Membro do Areópago de Atenas convertido por São Paulo, Dionísio torna-se o primeiro bispo da cidade antes de ser enviado para evangelizar as Gálias pelo Papa São Clemente. Estabelecido em Paris, sofreu numerosos suplícios sob o prefeito Fescennius antes de ser decapitado em Montmartre. A lenda relata que ele carregou sua cabeça por duas léguas até o local da atual basílica de Saint-Denis.
Seus contemporâneos
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SÃO DIONÍSIO, O AREOPAGITA,
Origens e formação em Atenas
Nascido em Atenas, Dionísio recebe uma educação esmerada em filosofia e retórica antes de partir para estudar astronomia no Egito.
A Igreja e a França não tiveram nada maior depois dos Apóstolos do que este glorioso bispo e mártir, que mereceu, pela altura de seus conhecimentos, ser chamado de celeste e divino. Ele nasceu em Atenas, u ma das Athènes Local de origem de um estudante que criticou a eloquência de Alexandre. primeiras cidades da Grécia, no nono ano do Filho de Deus. Seus pais eram dos mais consideráveis desta República, e tiveram o cuidado de lhe dar uma boa educação (tanto quanto se era capaz nos erros do paganismo em que estavam mergulhados) e de fazê-lo avançar no estudo das letras. Quando se aperfeiçoou na retórica e na filosofia, que eram de grande estima no lugar de seu nascimento, fez uma viagem a Heliópolis, no Egito, para ali aprender matemática e astrologia. Foi lá que, aos vinte e cinco anos de idade, aplicando-se com um cuidado extraordinário à consideração dos astros, com um sofista chamado Apolófanes, viu este eclipse, surpreendente e contrário à natureza, do sol, no tempo da lua cheia, durante a Paixão do Filho de Deus. "O que é isto?", disse ele ao seu amigo, "o que pode significar este prodígio tão novo e tão extraordinário?". "É um sinal", respondeu o sofista, "de que há alguma mudança nas coisas divinas". Ele
assegura ele mesmo, em suas Epístolas a São Policarpo e ao mesmo Apolófanes, que este astrólogo lhe fizera esta resposta mais por inspiração divina do que pelas luzes de um conhecimento natural. E quanto a ele, admirando cada vez mais as maravilhas deste fenômeno cuja causa não podia penetrar, exclamou: "Ou o Deus da natureza sofre, ou toda a máquina do mundo vai se destruir e retornar ao seu antigo caos". Miguel Sincelo e Suidas relatam de forma diferente esta exclamação; mas o sentido é quase o mesmo, e vemos nela sempre que Nosso Senhor lançava já em sua alma as sementes de sua conversão e de sua vocação à vida apostólica.
Tendo retornado a Atenas, foi ali considerado como um tesouro de erudição e de sabedoria, e como um sujeito capaz dos principais empregos da República; foi, de fato, logo elevado a uma das primeiras magistraturas, que era a dos arcontes, isto é, dos nove homens que tinham o governo da cidade. São João Crisóstomo e Santo Ambrósio dizem que ele se casou e que Dâmaris, que se converteu com ele, segundo o testemunho de São Lucas, nos Atos dos Apóstolos, era sua esposa. Outros acreditam que ele sempre permaneceu no celibato. Desempenhou tão dignamente e com uma satisfação tão universal o cargo que lhe fora dado, que o escolheram finalmente para ser um dos conselheiros do célebre senado do Areópago. Este senado tinha em toda a Grécia uma reputação muito alta de integridade e de justiça, e ninguém ali entrava sem ter dado por muito tempo provas de um perfeito desinteresse e de uma equidade totalmente incorruptível. É preciso, portanto, acreditar ou que Dionísio já era idoso quando ali entrou, ou que se notou nele, na própria juventude, uma maturidade de julgamento tão grande, e costumes tão bem regulados, que se persuadiram de que poderiam passar por cima das regras ordinárias em seu favor. Alguns autores gregos, Simeão Metafrastes e Miguel Sincelo, asseguram que ele foi até príncipe deste senado; e este último acrescenta que não se deve estranhar, já que não apenas era o mais eloquente dos oradores, o mais sutil dos filósofos e o mais esclarecido dos astrônomos, mas que superava também todos os outros areopagitas em nobreza, em prudência e em virtude.
Conversão por São Paulo
Atingido por um eclipse misterioso durante a Paixão de Cristo, ele é convertido em Atenas pelo discurso de São Paulo sobre o Deus desconhecido.
Eis o que a antiguidade nos ensina sobre Dionísio, antes de ser iluminado pelas luzes do Evangelho. Quanto à sua conversão, ela é descrita por São Lucas, no capítulo XVII dos Atos dos Apóstol os. São Pa Saint Paul Apóstolo a quem São Rufo se juntou em suas missões. ulo, tendo chegado a Atenas e vendo esta cidade mais mergulhada do que todas as outras da Grécia na superstição e na idolatria, aplicou-se com um zelo incrível a dissipar essas trevas, dando a conhecer a verdade de um só Deus. Ora pregava aos judeus em sua sinagoga, para lhes revelar o cumprimento das promessas da lei na vinda de Jesus Cristo; ora abordava nas praças públicas os estoicos, os epicuristas e outros filósofos, para convencê-los por razões evidentes da falsidade do paganismo e da necessidade de reconhecer um só autor de todas as coisas.
Esses filósofos ouviram-no por algum tempo com paciência, tentaram iludir com sutilezas a força invencível de seus argumentos; mas, vendo enfim que não podiam resistir e que, além disso, ele lhes anunciava uma doutrina contrária aos princípios da filosofia, como a encarnação do Verbo e a ressurreição dos mortos, arrastaram-no ao Areópago para ser julgado e condenado como um semeador de novidades. Foi neste augusto teatro, onde as mentes mais brilhantes da Grécia estavam reunidas, que este divino Apóstolo fez aparecer a profundidade de sua erudição e sua sabedoria toda celestial. Ele tomou como assunto de seu discurso uma inscrição que havia encontrado na cidade, sobre um altar, contendo estas palavras: *Ignoto Deo*: «Ao Deus desconhecido»; e falou tão excelentemente sobre a necessidade de conhecer e adorar este Deus, criador do céu e da terra, que eles não conheciam, e de abandonar o culto aos ídolos de ouro, prata, pedra e madeira que haviam adorado até então, que muitos se renderam às suas razões. O principal daqueles que se apegaram ao Apóstolo foi o nosso Dionísio, o Areopagita; ele renunciou à superstição da idolatria e deixou até mesmo os empregos da vida secular, para se tornar um perfeito discípulo de Jesus Cristo. Foi um grande motivo de espanto e, ao mesmo tempo, de consolação para ele, quando descobriu, em suas conversas com São Paulo, que o eclipse extraordinário que havia observado em Heliópolis, aos vinte e cinco anos de idade, e do qual havia marcado o dia, a hora e o momento, tinha justamente ocorrido no tempo da Paixão do Salvador, como sinal do luto que toda a natureza concebia. Ele foi maravilhosamente confirmado por este encontro na submissão ao Evangelho, do qual já havia feito profissão, e é isso que o faz dizer, em sua Epístola a São Policarpo, que o eclipse que vira o fizera passar do erro à verdade, das trevas à luz, da morte à vida, e do culto abominável dos simulacros ao conhecimento do verdadeiro Deus. Um sábio autor diz que foi por São Dionísio que Nosso Senhor conduziu São Paulo a Atenas; e podemos acrescentar que foi também por ele que Ele proporcionou este grande eclipse que deveria, por suas trevas, dissipar as suas e fazê-lo entrar no belo dia do cristianismo.
Ele teve grandes combates a sustentar nos começos de sua conversão; pois, exceto aqueles que uma paixão cega fazia pretender ao posto que ele possuía no Areópago, ninguém podia ver senão com dor que este ilustre senado fosse privado de um juiz tão íntegro e tão esclarecido. Seus parentes opuseram-se com todas as suas forças à sua resolução e tentaram dissuadi-lo, mostrando-lhe o dano que causava a toda a sua família e a si mesmo, ao deixar um cargo que os mais sábios da República consideravam como o objeto mais digno de sua ambição. Mas a graça de Jesus Cristo foi mais forte nele do que a natureza, e nada foi capaz de abalar sua constância e de fazê-lo abandonar a resolução que havia tomado de se conformar à vida pobre e humilhada de seu Salvador.
Episcopado e organização da Igreja
Tendo se tornado o primeiro bispo de Atenas, ele organiza a hierarquia eclesiástica e mantém correspondência com as grandes figuras do cristianismo nascente.
Como não demorou a ser perfeitamente instruído em todos os nossos mistérios, São Paulo conferiu-lhe logo o sacramento do Batismo. Em seguida, compartilhou com ele as altas luzes que havia recebido em seu arrebatamento ao terceiro céu, tanto quanto podiam ser explicadas por palavras sensíveis. Para isso, levou-o consigo durante três anos em várias de suas viagens, formou-o nas virtudes evangélicas e nos trabalhos da pregação. Dionísio teve também como mestre e diretor o divino Hieroteu, como ele mesmo testemunha em seu livro *Dos Nomes Divinos*, capítulo II, e aprendeu dele grandes segredos sobre as diferentes maneiras de conhecer a Deus, sobre a unidade, a distinção e a circumincessão das pessoas divinas e sobre outros assuntos muito elevados e muito espirituais. Finalmente, tendo aumentado o número de cristãos em Atenas, São Paulo, cuja solicitude se estendia a todas as Igrejas, deu-lhes Dionísio como bispo. Não se pode descrever dignamente sua conduta toda santa e suas virtudes eminentes no episcopado. Fez de si uma imagem viva da mortificação, do zelo e da caridade do Apóstolo. Tratava seu corpo com um rigor impiedoso.
O jejum e a abstinência eram seu alimento mais agradável. Aplicava-se assiduamente à leitura, à oração e à contemplação das verdades eternas. A presença de Deus constituía todas as suas delícias; e elevando-se a Ele ora por afirmação, ora por negação, ora por um simples olhar de sua majestade infinita, sem nenhuma distinção de atributos e perfeições, ora por um gosto e um conhecimento experimental do que Ele é, vivia mais n'Ele e d'Ele do que em si mesmo e de si mesmo. Esta ocupação interior desprendeu-o tão fortemente dos sentidos e de todas as afeições sensíveis, que se tornou um homem todo celestial. As maiores vantagens da terra não lhe pareciam mais do que lama. Jesus Cristo era seu tesouro, e ele não conhecia outro bem senão servi-lo, agradar-lhe e desfrutar eternamente d'Ele. A humildade, a paciência, a doçura, a castidade e a simplicidade de coração estavam nele em um grau muito eminente, e ele fazia todo o seu estudo de fazer morrer em si o velho homem, a fim de não estar mais revestido senão do novo. Não obstante todos esses exercícios da vida interior, não deixava de se aplicar com um vigor admirável a todos os deveres da vida apostólica. Pregava frequentemente ao seu povo, e fazia-o com tanto zelo e fogo, que inflamava do amor divino todos aqueles que tinham a felicidade de ouvi-lo. Sua caridade não estava encerrada nos muros de Atenas; saía frequentemente para levar aos arredores a luz do Evangelho, e aumentou, por este meio, tão notavelmente seu rebanho, que fez dela uma das Igrejas mais consideráveis da Grécia.
Podemos julgar, pelo que ele escreve em seu livro da Hierarquia Eclesiástica, que regulamento ele estabeleceu em sua própria igreja. Fez dela como uma cópia da hierarquia celestial, pela distinção que colocou entre os membros diferentes que a compõem. O bispo formava a primeira ordem, os sacerdotes a segunda, e os ministros ou diáconos a terceira. Dividiu também os leigos em três classes: a primeira era a dos religiosos, isto é, das pessoas separadas do comércio do mundo e inteiramente dedicadas ao culto de Deus; a segunda, a do povo santo e fiel, o qual, estando ainda na inocência do batismo, ou tendo recuperado a graça pela expiação da penitência, era julgado digno da visão e da participação dos santos mistérios; e, sob estas duas, compreende uma terceira, que merece, contudo, o segundo lugar: a das virgens, das quais São Paulo fala com tanta honra no capítulo VII de sua primeira Epístola aos Coríntios. Restam ainda aqueles que não eram admitidos à comunhão da Eucaristia, dos quais distingue três tipos, a saber: os penitentes, que seus crimes cometidos após o Batismo excluíam por um tempo da santa Mesa; os possuídos ou energúmenos, que não eram tolerados na igreja durante a celebração da missa, por causa das violências que os espíritos imundos os faziam cometer; e os catecúmenos que, não sendo batizados, não podiam ter parte no alimento celestial e divino dos fiéis. Para essas pessoas tão diferentes, marcou três lugares distintos no templo, que correspondiam ao que chamamos de coro, nave e pórtico. O primeiro era para o bispo, os sacerdotes e os levitas, e era ali que cantavam os louvores de Deus e celebravam os mistérios temíveis da nossa redenção. O segundo era para os religiosos, as virgens e o povo, onde faziam suas orações, ouviam a palavra de Deus e se preparavam para a santa comunhão. Pois, naquele tempo, os religiosos ainda não eram distinguidos do corpo dos leigos, e não tinham oratórios e templos particulares para celebrar os divinos ofícios. Havia apenas para eles um lugar separado fora do coro, que se aproximava mais do altar do que aquele onde ficava o resto do povo. Finalmente, o terceiro era para os penitentes, os energúmenos e os catecúmenos, onde esperavam com impaciência serem purificados, para poderem aproximar-se da fonte de toda pureza, que é a Eucaristia. Assim, a igreja de Atenas florescia sob a condução de um tão sábio pastor, e era de todos os lados o bom odor de Jesus Cristo. Além disso, este santo Bispo tinha um comércio de cartas com os maiores homens do Cristianismo nascente. Temos ainda aquelas que escreveu a Tito, a Timóteo, a Policarpo e a outros pregadores do Evangelho, que estão cheias do espírito de Deus e da ciência dos Santos. Alguns autores até asseguraram que ele escreveu também à santa Virgem, e que teve a felicidade de vê-la em Éfeso, quando ela fez uma viagem com São João Evangelista; mas esses dois fatos são incertos, e não temos nenhum testemunho deles na antiguidade.
Testemunha da Dormição da Virgem
Dionísio dirige-se a Jerusalém para assistir ao falecimento da santa Virgem ao lado dos Apóstolos.
O que é mais certo, e o que ele mesmo nos ensina em seu livro dos Nomes Divinos, é que teve a consolação de estar em Jerusalém na época de seu falecimento e de ser testemunha das maravilhas que ali ocorreram, com São Pedro, São Tiago, São Hieroteu e muitos outros santos personagens que ali se haviam reunido, como observamos no discurso sobre a festa da Assunção. Sabemos que estas palavras causaram algumas discussões entre os sábios: uns pretendendo que ele falava da Mãe de Deus, e outros que ele falava apenas do sepulcro de Nosso Senhor; mas São Juvenal, Santo André de Creta, São Máximo, mártir, São João Damasceno, São Gregório de Tours, Santo Ildefonso e o bem-aventurado Alberto Magno, explicaram-nas referindo-se à santa Virgem.
Não há senão alguns autores pouco consideráveis que as aplicaram ao sepulcro do Salvador; o texto por si só mostra suficientemente que este grande Doutor quis nos ensinar que ele se encontrava nas exéquias desta divina mãe. Eis como ele fala a Timóteo no elogio admirável que faz de São Hieroteu. «Sabeis», diz-lhe ele, «que quando nós e ele mesmo, e vários de nossos bem-aventurados irmãos, nos reunimos para ver este corpo que deu o princípio à vida e que recebeu Deus em seu seio de uma maneira inefável, São Hieroteu era, depois dos Apóstolos, o primeiro e o mais excelente daqueles que louvam a divina bondade». Qual pode ser este corpo que deu o princípio à vida e que recebeu Deus em seu seio de uma maneira tão eminente, senão o corpo da augusta Maria, de quem a carne de Jesus Cristo foi formada e que o carregou nove meses em seu seio virginal? Quanto ao sepulcro, seria uma maneira imprópria chamá-lo de corpo e atribuir-lhe o princípio da vida: pois, embora seja o lugar onde Jesus Cristo retomou a vida, ele não concorreu, contudo, para esta maravilha, e não pode ser legitimamente chamado de causa ou princípio dela. Além disso, observa muito bem o cardeal Barônio, os Apóstolos tinham visto frequentemente este santo sepulcro: por que teriam feito naquela época uma assembleia tão solene e tão extraordinária para vê-lo e para cantar ao seu redor hinos e cânticos em honra de Deus? Ademais, embora se sustente comumente que nesta ocasião os Apóstolos foram transportados miraculosamente a Jerusalém pelo ministério dos anjos, não temos, contudo, provas que nos obriguem a dizer o mesmo de São Dionísio. Ele pode ter chegado lá pelos meios ordinários, seguindo uma inspiração do Espírito Santo, tanto mais que o trajeto de Atenas a Jerusalém, que se faz por mar, não é de longa duração, e que ele poderia então estar ocupado ainda mais perto na pregação do Evangelho. Esta honra que ele havia
recebido e as maravilhas que ele havia visto, tanto na morte quanto no sepultamento de nossa Rainha, e ainda em seu túmulo quando o abriram em favor de São Tomé, deram-lhe por toda a sua vida uma estima, uma afeição e um respeito particulares por ela: como parece pela igreja que ele mandou construir em sua honra em Paris, e pela amizade singular que contraiu com São João, que Nosso Senhor havia dado à sua Mãe como guardião, como ecônomo e como filho.
Missão apostólica na Gália
Já idoso, é enviado pelo Papa São Clemente para evangelizar as Gálias, acompanhado por Rústico e Eleutério.
Não se sabe precisamente quando ele escreveu estas duas cartas. Tudo o que podemos dizer quanto à sua cronologia é que ele foi convertido no ano 50 da salvação, por volta dos quarenta anos de idade, que foi a Jerusalém e assistiu ao falecimento da Santíssima Virgem, no ano 56 ou 57, e que, até o tempo de São Clemente, Papa, realizou diversas missões na Grécia e na Ásia para a propagação do Evangelho. Foi durante este intervalo, no qual Nero, Galba, Otão, Vitélio, Vespasiano, Tito, Domiciano e Nerva ocuparam sucessivamente o trono do império romano, que ele foi à Acaia, onde Santo André já havia sofrido o martírio, a fim de fortalecer os novos fiéis na doutrina que haviam recebido daquele Apóstolo: em seguida, atravessando o mar e percorrendo uma infinidade de cidades e vilarejos que estavam em seu caminho, dirigiu-se à Frígia, onde permaneceu algum tempo em Trôade; e finalmente veio a Lacedemônia, essa célebre rival de Atenas, onde o cardeal Barônio acredita que ele escreveu a São João Evangelista, relegado por Domiciano na ilha de Patmos, aquela carta profética na qual o assegura, não apenas que será libertado de seu exílio e retornará à Ásia, mas também que ali escreverá seu Evangelho e que terão a consolação de se abraçarem. Pouco tempo depois, esta profecia começou a se cumprir; de fato, tendo morrido Domiciano e tendo o Senado cassado todos os seus decretos devido à sua excessiva crueldade, São João teve a liberdade de sair de Patmos, onde havia composto seu Apocalipse, e retornar a Éfeso; São Denis foi encontrá-lo lá, e tiveram juntos uma conversa toda celestial. Foi aparentemente nesse encontro que ele concebeu o plano de passar ao Ocidente, para trabalhar ali na ruína da idolatria. São João representou-lhe o estado deplorável em que se encontravam as belas e ricas províncias da Europa, a multidão infinita de almas que ali se perdiam todos os dias por estarem privadas do conhecimento das verdades e dos remédios da salvação, o pouco número de operários que ali havia para deter o curso de tantos males e a necessidade de enviar outros do Oriente, onde eram em maior número. Denis, por mais idoso que fosse, pois não podia ter menos de setenta e oito anos, ofereceu-se para empreender este trabalho e ir encontrar São Clemente, sucessor de São Pedro, para comunicar-lhe seu desígnio. O Apóstolo aprovou seu zelo e deu-lhe para isso sua bênção.
Assim, nosso Santo, deixando como seu sucessor em Atenas São Públio, que São Paulo havia convertido e batizado com toda a sua família na ilha de Malta, e tomando consigo São Rústico, presbítero, e São Eleutério, diácono, atravessou o mar e veio a Roma, onde se apresentou a São Clemente, disposto a ir aonde ele julgasse mais apropriado trabalhar na vi nha do Filho saint Clément Papa que ordenou e enviou Latuino em missão. de Deus. O santo Papa teve uma alegria incrível com essa resolução, conhecendo o mérito daquele grande homem, a abundância das graças com as quais Nosso Senhor o havia cumulado e sua eloquência divina, capaz de tocar os corações mais endurecidos. Como não havia eclesiástico em Roma que não desejasse marchar sob o estandarte de um tão bravo capitão, não teve dificuldade em formar-lhe uma numerosa companhia de pregadores apostólicos para partir com ele. O campo de batalha que ele lhe propôs foram as Gálias com uma parte das Espanhas, onde, na verdade, São Paulo havia passado e deixado alguns de seus discípulos, mas que, no entanto, na maioria das províncias, ainda não tinham ouvido falar da doutrina do Evangelho. Quanto aos companheiros que lhe deu, não se sabe o número exato. Contudo, pensa-se que ele lhe deu poucos a princípio, mas que, posteriormente, enviou-lhe santos recrutas, conforme a esperança da colheita aumentava ou se apresentavam novos operários capazes de um ministério tão importante. Aqueles que são mais comumente citados são São Rieul, que viera do Oriente, São Marcelo, apelidado Eugênio, São Eutrópio, São Luciano, São Nicásio, São Quirino, São Taurino, São Jonat, São Saintin e Santo Antônio.
Sabemos que alguns autores do século XVIII combateram com muito ardor a história da missão de São Denis, o Areopagita, nas Gálias; eles pretendem que aquele que sofreu o martírio em Paris, e que reconhecemos como nosso apóstolo, não é este célebre discípulo de São Paulo, mas outro, bem mais recente, enviado apenas no tempo do imperador Décio, e bem avançado no terceiro século. Mas há um acordo tão grande entre a Igreja grega e a Igreja romana para assegurar que nosso santo Apóstolo é o mesmo que o Areopagita, como Hincmar, arcebispo de Reims, observou em uma carta ao imperador Carlos, o Calvo, que não se pode seriamente colocá-lo em dúvida. A tradição já era muito antiga sob o reinado de Luís, o Piedoso, pai do mesmo Carlos, como parece pelo que escreveram São Fortunato, bispo de Poitiers; Santo Eugênio II, bispo de Toledo; o venerável Beda, muito sábio na história eclesiástica; São Simeão, apelidado Metafrasta, autor célebre da Vida dos Santos; São Metódio, patriarca de Constantinopla; Miguel Singelo, presbítero de Jerusalém; Anastácio, o Bibliotecário, o abade Romano, e o Concílio de Paris, realizado em 825, em uma carta ao Papa Eugênio II. Mas ela tornou-se ainda mais certa quando Hilduíno, abade de Saint-Denis, na França, após uma pesquisa muito exata que fez por ordem expressa do imperador Luís, o Piedoso, demonstrou a verdade por testemunhos públicos e autênticos, aos quais não houve réplica. Desde aquele tempo, estivemos por mais de oito séculos na mesma crença, sem que ninguém se opusesse. Todos, pelo contrário, estavam muito persuadidos de que, ao venerar o Apóstolo das Gálias, venerava-se o bem-aventurado Areopagita. Apenas a crítica do nosso tempo, que fez um ponto de honra em refinar sobre as tradições históricas mais bem recebidas, foi capaz de despertar essa contestação já julgada e adormecida, e de nos disputar novamente a glória de ter um tão grande homem como nosso primeiro bispo. Mas, por mais esforço que faça, ela não destruirá um sentimento tão fortemente estabelecido na antiguidade e tão profundamente impresso no coração dos franceses. Existem verdadeiramente algumas dificuldades sobre esta missão de São Denis, o Areopagita, na França, como existem sobre todas as tradições antigas das quais não se marcaram exatamente todas as circunstâncias; mas se alguém quiser ter o trabalho de ler os sábios autores que escreveram desde então sobre esta matéria, entre outros Barônio, Sponde, Du Saussay, Germain Milet, Hugues Ménard e Noël Alexandre, da Ordem de São Domingos, Monsenhor Freppel, o abade Darras, o Sr. Faillon, os Padres Halloix, Lanssel, Cordier, Chifflet, etc., encontrá-las-á resolvidas com muita luz e erudição. Sobre que fundamento se quis estabelecer que o São Denis de Paris não é o mesmo que o grande Areopagita, discípulo de São Paulo? É que a fé só foi pregada nas Gálias muito tarde, sob o imperador Décio, como se pretende colher de Sulpício Severo e de Gregório de Tours; ora, este sentimento não é de modo algum sustentável, pois é contra toda verossimilhança. Como! O Evangelho foi levado aos citas, aos brâmanes, aos indianos, aos etíopes e aos mouros da África; e as Gálias sozinhas, que estão à porta de Roma, teriam sido a este ponto negligenciadas e abandonadas pelos Apóstolos e pelos soberanos Pontífices, mesmo em tempos em que a Igreja desfrutava de alguma trégua e não era perseguida pelos imperadores romanos, quando não havia nada mais fácil do que socorrê-las?
Digamos, pois, que nosso santo Areopagita, estando munido da bênção de São Clemente, partiu de Roma e dirigiu-se às Gálias. Chegou primeiramente a Arles, onde realizou as grandes ações que marcamos na vida de São Rieul e que não é necessário repetir aqui. Antes de partir, começou a distribuir seu pequeno grupo para a pregação do Evangelho. Deixou São Rieul em Arles e nomeou-o bispo. Enviou Santo Eugênio aos Pirenéus e confiou-lhe a conversão das Espanhas. Iniciou Santo Eutrópio em Saintonge, onde havia feito uma viagem.
Fundação da Igreja de Paris
Ele estabeleceu-se em Paris, converteu o nobre Lisbius e fundou vários oratórios, incluindo aquele que se tornaria Notre-Dame des Champs.
Para ele, avançou em direção a Paris, meditando em seu coração a conquista de todo este grande reino, não pelo ferro e pelo fogo, como César o havia conquistado, mas pela força da palavra de Deus e derramando ele mesmo seu sangue por aqueles que queria adquirir para Jesus Cristo. Então, o restante de seus missionários se dividiu. Luciano foi destinado a Beauvais; Nicásio e Quirino, a Ruão; Taurino, a Évreux; Jonas, a Chartres; Saintin, a Verdun; e Antônio para a região de Chartres. Denis tomou Denis Primeiro bispo de Paris e mártir, discípulo de São Paulo. para sua jurisdição, com Rústico e Eleutério, seus dois fiéis companheiros, a própria cidade de Paris; chegou lá pelo lado da porta Saint-Jacques; parou primeiro no local onde fica a Universidade, e que ainda era apenas um campo em pousio, ou um bosque deserto e inabitado. Logo se reuniram ao seu redor; ele falou com tanta luz e vigor sobre a vaidade dos ídolos e a necessidade de reconhecer um só Deus, criador do céu e da terra, e um só Jesus Cristo, salvador e reparador do mundo, que logo atraiu uma multidão de pessoas ao Cristianismo. Este feliz sucesso fez com que tomasse a resolução de construir alguns oratórios no local de seu retiro. As Antiguidades de Paris marcam quatro. O primeiro foi dedicado em honra da santíssima Trindade, e ficava no local onde depois foi a igreja de Saint-Benoît; também, na capela de Saint-Denis, desta igreja, ainda se lia, em 1685, estas palavras em vitrais: *In hoc sacello sanctus Dionysius expti invocare nomen sanctæ Trinitatis*: «São Denis começou nesta capela a invocar o nome da santíssima Trindade». O segundo foi dedicado em honra dos Apóstolos São Pedro e São Paulo; é aquele onde Santa Genoveva fazia frequentemente suas orações, e do qual ela providenciou o aumento e o embelezamento junto ao rei Clóvis I, e onde finalmente foi enterrada: o que lhe fez tomar o título de Sainte-Geneviève. O terceiro foi dedicado em honra de Santo Estêvão, primeiro mártir; ainda era chamado, em 1785, de Saint-Étienne des Grecs, por causa de São Denis e seus companheiros, que falavam grego e tinham vindo da Grécia. O quarto foi dedicado em honra de Nossa Senhora. Foi depois chamado de Notre-Dame des Champs; as religiosas Carmelitas, filhas de Santa Teresa, possuíam-no antes da revolução e renovavam ali, por sua inocência e fervor, a vida admirável daqueles primeiros cristãos da cidade de Paris. São Denis deixou ali uma pequena parte do véu da Virgem, que ele havia herdado dela na abertura de seu túmulo, e uma de suas imagens onde ela era representada, segurando seu divino Filho sobre os joelhos.
Entre aqueles que receberam de sua mão o venerável Sacramento da regeneração espiritual, o primeiro e o principal foi um senhor parisiense, chamado Lisbius; os Montmorency fazem dele o tronco de sua ilustre casa; de onde vem que eles colocavam estas palavras em seu grito de guerra: «Deus ajude o primeiro cristão!». Este neófito, não podendo reconhecer suficientemente as obrigações que tinha para com seu mestre, pediu-lhe que entrasse na cidade e viesse morar em sua casa. O Santo não recusou esta oportunidade que a divina Providência lhe oferecia para fazer maiores conquistas. Estabeleceu, portanto, sua morada no palacete de Lisbius, e fez dele até mesmo uma igreja para conferir o Batismo àqueles que se convertiam e para celebrar os augustos Mistérios. Acredita-se que esta igreja era a paróquia de Saint-Barthélemy, diante do Palácio.
Martírio e suplícios
Preso pelo governador Fescennius, sofreu numerosos suplícios (grelha, leões, fornalha) antes de ser decapitado em Montmartre.
A presença deste grande pregador e de seus companheiros fez avançar maravilhosamente os assuntos da religião no recinto de Paris. Havia multidões para ouvi-los, para se colocar na categoria de catecúmenos e para serem batizados; e logo se teria visto toda a cidade abjurar a idolatria e fazer profissão pública do Cristianismo, se Fescennius, que governava pelo imperador, não tivesse corrido para se opor a esses progressos. Eles eram tão conhecidos por todos que ele não teve dificuldade em descobri-los e mandá-los prender. Enquanto estavam em seu tribunal, Larcie, esposa de Lisbius, seu anfitrião, que sempre permanecera obstinada no paganismo e os odiava mortalmente por causa das profusões que seu marido fazia para a subsistência deles e a dos fiéis, tornou-se ela mesma sua acusadora. Ela denunciou também seu marido como cúmplice de seus crimes e culpado de impiedade para com os deuses do país. Sobre essa denúncia, Fescennius mandou capturá-los e fê-los comparecer imediatamente diante dele. Ele não poupou esforços para persuadi-los a renunciar a Jesus Cristo e a adorar Marte e Mercúrio; mas, encontrando-os inabaláveis e dispostos a suportar mil mortes antes de cometer tal impiedade, mandou decapitar imediatamente Lisbius, que mereceu, por essa morte, o título glorioso de primeiro cristão de Paris. Quanto a São Denis e seus companheiros, ele os mandou lançar nos calabouços da prisão vizinha, que era chamada então de prisão de Glaucin, e que foi desde então transformada em uma igreja sob o nome de Saint-Denis de la Chartre. Esta prisão não foi para eles uma simples detenção, mas um suplício: pois passaram suas cabeças por grossas pedras perfuradas pelo meio, e os prenderam de tal sorte que eram obrigados a permanecer sempre deitados no chão em posturas muito penosas. Via-se ainda, no século XVIII, uma dessas pedras na mesma igreja, como testemunho dessa crueldade.
Pouco tempo depois, este presidente fê-los voltar diante dele; e, após tê-los inutilmente pressionado, ora por promessas, ora por ameaças, a consentir com suas vontades, fê-los cruelmente açoitar. Não se pode admirar o suficiente a força e a constância do grande São Denis, que, com mais de cem anos de idade, suportava esse martírio com tanta paz e tranquilidade como se estivesse deitado em um leito de rosas. Rasgaram-lhe todos os membros a golpes de chicote, expuseram até mesmo seus ossos e banharam-no em seu próprio sangue. Contudo, ele nunca se queixou e, se algumas palavras saíram de sua boca, foram apenas palavras de louvor e bênção. «Que minha língua», dizia ele, «bendiga o Senhor, e que todas as minhas entranhas sejam empregadas para louvar sua bondade». São Rústico e São Eleutério, que participavam dos tormentos de seu mestre, imitavam também sua generosidade. Nem a violência dos golpes, nem as feridas reiteradas, nem o sangue que viam escorrer de seus corpos foram capazes de abalar sua coragem e fazê-los vacilar em sua resolução. O tirano, assustado com essa perseverança, mandou conduzir todos à prisão, esperando que a dor de seus ferimentos, somada ao odor insuportável do lugar, lhes causasse finalmente o tédio e os tornasse mais submissos aos desejos do imperador; mas ele se viu enganado em sua expectativa. Os sofrimentos apenas aumentaram seu fervor, e eles apareceram no dia seguinte em seu tribunal com mais alegria e ousadia do que jamais haviam demonstrado. Fescennius, furioso, mandou recomeçar sobre eles o tratamento do dia anterior e, como essa crueldade não serviu de nada, armou-se de uma nova fúria, principalmente contra o santo Bispo: mandou estendê-lo sobre uma grelha, sob a qual ordenou acender um grande fogo. Deixamos ao leitor pensar qual foi o martírio deste venerável ancião, quando seu corpo, já todo rasgado e ensanguentado, começou a sentir o rigor da chama e a queimar. Ele não demonstrou, no entanto, nenhum sinal de tristeza e descontentamento; mas, sustentando-se nesse suplício com uma firmeza inabalável, não fez outra coisa senão implorar a misericórdia de Deus e imolar-se à sua justiça. Os carrascos tiveram ordem imediatamente de retirá-lo daquele leito para ser exposto aos leões; mas essas bestas não ousaram tocá-lo e, pelo contrário, prostraram-se diante dele para lamber seus pés, ele foi lançado em um forno ardente que deveria consumi-lo em um momento. Nosso Senhor, que queria tornar seu martírio ainda mais brilhante, socorreu-o admiravelmente nesta ocasião. Ele amorteceu o ardor desse forno e tornou-o tão fresco e agradável quanto a fornalha da Babilônia, quando os três jovens foram nela encerrados. Denis entrou, portanto, mas não recebeu nenhum dano e saiu em melhor estado do que havia entrado. Em seguida, prenderam-no em uma cruz, a fim de que ele tivesse a honra de ser a imagem viva de Jesus Cristo crucificado. Como ele tinha pela cruz as mesmas inclinações que seu querido Mestre, ele fez também os mesmos usos dela. Fez dela um altar para se sacrificar, um púlpito para pregar e um trono para reinar.
O povo tendo se reunido ao seu redor, ele aproveitou a ocasião para anunciar-lhes o mistério inefável da paixão do Salvador e a felicidade que ela havia trazido ao mundo: e ele não teria feito menos conversões sobre esse instrumento de dor do que na cátedra de sua igreja, se o presidente não o tivesse feito prontamente desamarrar. Tudo isso se passou no meio da praça pública de Paris, que era então na margem do rio, na cabeceira da ilha do palácio, no lugar onde se construiu desde então uma igreja sob o nome de Saint-Denis du Pas. Diz-se que o altar-mor dessa igreja foi erguido no local mesmo onde o Santo foi estendido sobre a grelha, e mostrava-se ali também o lugar da fornalha onde ele foi lançado.
Tantos suplícios diferentes não tendo podido tirar a vida de nossos santos Mártires, eles foram reconduzidos ao seu calabouço, com quantidade de outros cristãos que haviam demonstrado zelo demais por sua libertação. Foi então que o bem-aventurado Prelado, perfeitamente livre em suas correntes, quis celebrar, pela última vez, o augusto Sacrifício da missa, a fim de fortalecer seus queridos filhos e fortalecer a si mesmo, pela comunhão do corpo de Jesus Cristo, contra os combates que lhes restavam suportar. Mas, por uma insigne maravilha, quando ele estava na fração da hóstia, Nosso Senhor apareceu visivelmente a toda a assistência e, tomando de suas próprias mãos seu corpo, que estava sobre o altar, deu-o a ele, dizendo: «Recebei isto, meu bem-amado, e não duvideis da recompensa que vos espera, a vós e a todos aqueles que ouvirem vossa palavra. Vós combatereis valentemente e obtereis a vitória. A memória de vosso martírio será imortal; e, quando rezardes por alguém, obtereis tudo o que pedirdes». Ao mesmo tempo, a prisão foi preenchida por uma luz admirável, e cada fiel sentiu em sua alma um ardor da fé e um desejo do martírio que não é concebível. A graça do Salvador não se limitou sequer à prisão; ela foi encontrar lá fora a infeliz Larcie, por quem, sem dúvida, seu marido havia rezado no céu, e tocou-lhe tão poderosamente o coração que fez dela uma santa penitente.
Contudo, tendo chegado o dia seguinte, Fescennius chamou pela última vez os prisioneiros e, encontrando-os tão firmes e inabaláveis quanto antes, após tê-los feito açoitar novamente, condenou-os a ter a cabeça cortada. Levaram-nos imediatamente para o lado setentrional da cidade, sobre uma colina dedicada a Mercúrio, que chamamos agora de Montmartre, isto é, monte dos Mártires: e lá, na presença de uma infinidade de pessoas que se desfaziam em lágrimas, cortaram-lhes a cabeça com pequenos machados rombos, a fim de causar-lhes mais dor. Foi no dia 9 de outubro, no final do império de Trajano, ou no iníci o do de Ad Montmartre Local da decapitação de Denis e de seus companheiros. riano, por volta do ano 117. Fez-se ao mesmo tempo uma horrível carnificina de cristãos, tanto dentro da cidade quanto nos arredores, na qual Larcie, que acabava de reconhecer sua falta e de se converter, foi envolvida. Ela ainda não estava batizada; mas seu sangue, derramado por Jesus Cristo, serviu-lhe de Batismo.
O milagre da cefaloforia
Após sua decapitação, o santo recolhe sua cabeça e caminha duas léguas até o local de seu sepultamento definitivo.
Tendo sido São Dinis assim decapitado, seu corpo levantou-se por si mesmo e, tomando sua cabeça entre as mãos, levou-a em triunfo até o local onde se encontra atualmente a cidade de seu nome, a duas léguas de Paris. Este prodígio é relatado não apenas por autores recentes, mas também nos Menológios dos Gregos, e por Simeão Metafrasta, Metódio, Hilduíno, Hugo de São Vítor, Nicéforo Calisto, Célio Rodigino e muitos outros. Durante sua caminhada, anjos cantavam com uma melodia admirável: Gloria tibi, Domine, e outros respondiam: Alleluia, alleluia, alleluia. Quando ele havia percorrido uma légua, encontrou uma piedosa mulher chamada Catula, a quem ele havia instruído na fé; entre as mãos dela, ele se desfez do tesouro inestimável de sua cabeça e caiu ao mesmo tempo aos seus pés. Esta santa mulher teve uma alegria extraordinária por ter sido escolhida por este bem-aventurado bispo como depositária de suas relíquias. Ela as escondeu cuidadosamente em sua casa, junto com as de São Rústico e de São Eleutério, que ela teve a habilidade e a felicidade de recuperar a preço de dinheiro.
Ele é representado recebendo sua cabeça nas mãos e indo entregá-la a uma mulher cristã que segura um pano.
A Abadia de Saint-Denis e o culto real
O rei Dagoberto funda a grande abadia que se torna a necrópole dos reis da França e o depósito da Oriflama.
## CULTO E RELÍQUIAS.
### ABADIA DE SAINT-DENIS. — SEUS ESCRITOS.
Santa Genoveva, que tinha uma devoção maravilhosa para com os santos Mártires e visitava frequentemente seus sepulcros, sendo inspirada por Deus e prevenida por um socorro extraordinário de sua Providência, mandou construir sobre seus túmulos uma capela de pedra, muito mais ampla do que aquela de madeira que Catulle havia mandado construir. É nela que Dagoberto, ainda jovem, refugiou-se para evitar a ira de Clotário II, seu pai, que o procurava para puni-lo por um ultraje que ele havia feito ao seu governador. Enquanto lá esteve, São Denis apareceu-lhe em sonho e prometeu tirá-lo do perigo em que se encontrava, se ele se obrigasse a construir naquele local uma nova igreja para colocar mais honrosamente seu corpo e o de seus companheiros. Dagoberto comprometeu-se e, desde então, tendo chegado à coroa, cumpriu seu voto com toda a magnificência que se podia esperar do zelo e do fervor de um rei cristão. Nosso Senhor consagrou ele mesmo esta igreja com uma tropa de bem-aventurados espíritos, na mesma noite em que os bispos se preparavam para a cerimônia da consagração, e fez com que a garantia fosse dada por um leproso que ali se havia escondido e que Ele curou de sua lepra para dar um testemunho seguro deste insigne favor. Foi em 24 de fevereiro de 630, dia de São Matias, segundo o cálculo de Guilherme de Nangis. Este príncipe também mandou constru ir um mosteiro junto a esta igr monastère joignant cette église Local de conservação de uma relíquia de um Inocente. eja, que ele deu aos religiosos beneditinos, para serem perpetuamente os depositários e guardiões das relíquias de seu ilustre benfeitor; assim, este lugar, que antes não era senão um pequeno burgo, chamado o burgo de Catulle, por causa desta piedosa dama que havia sepultado esses santos corpos, tornou-se uma cidade que tomou o nome de Saint-Denis.
Em meados do século XIV, os religiosos de Saint-Emmeran, de Ratisbona, tendo espalhado o boato de que possuíam o venerável corpo de São Denis, o Areopagita, e que ele lhes tinha sido dado pelo rei Arnulfo, Henrique I, que estava então na França, fez realizar uma grande assembleia de prelados e príncipes em Saint-Denis, para visitar sua urna e assegurar-se da verdade. Odon, irmão de Sua Majestade, a rainha Adélia, os bispos de Meaux e de Orléans, e uma quantidade de abades assistiram a ela; a urna foi aberta e encontraram-se nela, felizmente, todos os ossos do bem-aventurado Mártir, com exceção de um que o Papa Estêvão III havia levado. Um odor maravilhoso saiu dessas preciosas relíquias e perfumou toda a igreja. O rei, tendo sabido o que havia acontecido, veio ele mesmo descalço de seu palácio de Paris a esta abadia, para honrar este ilustre padroeiro da França. Um dos abades obteve alguns restos já bem gastos dos véus com os quais os ossos haviam sido envolvidos e, tendo-os colocado sobre a cabeça de um endemoninhado furioso, curou-o em um instante.
Além da célebre igreja da qual acabamos de falar, construiu-se outra no próprio local onde os Santos haviam sido decapitados, que foi nomeada por isso os Mártires, na encosta da colina chamada Montmartre, do lado norte de Paris. Era, no início, um priorado da Ordem de Cluny, dependente daquele de Saint-Martin des Champs; mas o rei Luís, o Gordo, por perversão da piedosa rainha Adélia, sua esposa, transferiu os religiosos deste mosteiro para Saint-Denis de la Chartre, no recinto de Paris, e colocou em Montmartre, em seu lugar, religiosas beneditinas, para as quais ele mandou erguer uma grande e rica abadia, que sempre foi governada por abadessas ilustres por sua piedade e por seu nascimento. A nova igreja deste convento foi dedicada pelo Papa Eugênio III, que havia sido discípulo de São Bernardo e que teve nesta cerimônia o mesmo São Bernardo como diácono, e São Pedro, o Venerável, abade de Cluny, como subdiácono. Não se pode acreditar no concurso de povo que ia antigamente continuamente a este santuário para ali prestar seus votos ao glorioso São Denis e para ali beijar a terra que foi banhada por seu sangue. Foi lá que Santo Inácio de Loyola levou seus primeiros companheiros para ali se consagrarem a Jesus Cristo e ali começarem sua Ordem. Os religiosos da grande abadia de Saint-Denis levavam ali, a cada sete anos, a cabeça de seu padroeiro com muita pompa e magnificência.
Os Papas, os reis da França e vários outros príncipes prestaram grandes honras à memória deste glorioso apóstolo das Gálias. São Zacarias, confirmando com seu poder apostólico a isenção que São Landry, bispo de Paris, havia dado à sua abadia, diz expressamente que o faz pelo amor e em consideração a um tão grande mártir. Eugênio III só dedicou a igreja de Montmartre por um profundo respeito para com este santo bispo que deveria ser seu padroeiro. Alexandre III, tendo vindo à França, visitou com muita devoção todas as capelas e as relíquias da abadia de Saint-Denis; o que deu ocasião ao movimento prodigioso dos ossos de Santo Hipólito. Finalmente, o Papa Estêvão III, tendo se refugiado na França para evitar a opressão dos lombardos, escolheu sua morada nesta abadia; depois, tendo ficado tão doente que seus próprios criados começavam já a abandoná-lo, foi curado pelo mesmo São Denis, que lhe apareceu com São Pedro e São Paulo e o tocou com suas mãos sagradas. Um tão grande favor aumentou muito sua devoção para com este médico celeste. Assim, ele pediu um osso de seu corpo e, tendo-o obtido e levado a Roma, mandou construir em sua honra uma bela igreja que destinou aos religiosos gregos. É verdade que não teve tempo de terminá-la; mas Paulo I, seu irmão, deu-lhe o toque final e, para satisfazer a intenção de Estêvão, colocou os gregos em sua posse. Chamavam-na comumente de escola ou colégio dos gregos.
Nossos reis começaram a honrar São Denis assim que começaram a ser cristãos. Clóvis, o Grande, aprendeu esta devoção de sua esposa, Santa Clotilde, e sustenta-se que é dele que veio este antigo grito: *Mon jou saint Denis*, que quer dizer: não conheço mais Júpiter, mas meu Júpiter é São Denis. Foi depois mudado para este outro: Montjoie-Saint-Denis. Clotário II perdoou seu filho Dagoberto, contra quem estava extremamente indignado, em consideração a São Denis, a quem ele havia recorrido. O mesmo Dagoberto não se contentou em construir uma soberba basílica em sua honra; mas mandou fazer também três urnas de ouro fino e enriquecidas com uma infinidade de pérolas preciosas, das quais se acredita que Santo Elói foi o artífice, para encerrar suas relíquias e as de São Rústico e de São Eleutério, seus companheiros. Mandou cobrir de prata a parte do teto da igreja que deveria corresponder a essas urnas. E para testemunhar ainda mais seu respeito para com seu bem-aventurado protetor, fez-lhe concessão de seu reino, não querendo mais mantê-lo senão como feudo e em homenagem a ele. Em fé do que, colocou sua própria coroa sobre o altar de sua capela, com quatro besantes de ouro, como um tributo que lhe devia na qualidade de vassalo. Pepino, o Breve, primeiro rei da segunda raça, tinha tanta estima e veneração por seus méritos que não quis ser enterrado em sua igreja, mas apenas do lado de fora, a exemplo de Constantino, o Grande, que, segundo o relato de São João Crisóstomo, escolheu sua sepultura à porta de uma igreja onde havia relíquias de São Pedro. Carlos Magno, seu filho e o mais glorioso de nossos reis, imitou a piedade de Dagoberto; pois, antes de sair da França para ir a Aachen, na Alemanha, prestou-lhe homenagem de seus Estados por algumas peças de prata que lhe ofereceu e por uma ordem que deu a seus tesoureiros de lhe pagar todos os anos a mesma redevance. Não se pode acrescentar nada aos elogios que Luís, o Piedoso, lhe dá em sua carta ao abade Hilduin. Ele faz ali uma enumeração das graças que os reis, seus predecessores, haviam recebido de sua benevolência, e confessa que é por seu poder que ele mesmo havia recuperado seu reino, do qual os príncipes, seus filhos, o haviam despojado. Carlos, o Calvo, último filho de Luís, o Piedoso, que ele havia colocado ao morrer sob a tutela de São Denis, não foi menos herdeiro desta insigne piedade do que de sua coroa. Ele teve toda a sua vida uma afeição muito terna pelo nosso Santo, a quem recorreu em todas as necessidades de seu Estado e, tendo dissipado por sua assistência um exército formidável de dinamarqueses que vinham saquear a França, fez em reconhecimento grandes presentes à sua abadia.
O santo rei Roberto, em um ato autêntico de várias doações que faz a este mosteiro, assegura que há muito tempo colocou toda a sua confiança na intercessão deste Santo e de seus companheiros. Já notamos que Luís, o Gordo, mandou construir em sua honra a abadia de Montmartre, perto de Paris, e que ele foi descalço a Saint-Denis para ali venerar suas relíquias; mas o que é mais notável é que ele apresentou ele mesmo seus ombros reais para carregá-las e que não acreditou fazer mal à majestade de seu império ao se encarregar desses preciosos ossos que devem um dia participar da glória que a alma deste bem-aventurado Mártir já possui no céu. Luís VII, dito o Jovem, filho e sucessor de Luís, o Gordo, encarregou-se do mesmo fardo; e, sabendo quanto o socorro de um tão grande servo de Deus é poderoso nos exércitos, não quis deixar a França para marchar contra os sarracenos sem ter implorado por muitas lágrimas sua poderosa intercessão ao pé de seus altares e sem ter recebido no mesmo local os estandartes bentos que deveriam servir de sinal ao seu exército. Filipe Augusto fez a mesma coisa; e, atribuindo a São Denis todas as vantagens que havia tido na Terra Santa, veio prestar-lhe ações de graças em sua própria igreja. São Luís, que havia reunido em si só toda a piedade de seus ancestrais, não lhes cedeu nestas práticas. Assim que foi sagrado, trouxe sua coroa sobre o altar de São Denis e, antes de passar à Palestina e à África, veio à sua abadia interessá-lo por sua humildade e por suas orações nesses gloriosos empreendimentos. Finalmente, para não nos estendermos mais, quase todos os nossos reis da terceira raça e muitos reis das duas precedentes escolheram sua sepultura nesta célebre basílica de Saint-Denis e deram-lhe tantos objetos sagrados de um preço inestimável que compunham, no século XVIII, um dos mais ricos tesouros que havia na Europa. O mosteiro de Saint-Denis tinha em depósito a Oriflama, esse célebre estandarte de cor de fogo e salpicado de chamas de ouro, que se acredita ter sido enviado do céu, que era originalmente a bandeira da abadia de Saint-Denis e que, após o advento dos Capetíngios, tornou-se a bandeira da França; é ela que guiava os franceses à vitória ao velho grito de guerra: Mon t-Joie et Oriflamme Estandarte da abadia que se tornou o estandarte dos reis da França. Saint-Denis.
Não somente os reis da França, mas príncipes e outros personagens foram também inumados em Saint-Denis. Bispos retiraram-se frequentemente para seus claustros para ali terminar seus dias. Nossos reis fizeram ali frequentemente sua estadia. Realizaram-se várias assembleias ou concílios em Saint-Denis, a saber, em 997, em 1052, para constatar a autenticidade do corpo de São Denis. Em 1382, realizou-se sob as abóbadas da abadia uma conferência sobre o assunto dos impostos cujo aumento havia excitado uma sedição em Paris. O Papa Alexandre III permitiu ao abade, por volta do ano 1179, fazer uso da mitra, do anel e das sandálias. Guilherme de Gap foi o primeiro a usá-los. O abade de Saint-Denis era um dos principais senhores da França. Hugo Capeto era abade de Saint-Denis e de Saint-Riquier. Esta antiga abadia sofreu várias Reformas, mas sua vizinhança da capital e a proteção especial dos soberanos preservaram-na desses terríveis desastres dos quais tantos outros mosteiros foram vítimas. Vemos apenas os monges de Saint-Denis se exilarem de seu claustro, no tempo das guerras dos normandos, e se refugiarem em Reims (de 887 a 890) com as relíquias de seu santo padroeiro.
O restabelecimento das comendas em Saint-Denis no início do século XVI colocou sucessivamente na cátedra abacial do mosteiro nove príncipes da Igreja, dos quais o cardeal de Retz deveria ser o último. Neste período de mais de um século, os dois palácios abaciais de Bourbon e de Lorena foram construídos no recinto; no mesmo intervalo também a mensa abacial aumentou às custas da dos religiosos, o mosteiro empobreceu e a disciplina monástica não guardou mais seguidores na abadia degenerada. Em 1633, a Reforma de Saint-Maur reviveu, mas tardiamente, o espírito da Regra e o gosto pelas letras. Contudo, devido ao seu contato perpétuo com o rei e a corte, o mosteiro, já devastado pelos huguenotes durante a guerra dos três Henriques, foi novamente quase arruinado durante os distúrbios da Fronda. Endividou seus domínios para cobrir seus numerosos empréstimos e seus edifícios caíam em ruínas à morte do abade cardeal de Retz. O evento que influiu então mais sobre o futuro de Saint-Denis não foi o traslado de sua mensa abacial para a da casa de Saint-Cyr, mas a supressão do título e da dignidade do abade em 1691. Ao destacar do mosteiro tudo o que, desde tantos séculos, esta dignidade havia reunido de prerrogativas, de privilégios, de jurisdição externa, de supremacia e de autoridade sobre esta abadia soberana, este decreto não lhe tirava senão um brilho sempre fatal à sua disciplina e à sua regularidade; mas, ao lhe tirar seu chefe, privava-a subitamente de seu protetor obrigado e da potência mais interessada e mais apta a defender. Do resto, seu tempo havia acabado. A Revolução Francesa, que já crescia surdamente, decidiu a queda desta árvore carregada de séculos, mas borbulhante de jovem seiva nesta hora em que reverdecia.
É na expiração do século XVII que os beneditinos de Saint-Denis se ocuparão seriamente de demolir sua abadia para realizar a reconstrução de seus edifícios. A demolição do velho mosteiro começou, em 1700, sob o grande priorado de Dom Augustin de Loo, e os trabalhos prosseguiram sob dezesseis outros grandes priores sucessivos, dos quais os mais ativos foram Dom de Saint-Marthe, Dom du Biez e Dom de Malaret. O plano do novo mosteiro é obra de Robert de Cotte, aluno de Jules Mansart; o dos edifícios circulares que circundam o pátio de honra é devido a outro arquiteto seu sucessor, Christophe pai. Os dormitórios do sul e do leste, a sala capitular, o parlamento e o refeitório foram inaugurados em dezembro de 1718; a hospedaria, após 1738; a galeria do norte e a enfermaria, em 1765, e os trabalhos acessórios terminavam em 1786, sete anos apenas antes da época em que os mestres dessas moradias sofreram o exílio e a morte.
O ano de 1789 foi a época dos primeiros efeitos das paixões populares na cidade de Saint-Denis. Em 16 de setembro de 1792, a basílica foi declarada igreja paroquial pela autoridade secular e recebeu um clero estrangeiro. Não foi senão mais tarde que ocorreram o saque e a remoção do tesouro, o depósito mais raro e mais magnífico que havia então na França. Um mês depois, um decreto emanado da autoridade declarou que a cidade de Saint-Denis se chamaria doravante Denis-Françoise. Em 6 de agosto de 1794, começou a violação e a espoliação dos túmulos reais. Este sacrilégio sem exemplos prolongou-se por mais de dois meses. No curso deste ano desastroso, a basílica profanada tinha visto substituir em suas paredes as festas decádicas pelas cerimônias cristãs. Ora templo da Razão, depósito de artilharia, teatro de saltimbancos, armazém de forragens, despojada de seus vitrais, de seus monumentos e de seu telhado, ela abrigou por algum tempo moinhos manuais. Estabeleceram-se simultaneamente no interior da abadia, tornada a sede do clube revolucionário e dos administradores do distrito. O ano de 1795 varreu esses invasores e o mosteiro foi transformado em hospital militar para os feridos dos exércitos republicanos.
Hoje os antigos edifícios claustrais são ocupados pela casa de educação das filhas dos membros da Legião de Honra, e a venerável basílica de Saint-Denis brilha por sua vez com um novo brilho. Graças a uma hábil restauração, à qual se apressaram em concorrer todos os governos que se sucederam desde cinquenta anos, ela lembra hoje sua antiga magnificência. Um ilustre Capítulo de Cônegos, ligado a este posto de honra, é encarregado de rezar sobre os antigos túmulos de nossos reis.
Obras e escritos teológicos
O autor detalha os tratados místicos atribuídos ao santo, incluindo a Hierarquia Celeste, e relata a história de suas relíquias em Longpont.
São Suiberto, apóstolo dos frísios, o bem-aventurado Notger, bispo nos Países Baixos, e Santa Edite, irmã de São Eduardo, rei da Inglaterra e mártir, mandaram todos os três construir igrejas magníficas em sua honra. Um outro São Eduardo, também rei da Inglaterra e confessor, presenteou sua abadia na França com um senhorio muito considerável no condado de Oxford; Santa Brígida mereceu que este glorioso apóstolo das Gálias lhe aparecesse para declarar as vontades de Deus sobre sua pessoa e sobre a de seu marido, o príncipe Wulfon; a venerável Adélia, esposa de Luís, o Gordo, tendo se tornado viúva deste rei, retirou-se para Montmartre, onde passou o resto de sua vida a serviço do Santo.
Vários martirológios, entre outros os de Usuardo e o antigo romano de Rosweide, marcam duas vezes a memória de São Denis, a saber: a 3 de outubro em Atenas, e a 9 do mesmo mês em Paris. Mas não se deve inferir daí que o de Atenas e o de Paris sejam dois Santos diferentes, assim como não se distinguem muitos outros Santos que são marcados duas vezes em um mesmo martirológio. Usuardo procedeu assim porque encontrou a festa deste ilustre Mártir celebrada pelos gregos e latinos em dias diversos; o que é por demais comum em uma infinidade de outros Santos.
Guardavam-se, antes da Revolução Francesa, as relíquias de São Denis, de São Rústico e de São Eleutério em três relicários de prata, na abadia de Saint-Denis. Nessa época, o tesouro da abadia foi saqueado, mas as santas relíquias foram salvas da profanação por Dom Warenfort, religioso da casa, escondidas com cuidado e depositadas depois na igreja paroquial de Saint-Denis, em 1795. Foram transferidas com muita solenidade para a igreja da antiga abadia, a 26 de maio de 1819, e lá estão agora conservadas em relicários de bronze dourado. A igreja metropolitana de Paris possui um osso de seu santo fundador.
Na diocese de Soissons, no vilarejo de Longpont (Longus pons), a três léguas de Villers-Cotterêts, conserva-se religiosamente, não *caput integrum*, como dizem pouco exatamente os Bolandistas, mas o crânio inteiro de São Denis, o Areopagita, e isso desde o ano de 1205, sem interrupção nem contexto.
Eis a origem e as provas de sua existência na abadia dos Bernardinos de Longpont. Nivelon I de Cherizy, quinquagésimo nono ou sexagésimo bispo de Soissons (1175-1207) e antigo cônego da catedral da mesma cidade, tomou a cruz em 1202, sob o reinado de Filipe Augusto, acompanhou os cruzados a Constantinopla e desempenhou um grande papel nesta expedição que é a quarta cruzada. Após a tomada de Constantinopla, presidiu a assembleia dos doze eleitores que escolheram para imperador latino desta cidade o senhor Balduíno, conde de Flandres e de Hainaut. Foi o bispo de Soissons quem o coroou na igreja de Santa Sofia. Nivelon aproveitou esta circunstância para enriquecer de diversas relíquias sua catedral e várias igrejas de sua diocese. Ele mesmo trouxe para a abadia, *apud Longum pontem*: *Caput beati Dionysii Areopagite, cum una cruce de ligno Domini*. Tais são os próprios termos que se podem ler ainda na biblioteca imperial de Paris, em um manuscrito do século XIII, chamado *Ritual de Nivelon*. A sociedade arqueológica de Soissons mandou imprimi-lo em 1856. Forma um magnífico volume in-4° vermelho e preto.
A partir de Constantino, os imperadores gregos haviam reunido muitas relíquias na capela imperial. É desta capela mesma que Nivelon tirou a cabeça de São Denis, o Areopagita, e é o imperador Balduíno que, por um sentimento de reconhecimento, cedeu-lha com muitas outras relíquias. A relíquia de Longpont é o crânio, isto é, o sincipúcio ou a testa, o occipúcio e os dois lados sem nenhuma fratura (*sine ulla fractura*) de São Denis. As palavras gregas seguintes leem-se sobre o crânio: Ἀκροίς του αρου Απονοίου 'Αριεσαγιε. (Esta última palavra não está completa. A escrita parece muito antiga. Não é de se espantar que Longpont tenha tido a preferência pela posse desta relíquia, sendo o pai e a mãe de Nivelon senhores deste vilarejo.
Faz-se menção a esta porção de cabeça em todas as obras que falam da abadia de Longpont. Lê-se em uma antiga prosa: *Nostri tenent exnobite caput Areopagite*. Moldrac, em seu *Chronicon*, impresso em 1652, diz: *Cenobium Longipontis parte notabili capitis S. Dionysii Areopagite exnobit (Nivelo)*. Ora, Moldrac era religioso de Longpont desde a idade de dezesseis anos. Em seu *Valois-Royal*, editado em 1662, ele diz: «Longpont se convém ainda de possuir uma boa parte da cabeça de São Denis, Areopagita». Os breviários da diocese, o de Charles Doudan, sob Luís XIV; o de M. de Fitzjames em 1742; o breviário de Paris em 1760, constatam o mesmo fato. Além disso, o geral da Ordem de Cister tendo pedido, em 1690, que se fizesse um reconhecimento autêntico desta relíquia, o relicário foi aberto e constatou-se que tudo estava conforme o que indicamos acima. Os Bolandistas, no 2º tomo de outubro, editado em 1780, transcreviam na íntegra o auto lavrado nesta ocasião, e que é assinado por nomes conhecidos na região: Srs. Quinquet e Lallouette. A História de Valois, por Carlier, faz igualmente menção a esta relíquia como existindo na abadia de Longpont.
Na época desastrosa da revolução de 1793, a cabeça de São Denis e o pequeno relicário ou cofre que a continha foram salvos do saque, escondidos cuidadosamente pela família do sacristão e porteiro do convento. É um fato que é de notoriedade pública no país. Com o restabelecimento do culto, este precioso tesouro foi entregue ao pároco encarregado de servir a paróquia de Longpont, o qual o transmitiu religiosamente aos seus sucessores.
O pequeno cofre que encerra ainda hoje o crânio de São Denis, o Areopagita, é aquele mesmo que o encerrou desde o século XIII. Sua estrutura traz todos os caracteres desta época. É de prata damasquinada, de um trabalho requintado, com vinte e dois centímetros de comprimento por treze de largura. Antes da revolução, este cofre de prata era encerrado em outro relicário de marfim artisticamente trabalhado e adornado com cristais e estatuetas de prata. Hoje este mesmo cofre está no meio de um relicário de madeira dourada, de cinquenta e seis centímetros de comprimento por trinta e nove de largura. O topo é superado por um coruchéu terminado por uma cruz.
No domingo, 4 de outubro de 1846, Dom Jules-François de Simony, nonagésimo terceiro bispo de Soissons, deslocou-se ele mesmo a Longpont, e lá, na presença de um numeroso clero e dos diversos membros da família do Sr. Conde de Montesquieu, procedeu ao reconhecimento solene da relíquia. Após a audição das testemunhas que a tinham venerado antes da revolução e daquelas cujos pais tinham contribuído para subtraí-la à profanação, a cabeça de São Denis, o Areopagita, foi declarada autêntica, o auto foi lavrado e assinado pelo bispo e por toda a sua nobre assistência; enfim, o selo episcopal foi aposto sobre o duplo relicário que se pode ver exposto, perto do de Jean de Montmirail, na igreja do castelo que serve ao culto paroquial. A magnífica igreja do mosteiro era quase tão vasta quanto a catedral de Soissons. Tinha trezentos e vinte e oito pés de comprimento, oitenta e dois de largura, oitenta e quatro de elevação e cento e cinquenta e cinco pés no cruzeiro. Suas majestosas ruínas e as curiosidades do castelo atraem a cada ano a Longpont numerosos visitantes.
Os escritos que nos restam de São Denis são: Seus livros da Hierarquia Celeste, da Hierarquia Eclesiástica, dos Nomes Divinos e da Teologia Mística, com oito cartas a diversas pessoas; mas perdemos o que ele tinha escrito sobre a teologia simbólica, sobre a alma, sobre os hinos sagrados, sobre as informações da teologia, sobre o justo juízo de Deus e sobre as coisas que se conhecem pe lo sentido ou pela Hiérarchie céleste Tratado teológico maior atribuído a Dionísio, o Areopagita. inteligência. O cardeal Belarmino, falando dos que restam, não faz dificuldade em dizer que os homens doutos e católicos sustentam indubitavelmente que são de São Denis, o Areopagita, e que apenas os hereges com alguns semissábios o negam. Não é aqui o lugar de estabelecer esta verdade histórica: digamos apenas que os papas São Gregório Magno, São Martinho, São Agatão, Adriano e Nicolau I, e vários Concílios gerais com um grande número de Padres e Doutores, entre outros São Sofrônio, patriarca de Jerusalém, Santo Anastácio Sinaíta, o bem-aventurado Alberto Magno, São Tomás e São Boaventura atribuíram-lhe estas obras. Parece mesmo que Deus quis confirmar esta verdade por milagres: pois, quando estes preciosos livros, cujos manuscritos o imperador Miguel, o Gago, enviou a Luís, o Piedoso, foram trazidos a Saint-Denis por um de seus legados, Teodoro, diácono e ecônomo da Igreja de Constantinopla, na mesma noite realizou-se, por sua virtude, dezenove curas milagrosas em pessoas muito conhecidas e que não moravam longe da abadia; dois séculos depois, São Maieul, abade de Cluny, tendo vindo a Saint-Denis, e tendo pedido o livro da Hierarquia Celeste para lê-lo, a vela que segurava na mão, e que deixou cair sobre ele por sonolência, gastou-se e consumiu-se inteiramente, não somente sem queimá-lo, mas mesmo sem deixar nele nenhuma mancha. As obras de São Denis foram traduzidas por Dom Darboy, arcebispo de Paris.
Completamos esta biografia com Notas devidas ao Sr. Henri Congnet, do capítulo de Soissons, e com a História da abadia de Saint-Denis, por Mme. Félicie d'Ayzac. — Cf. Barônio; Simeão Metafrasta; Metódio; o R. P. Pierre Halloix, e o abade Darras: Saint Denis l'Aréopagite, um vol. in-5º. Paris, Louis Vivès, 1863.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de São Dionísio, o Areopagita (Primeiro bispo de Paris)
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Nascimento em Atenas no ano 9
- Observação do eclipse durante a Paixão de Cristo em Heliópolis
- Conversão por São Paulo no Areópago
- Episcopado em Atenas
- Presença no falecimento da Santíssima Virgem em Jerusalém
- Missão nas Gálias enviado pelo Papa São Clemente
- Fundação da igreja de Paris
- Martírio por decapitação em Montmartre
- Cefaloforia (caminhada com a própria cabeça) até o local de seu sepultamento
Citações
-
Ou o Deus da natureza sofre, ou toda a máquina do mundo vai se destruir e retornar ao seu antigo caos
Exclamação durante o eclipse em Heliópolis -
Ignoto Deo
Inscrição do altar em Atenas citada por São Paulo