Nascido em Nantes no século VI, Martinho foi um grande evangelizador da Aquitânia e da Bretanha. Após ter testemunhado o engolimento da cidade ímpia de Herbauge, fundou a abadia de Vertou e numerosos mosteiros. Famoso por seus milagres na França e na Inglaterra, morreu em 601, deixando um báculo milagroso transformado em teixo.
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SÃO MARTINHO DE NANTES,
ABADE DE VERTOU E DE SAINT-JOUIN-DE-MARNES
Origens e primeiros anos
Nascido em Nantes por volta de 527 em uma família nobre, Martinho recebe uma educação piedosa e dedica-se cedo ao estudo das Escrituras e à prática das virtudes.
São Martinho Saint Martin Abade fundador de Vertou e evangelizador de Poitou. era oriundo de uma das mais ilustres e ricas famílias da cidade de Nan tes. Nasceu nes ville de Nantes Cidade episcopal e local principal do culto ao santo. ta cidade por volta do ano 527. Seu pai é tido como tendo sido senhor de Rezé, localidade então bastante considerável às margens do Loire, e sua mãe de uma das grandes casas da Aquitânia. Uma felicidade maior para ele foi receber desses ilustres pais as primeiras inspirações da piedade que eles mesmos professavam. Deram à pequena criança, com a graça do batismo, o nome admirado em toda a Europa do glorioso taumaturgo das Gálias.
Martinho fez prever desde a infância o futuro para o qual Deus o chamaria. A doçura de seu caráter, sua aplicação aos estudos, o fervor religioso que transparecia em toda a sua conduta eram já ou uma graça de sua vocação, ou tantas causas que deveriam merecê-la. Aplicava-se sobretudo à inteligência das Sagradas Escrituras; nelas encontrava o germe das frutuosas pregações que sua palavra abundante logo lhe facilitaria: de modo que seus rápidos progressos e a inocência amável de seus primeiros anos o colocaram no primeiro lugar entre as jovens crianças de sua idade; e à medida que avançava na vida, comprazia-se em ouvi-lo, em observar como se fortalecia na prática das virtudes, submetendo suas paixões nascentes às regras austeras do espírito, e começando a praticar para si mesmo o que tantos outros deveriam logo às suas eloquentes exortações.
Tais disposições nas quais cresceu inclinavam para o santo jovem o coração de Deus, que o atraía ao serviço dos altares. Não tardou a entregar-se a ele, tão dócil a esse atrativo misterioso quanto às luzes da graça que dirigiam toda a sua conduta exterior. Essa regularidade fez dele o modelo dos jovens, e não se desmentiu até a idade em que a santidade dos costumes, garantida desde a infância pela religião, torna-se para o resto da vida um penhor assegurado da calma feliz que as más paixões jamais perturbam. Martinho viveu assim na presença de Deus, nas funções inferiores que preparam para as ordens sacras.
A missão e a queda de Herbauge
Ordenado diácono por São Félix, Martinho fracassa em converter a cidade pagã de Herbauge, que acaba submersa pelas águas após sua partida milagrosa.
São Félix, Saint Félix Bispo de Nantes que ordenou Martinho diácono. seu bispo, após ordená-lo diácono, não temeu confiar-lhe uma parte importante de sua administração. A eloquência natural que Deus havia concedido ao nosso jovem clérigo, secundada por estudos sérios e assíduos, não havia contribuído pouco para lhe valer tais honras. Ela deveria lhe adquirir também méritos mais sólidos para a conquista das almas. Encarregaram-no da pregação, e temos motivos para acreditar que suas primeiras tentativas o levaram ao arquipélago formado por essa multidão de pequenas ilhas que, na época, serviam de refúgio a piratas saxões, que permaneceram nesses teatros de suas depredações marítimas após a expulsão que os francos haviam feito de seus pais, e que ali continuavam sua vida selvagem tanto melhor quanto ninguém mais ousava persegui-los. Apesar desses costumes temíveis, apesar da presença de dois eremitas que serviam a Deus nessas rochas desertas, e cujos ensinamentos aquelas hordas dificilmente teriam escutado, estas não eram de modo algum hostis ao cristianismo, e os sucessos que Martinho obteve ali logo de início persuadiram de que se poderia esperar dele frutos de conversão em favor até mesmo dos infiéis.
Povos semisselvagens viviam nos confins ocidentais da Bretanha e ocupavam, entre o Loire e o Oceano, as primeiras marchas de Poitou. Entre as cidades que ali se haviam formado, uma, sobretudo, entregue inteiramente às superstições pagãs, era, por isso mesmo, um teatro de desordens demasiado autorizadas pelos exemplos fabulosos de Júpiter, provido do primeiro lugar no meio desses deuses pretensos que, sob diferentes nomes, patrocinavam todas as brutalidades e todas as infâmias. Essa cidade era Herbauge (Herbadilla, Herba diculum, Herbauge Cidade pagã submersa após a passagem do santo. Herbadiliacum, Herbadiliem), erguida na ponta meridional do atual lago de Grandlieu, e cuja importância fizera dar seu nome ao território que a cercava. Seja, portanto, que São Félix fundasse para essa conversão esperanças no zelo e no talento de Martinho, seja que este tenha concebido por si mesmo o desejo de entrar nessa colheita cuja semente já havia tido tão pouco sucesso, de comum acordo essas duas almas se entenderam, e o empreendimento foi resolvido: o pregador deveria marchar para a conquista desses pobres pagãos.
O santo pregador, à palavra do mestre, recebeu sua bênção e lançou-se no caminho indicado. Mas não foi mais feliz ali do que seus predecessores, e encontrou apenas espíritos rebeldes e almas endurecidas. É que, infelizmente, o coração humano, em qualquer época do mundo que se examine, aparece sempre tão impelido para as más paixões das quais a queda original é o princípio. Uma vez no vício, ele faz disso um obstáculo, muitas vezes intransponível, às verdades da religião que as condena; ou então, se está mergulhado na impiedade, adormecido na indiferença, cegado pelos sofismas da filosofia incrédula, a virtude torna-se-lhe impossível, e ele encontra em sua incredulidade um pretexto para todos os desmandos. Tal era a deplorável população que Martinho abordava. Assim que apareceu, mostraram-se tão hostis para com ele que só pôde encontrar hospitalidade entre pobres pessoas, homem e mulher que tinham apenas um filho chamado Pedro, e que consentiram em abrigá-lo sob o teto de sua indigência. Dessa triste morada, ele saiu logo para tentar pregações que, a princípio, como sempre, tornaram-se objeto de curiosidade, mas não tardaram a excitar sentimentos agressivos. O Santo, na presença daquelas estátuas dos falsos deuses que adornavam os templos ou as praças públicas, reprovava seus ouvintes por aquela estúpida barbárie que fazia prestar a essas imagens insensíveis o culto devido apenas ao Deus que os havia criado e redimido. Ele opunha a essa Diana, cujas torpezas eram tão conhecidas, a castidade da augusta Mãe de Jesus Cristo; a esse Mercúrio que favorecia os ladrões, a santa pobreza do Deus feito homem; e assim, condenando seu cegueira voluntária, esforçava-se por despertar neles o sentimento de sua própria dignidade desconhecida e a estima pelos sagrados mistérios da fé cristã. Mas as consequências desses grandes princípios não alcançavam um auditório tão rebaixado, e os sarcasmos, a princípio, depois logo as invectivas e, finalmente, as violências, ensinaram ao digno pastor com que ovelhas ele estava lidando. Essa oposição logo se transformou em um ódio furioso, que chegou ao ponto de recusar qualquer comunicação com ele e forçá-lo a afastar-se da cidade.
O Santo não sabia fazer outra coisa senão gemer em seu coração por essa oposição monstruosa. Ele só se consolou por um instante para terminar com uma nova tentativa uma missão que tantas resistências tornavam inútil para aquela infortunada população. Na falta desses grandes orgulhosos, desses comerciantes grosseiros e dessa populaça insolente que só tinham injúrias para sua caridade, ele dirigiu-se a almas que pudera estudar mais de perto, e cuja simplicidade devotada o havia acolhido e assistido. Eram seus anfitriões que Deus, prevenindo-os com sua graça, havia disposto para as verdades da salvação, ao mesmo tempo em que abria sua alma a uma compaixão fraternal que a humanidade, por si só, não teria sabido inspirar a pagãos. Romano, sua esposa e seu filho receberam de suas conversas com o piedoso arquidiácono a luz do cristianismo, as noções da adorável Trindade, a promessa de uma vida futura, e aceitaram finalmente o batismo que ele lhes ofereceu e cuja feliz necessidade compreenderam. Esse foi um germe fecundo para a cidade rebelde à voz de Deus, se a persistência do Santo, que não podia decidir-se a deixá-la, tivesse podido ser apreciada e compreendida. Mas quanto mais ele prolongava sua estadia ali, mais encontrava contra a lei evangélica desprezo e contradições. Diante desse curso de iniquidades que nada comprimia, e das vexações diárias com as quais pagavam seu zelo, ele viu bem que não havia mais o que esperar dessas almas perdidas do que outrora de Sodoma, cujas infames perversidades as desonravam... Ele caiu em profunda tristeza, seu coração sentiu-se acabrunhado e, com pesar, mas forçado pela inutilidade de seus cuidados, pensou em fugir daquele litoral indigno das misericórdias divinas. Tantas outras almas o chamavam alhures, onde não faltaria encontrar outras mais dóceis, que ele tomou essa determinação como uma inspiração de Deus e de sua consciência. O divino Mestre não havia dito: "Quando vos perseguirem em uma cidade, fugi para outra"? Era, portanto, ali que se devia "sacudir o pó dos seus sapatos". Mas os Santos têm pressentimentos que os advertem do alto, e, seja que Deus enviasse ao seu apóstolo desconhecido uma inspiração súbita, seja que, por um milagre mais raro, mas que ele mantém frequentemente à disposição de seus servos, ele lhe tivesse feito ouvir uma voz exterior e sensível que o advertia de fugir de um perigo iminente, Martinho, prevenindo seus anfitriões desse perigo, determinou-os a segui-lo e deixou às pressas um lugar marcado pelo selo da reprovação eterna.
A cidade de Herbauge, tão florescente, tão orgulhosa de suas riquezas, tão apegada aos seus ídolos, tão tenaz em fazer entre ela e os cristãos de fora uma espécie de cordão sanitário que a preservasse de seus exemplos e da invasão da doutrina evangélica, desapareceu, submersa sob as águas de seu lago, sem deixar nenhum vestígio de sua existência, e perdendo até seu nome, que nenhum geógrafo conservou, que nenhum mapa designa mais, deixando, contudo, ao redor de suas ruínas inencontráveis, um país inteiro que ainda o porta e que testemunha a terrível verdade. Assim, o castigo cumpriu-se, a justiça suprema atingiu o crime, e, mais uma vez, uma grande lição foi dada à raça dos cínicos e dos perseguidores. O Santo não pôde recusar suas lágrimas a esse destino funesto e demasiado merecido: é o sentimento que domina nos justos, de compadecer-se e lamentar os ímpios arrebatados nesses desfechos funestos que a mão de Deus lhes reserva cedo ou tarde. Nosso piedoso diácono encontrou, portanto, em seu coração um luto proporcional a essa perda imensa e, sem dúvida para tentar compensá-la com triunfos mais seguros sobre o mundo das almas, resolveu dedicar-se a uma vida de missionário.
Peregrinações e vida eremítica
Após sua ordenação sacerdotal, ele viaja pela Nêustria, Itália e Inglaterra antes de se retirar por dez anos como eremita na floresta de Du-Men.
Após ter sido revestido do caráter sacerdotal, Martinho afastou-se daquela Bretanha onde seus primeiros trabalhos haviam sido misturados com consolações e amarguras, por volta do ano 554. Ele começou seu novo apostolado pela Nêustria, toda limítrofe ao país que ele abandonava, à qual a raça normanda só veio dar seu nome três séculos depois, e cujas vastas e ásperas campanhas, cobertas ainda por profundas florestas, desprovidas das cidades opulentas que ali se fundaram mais tarde, não alimentavam senão populações pobres e ignorantes, já cristãs em grande parte, mas ainda misturadas com muitos pagãos, e sobre as quais podia se exercer com fruto a ação da palavra divina. De lá, passou para a Itália, levando sua peregrinação até Roma, onde vivificou sua fé nos túmulos de nossos maiores Apóstolos; após o que retornou à Bretanha, passou para a Inglaterra, no retorno da qual parou na Normandia, e enfim voltou à sua querida Bretanha, onde novos labores deveriam imprimir tão profundas as marcas de sua fervente caridade. Segundo os hábitos desses primeiros tempos, ele pregava por toda parte e sempre. Após seus dias assim consagrados à salvação das almas, após as colheitas abundantes que seus suores traziam aos celeiros de Deus, a noite chegava, e, sem pedir hospitalidade a outros senão a esse próprio Deus, ele se retirava para alguma gruta, longe do ruído, na presença de seu único Criador; ali se entregava à oração e às obras de penitência, aos jejuns e às vigílias estudiosas, e após um curto repouso retomava suas conversas com um novo auditório, sempre mais numeroso e mais atento.
Ele visitava os mosteiros já erguidos nos países que percorria, observava os usos, comparava as diversas Regras, estudava a aplicação delas, e encontrou para si mesmo nessas santas casas tais estímulos para a vida religiosa, que não duvidou que ela fosse esse termo para o qual Deus o havia chamado através de suas contradições e trabalhos. Resolveu, portanto, tender doravante para esse objetivo. Rico de lucros espirituais e da santa experiência adquirida nessas jornadas santificadas, Martinho deixou a Itália e retornou à Bretanha, por volta de 565, resolvido a praticar ali a vida eremítica e a buscar sua perfeição na imitação dos ferventes modelos que havia encontrado por toda parte. Um atrativo misterioso, inspirado por um impulso secreto da Providência, fê-lo escolher sem dúvida o lugar onde deveria parar. Não longe de Nantes, havia uma floresta de grande extensão, frequentada outrora pelos druidas, onde os restos do culto supersticioso dos gauleses se perpetuavam ainda em uma reunião dessas pedras misteriosas chamadas pelos arqueólogos de peulés ou menires. Esta floresta, tirando seu nome dessa circunstância, era chamada Du-Men, de duas palavras bretãs que significam pedras negras. Lá ele fez para si uma ca Du-Men Local da retirada eremítica de Martinho. bana de galhos e preparou-se para enfrentar os invernos. Sua vida ali foi toda de mortificação e penitência. Algumas frutas silvestres, alguns legumes cultivados por suas próprias mãos, e, quando a estação se recusava a essas frugais colheitas, raízes secas das quais havia feito sua provisão, foram todo o alimento que se permitiu. Uma única coisa lhe faltou a princípio: um riacho límpido correndo em sua solidão. Dizem que Deus o atendeu, fazendo nascer sob seus passos uma fonte que, suprindo a necessidade de sua sede, substituiu para ele os vinhos requintados aos quais havia renunciado.
Tal foi a vida que levou neste deserto nosso santo anacoreta durante um espaço de dez anos. Ela foi secundada, aliás, por favores do céu que só são concedidos às almas assim desapegadas de si mesmas. É em tão altas virtudes que o homem se eleva às faculdades de uma contínua e fervente contemplação; é por elas que chega a um mais completo desapego das coisas criadas, e às misericordiosas revelações que iluminam sua rota nos progressos da vida interior, ou para as vias inesperadas que apraz a Deus abrir-lhe. Martinho tornou-se um novo exemplo desta verdade, e, quando o Senhor o viu suficientemente preparado por essas virtudes ocultas, dispôs-o para uma missão que, ao trazê-lo de volta à sua vida ativa, deveria ao mesmo tempo torná-lo mais útil a uma numerosa família de eleitos, e provar que os infortúnios que ele havia deplorado em Herbauge não deveriam tanto ser atribuídos a ele quanto à maldade e à ingratidão de seus habitantes.
A fundação da abadia de Vertou
Chamado por Deus a deixar seu retiro, ele funda o mosteiro de Vertou às margens do Sèvre, atraindo até trezentos monges.
Certa noite, portanto, após ter passado em meditação as longas horas que sempre lhe dedicava, foi advertido durante o sono de que deveria retornar ao meio dos homens; que um grande número deles precisava daquele espírito de penitência do qual ele poderia, doravante, dar-lhes exemplos mais perfeitos; que converteria muitos pecadores iluminados por suas instruções, e que aos seus escândalos sucederia, por sua dedicação a esta grande obra, uma vida de edificação e de paz. «Os Santos», diz Santo Ambrósio, «não hesitam à voz de Deus; não discutem com a graça do Espírito Santo». O nosso, que provava tão profundas doçuras nesta existência favorecida por Deus, não hesitou em deixar tudo por Aquele de quem acreditava ouvir um aviso, e abandonou sem mais demora o piedoso retiro e sua doce tranquilidade. Dirigiu-se, então, ao deixar Du-Men, para um lugar ainda isolado, cujo nome primitivo Vertaw, traduzido por Vertawum em latim, e que mais tarde foi aportuguesado para Vertou, era uma expressão bretã que indicava su a posi Vertou Local da principal fundação monástica de Martinho. ção no curso de um rio; de fato, o Sèvre corria ali sob profundas sombras e em uma solidão ainda mais tranquila. Não era, aliás, senão uma porção da mesma floresta de Du-Men, mas mais próxima de Nantes, encontrando-se esta cidade além do Loire, a duas léguas a noroeste.
A presença do novo eremita foi logo objeto da atenção pública. Falou-se primeiro de sua vida santa e do fruto que produzia por suas pregações, depois alguns visitantes chegaram até sua cela, onde o encontravam sempre ocupado na oração ou no trabalho manual, como Pacômio, Paulo e Hilarião haviam praticado na Tebaida. Este amor ao isolamento e seu espírito de silêncio, que ele só rompia para falar de Deus, fizeram com que o chamassem de Martinho o único, ou o solitário, nome pelo qual passou a ser conhecido na região. A qualquer hora que o abordassem, a amenidade de seu acolhimento, a doçura de suas conversas todas impregnadas dos perfumes do céu, a serenidade de sua vida, embora tão austera em si mesma, falavam aos corações muito mais profundamente ainda do que suas exortações: e logo a multidão aumentou com aqueles que queriam ouvi-lo e recomendar-se às suas orações. Assim se espalhou pela região o bom odor de sua santidade com a admiração de sua doutrina e de seus exemplos. Mas, na sequência destas salutares impressões, o espírito de Deus prepara sempre efeitos maravilhosos de sua graça. Daqueles que tinham sido atraídos a Martinho por uma curiosidade respeitosa ou uma admiração religiosa, muitos solicitaram seus conselhos e se apegaram à sua direção. Nosso solitário reconheceu nestes sinais um encaminhamento para a execução das promessas divinas: por isso, guardou-se bem de recusar este piedoso empenho. Sem outro asilo que sua estreita cabana, não pôde oferecer outros abrigos a tantos discípulos senão aqueles que lhes era possível construir pelos mesmos meios. Cada um pôs-se, pois, ao trabalho com ardor, e terminou tanto mais cedo seu edifício quanto a natureza custeava tudo e o luxo se restringia estritamente àquelas regras da arte suficientes para garantir proteção contra as intempéries da chuva e do sol. Desta forma, este deserto se povoou, e estes primeiros habitantes foram como flores desabrochadas neste novo jardim da Igreja, que estendia assim seu domínio, tomando posse das almas, purificando-as de seu passado e dando-lhes por antecipação, em uma paz que nunca tinham provado, uma participação antecipada nos frutos eternos de seus trabalhos e de suas virtudes.
O grupo de fiéis formado em torno de sua cela tardou pouco a se persuadir, como ele mesmo, de que esta posição pouco cômoda para uma comunidade deveria se constituir em um estabelecimento onde a regularidade dos hábitos se tornasse mais possível a cada um. Daí a ideia de um convento verdadeiro, como a Bretanha e o Poitou já tinham de tão florescentes. Este pensamento era o de todos os novos irmãos, apressados em não formar doravante senão uma única família. Todos se puseram com ardor a construir um vasto mosteiro que pudesse prover às necessidades dos pobres como às de uma numerosa comunidade. A floresta, desmatada de seus grandes carvalhos, deixou logo ver um largo espaço, onde um ar vivo e saudável circulava livremente; o céu mostrava-se ali a descoberto como o encontro final para o qual cada dia avançava a jornada do solitário. Elevado ao ponto culminante da colina, o mosteiro parecia planar acima das agitações do mundo; a igreja principal, dominando todo o resto do vasto edifício, e superada por uma torre onde já balançava o sino dos ofícios litúrgicos, era dedicada a São João Batista, o primeiro dos solitários e o mais perfeito dos filhos dos homens.
Após a conclusão do mosteiro, a edificação que se tinha certeza de encontrar ali atraiu para esta santa morada um concurso cada vez mais ativo de estrangeiros. Uns queriam comprometer-se eles mesmos e fugir do mundo, cujos perigos sentiam melhor diante de tão grandes abnegações; outros vinham oferecer seus filhos para o serviço de Deus, ou para tirar ao menos dos santos exemplos de tantos valentes atletas o hábito do bem e a força contra as paixões futuras. De modo que logo São Martinho viu-se à frente de trezentos religiosos; ele era a alma e o motor de todas as boas obras que se multiplicavam a cada dia: eram os retornos frequentes da salmodia, que a noite nem sequer interrompia; os jejuns reiterados; as práticas austeras de uma penitência corporal unidas ao espírito de humildade; um contínuo silêncio, que não cessava senão para as conferências espirituais; e, fora de tantos exercícios já tão rudes para o corpo, o trabalho das mãos variado segundo as aptidões de cada um.
Inteiramente dedicado ao desenvolvimento de sua comunidade, Martinho devia também multiplicar cada vez mais suas fadigas e suas preocupações. Estas preocupações diárias estavam longe de entravar seus próprios esforços e de impedir o progresso de sua perfeição pessoal. Modelo de renúncia, de assiduidade aos exercícios comuns, via-se-o por toda parte onde era preciso gastar-se, dando o exemplo das santas vigílias, de uma abstinência mais rigorosa, de uma piedade sempre sustentada; e aqueles que se tornavam testemunhas disso perguntavam-se como este pobre corpo extenuado pela penitência podia ainda bastar a tantos cuidados e trabalhos. Felizmente que, em retorno a esta generosidade que desconcertava nele as exigências da natureza, Deus o favorecia com graças extraordinárias. Ele provava na oração puras e incomparáveis delícias, e o Mestre a quem servia tão fielmente prodigalizava-lhe sem interrupção as alegrias de sua santa presença, que o piedoso solitário nunca perdia.
Logo, porém, o mosteiro tornou-se pequeno demais para tantos discípulos. Foi preciso disseminá-los, e vários outros mosteiros, que foram dependências e como priorados de Vertou, estabeleceram-se na Bretanha pelos cuidados de Martinho. Não era este um trabalho de pouca importância, nem que pudesse realizar-se sem esforço ou dificuldades. Era preciso ao superior de Vertou redobrar de atividade e de zelo, de vigilância e de conselhos. Frequentes corridas, até mesmo viagens distantes, tornavam-se necessárias para estes empreendimentos, pois criavam para o pai comum numerosas relações com estas almas tão diversas, das quais o maior número talvez, por mais pressionadas que tivessem sido pela graça de sua vocação, não tinham, contudo, abdicado de uma só vez seus antigos pendores, mais ou menos bárbaros, nem despido este velho homem que faz tão frequentemente o mal que não quereria, sem fazer ainda o bem que quereria. Era preciso não faltar nem força nem coragem para manter em uma exata disciplina um rebanho cujas ovelhas se multiplicaram até trezentos nestas diferentes casas, onde a caridade do pastor velava por cada uma delas. Este homem, tornado pelas disposições da Providência o motor de uma tão grande obra, devia ser dotado por ela de tanta firmeza quanto moderação. Esta dupla qualidade não faltou a Martinho. Mas esta influência de todos os instantes e esta vigilância prática tão contínua deviam acabar por tornar a tarefa impossível a um só homem, e o sábio fundador teve de fazer-se de coadjutores cuja experiência e espírito apostólico pudessem suprir suas impotências. Escolheu, pois, entre seus religiosos delegados que preposicionou à condução destas diferentes casas, e reservou-se o governo de Vertou, não todavia sem guardar em princípio o daquelas sucursais, sobre as quais era preciso sempre agir, para a manutenção da unidade, por um mesmo regime. Visitava, portanto, cada uma delas de tempos em tempos, levando-lhes a palavra de Deus, ocupando-se da manutenção da Regra, prevenindo os abusos, olhando para as relações com o mundo, que ele queria das mais raras; sustentando os fracos por seus encorajamentos, formando para a humildade, dando a tudo, em uma palavra, o impulso bem-aventurado de suas próprias disposições, e esforçando-se por formar segundo seu coração aqueles de quem sentia que deveria responder diante de Deus. Quando os superiores compreendem assim sua tarefa, quando pensam em cumpri-la como ecônomos fiéis a quem o Mestre pedirá contas um dia de sua administração, as almas florescem sob sua condução, a paz de Deus as consola até em seus combates, e a caridade do Mestre, passando para os discípulos, espalha ao redor deles e em todos os detalhes da vida monástica a doce serenidade que edifica o mundo.
Milagres na Inglaterra e na Normandia
Martinho cura uma princesa possuída na Inglaterra e ressuscita dois gêmeos perto de Bayeux, onde funda o mosteiro de Deux-Jumeaux.
A reputação do nosso Santo e a da fervorosa regularidade das suas fundações não tiveram dificuldade em penetrar nas províncias vizinhas. O Maine e a Nêustria ressoavam especialmente com elas, e as santas moradas que já floresciam ali naquela época chamavam de tempos em tempos o ilustre servo de Deus para ouvir a sua palavra e edificar-se com a sua santidade. Era, aliás, uma piedosa consolação para ele mesmo encontrar-se assim quase por toda parte no meio de almas de elite cuja vocação a sua doutrina e os seus exemplos puderam determinar. Daí, sem dúvida, e durante uma dessas visitas sempre animadas pelo Espírito de Deus, o rumor dos seus milagres, tendo chegado até a Inglaterra, tornou-se a ocasião de uma grande recompensa do alto sobre a fé de um dos seus fiéis filhos.
Havia naquele país um príncipe cujo nome a história não conservou, e que, naquela ilha dos Santos, convertida alguns anos depois pelo apostolado de Santo Agostinho, mas ainda quase inteiramente idólatra, pode ser considerado como uma das mais memoráveis primícias do cristianismo. Este príncipe tinha uma filha jovem, cristã como ele, cujas virtudes importunas despertaram a fúria do inimigo da salvação. Uma legião de demônios impunha-lhe todos os dias, desde a sua infância, atrozes tormentos; horríveis convulsões manifestavam a sua presença; quando a abandonavam, não era senão para redobrar logo as suas incansáveis vexações, e quanto mais o príncipe procurava aliviar a sua filha, mais se multiplicavam as resistências dos seus inimigos. Um dia, enquanto a obsediavam, um deles fez ouvir, pela boca da pobre paciente, estas palavras que deveriam pôr fim aos seus tormentos: «Em breve seremos expulsos daqui pelas orações de Martinho. Redobremos a força contra ela e vinguemos de antemão a nossa derrota». A estas palavras, a jovem foi agitada por tantas novas convulsões quantos eram os seus encarniçados perseguidores. Por seu lado, o infeliz pai, profundamente afetado, não sabia o que fazer. Este Martinho era-lhe desconhecido, ele não sabia como descobri-lo. Na sua ansiedade, despachou emissários por todos os lados que, tendo-o procurado longamente sem sucesso na Inglaterra, decidiram finalmente atravessar o mar, desembarcaram nas costas da França, foram então informados com mais sucesso sobre o santo homem que todos ali honravam e, chegados à abadia de Vertou, expuseram-lhe, com grandes marcas de respeito e vivas instâncias, o motivo da sua viagem e os desejos do seu mestre.
O homem de Deus, acolhendo-os com a sua doçura habitual, consolou-os muito dizendo-lhes que o Senhor era todo-poderoso e que se podia esperar da sua bondade a libertação da sua jovem princesa; depois, acedendo ao seu pedido, levou consigo um dos seus irmãos e pôs-se a caminho para segui-los. Uma feliz navegação fê-lo logo abordar nos Estados do príncipe, que, avisado da sua chegada, foi ao seu encontro testemunhando pela sua alegria o que esperava dele e, lançando-se aos pés do Santo, rendeu-lhe graças por ter consentido naquela penosa viagem. Este, contudo, tinha pressa de realizar a sua obra e, enquanto se dirigia para o palácio, guiado pelo seu anfitrião, de repente ouviu-se uma multidão de vozes que anunciavam a presença de Martinho. Era a legião ímpia do inferno que, não podendo suportar entrar em luta com ele, após ter exercido uma última vez as suas terríveis contorções sobre a sua vítima, escapava pelos ares, sempre invisível, mas tão turbulenta quanto confusa. Mal introduzido na morada do príncipe, o santo homem encontrou a pobre criança ainda caída e mal recuperada da sua terrível agitação. Ele levantou-a e, após ter feito um sinal da cruz na sua fronte, apresentou-a ao seu pai feliz e inteiramente liberta. O reconhecimento da jovem manifestou-se logo por um generoso sacrifício de si mesma ao Senhor e, a seu pedido, o seu augusto libertador deu-lhe o véu e consagrou-a à vida das virgens. Por seu lado, o príncipe não sabia como reconhecer tão grandes benefícios. Fez trazer somas consideráveis de ouro e prata, que o suplicou que aceitasse. Martinho não se dignou sequer a lançar um olhar e pediu que fossem distribuídas aos pobres. Acrescentou ao fruto da sua missão permanecendo alguns dias com o príncipe, onde as suas instruções fortaleceram a fé dos seus servos, espalhando ali bênçãos que foram duradouras.
Ao regressar do além-mar, Martinho desembarcou na costa da Normandia que era a mais próxima da Inglaterra, no local onde o Oceano banha a diocese de Bayeux. Entre aqueles que ele amava naquele país, encontrava-se um senhor que passava naquele mesmo instante por um cruel infortúnio familiar. Martinho, ao chegar à sua casa para visitá-lo, encontrou a sua casa de luto: todos ali derramavam lágrimas pela morte de dois jovens irmãos gêmeos que tinham acabado de ser arrebatados ao seu pai antes de terem recebido o benefício do batismo. Tocado pelo seu infortúnio, o Santo exortou o pai e os seus amigos a procurar a sua consolação no coração de Deus, fê-los rezar consigo e obteve do Senhor que os dois irmãos fossem restituídos à vida. Após tê-los batizado, consagrou-os a Deus a pedido dos seus pais, e foi nesta ocasião que fundou o mosteiro conhecido desde aquele tempo pelo nome de Deux-Jumeaux.
Evangelização do Poitou
Ele funda mosteiros em Durinum (Saint-Georges de Montaigu) e percorre o Baixo Poitou para converter as populações rurais.
Entre os mosteiros que São Martinho estabeleceu ao redor de sua principal fundação, deve-se notar especialmente aqueles cujas memórias permanecerão ligadas à pequena ci dade de Saint-Georges de Saint-Georges de Montaigu Local de falecimento do santo e de fundação monástica. Montaigu, em Poitou, e a outra localidade que se tornou, como ela, menos importante hoje, mas cuja celebridade foi grande outrora na diocese de Bayeux. Vamos narrar o que diz respeito a cada um deles. A seis ou oito léguas a sudeste de Vertou, sobre o solo figurado hoje por uma planície acidentada e que cobrem, a pequenas distâncias, alguns povoados populosos, risonhos grupos de bosques separam esses centros de ação humana, e aqui e ali vemos aldeias ou solidões regadas por cursos d'água que lhes prodigalizam um frescor habitual. Havia ali uma cidade outrora florescente e considerável, mas reduzida, no tempo de que falamos, a uma sombra de si mesma pelos infortúnios que sofrera. Era Durinum, nome latinizante após a invasão dos romanos no país, mas cuja origem, bem anterior a essa catástrofe, devia remontar a alguma denominação céltica. Célebre entre as estações escalonadas nas vias públicas, vastos destroços de seu antigo esplendor juncavam o solo em um perímetro bastante largo. O confluente dos dois Maines, perto do qual fora assentada, favorecia seu comércio, levando suas barcas até o Loire pela Sèvre-Nantaise, onde se lançam primeiro suas águas confundidas. Esse comércio tinha celebridade no século IV, quando Durinum foi derrubado pela invasão dos armoricanos. Uma população, que se pretendia ter sido de vinte mil almas, permanecera pouco numerosa após a destruição da cidade, e não havia quase mais que moradias pobres e disseminadas. Essas habitações se escalonavam, em meio a charnecas e terras mal cultivadas, até uma colina que deveria se tornar mais tarde Mont-Aigu, e sobre cujo planalto não se via senão raras cabanas abrigando-se sob grandes bosques contra o sopro do setentrião. No centro do povoado, quase sobre o local atual do calvário que se ergue ao pé daquela das duas colinas ainda habitadas, Martinho colocou seus dois mosteiros de virgens e de apóstolos: o primeiro, sobre esse mesmo local onde existe ainda o Grand-Logis; o segundo, no lugar mesmo ocupado pela escola atual do professor, e que ainda porta o nome de priorado.
Com a ajuda de um trabalho tão ativo quanto o dos monges, a obra avançou rapidamente, e as duas famílias foram logo instaladas. Foi de Durinum que partiram, desde então, como de um centro novo, os raios que iluminaram a região, e essa parte do Poitou deveu ao próprio Martinho, e aos religiosos que o secundaram, a felicidade de se reerguer e de provar uma prosperidade inesperada. Enquanto esses homens de fé e de labor se punham novamente ao trabalho para essa vinha abandonada, as mulheres, que não estavam então submetidas a uma estrita clausura, mas não menos fiéis à sua santa missão, visitavam os pobres, levavam a alegria e o espírito de Deus ao lar de cada família; e de uma terra semibárbara viu-se logo germinar os frutos excelentes cuja sabor se perpetuou até nossos dias por costumes mais doces e uma mais firme energia do sentimento cristão.
Nossas duas novas famílias monásticas tendo recebido de seu bem-aventurado fundador a mesma regra que seguiam suas outras casas, tudo devia ainda caminhar por ele, e tudo tornou-se para ele um acréscimo de vigilância e de fadigas. Pois, após ter providenciado para cada uma dessas duas dependências superiores cuja capacidade lhe era conhecida, e que ele escolhia sempre entre aqueles cuja idade, inteligência e instrução eram tantas garantias de sua experiência e de sua sabedoria, ele não abandonava mais ali do que em outros lugares seu direito e seu dever de visitá-los de tempos em tempos, e de trazer, com seus tocantes exemplos de humildade e de zelo, seus conselhos e seus encorajamentos. Frequentemente ele vinha buscar no mosteiro dos homens dois ou três companheiros que associava para corridas evangélicas, por meio das quais renovava nos povoados vizinhos o espírito de fé, que ali era preciso aumentar se não se quisesse que ele se enfraquecesse. Assim acompanhado, ele empreendia a pé viagens mais ou menos longas, durante as quais seus piedosos diálogos eram frequentemente interrompidos pelas dificuldades dos caminhos que eles mesmos precisavam abrir para abreviar seu trajeto, ou para encontrar através das rochas e dos arbustos aldeias isoladas das quais não se preocupavam menos do que das mais opulentas cidades. É dessa forma que foram evangelizadas, segundo as tradições ainda conservadas no país, as localidades já importantes conhecidas hoje sob os nomes mais modernos de Les Herbiers, Les Essarts, Mouchamps, La Roche-Servière e Clisson. Tiffauges, Vendrenne, Aigrefeuille não escaparam mais ao ardor sacerdotal do Santo, nem tampouco Beaupreaux, Chemillé, Vihiers, que não foram os limites extremos de seu laborioso apostolado; pois, além do Anjou onde sua memória é ainda venerada em várias igrejas de seu nome, e a Bretanha onde ele permanece honrado com o mesmo culto, não se deve esquecer que do baixo Poitou ele não podia deixar de retornar frequentemente para as partes superiores da província. Ansion, cuja caminhada ele também guiou, pelo menos durante seus últimos vinte anos, impôs-lhe frequentes viagens. Viamo-lo sem cessar seja nos grandes centros de administração civil, seja nos campos, onde muitos idólatras ainda estavam e se converteram à sua voz para formar povoados cristãos, seja enfim nos lugares menos importantes semeados em seus enclaves, e que, mais populosos, acolheram e amaram logo os apóstolos tão ardentes em lhes verter os tesouros da santa palavra. Após essas missões, ele retornava a Vertou, que era sua residência mais habitual, e ali retomava seus exercícios de solitário e sua paternal solicitude de todos os dias.
Últimos dias e o milagre do teixo
Advertido de sua morte, ele planta seu cajado que se torna um teixo milagroso em Vertou, e então falece em Saint-Georges em 24 de outubro de 601.
Em meio a esses labores, um novo aviso lhe foi dado sobre as contas que em breve teria de prestar de sua administração ao chefe supremo dos pastores. Era o ano de 596. Um dia, tendo partido de Vertou para se dirigir a Saint-Georges, descansava um pouco após uma caminhada fatigante, e o sono apoderou-se dele. Enquanto se entregava a ele, um anjo lhe apareceu e, ordenando-lhe que retornasse ao seu claustro, advertiu-o de que sua morte não estava longe e que deveria preparar-se para ela. Desperto imediatamente, voltou atrás e, quando ainda estava a três quartos de légua da abadia, os sinos começaram a badalar por si mesmos, emitindo um som muito mais claro que o habitual. Os irmãos, espantados, suspeitaram do retorno do santo abade que não esperavam tão cedo e, cheios de alegria, foram ao seu encontro ao som de salmos e cânticos. Logo chegaram à igreja, onde ele entrou seguido por eles, e lá, em uma oração fervorosa, recomendou aquele rebanho ao supremo Pastor. Após o que, levantando-se, dirigiu-se ao claustro, onde reuniu todos os seus religiosos ao seu redor; então, fixando na terra, no meio deles, o cajado pastoral que suas mãos piedosas não deixavam há muito tempo, e que, pela bondade divina, fizera brotar numerosas fontes quando necessário: «Eis», disse-lhes, «que vos deixo o sinal da minha jurisdição sobre vós. Olhai-o como uma prova de que amei com amor de preferência o lugar onde vos reuni outrora sob a proteção de Jesus Cristo. Que ele vos lembre a minha presença, pois será nos séculos vindouros de grande auxílio para muitos. Não tenho muito tempo a permanecer convosco; meu fim aproxima-se neste mundo; preparai-vos para esta separação e segui-me pelo caminho que vos tracei, a fim de não perder a parte que vos coube da minha coroa. Deixo-vos, com a paz de Jesus Cristo, todo o afeto do meu coração; recomendo-vos a este Deus que seguistes, e conjuro-o a levar-vos a todos, por sua graça, à felicidade do seu reino eterno». Após estas palavras, deu a todos o beijo da paz e, para não faltar um só instante à sua tarefa paternal, pôs-se novamente a caminho para a visita planejada ao mosteiro de Saint-Georges.
Mas um último penhor de sua santidade restava em Vertou e não tardou a fazer admirar ali o dom de profecia que Deus acabara de conceder ao seu servo. Mal ele havia partido, viu-se aquele báculo abacial plantado por ele, e cuja madeira seca sustentara por tanto tempo seus passos, recuperar sua seiva perdida, deixar aparecer brotos e começar assim a tornar -se aquele teixo crosse abbatiale Cajado plantado pelo santo que se tornou um teixo milagroso. vigoroso e magnífico cujas folhas foram desde então salutares aos enfermos, e curavam da febre aqueles que as usavam com confiança. Este milagre permanente, que se perpetuou até os últimos tempos da abadia, fez desta árvore maravilhosa o objeto do respeito de toda a região e de todos os estrangeiros que visitavam Vertou. Quando os príncipes da Bretanha retornavam, só entravam na igreja após se ajoelharem diante do tronco venerado. O rei Alain III, entre outros, nunca deixava de fazê-lo e gloriava-se de seguir nisso o exemplo de seus ancestrais. Ninguém ousava tocar em seus ramos ou em sua folhagem a não ser para obter um legítimo alívio para alguma roi Alain III Rei da Bretanha que venerou o teixo de Vertou. enfermidade. Qualquer outra razão para se atribuir tal feito era uma profanação logo seguida de um castigo. Cita-se a este respeito o que sofreram dois soldados normandos que, no tempo da invasão desses bárbaros, por volta de 843, decidiram subir nele para escolher em seus ramos o que usar para fazer um arco: um perdeu os olhos por uma lasca da madeira que queria cortar, o outro caiu de alto e quebrou o pescoço. Um terceiro, que esses tristes eventos não intimidaram, tentou subir, mas o pé lhe faltou e, na queda, quebrou a perna. Decididamente, o restante compreendeu que não devia mais arriscar-se e fugiu o mais rápido possível. Tantos eventos, que só se podiam atribuir a uma proteção celestial, haviam penetrado os bons monges de veneração por sua querida árvore.
Enquanto as primeiras florescências da árvore de nosso Santo vinham lançar uma alegria tão pura ao coração desolado de seus filhos de Vertou, ele agia em Durinum como se nada soubesse de sua morte próxima, ocupando-se do próximo e de seus irmãos muito mais do que de si mesmo, e nada era demais para sua solicitude, suas orações e suas mortificações. Redobrava, ao contrário, para cada um as piedosas exortações a bem fazer, a caminhar em direção ao objetivo comum e a não recusar a Deus nada do que Ele pudesse exigir daqueles cuja vida inteira era um testemunho contínuo de sua predileção. Em meio a esses cuidados e fadigas, foi acometido um dia pela febre, primeiro sintoma de uma doença mais preocupante: uma pleurisia manifestou-se logo, e seu progresso rápido não deixou mais esperanças. Não foi preciso mais do que isso para um ancião de setenta e quatro anos aproximar-se de uma morte certa. Ele não podia duvidar de que o aviso do anjo estivesse prestes a se cumprir; e, de fato, a hora solene ia soar. Por mais enfraquecidas que estivessem suas faculdades corporais, as do espírito permaneciam inteiras. Seu coração permanecia unido a Jesus Cristo; esperava, alegre e sereno, o momento da partida e o chamado definitivo do juiz misericordioso de sua alma. Ao redor de seu pobre leito, religiosos e monges estavam ajoelhados, chorando e solicitando sua última bênção. E como ele estava silencioso e recolhido, rezando por eles tanto quanto por si mesmo, percebeu de repente perto de si uma tropa tornada visível de demônios furiosos, cujos gritos horríveis aterrorizaram os presentes. Apenas o Santo não se comoveu. Lembrando-se do grande taumaturgo cujo nome carregava, e de suas palavras pronunciadas em uma circunstância muito semelhante, exclamou com toda a sua voz: «Que fazeis aí, espíritos das trevas? Saí, Jesus me redimiu, não posso ser perdido convosco». Ele ainda falava quando o inimigo já havia desaparecido. O último combate fora travado, a última vitória conquistada. Não restava mais ao Santo nada a fazer ou a dizer; seu corpo cedeu, e sua alma, despida finalmente do que restava nele de mortal, escapou para aquelas moradias desejáveis onde só se encontram as santas alegrias dos Bem-aventurados, onde ela contempla para sempre face a face aquele que só pudera agarrar aqui embaixo pelas esperanças de sua fé. Esta bem-aventurada morte ocorreu em 24 de outubro de 601. O Santo, como dissemos, estava em seu septuagésimo quinto ano; havia vinte e sete anos que ele havia lançado os fundamentos de seu primeiro mosteiro de Vertou, e quase vinte desde o estabelecimento de Saint-Georges.
Representam-no ajoelhado na solidão e rezando a Deus.
História das relíquias e posteridade
Seus restos mortais, deslocados para fugir dos normandos, transitaram por Gennes e Ansion antes que sua cabeça fosse restituída a Vertou no século XVII.
[ANEXO: CULTO E RELÍQUIAS.]
Ao receber a notícia da morte do Santo, os monges de Vertou dirigiram-se ao mosteiro de Saint-Georges, a fim de trazer seu corpo de volta para a grande abadia. Tendo os religiosos de Saint-Georges se oposto, os de Vertou retiraram secretamente o corpo durante a noite, transportaram-no imediatamente para Vertou e colocaram-no honrosamente na igreja de Saint-Jean-Baptiste.
Segundo o costume da época, seus preciosos restos foram depositados em um caixão de pedra que foi embutido no pavimento desta igreja, e do qual se via, ainda há pouco tempo, a tampa conservada com cuidado no próprio local de sua sepultura, único resto deste memorável monumento que escapou às devastações das primeiras invasões, e que Mabillon citava como ainda existente quando escreveu seus *Annales de l'Ordre de Saint-Benoît*. Esta pedra continuava então a atrair a veneração pública.
O corpo do Santo foi exumado em 813, com a aproximação dos normandos que acabavam de tomar de assalto a cidade de Nantes, e colocado em uma urna de ouro, adornada com pedras preciosas, que foi imediatamente transportada para uma pequena cidade então chamada *Nousherin*, que hoje se concorda em reconhecer como o atual burgo de Gennes, situado na margem esquerda do Loire, a quatro ou cinco léguas acima de Saumur. Algumas horas após este salvamento, o mosteiro de Vertou foi invadido, saqueado, queimado e destruído até os alicerces. As duas abadias fundadas em Saint-Georges tiveram o mesmo destino; mas, logo após a partida dos normandos, os monges apressaram-se em retornar e reconstruí-las a partir de suas cinzas.
De Gennes, a urna de São Martinho foi t ransportada par abbaye d'Ansion Abadia onde foram depositadas as relíquias do santo. a a abadia de Ansion, ou seja, Saint-Jouin-sur-Marne, e depositada ao lado do corpo de São Jouin, seu primeiro abade, na igreja abacial dedicada a São João Batista. Numerosos milagres obtidos pela intercessão de São Martinho tornaram seu nome célebre na região e contribuíram singularmente para renovar, nesta região do alto Poitou, o sentimento religioso das populações.
Mais tarde, suas relíquias foram levadas para outra igreja do mosteiro de Saint-Jouin, construída sob a invocação de São Pedro. Há razões para acreditar que foi então que se concederam certas partes consideráveis a diversas igrejas. Mabillon afirma que, em seu tempo, venerava-se a cabeça do Santo e alguns de seus ossos encerrados em uma urna na abadia de Saint-Florent de Saumur.
Dois bilhetes, dos quais um, muito antigo, era quase ilegível, e o outro datado de 1661, atestavam dois reconhecimentos feitos em diferentes épocas, o que não impediu que outra abertura desta mesma urna fosse feita em 1665 pelo dom Joachim Le Contat, visitador da abadia, o que foi atestado, além disso, pelo subprior Pierre Le Duc. Em 1692, os Padres de Vertou, privados de todas as suas relíquias, assim como os de Saint-Jouin desde as devastações sacrílegas de 1562, solicitaram aos seus irmãos de Saumur alguma porção do que estes haviam conseguido subtrair dos indignos profanadores. Dom Hugues, então prior de Saint-Florent, procedeu, em 1º de dezembro, a uma nova visita à urna, onde foram encontradas as mesmas relíquias mencionadas em 1661. Em 16 de março seguinte, a abadia consentiu em uma concessão de alta importância. Ela cedeu ao priorado de Vertou a cabeça inteira de São Martinho, da qual reservou apenas os "dois ossos parietais e os dois ossos petrosos", e esta cabeça venerável foi ali recebida em 19 de abril e entregue às mãos do prior claustral dom Jean Blussen.
Esta recuperação indenizou amplamente Vertou da perda que havia sofrido em 1562. É sem dúvida esta relíquia, e não a de um dos braços do Santo, que sua igreja perdeu em 1701, durante a violação pelos regeneradores constitucionais. O auto de outra apreensão feita em 1793 constata o confisco de um busto de São Martinho, de outro de São Bento, de um braço e de uma mão, tudo em prata, assim como um incensário; tudo foi enviado para a casa da moeda do distrito, isto é, para Nantes, e pesava dezoito marcos e duas onças. Esqueceram apenas um cibório e um cálice do mesmo metal. Neste último, que fez parte do tesouro atual da igreja de Vertou, que se tornou paroquial, estão gravadas as armas do priorado.
Nesta época infeliz desapareceu assim a tampa do primeiro caixão de pedra no qual havia repousado em 601 o corpo mortal do Santo, e que toda a população da região não havia deixado de frequentar com confiança. Estes piedosos tesouros sofreram a lei comum e foram perdidos sem retorno. Não conhecemos nenhuma outra igreja que os possua agora.
Quarenta paróquias do Poitou ainda o têm como padroeiro e celebram sua festa, como em Saint-Georges, no dia 25 de outubro, embora ele tenha morrido no dia 24. Quase todas têm este vocábulo desde sua fundação e lembram por ele uma missão do Santo ou um prodígio operado por sua intervenção junto a Deus. Assim, o Lieu-d'Angers, Saint-Georges de Castel-Osico, e muitos outros, consagraram pelo seu patrocínio a luz evangélica recebida dele em seus primeiros dias. O Pont-Saint-Martin, sobre o rio Ognon e a uma pequena distância do lago de Grand-Lieu onde ele se perde, é ainda um desses testemunhos. Conhece-se Saint-Martin-de-Broux, comuna da Vendeia, e o rio de Saint-Martin, formando uma ilha com o Auxances, e que deságua no porto de La Gachère. Este último é conhecido sob o nome de *Vertona* nos atos latinos, o que certamente se liga a algumas lembranças da primeira abadia fundada por São Martinho. Várias igrejas paroquiais também levam o nome de nosso Santo na diocese de Nantes. Todos esses lugares lembram nas tradições locais uma influência direta do santo abade.
Logo após sua morte bem-aventurada, viram-se seus irmãos e seus filhos erguerem-lhe um altar ao lado de todos os de São Jouin. Este, por sua vez, também tinha seu culto na Bretanha, onde encontramos, entre outros, sob seu vocábulo, a igreja paroquial de Moisdon-la-Rivière, a duas ou três léguas ao sul de Chateaubriand. Mas Ansion havia dado o exemplo das piedosas lembranças de um de seus mais ilustres Padres: ele foi seguido em todos os priorados; e os beneditinos, seja antes ou depois da introdução da congregação de Saint-Maur, não cessaram de considerar Martinho como uma de suas glórias mais puras.
O culto de São Martinho não ficou restrito ao Poitou: o Maine, o Anjou, a Bretanha (em Nantes e na abadia de Saint-Méen) invocam-no também, seja no dia 24 de outubro, que é sua principal festa segundo o martirológio romano e o de Usnard, seja no dia 8 de maio e no dia 9 de dezembro segundo o de Adon, mas estas duas últimas datas referem-se provavelmente a algumas das transladações das quais falamos e cuja história já não precisa o dia.
Entre outros lugares consagrados em honra ao santo abade de Verton, encontra-se, a uma distância muito pequena da cidade de Le Lude, na diocese de Angers, uma paróquia de Dissé, hoje reunida à de Le Mans, e da qual São Martinho é o padroeiro. Ela estava antigamente sob a apresentação do capítulo de Angers e sob a colação do bispo.
Extraído da *Histoire de saint Martin, abbé de Verton et de Saint-Jouin-de-Marnes*, pelo abade Auber, cônego da Igreja de Poitiers e historiógrafo da diocese.
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.