentos; 4º segurando uma grande cruz e caminhando à frente de seu clero para socorrer os pestilentos; 5º de pé, abraçando são Filipe Néri, no meio de uma praça pública; 6º em orações e coroado por dois anjos.
CULTO E RELÍQUIAS. — SEUS ESCRITOS.
São Carlos Borromeu foi sepultado em um túmulo, sob os primeiros degraus do altar-mor, assim como ele havia ordenado por uma grande humildade, a fim de ser pisado pelos pés de todos aqueles que subissem e descessem esses degraus. Nada tardou a glorificar seu servo por um grande número de milagres operados em seu túmulo. O papa Clemente VIII, informado do concurso universal dos povos a seu sepulcro, concurso ao qual era impossível se opor, fez escrever a Milão, em 1601, pelo cardeal Baronio, seu confessor, que se mudasse seu aniversário para uma missa solene do Santo, e três anos depois, ele deu comissão à Sagrada Congregação para trabalhar no assunto de sua canonização. Leão XI não foi mais cedo eleito ao soberano pontificado que fez prosseguir este assunto e que teve o desígnio de fazer construir uma igreja em Roma em sua honra e de fazer dela até um título de cardeal, mas seu pontificado não tendo sido senão de vinte e sete dias, ele não pôde executar esta empresa. Enfim, Paulo V o canonizou solenemente em 1º de novembro do ano de 1610 e, para testemunho de seus méritos absolutamente extraordinários, ele deu neste dia as maiores indulgências que jamais foram dadas por ano ao soberano Pontífice. Esta canonização foi feita sobre a prova de mais de vinte milagres muito autênticos que são Carlos havia feito durante sua vida e após sua morte.
Desde essa época, construíram-se várias igrejas e capelas em sua honra, e várias confrarias foram erigidas sob sua proteção. Houve uma muito célebre na igreja paroquial de Saint-Jacques la Boucherie, em Paris, onde a estola da qual ele se servia no santo Paul V Papa que aprovou a bula de ereção do Oratório. sacrifício da missa foi enviada em 1607, pelo cardeal Frederico Borromeu, seu primo e seu sucessor. Carlos de Lorena, duque de Aumale, havia obtido, no ano anterior, deste mesmo cardeal, seu manípulo conforme a essa estola, e o havia dado ao convento de Anderlecht, perto de Bruxelas, construído e fundado de suas liberalidades sob o nome de São Carlos. O convento dos Mínimos de Paris possuía a pequena cama que lhe levavam em suas visitas.
A catedral de Nancy possui uma estola de são Carlos Borromeu, a qual foi salva durante a Revolução pelo Sr. de Malvoisin, cônego desta igreja, e foi canonicamente reconhecida e aprovada em 30 de agosto de 1803, por Dom Osmond; ela é conservada na urna de são Gauzlin; ela é de tecido de ouro e mede dois metros e quinze centímetros de comprimento.
As relíquias de são Carlos estão em uma magnífica capela subterrânea, construída sob a cúpula da grande igreja, em Milão. O altar desta capela é de prata maciça, e a maior parte da abóbada é revestida de placas do mesmo metal. Mantêm-se ali noite e dia várias lâmpadas de ouro e prata. O corpo do Santo está encerrado em uma soberba urna de prata, fechada na frente por um cristal de rocha que permite vê-lo em todo o seu comprimento. Ele está deitado e vestido com ornamentos pontificais; ele é conservado sem qualquer corrupção.
São Carlos Borromeu havia sido um homem de ação; ele tomou uma parte ativa no Catecismo romano, verdadeiro manual da fé para o clero; ele tomou parte também, um pouco menos ativamente, na publicação do Breviário corrigido (1568) e do Missal (1570) assim como na revisão iniciada da Vulgata. Todos os seus escritos são práticos e consistem, com algumas exceções, em: 1º Instruções pastorais; 2º Homilias e Discursos; 3º Cartas. Entre os principais escritos da primeira categoria, nota-se sua incomparável Instrução aos confessores da cidade e da diocese de Milão; os Estatutos e regras da Sociedade das Escolas da doutrina cristã; e dois escritos intitulados: Lembranças para o povo da cidade e da diocese de Milão, devendo servir para uma vida cristã, para todos os estados; e Lembranças dos sofrimentos dos dias de peste. Seu conjunto forma uma verdadeira teologia pastoral fundada na experiência. Três dessas instruções têm relação com a administração do sacramento da penitência; outra trata da pregação e outra da administração da Eucaristia. A assembleia geral do clero da França (1657) havia feito imprimir a suas custas, para servir de regra no exercício do santo ministério, as Instruções aos Confessores.
As Homilias foram impressas em Milão (1747), em dois volumes, por J.-A. Sax, e em Augsburg (1758), in-fol., com tradução latina das homilias que, até então, não haviam aparecido senão em italiano. O mesmo Sax publicou os discursos pronunciados nos sínodos provinciais e diocesanos ou nas reuniões dos conventos, Milão, 1748, e Augsburg, 1758. Nas homilias, a parte didática domina. Carlos queria primeiro convencer e depois comover o coração e a vontade. Ele empregava frequentemente as analogias tiradas dos fatos naturais e da vida humana. O estilo de seus discursos sinodais é clássico e o movimento muito oratório. A coleção completa de suas cartas encontra-se na biblioteca do Santo Sepulcro, em Milão (31 volumes de cartas), e na edição completa de suas obras, em 5 vol. in-fol., Milão, 1747.
A Vida de são Carlos Borromeu foi escrita por diferentes autores, a saber: J.-B. Guissano, padre da Congregação dos Oblatos de Santo Ambrósio de Milão; Agostinho Valerio, bispo de Verona, e Carlos Buscapo, geral dos Barnabitas e bispo de Novara. Nós nos servimos deles para compor esta biografia, que completamos com Notas devidas ao Sr. abade J.-F. Deblaye, pároco de Imling, e com o Dicionário enciclopédico da Teologia católica, por Gauthier.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de São Carlos Borromeu
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Nascimento no castelo de Arona em 2 de outubro de 1538
- Nomeado Cardeal e Arcebispo de Milão aos 22 anos pelo Papa Pio IV
- Encerramento do Concílio de Trento em 1563
- Tentativa de assassinato pelos Irmãos Humilhados
- Dedicação heroica durante a peste de Milão em 1576
- Canonização por Paulo V em 1º de novembro de 1610
Citações
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A luz se apagou em Israel
Gregório XIII ao anunciar sua morte