Filho de um rico comerciante de Assis, Francisco renuncia à sua fortuna para desposar a 'Irmã Pobreza' após uma juventude mundana. Fundador da Ordem dos Frades Menores, prega a penitência, o amor às criaturas e a paz através da Europa e do Oriente. Primeiro santo oficialmente reconhecido como estigmatizado, morre em 1226, deixando um legado espiritual fundado na humildade e no despojamento total.
Seus contemporâneos
Figuras e referências situadas em torno do período normalizado desta ficha.
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S. FRANCISCO DE ASSIS, CONFESSOR,
Marcos iniciais
O texto abre a vida de Francisco com marcos cronológicos, uma citação bíblica e uma tonalidade espiritual centrada na pobreza.
1182-1226. — Papas: Lúcio III; Honório III. — Imperadores da Alemanha: Frederico I, Barba Ruiva; Frederico II.
Ego mendicus sum et pauper.
Sl. XXIX, 18.
Quem não admira a loucura sublime e celeste de São Francisco de Assis, que o faz estabelecer as suas riquezas na pobreza, as suas delícias nos sofrimentos, a sua glória na bandeira!
Bassant, Panegíricos.
Nascimento e juventude em Assis
Francisco nasce em uma família de comerciantes de Assis. O relato insiste em seu temperamento generoso, sua juventude brilhante e os primeiros sinais de um chamado interior.
São Francisco nasceu em Assis, Assise Local da prisão de São Sabino. pequena cidade da Úmbria, na Itália, situada nas montanhas dos Apeninos, a igual distância de Roma e de Loreto, no ano da graça de 1182, sob o pontificado de Lúcio III e o reinado de Frederico Barba-Ruiva. Seu pai, chamado Pedro Bernardone, era um rico comerciante da mesma cidade, que tinha um comércio extenso, sobretudo na França: o que os nobres faziam na Itália, sem perder por isso seu título de nobreza. Sua mãe, chamada Pica, era uma dama de grande virtude, boa e piedosa, que merecia ser a mãe de um Santo. Quando estava prestes a dar à luz este filho, ela teve um longo trabalho de parto e dores inconcebíveis sem conseguir dar à luz. Um peregrino veio então à sua porta pedir esmola e, quando a recebeu, disse àquela que a trouxera que, se a senhora da casa quisesse ser libertada, era preciso que se fizesse levar a um estábulo, porque seu filho deveria nascer sobre a palha. Ela obedeceu a este conselho e logo deu à luz felizmente. Muitos acreditam que este peregrino era um anjo. Desde então, transformou-se este estábulo em uma capela sob o nome de San-Francesco-il-Piccolo, São Francisco o Pequeno.
Pouco tempo depois, pensou-se em batizá-lo, e um segundo peregrino ofereceu-se para segurá-lo na pia batismal: era um anjo enviado de Deus. Deram-lhe o nome de João. Ele mudou de nome mais tarde e tomou o de Francisco, seja porque seu pai, que estava na França no tempo de seu nascimento, deu-lho em seu retorno, em memória da acolhida benevolente que recebera naquele reino; seja porque ele mesmo quis portá-lo por uma singular afeição pelos franceses, e porque aprendera a língua em muito pouco tempo; seja, enfim, que a faculdade que ele tinha de falar francês fê-lo ser chamado de Francisco por aqueles que o frequentavam em sua juventude. Enquanto ainda mamava, um terceiro peregrino veio pedir para vê-lo e abraçá-lo; e, tendo predito grandes coisas a seu respeito, advertiu que o inferno fazia todos os esforços para fazê-lo perecer: o que o demônio foi obrigado a confessar depois em um exorcismo.
Sua educação foi toda santa, e sua mãe não deixou de inspirar-lhe desde cedo o horror ao vício e o amor à virtude. Foi, contudo, pródigo ao excesso em sua juventude; amava a beleza das roupas, aparecia voluntariamente com brilho nas festas, tratava magnificamente seus companheiros e, tendo um pressentimento de que seria um dia honrado por todos, sem saber como nem porquê, fazia todos os esforços para superar os de sua idade; mas, por mais mundano que fosse naquele tempo, conservou, contudo, sempre inviolavelmente a castidade. Seus confessores testemunharam que ele nunca se deixou levar por um pensamento a um desejo desonesto. Além disso, parecia que, segundo a palavra de Jó, a misericórdia nascera e crescera com ele. Não podia ver os pobres sem ser tocado de compaixão por sua miséria; e como seu pai o associara ao seu comércio para ter parte nos lucros, ele distribuía liberalmente uma parte do que lhe cabia desse negócio. Sobretudo, nunca recusava a esmola àqueles que a pediam por amor a Deus: esta palavra do amor de Deus enternecia-o já tão fortemente, que ele não podia ouvi-la sem ser tocado sensivelmente. Estando um dia extremamente ocupado com uma venda, mandou embora um sem lhe dar nada; mas não teve tempo de refletir e correu atrás dele, compensando-o amplamente pela recusa que o fizera sofrer. Prometeu a Deus, ao mesmo tempo, fazer caridade, quando tivesse meios, a todos aqueles que a pedissem por seu amor: o que ele observou fielmente pelo resto de seus dias.
Além disso, tinha uma doçura e uma afabilidade tão grandes, que ganhava o coração de todos e era visto em Assis como a pérola da juventude e como um homem que faria um dia a glória de sua pátria e a consolação de toda a província. Havia, sobretudo, na mesma cidade um habitante que, todas as vezes que o encontrava, estendia seu manto para servir-lhe de tapete, e punha-se mesmo de joelhos diante dele para testemunhar-lhe seu respeito; dizia que Francisco merecia bem essa honra, pois, em pouco tempo, seria venerado por toda a Igreja. Contudo, como este jovem, ainda cheio do espírito do mundo, não representava para si senão grandezas temporais, Deus quis ganhá-lo por uma série de cruzes e aflições: primeiro, permitiu que, em uma guerra entre Assis e Perúgia, onde ele quis sinalizar sua coragem para a defesa de sua pátria, fosse feito prisioneiro: esta catividade durou um ano inteiro, durante o qual teve muito a sofrer; mas, bem longe de entristecer-se e deixar-se abater por este revés, ele mesmo consolava os companheiros de sua desgraça, fazendo-os sempre esperar uma pronta libertação. Além disso, assim que esteve em liberdade, caiu perigosamente doente, o que o obrigou a dispor-se para a morte; e foi então que começou a refletir sobre as vaidades de sua vida passada e a conceber horror por elas. Não deixou, contudo, ainda totalmente o amor pela limpeza e pelo brilho das roupas, de que estivera tão cheio. Assim que restabeleceu a saúde, vestiu-se elegantemente, como de costume, a fim de não perder nada da estima que adquirira entre os jovens de sua idade; mas fez uma ação que lhe mereceu uma visita extraordinária do céu: tendo saído da cidade, encontrou um gentil-homem de boa aparência, mas pobre e muito mal vestido, despiu-se generosamente de suas roupas e deu-lhas. Na noite seguinte, teve um sonho misterioso no qual viu um palácio magnífico cheio de armas de todos os tipos marcadas com o sinal da cruz. Perguntou imediatamente a quem pertenciam aquelas riquezas, e o espírito de Deus respondeu-lhe que eram dele mesmo e de seus soldados. Ele ainda não era experiente o suficiente para compreender o mistério daquela profecia. Imaginou, então, em sua paixão pela glória, que deveria tornar-se um grande capitão e obter ilustres vitórias que o tornariam renomado por todo o mundo. Assim, sabendo que Gualtério de Brienne, assistido pelas tropas do papa Inocêncio e de Filipe Augusto, rei da França, entrara com um grande exército na Apúlia para combater o imperador da Alemanha, pôs-se a caminho logo pela manhã para oferecer-lhe seus serviços. Mas aonde vais, Francisco? A milícia para a qual és chamado não é corporal, mas espiritual; deves combater o demônio, o mundo e o pecado, e não homens semelhantes a ti. Teus soldados não serão armados de lanças e espadas, mas do espírito de penitência e mortificação. Assim, logo que esteve em Espoleto, Nosso Senhor apareceu-lhe e, tratando-o com muita familiaridade, disse-lhe: «Francisco, qual dos dois pode te fazer mais bem, o mestre ou o servo, o rico ou o pobre?» — «É certamente o primeiro», respondeu Francisco. — «Se isso é assim», replicou Nosso Senhor, «por que então me deixas, eu que sou o Mestre de todas as coisas e que possuo riquezas infinitas, para te apegares a um homem mortal que só tem a servidão e a pobreza por quinhão?» — «Ah! Senhor», disse então Francisco, «que quereis que eu faça?» — «Retorna à tua terra», acrescenta o Filho de Deus; «a visão que tiveste não te promete grandezas temporais, mas grandezas espirituais». Ele obedeceu imediatamente e retornou a Assis, mas totalmente outro do que era antes, não respirando mais que o desprezo de si mesmo, o desapego do mundo e o amor aos bens celestes. Pouco tempo depois, deu um banquete de despedida aos seus companheiros e, ao reconduzi-los para fora da cidade, foi arrebatado em êxtase e permaneceu imóvel no meio do caminho.
Conversão, pobreza e São Damião
O encontro com o leproso, as peregrinações, a oração diante do crucifixo de São Damião e o rompimento com seu pai estruturam sua conversão.
A partir desse dia, Francisco passou a respirar apenas para as coisas divinas; quase não se dedicava mais aos seus negócios e saía frequentemente da cidade para saborear as doçuras da solidão. Estando um dia a cavalo na planície abaixo de Assis, encontrou um leproso que lhe causou tanto horror que, imediatamente, desviou os olhos para não vê-lo e seguiu por outro caminho. Mas, lembrando-se então da resolução que tomara de combater em todas as coisas as inclinações desregradas de seu amor-próprio, parou subitamente, desmontou e foi abraçar aquele infeliz. Deu-lhe então esmola, tentou consolá-lo em sua desgraça e montou novamente a cavalo. Assim que deu alguns passos, olhou para trás para contemplá-lo mais uma vez; mas não o viu mais, embora não houvesse nem árvore nem casa naquela planície onde pudesse ter se escondido. Julgou, portanto, que aquele leproso era o de quem fala o profeta Isaías, que se revestiu de nossas misérias e de nossas doenças para nos curar; e seu coração sentiu uma alegria e uma consolação indizíveis. Tornou-se então mais assíduo à oração, e seu maior deleite era contemplar as perfeições de Deus e as chagas de Jesus Cristo crucificado. Foi no fervor de uma dessas orações que este amável Salvador lhe apareceu no mesmo estado em que estava na árvore da cruz, e imprimiu em seu coração estas palavras do Evangelho: «Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me». E, desde essa aparição, ele tinha um sentimento tão vivo das dores de seu Mestre, que pensava nelas quase continuamente, e só o fazia derramando torrentes de lágrimas.
A pobreza, a humildade e a caridade para com os necessitados foram então suas virtudes mais caras; em vez de fugir como antes dos leprosos, ia procurá-los nos hospitais e, tendo-os abraçado, servia-os com suas próprias mãos; em vez de se contentar, como antes, em socorrer os mendigos com suas esmolas, assistia-os e aliviava-os com todo tipo de ministérios humilhantes, descalçando-os, deitando-os, limpando-os, prestando-lhes mil outros serviços. Os eclesiásticos pobres tinham a principal parte em suas caridades. Fornecia-lhes o necessário para viver e provia-os também de ornamentos necessários para a celebração dos santos mistérios. O ardor de sua devoção levou-o a ir a Roma visitar os túmulos dos Apóstolos.
Chegado à cidade eterna, foi prostrar-se sobre o pavimento de São Pedro, diante do altar sagrado onde repousa o corpo do pescador da Galileia. Tendo rezado com muito fervor e lágrimas, levantou-se e viu com pesar que os peregrinos deixavam apenas leves esmolas para a conclusão e o embelezamento do santuário. «Como!» exclamou ele, «a devoção está assim arrefecida? Como os homens não oferecem tudo o que têm e não se oferecem a si mesmos, em um lugar onde repousam os preciosos restos do Príncipe dos Apóstolos? Como não decoram com toda a magnificência possível esta pedra sobre a qual Jesus Cristo fundou sua Igreja?» Dizendo estas palavras, pegou todo o dinheiro que tinha consigo e jogou-o com as duas mãos sobre o mármore do santo túmulo.
Ao sair da igreja de São Pedro, viu uma multidão de pobres que esperavam os efeitos da misericórdia dos transeuntes; teve pena deles e, depois de lhes distribuir todo o dinheiro que tinha, deu finalmente seu hábito àquele que parecia estar mais nu e vestiu-se com seus trapos. Permaneceu assim o resto do dia a mendigar e rezar naquela humilde companhia. Foi assim que ele pisou aos pés o orgulho do mundo e que se elevou por graus à perfeição evangélica. No dia seguinte, retomou a estrada de Assis e voltou ao lar materno, respirando a santa alegria da penitência. É lá que o esperava o Senhor Jesus Cristo, seu guia e sua recompensa, para lhe manifestar sua vocação mais vividamente do que o fizera até aquele dia.
Certa manhã, enquanto Francisco meditava no campo nos arredores de Assis, entrou em uma pobre igreja consagrada a São Damião, tão velha e tão dilapidada que ameaçava ruína. Lá, prostrado sobre a pedra diante de um crucifixo, pronunciou três vezes, por um movimento do Espírito Santo, esta bela e fervente oração que repetiu muitas vezes depois: «Grande Deus, cheio de glória, e vós, meu Senhor Jesus Cristo, peço-vos que me ilumineis e dissipeis as trevas do meu espírito, que me deis uma fé pura, uma firme esperança e uma perfeita caridade. Fazei, ó meu Deus, que eu vos conheça tão bem, que em todas as coisas eu nunca aja senão segundo vossas luzes e em conformidade com vossa santa vontade». Ele dizia, e com os olhos banhados em lágrimas, olhava com grande amor a imagem do Salvador na cruz, quando de repente uma voz saída do crucifixo lhe fez ouvir três vezes estas misteriosas palavras: «Vai, Francisco, e repara minha casa que vês cair em ruínas». A esta voz do céu, o santo jovem permanece imóvel, atônito, arrebatado em uma espécie de êxtase onde o pavor se mistura ao amor. Voltando a si, perguntou-se qual era o sentido daquele divino chamado; humilde demais para acreditar que Deus o chamava a reparar as ruínas espirituais de sua Igreja, tomou essas palavras em seu sentido material e pensou que Cristo o convidava apenas a restaurar a velha igreja de São Damião.
Imediatamente, com aquela pronta e ardente obediência que ele colocava na execução das ordens do alto, voltou para casa de seu pai, pegou um pacote de ricos tecidos, montou a cavalo e correu até Foligno, onde vendeu cavalo e mercadoria. Depois voltou a pé a São Damião e apresentou ao padre que servia a igreja o produto daquele feliz negó cio, como o Saint-Damien Pequena igreja próxima a Assis cuja restauração marca uma etapa decisiva da conversão de Francisco. chama São Boaventura. O capelão, temendo a ira do avarento Bernardone, recusou, apesar das instâncias de Francisco, aceitar uma esmola tão considerável. O Santo jogou então com desprezo aquele ouro inútil sobre uma das janelas do santuário e obteve apenas do pobre padre a permissão de ficar algum tempo em sua morada, perto daquele altar abençoado onde o crucifixo lhe falara.
Seu pai, informado do que se passava, enfureceu-se violentamente e correu a São Damião para retirá-lo de lá. Mas como teria encontrado aquele que a divina Providência resolvera manter escondido? A parede do quarto onde ele estava amoleceu e afundou, e deu-lhe um refúgio seguro e tranquilo contra as buscas daquele pai desnaturado. Em seguida, retirou-se para uma gruta vizinha, onde passou um mês inteiro em oração e jejum contínuo, vivendo mais do pão das lágrimas do que daquele que se fazia trazer em segredo por um servo de sua casa. Entretanto, a unção da graça espalhando-se cada vez mais em seu coração, ele mesmo teve vergonha de sua fuga e de se manter escondido como um homem tímido e sem coragem; assim, todo sujo e desfigurado como estava, voltou a Assis, resolvido a sofrer tudo pela glória de Jesus Cristo. Ao seu aspecto, os murmúrios, os risos desprezíveis, as exclamações de piedade, retumbaram de todos os lados: «Ele ficou louco», diziam; e, entre os insultadores, seus antigos companheiros de festas estavam na primeira fila. Eles não se enganavam senão pela metade: sim, o bem-aventurado Francisco tinha ficado louco, mas da santa e divina loucura da cruz, daquela loucura que confunde a sabedoria humana, que, desde o presépio e o Calvário, conduz regaladamente o mundo, pelo sofrimento voluntário e o sacrifício, da terra ao céu, da morte à eterna vida! Surdo a todos os clamores, sorrindo a todos os afrontas, ele respondia ao mal com o bem, às injúrias com a oração, ao ódio com o amor. Seu pai, advertido de que seu filho era objeto do riso público, corre furioso, lança-se sobre Francisco como um lobo sobre um inocente cordeiro, o cumula de reprovações e golpes, ordena-lhe que deixe essas extravagâncias e retome sua vida e suas ocupações habituais. Mas, vendo-o insensível às suas ameaças como às suas orações, encerra-o sob uma escada, em um recanto escuro de sua casa, e jura que o manterá prisioneiro enquanto ele não prometer mudar de vida. Francisco, sustentado pela voz de Jesus Cristo que lhe revelara sua vocação, sofria cruelmente por afligir seu pai e por resistir-lhe; mas, ao mesmo tempo, sua alma estava cheia de uma alegria toda celeste ao pensar que expiava as faltas de sua juventude, que sofria perseguição pela justiça, e repetia com arrebatamento esta palavra de São Pedro: «Mais vale obedecer a Deus do que aos homens!»
Aproveitando a primeira ausência de seu marido, sua mãe, que reconhecia nele um atrativo extraordinário da graça, abriu-lhe a porta do cárcere e deu-lhe a liberdade de ir para onde quisesse. O santo jovem agradeceu a sua mãe, bendisse a Deus e voltou imediatamente à igreja de São Damião, cuja reparação empreendera. Seu pai, ao seu retorno, ficou extremamente irritado; mas, tendo encontrado na janela daquela igreja o dinheiro que o Santo lá jogara, acalmou-se um pouco. Finalmente, o bispo de Assis restabeleceu o acordo entre eles. Francisco renunciou, na presença daquele prelado, a todos os bens aos quais podia pretender em virtude de sua associação e da sucessão de seus pais; seu pai, sobre essa renúncia, deixou-o senhor de si mesmo e abandonou-o à sua própria conduta. Foi nesta ocasião que este novo pobre de Jesus Cristo se despiu de suas roupas, sem reservar nada além de um cilício com o qual seu corpo estava coberto, e, tendo-as entregue todas nas mãos de seu pai, disse-lhe: «Até agora chamei-vos meu pai; mas, doravante, não darei mais este nome senão a Deus só, e lhe direi bem mais livremente do que fazia: Pai nosso que estais nos céus, em quem pus meu tesouro e a fé de minha esperança». Os espectadores daquela cena, tomados de uma emoção profunda, choravam de piedade e admiração. O próprio bispo ficou tão tocado que se lançou ao pescoço de Francisco e cobriu com seu manto sua sublime nudez. Em seguida, mandou trazer o hábito de um de seus lavradores e deu-lho. O Santo recebeu-o voluntariamente sob o título de esmola e, tendo-o fendido em forma de cruz e tendo nele figurado uma cruz com cimento, vestiu-se como de uma preciosa libré de um Deus pobre e humilhado (1206).
Com este hábito saiu de Assis e foi para a solidão, para saborear mais profundamente a alegria de seu sacrifício e melhor ouvir a voz de seu Jesus amado. Enquanto caminhava, cantava em língua francesa os louvores de Deus com uma celeste alegria. Passando por um bosque, encontrou ladrões que lhe perguntaram quem ele era: «Sou», respondeu ele, «o arauto do grande Rei». Então, esses ladrões bateram-no cruelmente e jogaram-no em uma vala cheia de neve, dizendo-lhe com zombaria: «Fica aí, arauto de Deus». Francisco acreditou ter ganhado muito por ser assim ultrajado e maltratado. Assim que esses ladrões se retiraram, levantou-se e continuou seu caminho, cantando ainda mais alto e com mais alegria hinos e cânticos ao louvor de seu Criador. Tendo chegado a um mosteiro, pediu caridade e recebeu-a como um simples mendigo. De lá veio a Gubbio, onde um de seus amigos, que o reconheceu, deu-lhe uma pequena túnica muito pobre, com um cinto de couro, um bordão e sapatos para equipá-lo como peregrino e eremita. Tinha então vinte e cinco anos e não tinha outra visão senão a de se santificar pela prática da humildade, da paciência, da pobreza e da misericórdia para com os enfermos. Assim, consagrou-se ao serviço dos hospitais e dos enfermos; tendo uma singular compaixão pelos leprosos, lavava humildemente seus pés, limpava suas úlceras, pedia esmola para eles e frequentemente os abraçava para consolá-los em sua dor e encorajá-los a sofrer com constância. Esta caridade não foi sem milagres; vários foram curados pelo seu toque, sobretudo um homem do ducado de Espoleto que tinha todo o rosto corroído por um horrível câncer que o tornava horrível de ver. «Não sei», disse São Boaventura ao lembrar este traço, «o que se deve admirar mais, de tal beijo ou de tal cura!» É assim que Francisco colocava em prática estas palavras, que o Senhor lhe dirigira nas divinas comunicações da oração: «Meu filho, se queres conhecer minha vontade, é preciso que desprezes e que odeies tudo o que amaste e desejaste segundo a carne. Que este novo caminho não te assuste; pois se as coisas que te agradam devem tornar-se amargas, aquelas que te desagradavam te parecerão doces e agradáveis».
Quando estava bem fundado na humildade, lembrando-se da ordem que recebera de reparar a igreja de São Damião, voltou a Assis; e o que não pudera fazer sendo rico, executou facilmente no estado de pobreza que abraçara. Não foi fornecendo de seu bem grandes somas de dinheiro, mas pedindo às portas dos ricos o necessário para restabelecer aquele edifício, trabalhando nele mesmo como um operário, carregando sobre seus ombros pedra, madeira e cimento, e animando os outros pelo seu exemplo a uma obra tão santa, pela esperança da recompensa eterna. Vendo um dia Francisco sobrecarregado sob o peso das pedras que ajudava a transportar com suas mãos para a restauração da igreja, seu irmão, chamado Ângelo, disse por zombaria a um de seus amigos: «Vai pedir-lhe que te venda um pouco de seu suor». — «Não quero vender meu suor aos homens», respondeu simplesmente Francisco; «vendê-lo-ei mais caro a Deus». Palavra admirável e profunda que, compreendida e meditada, diminuiria muito o número dos escravos do mundo, e aumentaria o dos servos de Jesus Cristo! Pois este divino Salvador só prometeu que não deixaria sem recompensa um copo de água dado em seu nome, e só ele é infalível em suas promessas. O padre de São Damião, tocado pela fadiga e pela carência do operário de Jesus Cristo, teve a ideia de preparar-lhe uma boa refeição para reparar suas forças quando ele voltava à noite sobrecarregado pelos labores do dia. Francisco aceitou a princípio essa caridade; mas logo mudou de ideia, pediu ao seu anfitrião que não se ocupasse mais de sua alimentação e, pegando um prato, saiu a mendigar de porta em porta, e sentou-se na rua para comer os restos grosseiros que lhe tinham dado. «Pois é assim», dizia a si mesmo, «que devo viver pelo amor daquele que nasceu pobre, que viveu pobremente, que pregaram na cruz, e que foi posto após sua morte no sepulcro de outrem». Tal foi o gênero de vida que Francisco adotou desde então para nunca mais deixá-lo, e é assim que terminou o ano de 1206 na oração, no trabalho e na absoluta carência. Graças às abundantes esmolas que tinha recolhido, terminou rapidamente a restauração da igreja de São Damião.
O sucesso dessa reparação fê-lo ainda empreender a da igreja de São Pedro, que era um pouco mais afastada da cidade de Assis, e não a concluiu com menos prontidão e felicidade. Finalmente, como viu que a igreja de Nossa Senhora dos Anjos, chamada da Porciúncula, caía em ruínas, embora fosse dedicada em honra da Mãe de Deus, e que os anjos lá faziam às vezes sentir sua proteção; e que por isso ela estava deserta e abandonada, resolveu aplicar-se com o mesmo zelo a repará-la. Desde o começo do ano de 1208, a capela reencontrou seu culto secular e serviu de novo de tabernáculo ao Santo dos Santos, e de objetivo de peregrinação à piedade dos fiéis. São Boaventura diz que ele a amou mais do que todos os outros lugares do mundo, que lá começou com humildade a grande obra de sua perfeição, que lá fez progressos admiráveis na virtude, que lá terminou felizmente sua vida, e que ao morrer a recomendou sobre todas as coisas aos seus filhos, como um lugar para o qual a santa Virgem tinha atenções muito particulares.
Estando um dia naquele santuário, ouviu, no evangelho da missa, estas palavras de Nosso Senhor aos seus discípulos: «Não leveis nem ouro, nem prata, nem nenhuma moeda em vossa bolsa, ne m saco, nem Portioncule Igreja perto de Assis onde Clara foi levada pelos anjos. duas túnicas, nem sapatos, nem bordão». Esta admirável lição atingiu imediatamente seu espírito; tomou-a como pronunciada e ditada para si mesmo, e, sem diferir um momento, jogou seu bordão, pôs-se descalço, pegou uma corda em vez de cinto, deu sua bolsa e todo o dinheiro que tinha, e, contentando-se com uma simples túnica, começou seriamente a vida apostólica e evangélica da qual deveria levantar o estandarte no mundo. Em seguida, pôs-se a pregar a penitência; o que fez com tanto fervor e unção, que vários pecadores, tocados por suas palavras, converteram-se e lavaram em suas lágrimas as manchas de sua vida passada. Vários até renunciaram ao mundo para abraçar o estado humilde do qual ele fazia profissão. O primeiro foi o bem-aventurado Bernardo de Quintavalle, um dos mais ricos habitantes de Assis: tendo visto com seus próprios olhos São Francisco passar a noite em oração em um quarto onde ele o pedira para tomar um pouco de repouso, ficou tão comovido com seu exemplo, que renunciou na mesma hora a todos os seus bens e pôs-se em sua esteira. O segundo foi o bem-aventurado Pedro de Catânia, cônego da catedral da mesma cidade, que deixou generosamente seu benefício para se fazer com ele pobre de Jesus Cristo. O terceiro foi o B. irmão Egídio, que a sábia loucura da cruz elevou, desde então, a uma tão eminente perfeição.
Nesse tempo, Deus fez conhecer a Francisco, por diversas visões, que o escolhera para fundar uma grande Ordem que combateria vigorosamente a carne, o mundo, o demônio e o pecado; que ganharia sobre eles ilustres vitórias, trabalharia com feliz sucesso à reforma dos costumes dos cristãos, cujo desregramento se tornara extremo, e levaria a luz da fé até as extremidades da terra. Essas garantias animaram-no a continuar suas pregações; enviou Bernardo com Pedro para o lado da Toscana, e ele, com o irmão Egídio, percorreram a Marca de Ancona, exortando com uma força maravilhosa ao desapego do mundo, ao desprezo dos prazeres e das riquezas, e a uma perfeita conversão de coração a Deus. O número de seus filhos cresceu então até sete, e pouco tempo depois até onze. Representavam com ele o colégio sagrado dos doze Apóstolos. Dizia-lhes, ao enviá-los pregar: «Ide anunciar a paz a todos os homens, animai-os à penitência, que é a única via para obter o perdão dos pecados; sede assíduos à oração, pacientes nas adversidades, infatigáveis no trabalho, modestos e contidos em vossas palavras, graves e irrepreensíveis em vossas ações e perfeitamente reconhecidos pelos benefícios que recebereis. Sobretudo, ponde vossa confiança em Deus, e tende por certo que nada vos faltará, embora caminheis sem provisão e sem dinheiro». Não os chamavam ainda nem irmãos, nem religiosos, mas apenas os penitentes de Assis, embora seu bem-aventurado Pai, para afastá-los um pouco de sua terra, os tivesse então transferido para um pobre eremitério abandonado, em um lugar chamado Rivo-Torto; mas quando aquele homem apostólico viu os fatos surpreendentes que aprazia à divina bondade operar por ele e por aquela santa tropa de missionários espalhados de um lado e de outro, desejou vê-los todos reunidos, para fazer deles um corpo mais bem ligado e mais firme. Não enviou para isso nem cartas nem mensageiros; mas tendo representado seus desejos a Jesus Cristo, que era o autor, viu chegar perto de si todos aqueles operários evangélicos, carregados dos troféus que tinham ganho sobre a malícia dos homens e os esforços do inferno. Então compôs-lhes uma Regra em termos simples: colocando a prática do Evangelho como fundamento inabalável de todo seu edifício espiritual, acrescentava apenas algumas constituições necessárias ao estabelecimento de uma vida comum.
O bispo de Assis, que ele consultava frequentemente em suas dificuldades, era de opinião que ele tomasse posses e rendas para fazer subsistir seus filhos, sem serem obrigados a mendigar seu pão; mas respondeu àquele prelado que não podia de modo algum resolver-se: «Pois, se tivéssemos bens», disse-lhe, «ser-nos-iam necessárias armas para nos defender dos ladrões; procuradores e advogados para sustentar nosso direito contra as chicanas dos usurpadores; servos e servas para fazer valer nossas propriedades. Julgue, se lhe apraz, Monsenhor, que desvantagens receberíamos do comércio com pessoas tão distantes de nosso instituto». Assim, persistiu corajosamente na resolução que tomara, de estabelecer sua Ordem sobre o fundo da pobreza evangélica. Pensou então em fazê-la aprovar e confirmar pela Santa Sé; assim, com o consentimento unânime de seus filhos, e sem se munir de nenhuma recomendação dos prelados nem dos grandes senhores de sua província, veio a Roma ao encontro do papa Inocêncio III, um dos mais sábios pontífices que governaram a Igreja. Tinha consigo o colégio de seus onze discípulos, e conquistou em Rieti um décimo segundo, que foi Ângelo Tancredi, bravo gentil-homem daquela cidade, dizendo-lhe apenas, no meio do caminho onde o encontrou, que tinha servido bastante ao mundo, e que Jesus Cristo o chamava ao Calvário. Em Roma, hospedou-se no hospital de Santo Antônio, para lá receber a esmola na qualidade de pobre e para lá servir os enfermos. Poucos dias depois foi falar ao Papa no palácio de Latrão, em um lugar chamado o Espelho, onde ele passeava; mas Sua Santidade, que tinha então o espírito ocupado com vários grandes negócios, não o quis escutar, e repeliu-o mesmo com indignação. Esse repúdio, bem longe de afligir e desencorajar Francisco, encheu-o pelo contrário de alegria e esperança: retirou-se suavemente com uma profunda humildade e uma modéstia angélica, recomendando seu negócio a Deus, que lho inspirara. Não foi frustrado em sua expectativa: pois, na noite seguinte, o Papa, tendo visto em sonho uma pequena palmeira que, nascida a seus pés, subia então à altura das mais altas árvores, conheceu ao despertar que ela era a figura do pobre Francisco que se apresentara na véspera diante de Sua Santidade; assim, mandou-o vir perto de si e, depois de tê-lo escutado com muita benevolência, prometeu-lhe examinar seus pedidos e ser-lhe favorável no que pudesse.
Nascimento da fraternidade
Ao redor de Francisco forma-se uma primeira comunidade. O relato segue o surgimento dos Frades Menores, sua regra e seus primeiros reconhecimentos eclesiais.
A maior dificuldade que ele notava era esta extrema pobreza que queria estabelecer em sua Ordem; mas o cardeal João de São Paulo, bispo de Sabina, ponderou muito sabiamente a Sua Santidade que, se esta consideração impedisse a confirmação da Regra de Francisco, demonstrar-se-ia com isso que não se estimava o Evangelho e que não se tinha respeito pelos conselhos de Jesus Cristo. Além disso, o Santo disse-lhe muito engenhosamente que a Congregação cuja aprovação solicitava, por mais pobre que parecesse, tendo desposado o Rei dos reis, não deixaria de ter o que lhe fosse necessário para alimentar seus filhos. Assim, o Papa sentiu-se inclinado a ratificar seu pedido assim que fosse examinado pela Sagrada Congregação, tanto mais que reconheceu que o Santo era aquele pobre que vira uma noite em sonho, sustentando sobre seus ombros a igreja de São João de Latrão que caía em ruínas. Visão misteriosa que foi cumprida corporal e espiritualmente: corporalmente, porque esta basílica foi restabelecida, adornada e enriquecida pelos papas Nicolau IV, Sisto IV e Sisto V, da Ordem de São Francisco; espiritualmente, porque a Igreja universal, figurada por este templo, foi sustentada pelos exemplos, pelas orações e pela doutrina deste grande Servo de Deus, e pelos trabalhos de uma infinidade de Mártires, Doutores, Confessores e Virgens da mesma Ordem.
Ao fim de alguns dias, tendo o sagrado Colégio dito em seu relatório que as Regras e as Constituições de São Francisco não continham nada que não fosse santo e conforme à doutrina de Jesus Cristo, o Papa aprovou-as de viva voz; ele mesmo recebeu também a profissão do bem-aventurado Instituidor e de seus doze filhos, e tendo-o estabelecido como primeiro ministro geral de sua congregação nascente, consagrou-o diácono, dando também poder aos seus companheiros de portar a tonsura e a coroa clerical: o que alguns autores explicam como a colação das Ordens menores. Assim, esta santa tropa saiu de Roma carregada de favores e bênçãos, mas com uma resolução toda nova de fazer uma guerra constante aos seus sentidos e de levar por toda parte o espírito de penitência e de compunção. Contudo, quando chegaram à cidade de Espoleto, conversando entre si sobre os meios de chegar à perfeição, deliberaram se não seria mais expedito retirar-se para uma solidão para ocupar-se inteiramente na contemplação do que expor-se à conversação com os homens, que é cheia de perigos e que faz perder facilmente o espírito de recolhimento e de devoção. Francisco consultou sobre isso a vontade de Deus por uma oração muito fervorosa, acompanhada de lágrimas e suspiros, e aprendeu que sua vocação e a de seus filhos não era a de permanecer nos desertos, mas de trabalhar pela salvação das almas pela pregação e pelos outros exercícios da vida apostólica. Ele declarou aos seus filhos o que Deus lhe havia dado a conhecer e, estando assim seguros do caminho que deviam seguir, retiraram-se todos juntos para sua antiga morada, junto aos muros de Assis.
A pobreza desta casa não pode ser suficientemente admirada; ela caía em ruínas e era tão pequena que mal todos os seus irmãos podiam ter seu lugar nela; foi preciso que o santo Patriarca escrevesse seus nomes nas tábuas para marcar a cada um o lugar de seu retiro. Eles viviam ali tão pobremente que as ervas cruas que encontravam no campo eram para eles iguarias deliciosas. Sua oração era mais de espírito do que de lábios, porque, não tendo ainda livros de igreja para cantar as horas canônicas, tudo o que podiam fazer era rezar mentalmente e recitar a Oração dominical e alguns salmos que sabiam de cor. Seu principal livro era a Cruz de Jesus Cristo, que seu bem-aventurado pai havia colocado no meio deles. Eles estudavam continuamente este grande livro, folheavam-no sem cessar, aprendiam as divinas lições, e é de lá que tiravam essas belas luzes e essa divina eloquência, que os tornavam mais temíveis ao demônio e aos pecadores do que os maiores mestres da teologia. São Francisco também lhes fazia muito frequentemente poderosas exortações; ensinava-lhes o método de considerar e de louvar a Deus em todas as suas criaturas, a reverência que deviam ter pelos sacerdotes e a submissão com a qual deviam receber todas as decisões da Igreja romana. Ensinava-lhes também a prostrar-se diante de todas as igrejas e de todas as cruzes, desde o mais longe que as avistassem, para honrar Jesus Cristo nessas representações exteriores dos sofrimentos que ele havia suportado por nosso amor.
Ele cuidava tanto de seu progresso espiritual que, uma noite, encontrando-se em Assis para pregar no dia seguinte na catedral, apareceu-lhes em sua pobre morada na forma de um globo de luz, carregado sobre um carro de fogo; o que os iluminou tão perfeitamente que cada um deles penetrou não somente até o fundo de sua própria consciência, mas também até o mais secreto das de todos os outros; convencidos de que era seu santo Patriarca que se mostrava a eles sob esta figura resplandecente, reconheceram ao mesmo tempo as graças que Deus lhe havia comunicado para sua condução. Vimos, na vida de Santo Antônio de Pádua, que depois ele apareceu ainda em Arles, no meio de uma assembleia de seus religiosos onde este bem-aventurado Confessor presidia, para dar-lhes sua bênção e animá-los a não ordenar nada que não fosse para a maior vantagem da observância regular.
Finalmente, como se apresentavam todos os dias pessoas que desejavam abraçar seu instituto, vendo que não podia alojá-las na casa onde estava, viu-se obrigado a procurar uma maior. Dirigiu-se para isso ao bispo de Assis, suplicando-lhe que lhe desse uma capela onde pudessem celebrar os divinos ofícios; mas o bispo, não tendo nenhuma então à sua disposição, recorreu aos Beneditinos do Monte Subásio, que lhe deram a igreja de Nossa Senhora dos Anjos ou da Porciúncula, com uma pequena casa anexa, onde morava o capelão, para servir-lhes de convento. São Francisco aceitou com a condição de que nem ele nem sua Ordem seriam proprietários, mas apenas usufrutuários. É por isso que não deixava, todos os anos, de enviar aos Beneditinos um pequeno cesto de peixes, como um tributo da herança que detinha deles, e esses reverendos Padres davam-lhe em troca, por generosidade, uma jarra de azeite para ter parte em suas orações.
Assim que esteve na posse desta igreja, Nosso Senhor honrou-a com uma visita, acompanhado de sua santíssima Mãe e de uma multidão inumerável de espíritos bem-aventurados, e prometeu-lhe, com sua proteção, um prodigioso crescimento de sua congregação nascente. Enviou então seus filhos a diversos cantões para continuar a anunciar a penitência; e foram tantos pescadores evangélicos que, pela rede de sua pregação, atraíram-lhe um grande número de novos discípulos para ajudá-los eles mesmos na conversão do mundo. Ele fez também, de sua parte, muitas conquistas, das quais a maioria foram milagrosas; os principais daqueles que entraram em sua Ordem foram Maurício, Leão, Rufino, Masseo, Junípero, Iluminado, Agostinho, Estêvão, Leonardo, Guido, Simão e Pacífico, que chegaram todos a uma eminente santidade. Maurício era da Ordem dos Cruzados; caiu perigosamente doente e foi obrigado a ir para o hospital. Como já se desesperava de sua vida, São Francisco enviou-lhe um pedaço de pão molhado no azeite que ardia diante de Nossa Senhora; e mal o comeu, levantou-se em perfeita saúde para abraçar o instituto de seu insigne benfeitor. Pacífico era um poeta célebre, a quem até o imperador Frederico II havia dado o nome de Rei dos versos. Ele foi ao sermão de São Francisco, e a força de suas palavras inflamadas, unida à visão de duas espadas luminosas que o cruzavam da cabeça aos pés e de uma mão à outra, tocou-o de tal maneira que desprezou o vão exercício da poesia para se fazer o fiel imitador do santo Patriarca. Recebeu dele o nome de Pacífico, por causa de um grande dom de doçura de que sua alma foi preenchida, e foi depois o primeiro ministro provincial da França.
Esses novos operários pediam sem cessar novas instruções; mas a vida de seu pai era-lhes uma lição viva que lhes ensinava o exercício das mais excelentes virtudes. Ele era tão austero que, fora as refeições na casa de seculares, que fazia apenas muito raramente e muito sobriamente, e apenas para ganhá-los para Deus, quase nunca comia nada cozido e não bebia senão água. Frequentemente misturava cinzas no que comia. A terra nua era sua cama; não se deitava nela, mas dormia sentado, a cabeça apenas apoiada sobre uma pedra ou sobre um pedaço de madeira. Sua pobreza era tão extrema que não parecia possível ser mais pobre, já que, exceto o saco com que estava coberto e do qual nem sequer era proprietário, não possuía nada no mundo. Ele mesmo ia mendigar para sua comunidade, e fazia-o nos lugares onde era mais conhecido. Nunca se via ocioso, nunca emocionado, nunca distraído e ocupado com as coisas da terra, mas sempre em uma atividade, uma doçura e uma devoção maravilhosas. Não sofria que nenhum de seus religiosos permanecesse sem fazer nada, e chamava de irmãos moscas aqueles que fugiam do trabalho; para seu corpo, chamava-o de irmão asno; de fato, tratava-o tão duramente quanto se trata os asnos. Era, no entanto, inimigo das indiscrições e não permitia aos seus discípulos fazer penitências acima de suas forças. Recomendava-lhes evitar a conversa com as mulheres, como um escolho onde as pessoas mais espirituais fazem frequentemente tristes naufrágios. Exortava-os a um grande amor por Deus e por Nosso Senhor Jesus Cristo, e a um zelo ardente pela salvação dos pecadores, sentimentos dos quais ele mesmo estava todo preenchido.
Seria uma coisa infinita segui-lo em todos os lugares onde levou a semente do Evangelho. Foi primeiro a Perúgia, onde previu e depois apaziguou uma guerra muito cruel entre os nobres e o povo; de lá passou a Cortona, onde, por recompensa de um grande número de conversões que lá fez, deram-lhe um convento à porta da cidade. Fizeram o mesmo para com ele em Arezzo e em Florença, para onde se transportou depois de ter passado toda a Quaresma em uma oração contínua, e sem comer nada além da metade de um pequeno pão. Os milagres que operou em todas essas cidades foram tão extraordinários que não o olhavam ali com menos respeito do que se fosse um anjo descido do céu. Levou as mesmas bênçãos a Pisa, a São Medardo, a São Geminiano e a Sarthiane, e obteve por toda parte novos mosteiros. Foi em Sarthiane que o demônio lhe apareceu e o solicitou ao relaxamento, dizendo-lhe que Deus nunca perdoava àqueles que se faziam morrer por penitências indiscretas; após o que excitou nele pensamentos lascivos e movimentos desonestos; mas o Santo, tomando na hora mesma sua disciplina de ferro, pôs todo o corpo em sangue, e estando todo coberto de feridas, lançou-se neste estado lamentável no meio das neves, onde permaneceu até que essas chamas da impudicidade estivessem inteiramente extintas: o que o tornou tão vitorioso de seu inimigo que não sentiu mais, posteriormente, semelhantes ataques. Na Quaresma seguinte, pregou na catedral de Assis, e lá fez a admirável conquista da gloriosa Santa Clara, que encerra uma infinidade de outras. Resolveu então ir à Síria trabalhar na conversão dos Sarracenos, e tomou o caminho de Roma para ir pedir permissão ao Papa. As maravilhas acompanharam-no por toda parte. Em Alviane, fez calar as andorinhas que faziam barulho durante sua pregação, dizendo-lhes apenas: "Minhas irmãs andorinhas, calai-vos enquanto prego". Em Roma, obteve de Sua Santidade o que quis, ganhou excelentes homens para seu instituto e fundou um mosteiro de sua Ordem: é hoje o convento célebre de San Francesco in Ripa. Em Ascoli, na Marca de Ancona, um de seus sermões atraiu trinta jovens dos mais consideráveis para sua vida pobre.
Deus, que lhe havia inspirado o pensamento e o desejo de ir à Síria, não permitiu a execução, porque o momento não havia chegado. Francisco embarcou; mas foi logo lançado por uma tempestade na Eslavônia, e de lá forçado a voltar para a Itália. Pouco tempo depois, caiu doente de uma febre lenta que o reduziu a uma extrema languidez. O bispo de Assis, que temia que a Igreja perdesse cedo demais um tão grande tesouro, fê-lo transportar, apesar de todas as suas repugnâncias, para seu palácio episcopal para fazê-lo bem tratado. Não se pode imaginar o quanto Francisco ficou confuso e humilhado com este tratamento. Ele chamava-se então apenas de guloso, sensual e hipócrita; dizia aos seus filhos que não merecia mais portar o nome de Frade Menor; declarava-se digno de todas as maldições dos apóstatas; finalmente, levou seu amor pela abjeção até o ponto de se fazer arrastar com uma corda na cidade, até o lugar das execuções públicas, para dizer a todo o povo que não merecia a estima que tinha por ele e as honras que lhe rendia, visto que, em vez de viver austeramente como se persuadia que vivia, era delicadamente alimentado à mesa mesma de seu bispo. Mal tinha recuperado um pouco de forças, pôs-se a caminho para ir à Espanha e de lá ao Marrocos, trabalhar na conversão do Miramolim, que era Maomé o Verde. Passando pelas cidades da Itália, fez grandes milagres e conversões sem número, e estabeleceu uma multidão de conventos. Em Foligno, abençoou de tal maneira a casa de seu anfitrião que, desde então, nem o fogo nem a peste ousaram aproximar-se dela. Em Espoleto, mudou inteiramente o coração de um rico avarento que difamava por toda parte sua Ordem, fazendo apenas dizer três Pai-Nossos e três Ave-Marias por ele por cada um de seus religiosos. Em Terni, ressuscitou um jovem que havia sido esmagado pela queda de uma muralha, e previu que ele abraçaria um dia seu instituto, o que aconteceu depois. No condado de Narni, devolveu a vida a um homem afogado há quatro dias, a saúde a um paralítico, e transformou água em vinho. Em Oriesi, curou uma criança tão contorcida que sua cabeça tocava seus pés. Que não fez ele ainda em São Geminiano, em São Leão, em Ímola e em todas as outras cidades por onde passou até sua entrada na França? Era recebido por toda parte como um grande profeta. Ofereciam-lhe de todos os lados casas sem que ele pedisse, e tantas pessoas se apressavam para estar no número de seus discípulos que elas eram logo preenchidas de excelentes sujeitos. Sua passagem pelo Delfinado e pela Provença foi curta, e ele se dirigiu o mais rápido possível para a Navarra e a Castela. O rei Afonso, depois avô de São Luís pela rainha Branca, sua filha, fez-lhe um maravilhoso acolhimento e deu-lhe um convento em Burgos, que foi o viveiro de muitos outros. O Santo quis finalmente passar para a África; mas o Espírito de Deus, que havia outrora impedido o apóstolo São Paulo de pregar o Evangelho na Bitínia, impediu este zeloso missionário de levar a palavra de vida ao Marrocos, que era indigno de uma tão grande felicidade. Caiu doente nos confins da Espanha, e durante sua doença, recebeu ordem do céu de retornar para a Itália. Fez antes a peregrinação de Santiago de Compostela; mandou construir um convento com um tesouro que se encontrou na terra em um lugar que ele havia indicado. Estabeleceu ainda outros voltando, tanto em Portugal quanto em Castela, em Aragão e na Catalunha, e entre outros o de Perpinhã, que, desde então, tornou-se muito considerável. Finalmente, era preciso contar seus prodígios por seus passos, e seus novos estabelecimentos pelas estadias que fazia no caminho. A guerra dos Albigenses impediu-o de parar na Provença; além disso, os filhos de São Domingos pregando já ali com um zelo e um sucesso extraordinários, ele não julgou apropriado colocar a foice na colheita alheia.
Seu retorno à Itália, onde se lamentava vivamente sua ausência, foi um verdadeiro triunfo. Vieram de todos os lados ao seu encontro. Os prodígios acompanharam-no por toda parte. O pão multiplicou-se para seu alimento e para o dos seus, e a potência de Deus confundiu de uma maneira milagrosa aqueles que o caluniaram ou se opuseram ao progresso de seu instituto. Tendo feito sábios regulamentos em seu convento de Nossa Senhora dos Anjos, retirou-se pela primeira vez para o monte Alverne, onde o conde Orlando, que o olhava como seu pai, havia-lhe dado uma morada. Foi visitado ali primeiro pela santa Virgem acompanhada de São João Batista e de São João Evangelista, depois pelo próprio Nosso Senhor, que, tendo-se sentado sobre a pedra onde ele tomava ordinariamente sua pobre refeição, descobriu-lhe grandes segredos, cujo evento justificou depois a verdade. Vê-se ainda agora esta pedra rodeada por uma grade de ferro com esta inscrição: "A mesa de São Francisco, onde ele teve aparições admiráveis, e que ele consagrou regando-a com azeite e dizendo: É aqui o altar de Deus". Um anjo ensinou-lhe também que as fendas que ele via nas rochas haviam sido feitas ali no tempo da Paixão de Nosso Senhor: o que lhe deu um respeito e uma devoção particulares por esta santa montanha. Converteu ali um bandido apelidado o Lobo, que havia cometido uma infinidade de assassinatos e de banditismos, e tendo-lhe dado o hábito de sua Ordem, chamou-o de Agnello, o cordeiro, para marcar sua mudança de lobo em cordeiro. Ele não tinha menos afeição pela vale abaixo de Fabriano, chamada a Pobre-Vale, do que por este monte. Obteve o dom de uma antiga abadia, que religiosas beneditinas haviam abandonado, e colocou ali seus discípulos; e a grande solidão deste lugar fazia com que ele se retirasse ali com uma alegria singular, para ocupar-se na contemplação das verdades eternas. Este estabelecimento foi seguido de muitos outros na Marca de Ancona. Foi lá que ele mudou, por uma hora, a água de uma fonte em bom vinho, a fim de aliviar a sede de seus operários que trabalhavam em seu convento de Bonantis. Foi lá que um de seus religiosos, tendo feito um julgamento temerário sobre um pobre doente que pedia esmola e cujo mérito Francisco exaltava, ele o obrigou a despojar-se de seu hábito e, neste estado, a pedir perdão a este pobre. Foi lá que um outro religioso, que havia murmurado contra ele, viu-o à noite em oração no canto de uma floresta, onde a santa Virgem tendo-lhe aparecido, acariciou-o, colocou seu divino filho entre suas mãos e permitiu-lhe abraçá-lo e beijá-lo. Foi lá que um outro irmão, ainda noviço, teve também a felicidade de vê-lo honrado com a visita de Jesus, de Maria e dos dois santos Joões: João Batista e o Evangelista.
Todas essas coisas aconteceram até o ano de 1215; tendo-se aberto o concílio de Latrão, sob Inocêncio III, São Francisco dirigiu-se a Roma para fazer aprovar novamente seu Instituto. Dissemos que o papa Inocêncio III já o havia aprovado; mas ele não o tinha feito senão de viva voz e não tinha feito expedir bula alguma, e além disso, não tinha dado ao Santo e aos seus filhos senão o nome de Pregadores da Penitência; de modo que era apropriado ter uma aprovação mais autêntica, como de uma nova Ordem religiosa. Não vemos nada neste concílio que marque que esta aprovação tenha sido dada ali; ao contrário, encontra-se ali no artigo 13 um decreto que diz que se deve aplicar-se mais a restabelecer as antigas Ordens em seu primeiro esplendor do que a fazer novas. Mas se o Santo não obteve da assembleia o estabelecimento que desejava, é certo, no entanto, que os Padres, informados dos frutos maravilhosos que seus religiosos produziam no mundo, aceitaram seu trabalho, olhando-os como poderosos missionários e trombetas resplandecentes do Evangelho. Assim, desde esse tempo, a Ordem tomou mais crescimento e fez maiores progressos do qu e nunca. Foi Innocent III Papa que enviou Pedro de Castelnau contra os albigenses. neste ano ou por volta dele que o bem-aventurado patriarca construiu o convento chamado agora a prisão de São Francisco, a duas milhas de Assis; nome que lhe foi dado porque este homem celestial se encerrava ali frequentemente em um esquecimento geral de todas as criaturas, para renovar ali seu fervor. Vê-se ali sua cela semelhante a um calabouço, sua cama de pedra, sua cabeceira de madeira, seu crucifixo e algumas outras de suas relíquias, com uma fonte que ele obteve por suas orações, e cuja água é uma fonte de milagres.
Missões e encontro com o Oriente
Os irmãos se dispersam, Francisco atravessa as tensões de seu tempo e o relato o conduz até o episódio oriental em torno de Damieta.
No dia 30 de maio de 1216, tendo reunido um grande número de seus religiosos, enviou-os a pregar na França, na Espanha, na Inglaterra e na Alemanha, onde estabeleceram por toda parte mosteiros que são marcas sensíveis do sucesso de suas pregações. Quanto a ele, fez ainda uma viagem a Roma, para prestar seus deveres aos túmulos dos bem-aventurados Apóstolos São Pedro e São Paulo. Foi nesta viagem que, encontrando-se perto de um riacho com um pedaço de pão duro, preto e mofado como única refeição, não podia exaltar o suficiente sua felicidade, e testemunhou ao irmão Masseu, seu companheiro, que se considerava mais rico que os maiores da terra. Entrou então em uma igreja vizinha e pediu a Jesus Cristo com tanto ardor que lhe desse, assim como a seus filhos, o amor à santa pobreza, que seu rosto parecia lançar chamas. Avançou em direção ao irmão Masseu, de braços abertos, o céu nos olhos, chamou-o em voz alta, comunicou-lhe, soprando em seu rosto, o espírito que o preenchia e, como fora de si, explodiu em palavras inflamadas, verdadeiro hino de amor à divina pobreza. «Senhor Jesus, mostrai-me os caminhos de vossa caríssima pobreza! Tende piedade de mim e de minha senhora a Pobreza; pois eu a amo com tanto ardor que não posso encontrar repouso sem ela, e vós sabeis, ó meu Deus, que fostes vós quem me destes este grande amor. Ela está sentada na poeira do caminho, e seus amigos passam diante dela com desprezo. Vede o rebaixamento desta rainha, ó Senhor Jesus, ó vós que descestes do céu à terra para dela fazer vossa esposa e para ter dela, por ela e nela, filhos perfeitos. Ela estava na humildade do seio de vossa mãe; ela estava na manjedoura: como um escudeiro fiel, manteve-se armada no grande combate que travastes para nossa redenção. Em vossa Paixão, somente ela não vos abandonou. Maria, vossa mãe, deteve-se ao pé da cruz; mas a pobreza subiu convosco, ela vos apertou mais forte contra seu seio. Foi ela quem preparou com amor os rudes cravos que perfuraram vossas mãos e vossos pés; e quando morríeis de sede, esta esposa atenta vos fazia apresentar fel. Morrestes no ardor de seus abraços; ela não vos deixou, ó Senhor Jesus, ela não permitiu que vosso corpo repousasse senão em um túmulo estrangeiro. Foi ela quem vos aqueceu no fundo do sepulcro e que vos fez sair glorioso. Por isso vós a coroastes no céu, e quereis que ela marque os eleitos com o sinal da redenção. Oh! quem não amaria a senhora Pobreza acima de todas as outras! Ó pobríssimo Jesus! a graça que vos peço é de me dar o privilégio da pobreza. Desejo ardentemente ser enriquecido com este tesouro; peço-vos que a mim e aos meus seja próprio para sempre não poder possuir nada sob o céu para a glória de vosso nome, e não subsistir durante esta miserável vida senão do que nos for dado em esmola!»
Com discursos e arrebatamentos semelhantes, prosseguiram sua rota e chegaram a Roma poucos dias antes da morte do Papa Inocêncio III. A proteção concedida a São Francisco e o reconhecimento de sua Ordem foram sempre considerados como uma das maiores obras deste grande pontificado. Dois dias depois, Honório III subiu ao trono de São Pedro, e Francisco encontrou no novo Papa a mesma proteção e o mesmo amor. Foi nesta estadia em Roma que o servo de Deus encontrou pela primeira vez São Domingos, pobre como ele, como ele devotado e devorado pelo amor das almas. Como ambos rezassem na igreja de São Pedro, Jesus Cristo apareceu-lhes sentado à direita de seu Pai, o rosto irritado, segurando na mão três dardos inflamados para exterminar os soberbos, os avarentos e os voluptuosos. A santa Virgem Maria, lançando-se a seus pés, pediu misericórdia para seus filhos ingratos, apresentou ao Senhor Domingos e Francisco, como capazes de reformar o mundo e de converter os pecadores; e o Salvador aceitou esta oferta. No dia seguinte, na mesma igreja, os dois Santos, levantando os olhos um para o outro, reconheceram-se sem nunca terem se visto, avançaram com o mesmo movimento e mantiveram-se longamente abraçados sem dizer nada. Finalmente Domingos rompendo o silêncio: «Tu és meu companheiro e meu irmão», disse ele; «trabalharemos em conjunto. Permaneçamos unidos, e ninguém poderá prevalecer contra nós».
Os dois grandes pobres de Jesus Cristo, durante sua curta estadia em Roma, entretiveram-se longamente e muitas vezes sobre as coisas divinas, sobre os remédios a trazer às almas e às nações, e estes mendigos, desprezados pelo mundo, repartiram a conquista do mundo. Oraram, choraram juntos, e Domingos extraiu da alma de Francisco um amor ainda maior pela santa pobreza. Mostra-se no convento de Santa Sabina, no monte Aventino, a cela, hoje transformada em capela, que foi durante noites inteiras a testemunha de suas celestiais efusões. Quantas orações, quantas lágrimas, quantos gritos de amor subiram desta pobre cela até o trono de Deus! A alma dos dois Santos parece preenchê-la ainda, e o peregrino não pode nela penetrar sem uma profunda e religiosa emoção.
São Francisco deixou Roma e pôs-se a caminho para vir à França. Estando às portas de Siena, fincou seu cajado na terra e, na mesma hora, este pedaço de madeira criou raízes e cobriu-se de flores e folhas. Tornou-se depois uma grande árvore que durou até 1615, quando, de tanto ter sido depenada pelos peregrinos, secou: o que obrigou a cortá-la. Desde então, nasceu de seu tronco um rebento que se conserva com muito respeito, e que foi até cercado por uma grade de ferro para impedir que os passantes toquem nele. O cardeal Ugolini, tendo encontrado nosso Santo em Florença, desviou-o vivamente de seu desígnio de passar os montes. Francisco sentiu uma grande dor, que depositou amorosamente aos pés do Salvador crucificado. Enviou em seu lugar os irmãos Pacífico, Ângelo e Alberto de Pisa, e voltou a Santa Maria dos Anjos, feliz por passar aos olhos dos povos e de seus próprios filhos por um homem pouco sábio, inconstante em seus empreendimentos, que Deus colocava de volta em seu caminho, mas que não sabia manter-se nele por si mesmo. O evento não tardou a provar a justeza dos conselhos do cardeal Ugolini. A oposição que encontram todos os reformadores, e que não tinha faltado à obra de Francisco, moveu-se vivamente em Roma contra seu Instituto, cuja absoluta pobreza aterrorizava os meio-cristãos. Ele foi informado disso, e Deus mesmo dignou-se a mostrar-lhe em um sonho misterioso o perigo, ao mesmo tempo que a maneira de conjurá-lo. Viu em seu sono uma pequena galinha preta com patas de pomba, a qual tinha pintinhos em tão grande número que não os podia recolher sob suas asas, de modo que eles brincavam ao redor da galinha e permaneciam do lado de fora. Ao despertar, compreendeu, à luz do Espírito Santo, que esta galinha com patas de pomba era ele mesmo, homem simples e pequeno, e que, para defender sua inumerável família, era preciso um protetor mais poderoso. Resolveu, portanto, retornar a Roma para pedir ao Papa que confiasse a um cardeal a defesa e a proteção de sua Ordem.
Este cardeal protetor estava todo designado de antemão: era seu santo amigo, o cardeal Ugolini, bispo de Óstia, que tinha deixado Florença e estava de volta a Roma. Acolheu Francisco com sua ternura costumeira e, para bem fazê-lo visto pelo Papa Honório III e pelo Sagrado Colégio, exortou-o vivamente a pregar diante deste ilustre auditório. Sua Santidade quis ela mesma ouvi-lo. Francisco recusou longamente subir nesta primeira cátedra do mundo; mas, não podendo mais se defender, preparou-se cuidadosamente, contra seu costume, para fazer um sermão que fosse digno de um auditório tão augusto. Deus fez ver, nesta ocasião, que queria que ele fosse unicamente seu órgão. Assim que pronunciou seu tema, permaneceu mudo e não se lembrou mais do que tinha estudado. A palavra do Papa, que o exortou a nada temer, não foi capaz de restabelecê-lo; mas, quando se acusou publicamente de presunção por ter se apoiado demais em suas preparações, e que, tendo se posto de joelhos, abandonou-se ao Espírito de Deus para dizer o que ele lhe colocasse na boca, fez um sermão tão poderoso e tão terrível sobre a penitência, que todo o auditório ficou assustado e tocado de compunção; e, quando saiu da cátedra, havia aperto para beijar a terra por onde passava. Não teve dificuldade, depois disso, em obter o que pedia, e Sua Santidade deu-lhe voluntariamente, por protetor, o mesmo cardeal Ugolini, bispo de Óstia, que foi depois Papa sob o nome de Gregório IX.
O dia 26 de maio do ano de 1219 foi um grande dia na história da Ordem dos Frades Menores. Era a festa de Pentecostes, e os Frades, chegando de todas as partes do mundo, encontraram-se reunidos em Santa Maria dos Anjos para assistir ao segundo Capítulo geral que deveria abrir-se naquele dia. Seu número ultrapassou cinco mil: tal tinha sido a maravilhosa fecundidade da família de São Francisco. Viam-nos chegar em grupos, jovens e velhos, vestidos com o mesmo hábito, todos descalços, respirando a alegria da pobreza, e carregando em si o tesouro do divino amor: exército admirável, pacífico e conquistador, desarmado e todo-poderoso, dos pobres de Jesus Cristo. O mosteiro de Santa Maria dos Anjos, do qual Francisco e seus doze primeiros discípulos tinham tomado posse nove anos antes, não podendo abrigar esta multidão imensa, armaram-se na campanha circundante cabanas feitas de esteiras de junco e palha; foi sob estas tendas, tão belas quanto as do exército de Israel, que acampou o exército de São Francisco.
O cardeal Ugolini veio presidir o Capítulo. Oficiou pontificalmente no dia de Pentecostes e quis, à noite, como um general de exército, visitar as fileiras dos soldados de Jesus Cristo. Encontrou-os reunidos em grupos de cem ou de sessenta, ou mais ou menos. Entretinham-se das coisas divinas, de sua salvação e da conquista do mundo. A esta vista, o bom cardeal, os olhos banhados em lágrimas, disse a Francisco: «Ó irmão, em verdade, eis o campo do Senhor!» E Francisco, comovido como ele, transportado de alegria, de reconhecimento e de amor, levantou os olhos e as mãos para o céu, e reportando-os sobre seus irmãos e seus filhos, deixou cair de seu coração e de seus lábios palavras vivas, curtas, inflamadas, das quais a história nos conservou algumas: «Prometemos grandes coisas; prometeram-nos maiores; guardemos umas, suspiremos pelas outras. O prazer é curto, a pena é eterna; os sofrimentos são leves, a glória é infinita; muitos chamados, poucos eleitos: todos receberão o que tiverem merecido. Acima de tudo, ó meus irmãos, amemos a santa Igreja; oremos por sua exaltação, e nunca abandonemos a pobreza. Não está escrito:
«Confia ao Senhor o cuidado de tua vida, e ele mesmo te alimentará?» É assim que o pai exortava, consolava, glorificava seus filhos.
Seguindo a palavra de Francisco, o Senhor encarregou-se do cuidado de alimentar estes caros pobres. Estavam lá cinco mil, como aqueles que outrora tinham seguido o Cristo nas planícies da Judeia, desprovidos de tudo como eles, mas contando como eles com Aquele que tinha alimentado essas multidões com cinco pães e dois peixes. Viu-se logo afluir das redondezas, cavaleiros e camponeses, gente da cidade e do campo, que traziam aos pobres de Deus todas as provisões necessárias. Estes socorros duraram tanto quanto o próprio Capítulo, e a caridade daqueles que davam mostrou-se tão grande quanto a pobreza daqueles que recebiam. Uma multidão numerosa de gente de toda classe, jovens e velhos, clérigos e leigos, tinham vindo por curiosidade para contemplar a novidade deste espetáculo. Ao ver o despojamento dos irmãos, sua simplicidade, seu abandono completo à Providência e seu fraternal amor, muitos eram tocados até as lágrimas. «Eis», diziam a si mesmos, «o que mostra bem que o caminho do céu é estreito, e que é difícil aos ricos entrar no reino de Deus. Nós nos lisonjeamos de fazer nossa salvação desfrutando da vida e tomando todas as nossas comodidades, e estes bons irmãos se privam de tudo e tremem ainda. Nós gostaríamos de morrer como eles, mas não queremos viver da mesma forma; morre-se, contudo, como se viveu». E vieram, no número de mais de quinhentos, lançar-se aos pés de Francisco e pedir-lhe que os recebesse no número de seus irmãos.
A conquista destes novos discípulos, o crescimento e o renovamento do fervor, do espírito de religião e de disciplina nos antigos, não foram os únicos resultados deste Capítulo geral. Fizeram-se novos e importantes estatutos que terminaram de imprimir à Ordem seu tocante e glorioso caráter. A pobreza foi recomendada na construção dos mosteiros e, graças a esta regra, os Frades Menores permaneceram sempre no belo permanecendo no simples. Decidiu-se que, todos os sábados, uma missa solene seria celebrada em todos os mosteiros em honra da bem-aventurada Virgem Maria Imaculada: e, por esta decisão, a Ordem dos Frades Menores, já cavaleira da santa pobreza, proclamou-se a arauta da santíssima Virgem e a propagadora no mundo do grande dogma da Imaculada Conceição. Foi também decidido que nos ofícios dos Frades Menores seria sempre feita uma menção expressa de São Pedro e de São Paulo, e por aí, a Ordem de São Francisco proclamou e estreitou ainda os laços de devoção absoluta e de filial amor que a ligava à Igreja romana, mãe e mestra de todas as Igrejas.
Finalmente, os irmãos repartiram o mundo para nele espalhar o Verbo divino e para conquistá-lo para Jesus Cristo. Traçou-se o plano desta campanha contra Satanás, que deveria durar tanto quanto sua potência, isto é, até o fim dos tempos. O Papa Honório III, então em Viterbo, deu a aprovação da Santa Sé a este empreendimento. Munidos deste precioso passaporte, os Frades Menores abraçaram-se, disseram adeus e dispersaram-se como outrora os Apóstolos, levando a bênção de seu pai Francisco.
Depois de ter despedido esta feliz tropa, Francisco retomou seu primeiro desígnio de ir à Síria, persuadindo-se de que não podia senão ganhar muito, já que, se não tivesse a felicidade de converter o sultão do Egito com seu povo, podia esperar ser morto e conquistar a coroa do martírio. Levou consigo onze religiosos que uma criança lhe
designou pelo espírito de Deus. Sua navegação foi muito feliz. Chegou primeiramente ao porto de Acre, depois ao de Damieta, que estava então sitiado pelos cristãos. Estes, não tendo querido escutar os avisos proféticos que ele lhes deu, deram-se muito mal e foram derrotados em um dia que lhes custou muito sangue. Passou de lá para o campo dos Sarracenos, onde, depois de muitos ultrajes e golpes que recebeu destes infiéis, tendo se feito apresentar ao sultão, falou-lhe com uma liberdade e uma força surpreendentes, oferecendo-se mesmo a passar pelo fogo para lhe fazer ver a verdade da religião cristã. O temor humano impediu este príncipe de deferir às prementes instâncias que ele lhe fazia de se tornar cristão; mas não o maltratou e prestou-lhe, ao contrário, muitas honras. Deu-lhe mesmo permissão de pregar em suas terras e de batizar aqueles que pudesse converter: o que Francisco e seus discípulos fizeram com um maravilhoso sucesso, até receber Sarracenos em sua Ordem.
Foi então que o demônio, envergonhado destes progressos, suscitou uma mulher egípcia para solicitar o santo homem ao pecado. Este respondeu que consentia, mas que queria ele mesmo preparar um leito conveniente. Fez um com brasas ardentes, pôs-se sobre ele e disse-lhe: «Eis o remédio da concupiscência». Seu corpo não queimou no meio das chamas; mas a pecadora foi tocada de sua falta e dos outros crimes de sua vida passada: abriu os olhos à luz da fé e, tendo abraçado o Cristianismo e a profissão da continência, foi mesmo causa da conversão de um grande número de Maometanos da cidade onde morava. O Santo, depois de vários outros sucessos que teve neste país, e sobretudo depois que um convento inteiro de Beneditinos, em Montenegro, perto de Antioquia, com o abade e o prior, ter abraçado sua Regra, vendo que Deus não lhe queria dar a palma do martírio, resolveu voltar para a Europa. Tomou antes licença do sultão Melédin, que lhe tinha testemunhado tanta amizade, exortando-o de novo a abjurar os erros de Maomé e a reconhecer a divindade de Jesus Cristo. Uma tradição piedosa, e que não carece de valor, relata que estas exortações não foram inúteis, que este príncipe tomou então a resolução de fazer um dia o que ele lhe aconselhava; que, desde então, foi muito favorável aos cristãos, amigo da verdade e da justiça, misericordioso para com os pobres e afastado do vício da impureza; e que enfim, estando perto de morrer, foi visitado por dois religiosos que São Francisco, que estava no céu já havia doze anos, enviou-lhe, e recebeu de suas mãos o sacramento do batismo, na graça do qual expirou. Esta conversão é possível, pois nada é impossível a Deus; mas não é verossímil, e a tradição que a relata não repousa sobre bases suficientemente certas para que se possa lhe acrescentar uma fé inteira.
O servo de Deus, depois de ter pregado aos cruzados e posto os fundamentos de sua Ordem nestas infelizes regiões, voltou à Itália, onde foi recebido como um anjo do céu: fizeram-lhe honras incríveis em Veneza, em Pádua, em Bérgamo, em Cremona, em Bolonha e em todas as outras cidades por onde passou. Operou também grandes milagres e estabeleceu novos conventos onde não havia nenhum. Mudou a água corrompida de um poço em água muito boa, em Cremona, conjuntamente com São Domingos; curou um epilético e uma criança que tinha perdido um olho em Bolonha. Mas estes milagres não são nada em comparação com a reconciliação que ele promoveu entre dois gentis-homens prontos a se degolarem. Achando o edifício de seu convento de Bolonha muito suntuoso, queria fazê-lo derrubar para
fazer outro mais pobre, e tê-lo-ia feito efetivamente, sem o cardeal Ugolini, que lhe demonstrou que este mosteiro, sendo destinado aos enfermos, devia ter mais extensão e comodidade que os outros. É o que este grande amigo da pobreza fez em muitas outras ocasiões; quando lhe resistiam neste ponto, ele não entrava no convento e, por seu afastamento, privava-o de sua bênção. De Bolonha, foi ao deserto de Camaldoli, onde passou trinta dias na cela de São Romualdo, que chamam agora de São Francisco, e fez ali os exercícios aquele piedoso cardeal, que tinha uma singular veneração por seu mérito. Veio depois aos seus conventos do ducado de Espoleto, onde viu com seus próprios olhos o relaxamento que o irmão Elias, seu vigário geral, tinha introduzido em sua Ordem por uma falsa prudência que não era segundo o espírito de Deus, mas segundo o espírito do mundo. Deus fez-lhe então conhecer, por uma admirável visão de uma estátua, semelhante à de Nabucodonosor, os abusos e os desregramentos que se introduziam em sua Congregação por esta sabedoria da carne. Gemeu por isso longamente diante da divina Majestade e, depois de ter feito uma severa repreensão a este vigário, e tê-lo tornado ridículo ao vestir-se ele mesmo com o belo hábito que ele tinha mandado fazer, e rejeitando-o com desprezo, depôs-o de seu ofício.
Últimos anos e estigmas
Os últimos anos são marcados pela regra, a proximidade de Clara, o retiro, os estigmas e a morte do santo.
Sua humildade levou-o, ao mesmo tempo, a renunciar ao seu cargo de geral, para revestir dele o irmão Pedro de Cataneo, diante do qual se ajoelhou para lhe prometer obediência. Isso não impediu, contudo, que os religiosos o reconhecessem sempre como o geral, ou melhor, como um superior extraordinário, acima dos provinciais e do geral, e chamavam-no por excelência de Pai, como aquele que era, não apenas o fundador, mas também o sustento e a alma desta Congregação nascente. De fato, ele exerceu sempre em relação a ela o ofício de chefe, de médico e de pai. Quão severo era ele para com aqueles que encontrava culpados de propriedade, ou que queriam ter móveis e livros em particular! Que aversão não demonstrava ele contra esses grandes teólogos e esses sábios pregadores que, sob esse pretexto, queriam ser considerados e ter isenções, ou negligenciavam o espírito de penitência e de oração! Ele não era inimigo do estudo, como alguns desses soberbos o imputavam, e demonstrou-o bem pela alegria que sentiu quando o grande Alexandre de Hales entrou em sua Ordem e quando ordenou a Santo Antônio de Pádua que ensinasse a santa doutrina aos irmãos; mas ele era inimigo dessa ciência que incha, tanto mais que Deus lhe tinha dado a conhecer que seria pelo orgulho dos sábios sem devoção que sua Ordem cairia em decadência e perderia o espírito de humildade e de simplicidade que era toda a sua força. Ele dizia frequentemente que se enganam ao atribuir a conversão dos pecadores a esses pregadores eloquentes que só falam por estudo, e que não fazem nada do que pregam aos outros; mas que era preciso atribuir esses prodigiosos movimentos da graça às orações, às lágrimas e à santa vida de um grande número de pessoas simples, que atraem do céu essa bênção. Seu discernimento dos espíritos era maravilhoso. Ele reconhecia aqueles de seus irmãos que perseverariam em sua profissão, aqueles que a renunciariam pela apostasia, e até mesmo aqueles aos quais Deus faria misericórdia, ou que morreriam miseravelmente em sua obstinação: as predições terríveis que ele fez a esse respeito sempre tiveram seu efeito. Ele escreveu ao geral, Pedro de Cataneo, que fazia suas visitas, uma carta admirável pela qual o instruía de todos os deveres de um bom superior, e sobretudo da união que ele devia fazer da justiça e da misericórdia, para perdoar aos penitentes e para reprimir a audácia e a rebelião dos soberbos.
Este geral morreu; como os socorros milagrosos que se recebiam continuamente em seu túmulo, em Nossa Senhora dos Anjos, faziam ali grandes esmolas, o que alterava o espírito de pobreza, Francisco dirigiu-se a ele mesmo, e ordenou-lhe que cessasse de fazer milagres. Este santo homem obedeceu imediatamente, e reconheceu-se, ao abrir seu sepulcro para transportá-lo a outro lugar, que ele se tinha colocado de joelhos para receber esse comando. Quem diria que nosso Santo teria colocado em seu lugar esse famoso irmão Elias, que ele tinha deposto de seu vicariato, e cujo espírito altivo e presunçoso lhe era insuportável? Ele o fez, contudo, por uma ordem expressa de Deus, cujos caminhos são sempre retos e santos, embora o segredo nos seja impenetrável; e não somente o fez geral, mas colocou-se a seus pés e beijou-lhe a mão como a seu superior legítimo. Ele teve então o pensamento de se retirar para uma solidão; mas o Espírito Santo deu-lhe a conhecer que queria que ele continuasse suas pregações; como, de fato, ele o fez com mais sucesso do que jamais tinha feito. O que é admirável é que frequentemente ele pregava aos próprios animais, como os pássaros, os peixes e os cordeiros, mostrando-lhes as obrigações que tinham para com Deus, e quão justo era que louvassem um Criador tão bom e tão magnífico; e essas criaturas, privadas de razão, não somente o escutavam atentamente, mas testemunhavam também, por seus movimentos, a alegria que tinham de ouvi-lo, depois, após o sermão, serviam-se dos meios que a natureza lhes tinha dado para bendizer e louvar o Senhor.
Ele tinha sempre novos motivos de alegria, assim como de aflição e de dor. Era para ele uma felicidade indizível saber, ora do martírio de alguns dos seus que tinham levado a fé aos países infiéis, ora da vida pura, santa e brilhante em milagres de alguns outros, que enchiam todo o mundo com o odor de suas virtudes; mas ele tinha uma dor incrível de ver o relaxamento de vários outros que, apoiados pela autoridade de Elias, geral, que era um espírito forte, só buscavam alterar essa pobreza extrema da qual ele queria que os seus fizessem profissão. Nosso Senhor consolou-o nessa aflição, assegurando-lhe que haveria sempre em sua Ordem pessoas zelosas pela observância, em consideração das quais ele o amaria singularmente, e que ele seria o protetor até o fim dos séculos.
Foi por esse tempo que ele obteve a célebre indulgência da Porciúncula, da qual falamos no discurso sobre a festa de Nossa Senhora dos Anjos; tendo vindo jantar com Santa Clara, pelas instâncias que ela lhe fez, ele fez um discurso tão elevado e tão misterioso, que todos os assistentes e ele mesmo caíram em êxtase; o lugar onde estavam pareceu todo em fogo: o que atraiu ali os habitantes de Assis. Assim, essa refeição foi toda espiritual, e não houve nada além da alma que sainte Claire Discípula de Francisco de Assis e fundadora do ramo feminino franciscano. ali tomou seu alimento. Aquela que ele fez pouco tempo depois, no refeitório com o irmão Elias, foi bem diferente; esse geral, não podendo sofrer que o Santo tivesse feito colocar perto dele dois religiosos muito simples, por preferência aos grandes gênios e aos sábios que estavam na comunidade, murmurava consigo mesmo, e dizia que esse bom homem destruía a Ordem, ao rejeitar as pessoas hábeis para favorecer as almas baixas e rastejantes; mas o Santo, que viu distintamente tudo o que ele queria em seu espírito, disse-lhe, num tom espantoso, que era ele mesmo quem era o destruidor da Companhia por seu orgulho; mas que Deus não o deixaria sem castigo, porque ele seria apóstata e morreria no estado deplorável de sua apostasia. O acontecimento mostrou a verdade dessa predição; pois Elias deixou o hábito, e, tendo se juntado ao imperador Frederico, excomungado da Igreja, morreu fora da religião; Deus fez-lhe, contudo, misericórdia, dando-lhe então o espírito de penitência, em consideração das orações que São Francisco tinha feito por ele durante o curso de sua vida.
Havia já muito tempo que este bem-aventurado Patriarca, querendo ser útil a todo o mundo, tinha instituído sua Terceira Ordem para as pessoas seculares que, sem deixar os compromissos legítimos de seu estado, quisessem levar no mundo uma vida mais pura e mais perfeita que a do comum dos cristãos. Ele recebeu ali em todo tempo homens, mulheres e virgens de grande mérito, e sabe-se bem que essa Terceira Ordem tornou-se um viveiro de Santos e Santas. No ano de 1222, ele colocou nela Mateus de Rubeis, da casa dos Orsini, e, abraçando seu filho, previu-lhe que seria um dia papa, como ele o foi sob o nome de Nicolau III. De qualquer lado que se voltasse, não era por toda parte senão prodígios. Ele transformou os espinhos onde São Bento tinha se rolado em rosas de uma beleza e de um odor maravilhosos. Em Gaeta, um navio veio por si mesmo tirá-lo de uma multidão de povo que o sufocava na margem, e serviu-lhe depois de púlpito para pregar. No mesmo lugar e nos arredores, ele ressuscitou três mortos; e, tendo se rolado sobre espinhos muito picantes para extinguir um movimento desonesto que tinha sentido em seu corpo, tirou para sempre desses espinhos que o tinham deixado em sangue, a faculdade de picar. Em Bari, ele se deitou sobre uma brasa ardente para fazer fugir uma impudica que o imperador Frederico tinha enviado a fim de provar sua castidade. No monte Gargano, que ele visitou com uma devoção incrível pelo amor que ele tinha pelo arcanjo São Miguel, ele fez nascer uma fonte de água viva em um lugar seco e incapaz de tê-la. Em Gubbio, ele amansou um lobo para mostrar aos habitantes que sua dureza e sua impenitência os tornavam piores que lobos. Ele fez também em diversos lugares quantidade de prodígios sobre as árvores, tornando férteis as que eram estéreis, e estéreis as que eram férteis; fazendo crescer umas e impedindo o crescimento de outras, ou fazendo-as produzir no inverno folhas, flores e frutos.
Após tantas maravilhas, Nosso Senhor ordenou-lhe que fizesse uma nova Regra mais curta e mais bem ordenada que a primeira. Ele retirou-se para isso ao convento de Monte Colombo, onde, após um jejum de quarenta dias a pão e água, estando todo cheio de luzes celestes, ele ditou a um de seus companheiros as ordenanças que o Espírito Santo lhe colocava na boca. É com essa nova lei que ele desceu da montanha como um outro Moisés: ele a trouxe ao seu convento, e a colocou entre as mãos do geral Elias para fazê-la publicar e observar em toda a Ordem. Este, achando-a muito austera, não queria de modo algum que fosse promulgada; mas não ousando resistir diretamente ao bem-aventurado fundador, fingiu tê-la perdido. Então o Santo retornou uma segunda vez à montanha, e Nosso Senhor, continuando seus favores em relação a ele, colocou-lhe a mesma regra, palavra por palavra, na boca, para ditá-la e fazê-la escrever. O geral, tendo aviso disso, reuniu vários superiores de sua facção, e, com essa tropa de covardes provinciais e guardiães, veio encontrá-lo para declarar-lhe que não receberiam a regra que ele queria lhes dar. Mas eles foram surpreendidos ao ouvir a voz do próprio Jesus Cristo que lhe disse, em sua presença, estas palavras distintas: «Francisco, esta regra não é obra tua, mas minha; entendo que seja guardada à letra, à letra, à letra, sem glosa, sem glosa. Se alguns não a quiserem guardar, que sejam rejeitados da Companhia como difíceis, amotinados, escandalosos e incorrigíveis. Eu sei a capacidade do homem, e sei as graças e os socorros que quero lhe dar». Esses superiores, tomados de pavor e de espanto, caíram por terra e não ousaram abrir a boca. O Santo levantou-os e mandou-os embora em paz; depois ele os seguiu, tendo o rosto todo brilhante de luz pela conversa que tinha tido com Deus. Ele encontrou ainda resistência quando fez ler a ordenança de nada possuir nem em comum nem em particular; mas tendo retornado uma terceira vez ao oráculo divino, aprendeu que os Irmãos não possuindo nada, não deixariam contudo de ter nada, porque teriam por fundo o tesouro inesgotável da divina Providência. Isso fez com que essa regra fosse finalmente aceita, e que depois ela fosse aprovada e confirmada por uma bula do papa Honório III, em 29 de novembro de 1223.
O cardeal Brancaleone pressionou tanto em Roma nosso Santo para permanecer alguns dias em sua casa, que após muita resistência ele foi obrigado a consentir em ser alojado em uma torre abandonada de seu palácio; mas Deus, que o queria inteiramente afastar da corte dos grandes, permitiu ao demônio batê-lo ultrajantemente desde a primeira noite que ele ali se alojou. Ele partiu então logo no dia seguinte, com a bênção do Papa, para ir passar a festa de Natal em seu convento de Grécia. Foi perto desse convento que, tendo feito fazer uma estrebaria e uma manjedoura, com a figura do menino Jesus, e tendo feito vir um boi e um burro para representar o mistério de seu nascimento, ele armou ali também um altar onde se disse a missa da meia-noite. Ele serviu de diácono nessa missa, e pregou depois sobre as grandezas inefáveis desse menino, em presença de uma infinidade de povo que ali tinha acorrido. Ele o chamava frequentemente em seu sermão o Menino de Belém, e mereceu, pela fervor dessa devoção, que esse amável Salvador, aparecendo-lhe sob uma forma sensível, lhe permitisse abraçá-lo e lhe desse mil beijos. Fez-se depois uma capela no lugar onde estava essa estrebaria, a qual era extremamente frequentada pelos peregrinos.
Assim que ele esteve de volta a Assis, Santa Clara e todas as suas religiosas suplicaram-lhe que lhes desse uma regra como ele tinha dado uma aos seus religiosos. Ele retirou-se para isso a uma solidão com o cardeal Ugolino, protetor de sua Ordem, para ali receber as luzes do céu. Ele ditou então essa regra por inspiração de Deus, e esse cardeal não fez dificuldade de ser seu secretário para uma coisa tão santa e de escrevê-la sob ele. Todas as religiosas a receberam com uma submissão e um fervor maravilhosos. Contudo, o Santo ficou muito tempo sem querer permitir que seus religiosos se encarregassem de sua condução: e deu-lhes por visitador um excelente servo de Deus, da Ordem de Cister, chamado o P. Ambrósio. Ele temia os desordens que chegam da muito grande frequência dos parlatórios e das grades, e ele acreditava não poder desviar suficientemente seus filhos de um escolho que tem sido tão danoso a pessoas muito espirituais; mas, desde então, ele foi forçado, pelo cardeal protetor, a sofrer que o P. Filipe Lelong, de sua Ordem, sucedesse ao P. Ambrósio no superiorato do convento de São Damião.
Seria aqui o lugar de falar de sua segunda retirada ao monte Alverne, da Quaresma que ele ali jejuou em honra de São Miguel, e dos sagrados estigmas de Jesus Cristo crucificado que ele recebeu pela impressão de um serafim todo ardente e todo luminoso, a seus pés, a suas mãos e a seu lado; mas nós já falamos disso amplamente em 17 de setembro. Seu retorno ao monte Alverne foi honrado por vários milagres, e viu-se uma cruz de luz que caminhava diante dele para significar que ele tinha se tornado todo ardor e toda luz, e um homem inteiramente consagrado à cruz de Jesus. Ele cometeu contudo uma imperfeição: tendo ido bater à porta da cela do irmão Bernardo de Qui Alverne Local célebre da ordem franciscana onde Conrado permaneceu. ntavalle, que estava em uma muito alta contemplação das verdades divin as, e est stigmates Marcas místicas da Paixão de Cristo recebidas pela santa. e não lhe tendo respondido, ele sentiu algum transtorno em si mesmo. Mas Nosso Senhor repreendeu-o disso imediatamente, perguntando-lhe se era razoável que esse santo homem deixasse seu Criador, com quem ele tinha a honra de conversar familiarmente, para falar a uma pequena criatura como ele. Essa reprimenda tocou-o tão fortemente, que, para se punir de sua falta, ele forçou desde então o irmão Bernardo a colocar-lhe o pé sobre a garganta, tratando-o de soberbo, de orgulhoso e de miserável verme da terra.
As lágrimas que corriam continuamente de seus olhos tinham-no tornado cego; mas, todo cego que ele era, ele não deixava de se fazer conduzir ou carregar nas cidades e nos povoados ao redor para ali pregar a penitência. Nos dois anos em que sobreviveu à impressão dos estigmas, ele foi sobrecarregado de doenças e de dores incríveis. Mas, no mais forte de suas dores, tomavam-no êxtases e arrebatamentos que o levavam em espírito até o céu. Ele dava também bênçãos contínuas a Deus, louvando-o em suas perfeições infinitas e em todas as suas criaturas, como no sol, na lua, no fogo, no ar, na água, na terra, no frio e no calor, que ele chamava seus irmãos e suas irmãs. Nosso Senhor, de seu lado, consolava-o, ora por aparições cheias de amor, ora por uma música celeste, ora dando-lhe garantias infalíveis e das quais ele não podia de modo algum duvidar, que ele era do número dos predestinados, ora marcando-lhe precisamente o tempo e a hora de sua morte. Suas grandes doenças, e sobretudo sua dor nos olhos, que era insuportável, obrigaram seus filhos a conduzi-lo a Rieti, onde estava o Papa com seus cardeais, a fim de fazê-lo ver pelos médicos que seguiam a corte. Ele foi por toda parte recebido com aclamações extraordinárias, e o próprio Papa tomou um cuidado particular de sua cura. Quando lhe aplicaram um cautério atrás da orelha, o que se fez no convento de Monte Colombo, tendo pedido ao seu irmão o fogo (é assim que ele o chamava) para lhe ser favorável, ele não sentiu nenhuma dor. Sua paciência dava admiração aos médicos e aos cirurgiões, e ele os pagava por milagres da pena que eles tinham de visitá-lo. Um médico tendo-lhe dito que, o pinhão de sua casa se separando do corpo do edifício, ele temia a ruína, ele fez com que tomasse de seus cabelos para colocar nas fendas; e esse meio foi tão eficaz, que o pinhão se juntou na hora mesma aos telhados e às muralhas dos quais se tinha separado. Além disso, esse homem admirável, que não se curava a si mesmo, curava frequentemente outros doentes. Ele curou entre outros um beneficiado chamado Gedeão, afligido de uma horrível paralisia que lhe tinha contorcido todos os membros; e, como era um libertino, ele o converteu ao mesmo tempo; mas disse-lhe que, se ele retornasse a suas desordens, seria surpreendido por morte súbita para ser precipitado no inferno: o que aconteceu efetivamente; pois, tendo retomado sua primeira vida, ele foi morto sob as ruínas da casa onde estava deitado. Ele fazia também mil outras ações de caridade; frequentemente ele enviava seu manto, sua túnica e seu pão aos pobres que ele sabia estarem na necessidade; ele reconciliava os inimigos, apaziguava as brigas acesas entre as cidades, as famílias e as pessoas particulares; e sobretudo ele restabeleceu em Assis a paz que um grande desentendimento entre o governador e o bispo, sustentados cada um por um forte partido, tinha inteiramente arruinado. Ele previa a vários o que lhes devia acontecer, a fim de encorajar uns pela esperança da divina misericórdia, e de humilhar outros pela vista dos castigos que lhes eram destinados. Ele explicava aos doutores as mais difíceis passagens da Escritura, e fazia-os ver, por seus discursos cheios de sabedoria, que sua ignorância era mais iluminada que toda a sua ciência, por mais profunda que eles a acreditassem.
Como o rumor das aproximações de sua morte se espalhou por toda parte, cada cidade desejava ser o lugar bem-aventurado onde esse astro se eclipsaria na terra para ir brilhar no céu; mas a cidade de Assis levou a melhor sobre todas as outras. Levaram-no para lá com boa guarda, de medo que esse tesouro não fosse levado pelas cidades vizinhas. Estando em seu convento da Porciúncula, ele deu admiráveis instruções aos seus filhos tocando a pobreza e a confiança na divina Providência, a maneira de se comportar no estabelecimento e na construção dos novos conventos, a forma de receber e de instruir os noviços, e muitos outros pontos importantes à sua religião; ele instruiu também muito excelentemente Santa Clara e suas filhas por cartas cheias do espírito de Deus. Enfim, após ter dado a todos sua bênção, ele se dispôs a essa última hora que devia ser a primeira de sua felicidade eterna. Ele recebeu então os sacramentos com uma devoção digna da grandeza de sua lei e do respeito que ele tinha por essas fontes vivificantes da salvação dos homens. Depois, querendo morrer no último excesso da pobreza, ele tirou seu hábito, saiu de sua cama e deitou-se sobre a terra, a fim de poder dizer com Jó: «Saí nu do seio de minha mãe e para lá voltarei nu». Ele tinha apenas sua mão esquerda sobre a chaga de seu lado, a fim de escondê-la aos olhos dos assistentes. Então, aquele que servia de guardião apresentou-lhe uma velha túnica e uma corda, por esmola, e ordenou-lhe que as recebesse em espírito de obediência: ele as recebeu imediatamente e permitiu que o revestissem com elas; mas ele pediu aos seus irmãos, que após sua morte o deixassem algum tempo nu sobre o assoalho, para imitar mais exatamente a pobreza soberana de seu Salvador expirando na cruz. Não se pode exprimir a alegria que ele tinha de terminar sua vida em um despojamento tão perfeito e tão universal. Além disso, Nosso Senhor consolava-o admiravelmente pelas novas garantias que ele lhe dava, de que ele ia gozar por uma eternidade de sua presença. Seus filhos desfaziam-se em lágrimas ao redor de sua cama. Ele lhes deu o último adeus por estas palavras: «Adeus, meus caros filhos, permaneçam constantemente no temor de Deus. Vocês vão ser provados por grandes tentações; sejam firmes em suas boas resoluções: eu os abandono à misericórdia do Senhor, para quem eu vou». Depois, tendo feito ler o Evangelho de São João que começa por estas palavras: *Ante diem festum paschæ*, ele recitou o salmo CXLII, e a estas palavras, por onde ele termina: «Tirai minha alma da prisão para dar louvor ao vosso nome; os justos me esperam até que vós me recompenseis de meus trabalhos», ele baixou suavemente a cabeça, fechou os olhos e rendeu seu espírito a Deus. Foi no sábado, 4 de outubro de 1226, no quadragésimo quinto ano de sua idade, no vigésimo primeiro de sua conversão, e no décimo nono do começo de sua Ordem.
Na mesma hora, várias pessoas tiveram revelação de sua felicidade e viram-no mesmo subir ao céu. Seu corpo tendo sido colocado nu sobre a terra segundo seu desejo, ele pareceu tão belo e tão brilhante, que nunca se teria dito que era esse corpo que ele tinha tornado negro, seco e desfigurado pela rigidez de suas penitências; ele exalava também um odor admirável que perfumava todo o lugar. Uma dama romana, chamada Jacoba de Settesoli, trouxe, por ordem de um anjo, um hábito novo para cobri-lo. Ela tinha sido muito afeiçoada a ele durante sua vida, e tinha recebido grandes graças por suas instruções e pela intercessão de suas orações; ela teve então a satisfação de ver as chagas que o serafim tinha impresso nele. Muitas outras pessoas as viram também.
A igreja de Assis, primeiro monumento gótico da Itália, é construída sobre a cruz e oferece, em sua parte inferior, a figura misteriosa do Tau impresso na fronte de São Francisco. Ela se divide em igreja baixa e em igreja alta: a igreja baixa representa Francisco sofrendo tanto na alma quanto no corpo; a igreja alta é o símbolo de Francisco eternamente glorificado no céu. — Vê-se no Louvre um belo quadro de Giotto, representando a estigmatização de São Francisco. No degrau, há três compartimentos verdadeiramente maravilhosos, dos quais um representa Francisco pregando aos passarinhos. — Ele é também representado: 1° recebendo o menino Jesus das mãos da Virgem; 2° em êxtase, sentado, as mãos apoiadas sobre uma cabeça de morto; 3° recebendo uma cruz das mãos do menino Jesus; 4° sentado na terra, segurando um crucifixo entre suas duas mãos; 5° de joelhos, segurando o menino Jesus entre seus braços; 6° distribuindo os cordões de sua Ordem a diversas pessoas; 7° tendo os pés e as mãos perfurados por grossos pregos. Perto dele um carneiro, imagem de Jesus Cristo ou da doçura; 8° em êxtase, sustentado pelos anjos; 9° colocado sobre as nuvens; 10° pregando aos irmãos; 11° dando a mão a um lobo que lhe apresenta a pata, para lembrar um episódio de sua vida; 12° segurando dois ramos de flores; 13° de joelhos, meditando; 14° morrendo: ele está deitado em sua cela, e perto dele estão três religiosos que o assistem.
Culto, relíquias e escritos
Após a morte de Francisco, o texto descreve a veneração de seu corpo, sua canonização, seus escritos e a primeira memória franciscana.
## CULTO E RELÍQUIAS. — ESCRITOS. — ORDEM DE SÃO FRANCISCO.
Os religiosos, tendo lavado e embalsamado o corpo, vestiram-no com uma túnica nova aberta ao lado do coração e expuseram-no sobre ricos tapetes à veneração dos fiéis. Seu coração e suas entranhas foram retirados e depositados na igreja de Santa Maria dos Anjos. Seu corpo foi então levado, em meio a archotes ardentes, ao canto dos salmos e dos cânticos que faziam uma melodia toda celestial, ao convento de São Damião, que era o de Santa Clara, a fim de que esta santa dama e todas as suas religiosas tivessem a felicidade e a consolação de ver essas chagas que causavam o espanto de todo o mundo. Santa Clara esforçou-se para tirar o cravo de uma mão, mas não pôde obter nada além de sangue que escorreu da chaga que ela havia agitado; de lá, os principais habitantes de Assis, tendo eles mesmos se encarregado desse precioso fardo, transportaram-no com uma pompa incrível para a igreja de São Jorge, não podendo esses piedosos cidadãos suportar que ele permanecesse fora, exposto aos insultos e às empresas das cidades vizinhas. Desde então, realizaram-se tantos milagres em seu túmulo que, dois anos depois, em 7 de julho de 1228, Gregório IX, que havia sido o protetor de sua Ordem, canonizou-o solenemente em Assis. Este Papa não duvidava das chagas de seus pés e de suas mãos, tendo-as visto ele mesmo a descoberto nas conversas familiares que tivera com ele. Duvidava apenas da chaga do lado e do que se dizia que ela era semelhante a uma boca agradavelmente entreaberta, e que dela saía algumas vezes sangue; mas o Santo lhe tirou essa dúvida aparecendo-lhe, mostrando-lhe essa mesma chaga e fazendo escorrer, em sua presença, um pequeno riacho de sangue. Sua Santidade encheu um frasco com ele.
Imediatamente após a canonização, começou-se uma igreja magnífica em sua honra, em um lugar que chamavam de colina do Inferno, e que ele havia escolhido por humildade para o local de sua sepultura, porque era o lugar onde se costumava executar os criminosos; e, quando a igreja inferior foi concluída, transportou-se para lá seu corpo sagrado em 26 de maio de 1230; esconderam-no ali em uma cripta a fim de assegurar mais seguramente a posse. A igreja inteira, com o mosteiro anexo, foi inteiramente concluída e consagrada pelo papa Inocêncio IV, em 1243. O mosteiro foi chamado a partir desse dia de Negro-Convento, o convento sagrado por excelência, e a igreja recebeu o título de capela papal. Eis a relação de sua descoberta em 1818, tal como a encontramos em um memorial apresentado ao papa Pio VII pelo reverendo Padre Donis, ministro geral da Ordem dos Frades Menores Conventuais.
O estado do corpo de São Francisco de Assis e o lugar que o continha foram durante seis séculos problemas que, após terem exercido a pena de vários escritores, não haviam sido resolvidos. Sabia-se que, em 1230, este santo corpo havia sido retirado pelos habitantes de Assis no momento em que o transferiam para a nova igreja construída em honra ao servo de Deus na colina do Inferno, perto desta cidade: e desde esse momento não se pôde conhecer o lugar preciso de seu túmulo. Uma tradição, bastante geralmente difundida entre os franciscanos, fazia-os acreditar que o corpo de seu santo fundador estava contido em uma igreja subterrânea situada nessa colina. Esta tradição, não estando apoiada em nenhum fundamento sólido, havia sido várias vezes combatida, e a disputa havia sido até bastante séria, para obrigar o papa Paulo V a proibir qualquer pesquisa para encontrar o corpo de São Francisco. Esta proibição era tanto mais sábia quanto não se tinha nenhuma noção certa sobre a igreja subterrânea onde se pretendia que ele havia sido depositado, nem os meios de penetrar nela. Contudo, um certo personagem teve, em 1818, a temeridade de afirmar que ele estava enterrado nessa igreja, e foi bastante ousado para dar falsas indicações sobre a maneira de descer até lá. O tom de segurança com que falava inspirou alguma confiança, e o Padre Denis, ministro geral dos Frades Menores Conventuais que servia a igreja de São Francisco, obteve do papa Pio VII a permissão de empreender escavações na igreja inferior para descobrir o lugar que se indicava. Começaram-se durante a noite de 5 de outubro de 1818 os trabalhos que eram feitos secretamente. Os primeiros esforços foram infrutíferos; adquiriu-se logo a certeza de que não existia igreja subterrânea, e que as asserções do personagem de quem falamos não tinham nada em comum com a verdade. Contudo, o desejo de descobrir o santo corpo fez continuar os trabalhos em outra parte da igreja. Acreditou-se ter mais sucesso escavando sob os degraus do altar-mor. Desta vez a esperança não foi enganada; encontrou-se primeiro um buraco muito estreito cujo fundo estava preenchido por um cimento tão duro que só pôde ser removido com esforços incríveis. Mais profundamente, encontrou-se dois muros que conduziram à descoberta de duas pedras colocadas uma sobre a outra e que pareciam ter sido postas de propósito naquele lugar. Tendo sido quebradas essas pedras, encontrou-se uma terceira cuja posição anunciava que ela cobria um espaço vazio. Perfurou-se esta com precaução, e pela abertura viu-se uma grade de ferro. Com a ajuda de uma luz, iluminou-se o interior dessa grade que apresenta um esqueleto humano deitado em um caixão de pedra. Os religiosos que dirigiam as escavações não duvidaram de que fosse o corpo de São Francisco, e sua alegria foi tão grande quanto seus esforços haviam sido penosos, pois só após cinquenta e duas noites de um trabalho obstinado obtiveram esse feliz resultado. A descoberta ocorreu na noite de 12 de dezembro de 1818; e no momento mesmo aqueles que se encontravam presentes sentiram um odor muito suave que exalava do interior da grade.
O primeiro cuidado do guardião do convento de São Francisco foi informar seu superior geral, que reside em Roma, do feliz desfecho do empreendimento; este o fez conhecer por sua vez ao soberano pontífice Pio VII, que, tendo ordenado primeiro deixar o corpo santo na situação em que o encontrariam, nomeou imediatamente uma comissão composta pelos bispos de Assis, de Nocera, de Espoleto, de Perúgia e de Foligno, para fazer o exame jurídico e constatar a autenticidade; pois, tanto quanto a Igreja mostra veneração pelos restos preciosos dos amigos de Deus, tanto toma precauções para não apresentar senão verdadeiras relíquias à piedade dos fiéis. O Santo Padre apressou-se em dirigir a esses prelados, em 8 de janeiro de 1819, cartas apostólicas pelas quais lhes diz que, desejando conhecer o que essa descoberta oferece de certo, confia na boa-fé e na exatidão deles para constatar a identidade do santo corpo; quer mesmo que cada um deles lhe comunique sua opinião particular. Fiéis em cumprir as intenções do chefe da Igreja, os cinco bispos reuniram-se sem demora em Assis e começaram as informações que estavam encarregados de fazer. Não se contentaram em interrogar os religiosos e os operários que haviam contribuído para descobrir o caixão; após terem exigido deles o juramento, chamaram diversos professores que ensinavam física e química nos colégios das cidades vizinhas. Havia-se encontrado com o esqueleto os restos de um hábito grosseiramente tecido, algumas pequenas bolas que pareciam ser contas de rosário, restos de um cordão e oito moedas do século XIII; esses objetos foram submetidos ao exame dos professores que deram igualmente seu parecer sobre a cristalização da qual vários dos ossos estavam cobertos. Médicos e cirurgiões foram também ouvidos: e, a partir da inspeção do esqueleto, julgaram que deveria ser o de um homem de meia-idade e de estatura mediana.
Tendo assim tomado todos os meios que a prudência indicava para bem conhecer a verdade, os cinco bispos endereçaram seu auto ao soberano Pontífice, que, por sua vez, nomeou uma comissão para examinar o procedimento. Esta comissão, composta de cardeais e outros graves personagens, tendo se pronunciado da maneira mais favorável, Pio VII, após um exame que ele mesmo fez da causa, deu finalmente, em 5 de setembro de 1822, cartas apostólicas, em forma de breve, para declarar autenticamente que o corpo encontrado sob o altar-mor da basílica de São Francisco em Assis é verdadeiramente o desse santo patriarca. Relata ali sumariamente a maneira como essas santas relíquias foram descobertas, as precauções que ordenou tomar para não ser induzido em erro, e abençoa o Pai de toda consolação, "cheio", acrescenta ele, "da viva esperança de que a invenção deste precioso corpo será para nós um penhor novo e singular de uma proteção toda especial deste grande Santo, em tempos tão difíceis". O soberano Pontífice ordena então que esse precioso depósito seja conservado intacto no lugar onde foi encontrado, e quer que um monumento seja erguido nesse mesmo lugar à glória de São Francisco. As intenções de Pio VII foram cumpridas: um mausoléu em mármore cobre agora o jazigo onde repousa em seu antigo caixão o corpo do servo de Deus. Algumas relíquias apenas foram extraídas por ordem do mesmo Pontífice, para serem enviadas ao imperador da Áustria Francisco II, que as fez expor à veneração pública. A piedade filial dos franciscanos para com seu santo instituidor e o respeito dos habitantes de Assis por seu ilustre concidadão não se sentiram limitados a um simples monumento. Escavou-se ao redor do túmulo, na rocha viva, profundamente o suficiente para obter o espaço necessário para uma igreja que ali se estabeleceu e que tem a forma de uma cruz grega. O túmulo do Santo encontra-se no meio; é encimado por uma pequena cúpula, enriquecida com colunas de mármore precioso e ornamentos em bronze dourado; à frente do monumento encontra-se o altar-mor, dois outros estão colocados nas extremidades dos braços da cruz. Uma larga claraboia, que sobe até o solo, dá a esta igreja subterrânea a luz conveniente; ela é revestida de diversos mármores que a embelezam; imediatamente acima encontra-se a igreja inferior do convento, e sobre esta a igreja alta ou superior, vasta e bela basílica, que é rica em pinturas preciosas.
Enquanto a Igreja procedia com uma sábia lentidão ao reconhecimento do corpo de São Francisco, o Senhor manifestava por prodígios a autenticidade desses preciosos restos. Uma religiosa dominicana, chamada irmã Maria Luísa, afligida por um tumor no joelho esquerdo, do qual sofria muito, e para cuja cura não se havia empregado nenhum remédio, foi, no mês de janeiro de 1819, subitamente libertada dessa enfermidade, pela aplicação que fez de um pano que havia tocado o repelente de São Francisco. Ela e quatro de suas companheiras, interrogadas juridicamente, por ordem do bispo de Foligno, atestaram a verdade dessa cura súbita.
"José Natalini, multeiro, habitante de Assis, estava há quatro anos atormentado por um reumatismo que, no curso dos meses de janeiro e fevereiro de 1813, tornou-se tão violento que ele ficou durante todo esse tempo retido na cama, sem poder se mover. Essas dores foram ainda maiores em 1819, na mesma época, e os remédios que um médico lhe havia indicado não puderam lhe proporcionar nenhum alívio. Uma mulher piedosa convenceu Natalini a se deixar levar à igreja de São Francisco. Ele consentiu, e encontrou-se no momento em que os bispos selavam a grade de ferro que continha o santo corpo. A pedra que havia recoberto o caixão estava depositada na igreja; Natalini estende-se sobre essa pedra e reclama com confiança o socorro de São Francisco; no mesmo instante todas as suas dores cessam, ele se levanta perfeitamente curado e retorna em plena saúde à sua morada. É a deposição jurídica que ele fez diante do bispo de Assis em 5 de julho seguinte; deposição que foi confirmada pela de seu médico e de outras duas testemunhas.
O papa Leão XII, por seu decreto de 22 de junho de 1824, ordenou que, no futuro, toda a Ordem de São Francisco celebrasse cada ano, em 12 de dezembro, do rito duplo maior, a festa da invenção do corpo de seu santo patriarca".
Muitos documentos escritos de São Francisco chegaram até nós: são cartas, discursos, tratados ascéticos, conversas, pensamentos, curtas observações, poesias, peças menos autênticas. Foram reunidos e publicados por Jean de la Haye, *S. Francisci Opera*, Prædonti, 1739, in-fol. Suas poesias encontram-se também na coletânea intitulada: *Rime di diversi antichi autori Toscani*, Veneza, 1731, in-8°. Elas foram muito frequentemente reimpressas. Contestou-se que todas sejam de São Francisco. Em todo caso, o mais célebre desses cânticos, o do Sol, é incontestavelmente dele.
A Ordem de São Francisco recebeu grandes privilégios de vários Papas, e notadamente da bula *Mare Magnum*, publicada por Sisto IV em 1474. Leão X estendeu esses privilégios, em 1519, a todas as outras Ordens mendicantes.
A primeira Ordem de São Francisco, que deu à igreja quarenta e cinco cardeais e cinco Papas: Nicolau IV, Alexandre V, Sisto IV, Sisto V, Clemente XIV, divide-se em religiosos *Conventuais* e em religiosos da *Observância*. A origem dos Conventuais remonta ao tempo de Elias; pouco tempo após a morte de nosso Santo, eles obtiveram de seus gerais, e depois dos Papas, a permissão de receber rendas e fundações. Chamaram-nos Conventuais, porque viviam em grandes conventos, ao passo que aqueles que seguiam a Regra em toda a sua pureza permaneciam em eremitérios ou em casas baixas e pobres; e foi esse zelo pela Regra que os fez chamar *Observantes* ou Padres da *Observância regular*. Dava-se principalmente esse nome àqueles que seguiam a reforma estabelecida em seu instituto primitivo, e da qual São Bernardino de Sena foi o autor em 1419.
As reformas desta Ordem tendo se multiplicado, Leão X, em 1517, reduziu-as todas a uma, sob a denominação de Franciscanos reformados, e permitiu a cada uma ter seu geral.
Família franciscana e posteridade
O final do texto amplia a vida de Francisco para a história dos ramos franciscanos, das Clarissas e da Terceira Ordem.
Os Observantes da França foram chamados de *Cardebers*, devido à corda que lhes sai do cinto.
Entre os Observantes, algumas reformas mais severas mantiveram-se, apesar da união feita por Leão X, ou estabeleceram-se desde então. Chamam-se estes de Observantes, da *Estrita Observância*. Distinguem-se entre eles os *Franciscanos descalços* da Espanha, sobre os quais se pode consultar a vida de São Pedro de Alcântara; na Itália, são chamados de Franciscanos reformados. Eles formam uma congregação distinta, que é sobretudo florescente na Espanha. Possuem vários conventos na Itália, dos quais um fica em Roma, no Monte Palatino. Têm outros no México, nas Ilhas Filipinas, etc.
A reforma dita dos Recoletos foi estabelecida na Espanha no ano de 1509, pelo Padre João de Guadalupe; foi recebida na Itália em 1525 e na França em 1584. O nome de Recoletos foi dado a estes religiosos porque viviam em conventos solitários e faziam uma profissão mais especial da prática do retiro e do recolhimento.
A reforma dos Capuchinhos foi estabelecida na Toscana em 1523, por Mateus Baschi de Urbino. Não se pode, como fizeram alguns autores, atribuí-la a Bernardino Ochino, que só entrou na Ordem em 1534. Este tornou-se um célebre pregador e foi eleito geral de sua Ordem; mas apostatou depois e abraçou o luteranismo. Pregou a poligamia por seus discursos e exemplo, e morreu miseravelmente na Polônia, após tornar-se objeto de indignação pública pela horrível corrupção de seus costumes.
Os Capuchinhos têm um remendo na parte de trás de seu hábito, como São Francisco recomenda em seu testamento. Usam barba longa, ao passo que São Francisco, segundo Wadding, Filipe, etc., a usava extremamente curta. A reforma dos Capuchinhos foi aprovada por Clemente VII em 1523. Os Capuchinhos e os Recoletos usam um hábito de cor marrom; mas o dos Cordeliers conventuais é preto. O convento de Assis, onde São Francisco está enterrado, pertence aos Conventuais.
A Segunda Ordem de São Francisco é a das Clarissas, sobre as quais se pode consultar a vida de Santa Clara. Santa Isabel, irmã de São Luís, tendo o btido do Clarisses Ordem religiosa contemplativa fundada por Santa Clara, à qual pertence Catarina. Papa Urbano IV, em 1263, a permissão de designar rendas fixas às religiosas de Santa Clara, que ela havia estabelecido em Longchamps, perto de Paris, deu-se o nome de Urbanistas àquelas que receberam a bula do soberano Pontífice. As outras foram chamadas de pobres Clarissas. A bem-aventurada Coleta de Corbie introduziu uma reforma austera em várias casas destas últimas.
A reforma das Capuchinhas foi iniciada em Nápoles, em 1538, pela venerável madre Maria Lourença Langa. A duquesa de Mercœur estabeleceu-as em Paris em 1602.
O convento da Ave-Maria de Paris era da Terceira Ordem de São Francisco; mas as religiosas que o compunham, tendo renunciado às suas rendas em 1485, abraçaram a reforma de Santa Clara, troisième Ordre Ramo franciscano destinado aos fiéis que vivem o espírito de Francisco fora da primeira ordem. e superam em austeridade todas as outras reformas da mesma Ordem.
As religiosas da Imaculada Conceição da Santa Virgem foram fundadas em Toledo, em 1484, pela venerável Beatriz da Silva, e o Papa Inocêncio VIII aprovou seu instituto em 1489. O célebre cardeal Ximenes, que era ele próprio franciscano, uniu-as às Clarissas, das quais adotaram a Regra, mas com certas mitigações. O Papa Júlio II deu, em 1511, uma Regra particular às Concepcionistas, deixando-as, contudo, sempre incorporadas às Clarissas.
A Terceira Ordem de São Francisco foi instituída pelo próprio Santo em 1221, em Poggibonsi, na Toscana, e em Caruncio, no vale de Spedée. Era para pessoas de ambos os sexos engajadas no mundo e até mesmo no matrimônio, as quais se sujeitavam a certas práticas de piedade compatíveis com seu estado, mas das quais nenhuma obrigava sob pena de pecado. Estes exercícios eram apenas regras de conduta que não implicavam nem voto nem obrigação. Os Dominicanos, os Agostinianos, os Carmelitas, os Mínimos e os Servitas imitaram este Instituto. Após a morte de São Francisco, várias pessoas desta Terceira Ordem reuniram-se em comunidade em diferentes tempos e lugares; guardaram a clausura e fizeram os votos solenes de pobreza, castidade e obediência. Consideram como sua fundadora Santa Isabel da Hungria, duquesa da Turíngia, que morreu em 1231. Este Instituto contém pessoas de ambos os sexos, que se dividem em vários ramos, dos quais alguns se consagram ao serviço dos enfermos nos hospitais.
As religiosas chamadas na Flandres de Irmãs cinzentas usavam antigamente um hábito cinza; abandonaram essa cor em alguns lugares para substituir pelo branco, o preto ou o azul escuro. Fazem em algumas casas os votos solenes de religião; mas comumente, atêm-se aos votos simples de pobreza, obediência e castidade.
As religiosas desta Terceira Ordem, que são chamadas de Penitentes, foram instituídas em Foligno, em 1397, pela bem-aventurada Ângela, condessa de Civitella, e são em número muito grande. Há nos Países Baixos uma reforma deste instituto, que toma o nome de Recoletinas.
Os religiosos da Terceira Ordem de São Francisco, que se consagraram ao serviço dos loucos e de outros enfermos, não fazem, na maioria, senão os votos simples de castidade, pobreza e obediência aos bispos nas dioceses em que estão estabelecidos, acrescentando o de servir os enfermos. Observam a terceira Regra de São Francisco e vivem nos hospitais ou em sociedades que chamam de famílias. Tais são, na Espanha, os Mínimos enfermeiros, chamados também de Obregões, de Bernardino Obregón, fidalgo de Madri, que foi seu fundador, e na Flandres, os Bons-Filhos, que cinco mercadores cheios de piedade fundaram em Armentières, em Lille, etc.
Há em alguns lugares religiosos chamados Penitentes da Terceira Ordem, que se ocupam da instrução do povo e de outras funções do ministério, como os Frades Menores. Distingue-se entre eles a congregação dita de Picpus. Foi instituída por Vicente Bossart, parisiense, em 1595. Os primeiros membros desta congregação eram os seculares da Terceira Ordem, de ambos os sexos, que se reuniam. Seu primeiro mosteiro foi erguido em Francouville, aldeia situada entre Paris e Pontoise. O segundo, do qual tomaram o nome, fica em um lugar chamado Picpus, no Faubourg de Saint-Antoine, em Paris. Têm na França mais de sessenta mosteiros que formam quatro províncias.
Os Frades Menores tiveram estabelecimentos consideráveis na Inglaterra. São Francisco enviou para lá, em 1219, Ângelo de Pisa com outros oito de seus religiosos. Chegaram todos a Dover em 1220 e fundaram um convento em Canterbury; pouco tempo depois, fundaram outro em Northampton, que se tornou muito célebre. Aquele que tinham em Londres, perto de Newgate, foi fundado em 1306 pela rainha Margarida, segunda esposa de Eduardo I. Havia uma magnífica biblioteca que fora doada aos religiosos, em 1429, por sir Richard Whittington, então prefeito de Londres. Quando destruíram os mosteiros, fizeram daquele de que falamos um hospital onde se criam quatrocentas crianças ditas "Enfants-bien".
Os Franciscanos tinham na Inglaterra cerca de oitenta conventos, independentemente daqueles de mulheres de sua Ordem, que, segundo Tanner, não eram muito numerosos. A principal casa das Clarissas ficava perto de Aldgate; foi construída por Branca, rainha de Navarra, e por Edmundo, seu marido, que era filho de Henrique III, irmão de Eduardo I, e conde de Lancaster, de Leicester e de Derby. Estas Clarissas eram do número daquelas que chamavam de Urbanistas. Além do nome de Clarissas, davam-lhes ainda o de Minoresas. Chamavam seus conventos de Minorias. Na destruição dos mosteiros, o das Clarissas de que se trata aqui foi transformado em um depósito de armas. Seu nome permaneceu na parte da cidade onde ficava, e foi dado aos novos edifícios que se estendem até o campo.
Se se deseja conhecer bem o estado florescente de que gozavam os Franciscanos na Inglaterra, e o número de grandes homens que sua Ordem produziu lá, pode-se ver a boa história da província inglesa destes religiosos; o Padre Davenport, no seu Supplém. historiæ provincie Anglicanae, e Stevens, Monasticon. Anglic. t. 1, p. 39 et seq.
Esta antiga província foi restabelecida pelo Padre João Jennings, que lançou os fundamentos do célebre convento dos Franciscanos em Douai, por volta do ano de 1617. De todos os religiosos desta Ordem que fizeram reviver em si o espírito de São Francisco nestes últimos tempos, poucos igualaram o venerável Padre Paulo de Santa Madalena, ou Henrique Béart, como se pode convencer pela leitura de sua vida e de seus piedosos escritos. Morreu em Londres pela fé, em 17 de abril de 1643.
Segundo os Padres Hélyot e Chaippe, há mais de sete mil conventos de Franciscanos do primeiro e da Terceira Ordem, e perto de cento e vinte mil religiosos nessas casas. Os mesmos autores contam, incluídos todos os ramos da Segunda e da Terceira Ordem, mais de nove mil mosteiros de Franciscanos, e vinte e oito a trinta mil religiosas submetidas aos superiores da Ordem de São Francisco, independentemente daquelas que estão submetidas aos bispos diocesanos. Seu número era muito mais considerável antes da destruição dos mosteiros na Inglaterra e nos reinos do norte. Sabellicus contava, em 1350, mil e quinhentas casas de Franciscanos e noventa mil religiosos.
O ofício de geral na Ordem de São Francisco era antigamente perpétuo; mas não é dado senão por seis anos desde 1500.
A revolução de 1792, tendo envolvido na mesma ruína o trono, os altares e as instituições religiosas, os Franciscanos compartilharam a sorte de todo o clero francês. Toda esperança de restabelecimento parecia perdida, quando de repente, em 1849, o muito reverendo Padre de Loretto, ministro geral da Ordem de São Francisco, acreditou que o momento favorável para agir havia chegado, e voltou seus olhos para o Padre frei José Aréso, missionário da província de Navarra (Espanha), que na época se encontrava no Egito, e ordenou-lhe que partisse para a França na qualidade de comissário da Terra Santa, incumbindo-o ao mesmo tempo, em uma carta patente, de trabalhar pelo restabelecimento da Ordem naquela região. O Padre Aréso, ao chegar à França, dirigiu-se diretamente a Saint-Palais, pequena cidade dos Baixos-Pirenéus, onde comprou uma casa burguesa e mandou construir uma capela. Fez vir depois da Itália dois Padres espanhóis emigrados, o Padre frei João Obiéta e o Padre frei José Isaguieré, ambos missionários do colégio de Zarauz, na província de Guipúscoa (Espanha). Chamou sucessivamente a si outros três Padres espanhóis da província de Aragão, que se encontravam na diocese de Rouen, cujo principal é o Padre frei Roch Claramunt. Finalmente, o Padre Emanuel Bécvidé, com outro, vieram juntar-se a ele da província de Guipúscoa.
Enquanto se trabalhava na casa de Saint-Palais para seu novo destino, isto é, para tornar-se um colégio de missionários franciscanos, o Padre Aréso prestou contas de sua missão ao muito reverendo Padre, ministro geral, que lhe enviou a autorização que nosso Santo Padre o Papa havia concedido para a ereção canônica do referido estabelecimento, bem como a patente de comissário provincial para toda a França, o que ocorreu em 12 de junho de 1851.
O convento de Saint-Palais, por sua posição perto das fronteiras da Espanha, dificilmente poderia tornar-se a sede de uma província nascente e de tão vasta extensão como a França, nem atrair-lhe súditos; o Padre Aréso, deixando o colégio dos missionários franciscanos de Saint-Palais sob a direção do reverendo Padre José Isaguieré, que fora nomeado guardião, veio a Paris para encontrar recursos e protetores, a fim de continuar suas fundações. Muitos obstáculos opuseram-se aos seus projetos. Após oito meses de corridas e fadigas, encontrou uma pessoa que conheceu imediatamente que sua obra era muito importante para a religião na França e para a influência francesa no Oriente, e especialmente na Palestina, e que era do interesse desta nação admitir os Franciscanos em seu seio e protegê-los. O Padre Aréso, apoiado fortemente por esta pessoa, apresentou-se ao ministério das relações exteriores e ao dos cultos. Encontrou ali espíritos bem dispostos a fazer sua empresa ter sucesso, sob o duplo aspecto de sua influência no Oriente e do bem espiritual que resultaria para a própria França. Desde esse momento, tudo mudou de face e a opinião tornou-se favorável aos seus projetos.
Alguns dias depois, o Sr. Poujoulat, antigo representante e autor de várias excelentes obras, que havia feito a viagem à Palestina, fez um discurso em favor do restabelecimento dos Franciscanos na França, discurso que foi distribuído em vários milhares de exemplares. Nesse ínterim, o Padre Aréso deu a conhecer a um grande número de membros do episcopado francês o motivo de sua chegada à França e o desejo que tinha de fundar ali conventos de sua Ordem, a fim de ter súditos para evangelizar na França, para enviá-los além-mar, sobretudo para a Palestina para a guarda dos Lugares Santos. Todos aqueles a quem se dirigiu, cardeais, arcebispos e bispos, responderam-lhe da maneira mais lisonjeira e encorajadora.
Mgr de Salinis, bispo de Amiens, convidou o Padre Aréso a vir estabelecer-se em sua cidade episcopal. O Padre Aréso comprou em Amiens mesmo, para servir de noviciado, uma casa que pertencia aos missionários do Sagrado Coração de Maria, situada no faubourg de Noyon, 52. Fez vir de Saint-Palais o Padre frei Roch Claramunt com um noviço; alguns outros religiosos vieram ainda juntar-se a ele. O dia 25 do mês de agosto do ano de 1852 foi destinado para a instalação dos Franciscanos em Amiens. Esta solenidade foi feita por Mgr o cardeal Wiseman, arcebispo de Westminster, que acabava de chegar àquela cidade.
Dois anos depois, uma nova casa dos Franciscanos era fundada em Limoges.
Servimo-nos, para completar esta biografia, da Vida de São Francisco de Assis, pelo Sr. Chavin de Malan; da História popular do Santo, pelo conde Anatole de Ségur; do Ano franciscano e dos Anais Franciscanos; dos Analecta iuris pontificii; de Godescord; do Dicionário enciclopédico da teologia católica, por Goschler, e do Dicionário das Ordens religiosas, publicado pelo abade Migne.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de São Francisco de Assis (Confessor)
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Nascimento em Assis em 1182
- Cativeiro de um ano em Perúgia
- Renúncia aos bens paternos diante do bispo de Assis em 1206
- Restauração das igrejas de São Damião e da Porciúncula
- Aprovação da Regra pelo Papa Inocêncio III
- Encontro com São Domingos em Roma
- Missão na Síria e encontro com o sultão Malik al-Kamil
- Estigmatização no monte Alverne
- Morte na Porciúncula em 1226
- Canonização por Gregório IX em 1228
Citações
-
Ego mendicus sum et pauper.
Salmo 29, 18 (citado em epígrafe) -
Eu sou o arauto do grande Rei.
Resposta aos ladrões na floresta -
Senhor Jesus, mostrai-me os caminhos da vossa caríssima pobreza!
Oração em Roma