26 de janeiro 5.º século

Santa Paula de Roma

DISCÍPULA DE SÃO JERÔNIMO, FUNDADORA DE MOSTEIROS

Ilustre patrícia romana descendente dos Cipiões, Paula consagrou-se a Deus após sua viuvez sob a direção de São Jerônimo. Ela deixou Roma para Belém, onde fundou mosteiros e um hospício, levando uma vida de austeridade, estudo das Escrituras e caridade. Morreu em 404, deixando a memória de uma mãe dos pobres e uma figura importante do monaquismo primitivo.

Cronologia

Seus contemporâneos

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    SANTA PAULA DE ROMA, VIÚVA

    DISCÍPULA DE SÃO JERÔNIMO, FUNDADORA DE MOSTEIROS

    Vida 01 / 09

    Origens e educação patrícia

    Proveniente da mais alta nobreza romana, Paula recebe uma educação cristã e clássica esmerada, dominando o grego e o latim.

    O grande São Jerônimo Le grand saint Jérôme Pai da Igreja e autor da biografia original de Santa Asela. , escrevendo à virgem Eustóquia, filha de Santa Paula, faz assim o elogio de nossa Santa: «Quando todos os membros do meu corpo se transformassem em outras tantas línguas e tomassem outras tantas vozes, eu não poderia dizer nada ainda que fosse digno das virtudes da santa e venerável Paula. Nobre pelo nascimento, mais nobre ainda pela santidade; poderosa outrora por suas riquezas, mais ilustre hoje pela pobreza de Jesus Cristo; descendente por Rogato, seu pai, do célebre Agamêmnon, que tomou a famosa cidade de Troia após dez anos de cerco, e por Blesila, sua mãe, dos Cipiões e dos Gracos, que são dos mais ilustres entre os Romanos, a Roma ela preferiu Belém, e aos palácios dour ados o h Bethléem Local de nascimento e de unção de Davi. umilde teto de uma pobre habitação».

    Paula foi criada por sua mãe em um espírito de amor pela religião, de profunda aversão pelas coisas do paganismo, e na gravidade de vida que convinha a uma patrícia e a uma cristã. Guardada cuidadosamente à sombra do lar doméstico, os circos e os teatros nunca a viram. Ela passava com desdém diante desses lugares retumbantes das loucas alegrias da vida pagã, acompanhando, segundo o costume da época, sua mãe às basílicas e às festas da Igreja, e também aos túmulos dos mártires e às catacumbas. Ela amava percorrer esses lugares onde se ocultara por tanto tempo a fé agora triunfante no mundo, venerar os vestígios ainda recentes de tantos mártires, respirar, por assim dizer, o perfume que exalava de seus túmulos, contemplar essas ingênuas pinturas, esses piedosos símbolos, onde encontramos hoje com tanta emoção, semiesfumadas, as ideias do Cristianismo primitivo e dos fiéis perseguidos, essas esperanças de imortalidade na morte, e todo o detalhe dos dogmas do símbolo cristão. Os atos de caridade, ao mesmo tempo que as práticas piedosas, tiveram sua parte em sua educação religiosa. Lançavam-se na alma da jovem criança os germes dessa ternura pelos infelizes que veremos logo chegar nela ao estado de paixão sublime.

    Esta forte educação moral e cristã foi coroada pela séria e sólida cultura de espírito, que era também de tradição nas grandes famílias de Roma. Independentemente dos livros santos, que foram suas primeiras leituras, os estudos de Paula, brilhantes e extensos, abrangeram as duas literaturas latina e grega; tendo sangue grego como sangue romano nas veias, ela devia cultivar a um título especial as letras de Atenas como as de Roma, e ela falava igualmente bem as duas línguas. Ela leu os historiadores, os poetas, os filósofos. Veremos mais tarde de que utilidade lhe será esta cultura profana para a admirável vida cristã à qual ela deve um dia elevar-se. Enquanto isso, esses estudos desenvolviam nela os ricos dons que ela havia recebido da natureza, um juízo são, um espírito firme, uma razão elevada: um equilíbrio precioso foi desta forma estabelecido entre sua inteligência e seu caráter.

    Vida 02 / 09

    Vida conjugal e descendência

    Ela se casa com Toxócio, da família dos Júlios, com quem tem cinco filhos, enquanto leva uma vida de matrona respeitada em Roma.

    No entanto, chegou a idade em que a brilhante patrícia teve de receber das mãos de seus pais um esposo, e acrescentar a todas as vantagens de seu nascimento e de suas qualidades o brilho de uma aliança ilustre. Ela se casou com um jovem romano de origem grega, chamado Toxócio, que pertencia, por parte de mãe, à antiga família dos Júlios, a qual se vangloriava de remontar até Eneias. Toxócio não compartilhava a fé de sua jovem esposa. Contudo, não parece ter sido indigno da jovem cristã com quem se casara, e o afeto extraordinário que Paula sempre teve por ele, e a inconsolável dor com a qual o chorou, mostram que a união deles foi daquelas que o mundo chama de felizes. Deus abençoou esta união. Quatro filhas nasceram sucessivamente de Paula. A mais velha, chamada Blesila, parecia dotada de todos os dons do espírito mais vivos e amáveis; saúde frágil e delicada, mas rica e bela natureza, que desde a mais tenra infância fazia esperar tudo, nas mãos de uma mãe como Paula, para os encantos da inteligência e as qualidades da alma. Paulina, a segunda, tinha também uma natureza das mais felizes, mas totalmente oposta à de Blesila. Não era, como esta, a chama; mas, com menos lampejos brilhantes no espírito e espontaneidade viva no caráter, ela dava todos os sinais de um bom senso requintado, de um juízo seguro, e prometia ter em solidez tudo o que sua irmã mais velha tinha em brilho. Quanto à terceira, chamada por um nome gracioso emprestado do grego, Eustóquia (regra, retidão), doce criança, modesta, reservada, tímida, dir-se -ia uma f Eustochie Terceira filha de Paula, acompanhou-a ao Oriente e foi sua sucessora. lor escondendo em si mesma seu perfume; mas este perfume era suave, e ao observá-la de perto, podia-se suspeitar já naquela jovem alma tesouros que surpreenderiam no dia do desabrochar. A quarta chamava-se Rufina.

    Paula, nesta época de sua vida, não soube se preservar suficientemente do luxo e da moleza de seu tempo. Ela passava, como todas as patrícias, pelas ruas de Roma, carregada por seus escravos em uma liteira dourada; teria temido colocar o pé no chão e tocar a lama das ruas; o peso de um vestido de seda pesava à sua delicadeza; um raio de sol que se tivesse deslizado através das espessas cortinas de sua liteira lhe teria parecido um incêndio. Ela usava, como as mulheres de sua classe, daquilo que ela deveria se censurar tanto um dia; não se recusava as delícias do banho, que tinham uma parte tão grande na vida romana; passava, segundo o costume comum, o inverno em Roma, o verão em alguma vila, onde o campo, as amigas e uma biblioteca escolhida dividiam seu dia. Contudo, em meio a esse luxo, Paula, embora ainda muito longe das virtudes que praticaria um dia, era conhecida e respeitada como uma mulher de uma dignidade de porte e de conduta absolutamente irrepreensível. Nenhuma voz se levantou jamais em Roma contra sua virtude. Pelo contrário, citavam-na como uma romana da velha estirpe, lembrando aquelas mulheres de outrora que tinham sido, por sua severa castidade, a honra da república, e quando se queria oferecer a esse respeito um modelo às jovens patrícias da época, nomeava-se Paula. Havia ali, sem dúvida, o orgulho e a dignidade do velho sangue romano; mas havia sobretudo as inspirações e as visões superiores da fé. É sob esta guarda mais segura do espírito cristão que Paula atravessou toda essa opulência, fatal a tantos outros, sem nela perecer; e se, nesses anos brilhantes e felizes, a jovem esposa de Toxócio não teve sempre presente no pensamento a máxima do apóstolo, que é a de usar das coisas mundanas como se não as usasse, de se prestar simplesmente ao mundo e não se entregar a ele; se lhe aconteceu de saborear demais essas gozos e essas vaidades perigosas, houve nas provações que surgiram logo depois uma ampla compensação para essa moleza, e na austeridade de sua penitência uma superabundante expiação.

    Paula não era apenas uma mulher de reputação intacta, de um severo honra: a esse traço de virtude, ao mesmo tempo romana e cristã, São Jerônimo acrescenta um segundo, exclusivamente cristão; ela era, diz ele, «a mulher mais doce e mais benevolente para com os pequenos, para com os plebeus, para com os escravos». A elevação natural de sua alma, e mais ainda a graça de Jesus Cristo e o trabalho da virtude, a tinham inteiramente preservado da secura e da altivez, da impaciência e do desdém que o orgulho do sangue e da riqueza gera nas almas duras ou pequenas; ela tinha esse complemento necessário da nobreza e da beleza, esse sinal de uma distinção natural e de um mérito superior, a bondade; e era ali, com a austera honra, os dois traços que formavam por seu contraste o charme de sua fisionomia. Concebe-se como uma mulher desse caráter e dessa virtude deveria cumprir os deveres delicados que lhe impunha a sociedade mista em cujo seio vivia. Suas relações eram de dois tipos: ela estava ligada ao que havia de mulheres eminentes pela piedade na Igreja; as primeiras cristãs de Roma, tais como Marcela e Ticiana, eram suas amigas íntimas. Ela tinha também relações com a parte pagã do patriciado, que recebia em sua casa e em cuja casa era recebida. Era tudo o que havia de mais considerável em Roma e também de mais pagão. As relações com tal sociedade exigiam evidentemente muita reserva, dignidade e conveniência; era sobretudo o dever das mulheres cristãs, então como hoje, serem junto aos descrentes, pela amabilidade de seu trato e a superioridade de suas virtudes, a demonstração viva de sua fé. Elas abriam assim, mais eficazmente do que pela controvérsia, os caminhos para a verdade em mais de uma alma, e é permitido acreditar que elas eram frequentemente responsáveis por muito, sem parecer, nas recrutas que o Cristianismo fazia incessantemente no seio do patriciado. Em seu lar doméstico, Paula era a mais feliz das esposas e das mães. Sua jovem família crescia alegre ao seu redor, dando as mais belas esperanças. Toxócio, contudo, tinha um pesar. Ele teria desejado um herdeiro para seu nome, e não o tinha. Esse desejo foi finalmente atendido; nasceu um quinto filho de Paula que foi um menino, e que recebeu como seu pai o nome de Toxócio.

    Conversão 03 / 09

    A virada da viuvez

    Aos 31 anos, a morte de seu esposo a impulsiona para uma ascese rigorosa e uma caridade total, sob a influência do círculo do Aventino.

    Paula tinha apenas trinta e um anos quando Deus lhe enviou a grande provação da viuvez. Este golpe inesperado que a surpreendeu em meio a toda a sua felicidade foi terrível para ela: era o momento que Deus escolhia para romper tudo nesta tumba inesperadamente entreaberta. Paula foi inicialmente atraída e sem forças contra essa dor, a ponto de se temer por sua vida. Nada podia deter suas lágrimas. Jamais um esposo foi mais chorado; jamais um golpe penetrou mais profundamente em sua alma. Ao romper todos os entraves que a detinham nas vias ordinárias e a impediam de ascender às grandes virtudes, Deus lhe fazia um chamado que ela era livre para seguir, mas após o qual, ouvido ou ignorado, sua vida deveria estar fixada para sempre. A viuvez é algo sagrado. Independentemente do que a fé descobre nela como mérito sobrenatural, há sobre a viúva verdadeiramente viúva a tríplice consagração da dor, da fidelidade e da virtude. A virgem é fiel apenas a Deus e a si mesma; a viúva o é, além disso, àquele que amou e perdeu: é por ele também que ela guarda doravante a integridade de seu coração, fazendo de sua querida lembrança um culto e uma vida; e tal é a nuance que distingue a viúva da virgem, duas criações admiráveis do cristianismo, duas flores nascidas na mesma haste e que misturam na Igreja seus perfumes sem confundi-los. Se há algo mais puro na virgem, há algo mais augusto e mais tocante na viúva, porque os sofrimentos, as lágrimas e o sacrifício passaram por ali. Paula compreendeu o que Deus queria dela; retomando a liberdade de sua alma e ocultando-se do mundo, resolveu caminhar generosamente na via onde Deus a chamava. Encontrava felizmente ao seu redor exemplos, uma sociedade, almas que entraram na mesma via, e que foram para ela um estímulo e um socorro: essa sociedade tinha seu centro no Aventino; era formada por viúvas ou virgens pertencentes às primeiras famílias de Roma, e que davam então à Igreja, sob os olhos e sob o impulso do Papa Dâmaso, um grande espetáculo de virtude.

    Fez-se de repente uma admirável eclosão de virtudes em sua alma. A transformação foi súbita e c ompleta. Um pape Damase Papa que ordenou os dois irmãos e os enviou em missão. a espécie de abismo foi cavado entre ela e o mundo; mas essa ruptura não foi senão uma fuga mais profunda em Deus. Era uma segunda liberdade e uma nova necessidade que a viuvez lhe trazia. Sentindo que nada poderia jamais preencher o vazio imenso que acabava de se abrir nela; vendo que tudo se quebra e nos foge aqui embaixo, que Deus sozinho não escapa, e que nele reencontramos tudo, ela se lançou de volta para Deus com uma espécie de paixão tão ardente e de alegria tão plena, que se diria que a morte de Toxócio, tão chorado por ela, não era a seus olhos senão uma libertação. E esse amor no qual agora ela se mergulhava inteiramente, ao mesmo tempo que lhe trazia as verdadeiras e sólidas consolações, criava em sua alma ascensões maravilhosas, admiravelmente indicadas por São Jerônimo.

    O primeiro grau ao qual ela subiu foi um novo e maior amor pela oração. Ela se sentia poderosa e suavemente inclinada a isso. Quanto mais, de fato, um coração se fecha para o lado da terra, mais ele se abre para o lado do céu. Tendo renunciado às alegrias da vida mundana, Paula saboreava tanto mais as de um comércio assíduo com Deus. Assim, sua oração se prolongava muito noite adentro, e mais de uma vez o sol a surpreendia ajoelhada e ainda rezando. Sua grande felicidade era ir ao oratório do Aventino cantar salmos com as virgens de Marcela. A Santa Escritura tornou-se sua meditação diária. Assim, enquanto as grandes dores não fazem senão obscurecer certas almas e cobri-las como de trevas, elas haviam, ao contrário, enchido de mais luzes a alma de Paula, e lhe haviam desvelado mais largo e mais radiante o horizonte da eternidade. A essas claridades que a iluminavam agora, seu amor a Deus e às coisas celestes crescendo a cada dia, sua alma subiu a um segundo grau, a saber: uma requintada delicadeza de consciência, um extraordinário desejo de uma absoluta pureza de coração. Em uma disposição tão bela, para se reservar um voo mais livre para Deus e se conservar um coração mais intacto e melhor defendido, não somente ela se cercou de uma guarda severa, mas ainda abraçou com uma coragem heroica as mais austeras práticas da mortificação cristã. Todos os hábitos delicados de outrora, todos os confortos da vida foram suprimidos. Esta patrícia não dormiu mais senão sobre cilícios jogados na terra nua, e rivalizou em abstinências e jejuns com os ascetas do deserto. Nessa fervura, a lembrança de sua vida menos perfeita de outrora e das concessões feitas ao mundo a enchia de confusão e de dor e abria nela uma fonte de lágrimas. E essas lágrimas, fruto de um tão puro amor de Deus, misturando-se àquelas que a lembrança sempre viva de Toxócio a fazia verter também, assim como essas duas afeições haviam se misturado e confundido em sua alma, dessa dupla fonte de pranto fluíam incessantemente com tanta abundância, que fatigavam seus olhos a ponto de fazer temer por sua visão. A noite mesma não as detinha, como se Paula, diz São Jerônimo, tivesse tomado para sua parte ao pé da letra esta palavra do Salmista: «Banharei cada noite meu leito com minhas lágrimas, regarei meu leito com meu pranto».

    Essas santas rigores não elevavam apenas Paula a uma pureza de alma admirável, elas tinham uma outra fecundidade ainda, elas acendiam nela, como sempre acontece, uma chama ardente de caridade: seu coração, ao mesmo tempo que se voltava assim para o amor de Deus, encontrava um outro efusão sublime no amor aos pobres. E certamente, o campo aberto à sua atividade era vasto; pois, no seio desse povo-rei que achava abaixo de sua dignidade trabalhar, a miséria era terrível. Todas as suas rendas iam para esmolas. Sua caridade não conhecia medida e não sabia parar; e jamais um pobre voltou de perto dela de mãos vazias. Ela dava tudo, e quando não tinha mais nada, ela emprestava a fim de poder dar de novo, colocando-se às vezes na necessidade de emprestar ainda para reembolsar seus empréstimos. Não contente em prodigalizar tudo o que tinha, ela fazia mais, ela não temia se tornar importuna pelos pobres e colocar a serviço deles as relações que seu nascimento e seu grande nome lhe haviam dado em Roma: apóstola da caridade, como ela era o modelo.

    Contexto 04 / 09

    A influência de São Jerônimo

    Durante o concílio de 382, ela conhece São Jerônimo, que se torna seu guia espiritual e a inicia no estudo aprofundado das Escrituras e do hebraico.

    Já se passavam dois anos desde que Paula se entregava, como acabamos de dizer, com suas santas amigas, à prática dessas virtudes generosas, e dava à sociedade patrícia esses belos exemplos de edificação, quando de repente espalhou-se em Roma uma notícia que veio lançar no pequeno cenáculo do Aventino, e em todo o grupo de mulheres generosas que haviam entrado no mesmo movimento, a mais viva alegria. O Ocidente teria seu grande concílio, assim como o Oriente tivera os seus. O Papa Dâmaso convocara todos os bispos católicos a Roma para o ano de 382, e esperavam-se do Oriente bispos veneráveis cuja fama proclamava as virtudes. Paula e suas amigas não deixaram de aproveitar os três meses que os santos bispos permaneceram em Roma. Elas não se cansavam de vê-los e ouvi-los; Paula, sobretudo, que tinha a felicidade de hospedar Epifânio em seu palácio, pressionava cada dia o venerável bispo com suas perguntas piedosamente curiosas. Ela queria saber tudo sobre a admirável vida dos Padres do deserto. Epifânio e Paulino contavam em detalhes todas as maravilhas que tinham visto. Esses relatos lançavam Paula em arrebatamento. Foi nessas conversas diárias com Paulino e São Epifânio que ela sentiu nascer em sua alma a primeira inspiração do desígnio que um dia deveria executar. Ao ouvir falar de Antão e Hilarião, dos prodígios da Tebaida, e daquelas mulheres e virgens que rivalizavam nas margens do Nilo em austeridades com os solitários, o desgosto por Roma e pelo mundo, já tão profundo nela, cresceu em tal proporção, e a atração por uma vida ainda superior à que levava, essa vida que os Padres do deserto haviam criado e cujo ideal acabara de lhe aparecer tão de perto, a tomou tão vivamente, que havia momentos em que, perdendo a lembrança de sua casa, de seus bens, de seus filhos, de sua família, ela teria querido, se fosse possível, partir imediatamente para sempre para a solidão de Antão e de Paulo.

    Paula e Marcela e suas santas amigas desejaram vivamente entrar em contato com o companheiro dos dois bispos orientais que permanecera em Roma, São Jerônimo, e aproveitar, ao mesmo tempo que o Papa, das luzes desse monge austero e douto que trazia, por assim dizer, o dese rto em seu r saint Jérôme Pai da Igreja e autor da biografia original de Santa Asela. osto, e em quem pressentiam um apoio necessário para seu gênero de vida já tão combatido, e um mestre incomparável na ciência e na vida cristãs. Jerônimo decidiu fazer leituras e explicações dos santos livros no Aventino. Logo reconheceu que discípulos tinha naquelas mulheres tão cultas. "O que eu via nelas", escrevia ele mais tarde, "de espírito, de penetração, ao mesmo tempo que de encantadora pureza e de virtude, eu não saberia dizer". Compreendendo, portanto, o que poderia fazer com almas assim dispostas, e até onde poderiam ir com um guia que soubesse conduzi-las, resolveu não faltar a uma tal obra; e nada é mais tocante do que a familiaridade cheia de confiança e de respeito, a amizade ilustre e pura, que se formou entre elas e ele; seu espantoso ardor, sua admirável docilidade em seguir a direção desse grande mestre, e a ativa solicitude, os cuidados dedicados do austero monge, para revelar-lhes os tesouros dos Livros santos e sustentá-las em sua vida heroica.

    Paula encontrava tão plenamente nessa fonte divina da Escritura tudo o que sua alma precisava, consolações, forças, luzes, que mergulhava nela, por assim dizer, com essa energia e essa coragem que colocava em tudo, e tanto mais agora que podia ter uma solução para as dificuldades que o texto sagrado apresenta sem cessar. Ela descobria ali, encantada, coisas que anteriormente não havia percebido. Compreendendo que a verdadeira chave de ouro desse tesouro das Escrituras é a língua na qual foram escritas, ela quis lê-las nessa língua, e não teve medo desse formidável estudo do hebraico que custara a Jerônimo tantos trabalhos. Paula atraía mais os olhares de São Jerônimo. À medida que a via cada vez mais, admirava-a mais. Sua alma parecia-lhe ainda mais bela que seu espírito. Ele percebia nela impulsos maravilhosos e uma coragem que não se assustava com nada. De todas aquelas almas das quais Deus o fazia guia, nenhuma tinha mais afinidades e secretas harmonias com sua própria alma e não era mais bem feita para seguir sua forte direção; mas a nenhuma outra também esse apoio era mais necessário. Passada há apenas dois anos da mais opulenta existência patrícia para essa vida velada de luto e penitência, e ainda sob o impacto de sua recente dor, ela precisava particularmente ser sustentada. E então, ela não estava sozinha. Jerônimo via ao seu lado aquela jovem Eustóquia, flor ainda tão tenra e delicada, e esses outros quatro filhos, Blesila, Paulina, Rufina e o pequeno Toxócio, que era preciso educar e dirigir: grande fardo para uma jovem mãe. Finalmente, além das oposições gerais que já começavam em Roma contra o gênero de vida que Paula havia abraçado e que iriam crescer, Jerônimo vislumbrava, no próprio círculo de Paula, por parte sobretudo dos membros pagãos de sua família, dificuldades especiais e as tempestades que logo deveriam eclodir. Por todas essas razões, ele compreendia que havia ali particularmente uma bela obra a fazer, a direção de Paula, e a ela se dedicou. Era uma grande coisa, e bem nova no mundo, essa direção das almas criada pelo Cristianismo. São Jerônimo, qualquer que fosse sua ciência das Escrituras, era um mestre ainda maior da vida cristã, e ninguém, pela têmpera de seu caráter como pelas visões de seu espírito, era mais bem feito para esse ministério de direção que iria lhe caber junto a Paula e suas santas amigas, como vimos em sua vida.

    Missão 05 / 09

    A partida para o Oriente

    Após distribuir seus bens e superar a oposição familiar, Paula deixa Roma rumo aos Lugares Santos com sua filha Eustóquia.

    No entanto, Eustóquia seguia perseverantemente o seu caminho. "Esta flor das virgens", como a chama São Jerônimo, continuava a florescer sob a mão e o coração de sua mãe. Em vão ela via suas duas irmãs mais velhas brilharem sob ricos adornos, usando colares de ouro e joias; seu gosto pela vida virginal se pronunciava cada vez mais: diante de um atrativo tão espontâneo, tão profundo, tão perseverante, Paula não hesitou, e em uma época que não se sabe, talvez até antes da chegada de São Jerônimo, ela a apresentou ao Papa Dâmaso para que recebesse o véu das virgens; e a piedosa criança retornou ao palácio de sua mãe mais feliz e mais radiante sob seu flammeum e seu vestido marrom do que Blesila no dia em que entrou no palácio do jovem Fúrio, sob aquele brilhante traje de núpcias logo trocado por um vestido de luto. A atitude de Eustóquia teve grande repercussão em Roma e redobrou a irritação da família de Paula. Himécio, perturbado com os projetos de união que sonhava para sua sobrinha, e embaraçado com os sorrisos e as piadas de Pretextato e de seus outros amigos pagãos, sentiu-se ultrajado. Mas Paula estava encantada com as disposições e o fervor crescente de sua filha. Apesar de sua juventude, nenhuma entre as virgens do Aventino superava Eustóquia na assiduidade à oração e ao canto dos salmos, e no ardor em seguir São Jerônimo naquele prado das Escrituras que ele lhes abrira: o próprio estudo do hebraico não a assustara; e São Jerônimo concebera por esta criança, assim como por sua mãe, um respeito e uma devoção singulares. Contudo, a esta alegria de Paula vinham se misturar vivas inquietações pelo futuro. Pois, além da oposição que já encontrava em sua família, ela via formar-se uma tempestade, não apenas contra ela, mas contra todo esse movimento de vida monástica que ocorria em Roma há algum tempo, e no qual Jerônimo chamava em multidão as patrícias. Era a luta interior da família e a luta pública do mundo contra a vida religiosa que começavam.

    À notícia da conversão de Blesila, filha mais velha de Paula, a ira de toda a parte pagã e mundana da família de Paula atingiu o auge; Himécio, sobretudo, enfurecia-se com palavras duras contra sua cunhada e tratava Jerônimo de sedutor. Todo o patriciado, e até o povo, compartilhava dessa emoção. Começava-se a temer esse progresso das ideias monásticas. Tendo Paula começado a percorrer com mais solicitude do que nunca os bairros indigentes de Roma, acompanhada não mais apenas por Eustóquia, mas por Blesila, alegre por associar esta filha duplamente querida às doçuras da caridade, suas esmolas, já tão consideráveis, cresceram ainda mais, e, seus rendimentos, embora tão vastos, não lhe sendo mais suficientes, ela chegou a vender parte de seu patrimônio para aumentar seus recursos; e quando, para moderar essas santas prodigalidades, falavam-lhe de seus filhos: "Que patrimônio melhor posso deixar-lhes", dizia ela, "do que a herança das bênçãos de Jesus Cristo?", não estimando a manutenção de sua imensa fortuna em toda a sua opulência uma vantagem comparável para seus filhos ao tesouro das graças celestiais que ela esperava merecer-lhes por meio de esmolas que, aliás, ainda os deixavam bastante ricos. Mas essas visões elevadas de uma fé viva, essa confiança superior em Deus, não podiam ser do gosto de todos em sua família, e os murmúrios que suas caridades suscitavam há muito tempo levaram finalmente a uma tempestade. Uma cena violenta ocorreu entre ela e Himécio. Este enfureceu-se e reprovou sua cunhada com dureza por esquecer seus deveres de mãe e por despojar seus filhos. Foi então que Paula, para silenciar todas essas reprovações e reencontrar mais liberdade, decidiu-se, em uma inspiração heroica, por um grande ato, narrado infelizmente de maneira muito breve por São Jerônimo. "Já morta para o mundo antes de morrer", diz ele, "ela distribuiu todos os seus bens entre seus filhos".

    Este grande ato cumprido, ela começou a falar sem mistério e a anunciar abertamente seu projeto de partir para o Oriente e para os lugares santos. Tal anúncio causou novamente uma grande comoção em sua família. Ficaram exasperados. Pensavam que, se ela fosse uma vez ao Oriente, lá permaneceria; previam, aliás, que Blesila talvez, e Eustóquia certamente, a acompanhariam. Himécio, em seu despeito, acreditou que era preciso fazer um esforço decisivo e que tudo estaria perdido se conseguissem reconquistar Eustóquia para o mundo. Com esse pensamento, um complô foi organizado por ele para abalar a vocação da jovem, e sua esposa foi encarregada de executá-lo. Sob um pretexto que São Jerônimo não menciona, obteve-se de Paula que levasse Eustóquia à casa de sua tia, que a cobriu de carícias. Então, de repente, em um certo momento, eis que Eustóquia se vê rodeada de escravas; retiram-lhe o véu e o vestido de lã, desenrolam e trançam seus cabelos à moda das jovens do mundo, pintam-lhe o rosto e os olhos, fazem-na vestir magníficos vestidos de seda; depois, apresentam-na assim adornada a toda a sociedade reunida na casa de Himécio, e cada um compete em exclamar sobre suas graças e sua beleza, e em lamentar a violência que, diziam, sua mãe a fazia sofrer. Esperava-se que esses adornos e o veneno desses elogios e dessas palavras chegassem ao coração da jovem; enganavam-se. Eustóquia, doce e calma, sofreu tudo; depois, chegada a noite, retomou seu vestido marrom e retornou tranquilamente para a casa de sua mãe.

    A generosa jovem, assim como sua irmã Blesila, sentiram-se apenas mais fortalecidas em seu modo de vida. Seu fervor redobrou. Apesar de tudo, as duas irmãs continuavam, alegres e valentes, seu estilo de vida, rindo dos obstáculos e protestando que nada poderia abalá-las. Paula, Blesila e Eustóquia avançavam cada dia mais na vida de sacrifício e imolação. O generoso amor de Deus consumia a todas as três igualmente; a Sagrada Escritura era mais do que nunca seu deleite, e Jerônimo não conseguia dar conta dos trabalhos que lhe pedia sobretudo a ardente Blesila. Era ela também, agora, quem mais pressionava por essa grande viagem ao Oriente, cujo desejo sua mãe e sua irmã alimentavam há tanto tempo. O tempo parecia ter chegado para executar esse desígnio; mas Deus tinha, para Blesila pelo menos, outros pensamentos: a morte de Blesila, ocorrida inesperadamente em meio a todos esses projetos de piedosas peregrinações, veio atingir novamente Paula no ponto mais sensível de sua alma e reabrir todas as suas feridas.

    Blesila desaparecida criava em seu coração um vazio que nada poderia preencher. Seus olhos a pro mort de Blésille Filha mais velha de Paula, cuja morte precoce precipitou a partida para o Oriente. curavam, viam-na em toda parte; mas ela não estava em lugar nenhum. Tudo lhe lembrava a lembrança dela, mas nada a trazia de volta. Por isso,

    Na imensa tristeza que essa perda lhe deixava, Roma tornou-se para ela mais insuportável do que nunca. Ela precisava do que é ordinariamente necessário nas grandes dores: uma grande diversão. A viagem ao Oriente, interrompida de repente por essa morte imprevista, e embora tivesse perdido para ela um grande encanto, já que Blesila não estaria mais presente, podia sozinha distrair, por meio de poderosas emoções, aquela alma quebrantada; e a piedade e a dor reuniam-se agora para aconselhá-la. As próprias oposições que encontrava em sua família eram para ela uma razão a mais para empreendê-la. A decisão de Paula foi, portanto, tomada irrevogavelmente. Seu coração precisava demais buscar, perto dos lugares onde morreu o Salvador, um desabafo para sua dor e sua piedade, e o atrativo interior que a impelia para lá era poderoso demais.

    Quando os preparativos da partida foram terminados, ela se dirigiu, com Eustóquia e as companheiras de sua grande viagem, para a margem onde um navio as esperava. No momento de dizer adeus a seus filhos e a seus parentes, "suas entranhas se rasgaram", diz-nos São Jerônimo; "parecia-lhe que arrancavam seus membros; mas ela combatia contra essa tortura, e seu heroísmo tinha o admirável de triunfar sobre um grande amor. Via-se, nessa luta suprema, apoiar-se, para não desfalecer, na terna e corajosa Eustóquia, companheira de seu sacrifício e de sua partida. Entretanto, o navio sulcava as ondas e ganhava o largo, e todos os passageiros fixavam na costa aquele longo e último olhar tão caro a todos aqueles que veem fugir atrás de si a pátria. Apenas Paula desviava os olhos da margem, com medo de que seu coração se partisse ao aspecto daqueles cuja visão lhe dilacerava a alma".

    Missão 06 / 09

    Peregrinações na Terra Santa e Egito

    Ela percorre a Palestina e visita os padres do deserto no Egito, fortalecendo seu desejo de vida monástica.

    Paula parou em Chipre para ver São Epifânio, cujas palavras, três anos antes, ao lançar em sua alma as primeiras faíscas da chama que a consumia hoje, tinham tido uma influência tão decisiva em sua vida. O venerável bispo a esperava na margem, feliz por retribuir um pouco da nobre hospitalidade que dela recebera em Roma. Assim que Paula o avistou, lançou-se emocionada aos seus pés, derramando muitas lágrimas. Epifânio, vendo-a cansada de tal travessia, e reservada para fadigas ainda maiores na longa viagem que empreendia, quis que ela permanecesse alguns dias em Salamina para descansar. Paula quis aproveitar sua estadia na ilha para visitar todos os mosteiros e ver de perto essa vida que ela iria estudar no Oriente em sua fonte; e por onde passava, marcava sua presença com piedosas liberalidades. Dez dias se passaram assim em piedosas jornadas e longas conversas com Epifânio; depois, ela embarcou novamente e chegou rapidamente a Selêucia e, de lá, subindo o Orontes, aportou finalmente em Antioquia, onde o antigo companheiro de São Epifânio em Roma, o venerável bispo Paulino, a recebeu com a mesma alegria e o mesmo respeito que o bispo de Salamina, e foi em sua casa que Paula reencontrou o admirável guia que a Providência lhe reservava para sua peregrinação aos lugares santos, São Jerônimo, que Paulino havia acolhido com todos os seus companheiros em sua chegada do Ocidente.

    Após algum tempo de estadia nesta cidade, organizou-se a partida, e toda a piedosa caravana, da qual faziam parte São Jerônimo e seus amigos, seguiu a via romana que margeava todo o litoral da Síria, da Fenícia e da Judeia. A primeira cidade da Judeia que encontrou foi Sarepta, na antiga tribo de Aser, depois Tiro, Ptolemaida, os campos de Mageddo, Cesareia, a planície de Sarom, Antipatris, a antiga Lida, chamada então Dióspolis; voltando um pouco atrás, visitou a famosa Jope, Emaús,

    Betoron, o local de uma cidade arrasada até o solo, chamada Gabaa, e chegou a Jerusalém. O procônsul da Palestina, que conhecia muito bem sua família e que fora avisado de sua chegada, enviou ao seu encontro, às portas da cidade, uma escolta para recebê-la com honra e conduzi-la a um alojamento que ele havia preparado no pretório. Mas, por um sentimento de profunda delicadeza cristã, Paula recusou obstinadamente o palácio que lhe ofereciam e foi hospedar-se com toda a sua comitiva em uma casa modesta não longe do Calvário; depois, sem se dar tempo para descansar de suas fadigas, dispôs-se a visitar os lugares santos. Entrou primeiro na igreja da Cruz; mas, inteiramente voltada ao pensamento dos grandes mistérios que esses lugares recordavam, mal deu um olhar ao esplendor da basílica. A cruz do Salvador, era isso que seus olhos e seu coração buscavam acima de tudo. Quando o objeto sagrado foi exposto diante dela, a fé e o amor que enchiam sua alma transbordaram, por assim dizer, e a lançaram em uma espécie de arrebatamento. Prostrou-se com a fronte no pó, adorando o madeiro sagrado, ou melhor, o Cristo pregado a esse madeiro e que sua fé viva via como se estivesse presente. Ela não se cansava de contemplar esse espetáculo e de representar a si mesma, uma a uma, todas as circunstâncias da paixão. Após essa longa adoração, passou para a igreja do Sepulcro: lá sua emoção foi ainda maior. Quando penetrou até a própria rocha que recebera o corpo inanimado do Salvador, não pôde se conter e, caindo de joelhos, irrompeu primeiro em lágrimas e longos soluços. Depois, viram-na aproximar-se da pedra, cobri-la de beijos, aplicar nela ardentemente seus lábios, como se bebesse ali, para saciar a sede de sua alma, águas há muito desejadas. "O que ela derramou de lágrimas sobre esta pedra, o que ela soltou de gemidos, o que ela testemunhou de dor", diz São Jerônimo, "Jerusalém inteira foi testemunha, e vós também, Senhor, que recolhias a vossos pés divinos esta chuva de suas lágrimas". Os cristãos de Jerusalém, testemunhas desse espetáculo, ficaram profundamente edificados com essa admirável piedade. Do Calvário, Paula dirigiu-se a Sião. "Ela queria ver tudo", diz São Jerônimo, "e não se podia arrancá-la de um lugar santo senão para conduzi-la a outro".

    Após ter visitado e venerado todos os lugares santos de Jerusalém, os peregrinos pensaram em percorrer a própria Terra Santa. Visitaram primeiro Belém; Paula, à vista da manjedoura, deu livre curso à sua alma e exclamou: "Salve, ó Belém! Tu és verdadeiramente a casa do pão, já que deste à terra o pão que desceu do céu; salve, ó Efrata! Tu és bem uma terra frutífera, já que o fruto de tua fecundidade é um Deus". Entrand Bethléem Local de nascimento e de unção de Davi. o então em uma doce meditação, começou a repassar em sua memória as passagens dos Profetas relativas ao nascimento do Salvador. "É bem verdade?", exclamava ela; "o quê! eu, uma miserável, uma pecadora, Deus dignou-se permitir-me colocar meus lábios na manjedoura onde seu Filho nasceu, de derramar minhas orações na gruta onde a Virgem mãe o deu à luz!" Após essas palavras, não podendo mais reter o fluxo de suas lágrimas, deixou-as correr abundantemente; e, finalmente, o amor de Nosso Senhor apoderando-se vitoriosamente de toda a sua alma, sentiu nascer nela, como uma inspiração celestial, o pensamento de fixar ali sua estadia, perto da santa e querida gruta, e de nunca mais deixá-la; e ouviu-se ela exclamar, com um acento inexprimível, aplicando a si mesma o juramento do Profeta: "Pois bem, doravante este é o lugar do meu repouso, pois é o berço do meu Deus. Habitarei nele, porque o Senhor o escolheu. É lá que minha alma viverá para ele". Ela parou; depois, olhando para Eustóquia, completou o versículo: "E minha descendência servirá ao Senhor". Tais foram as santas emoções de Paula na gruta de Belém.

    O grito que acabara de escapar de seus lábios: "Este é o lugar do meu repouso", não era uma palavra vã, fruto de uma emoção passageira, mas uma resolução séria que surgia em sua alma sob a impressão profunda e doce dos mistérios de Belém, e que deveria se cumprir. Veremos, de fato, Paula, quando tiver terminado suas peregrinações, retornar a Belém e não poder mais separar-se dela; ela viverá e morrerá ali com Eustóquia. Jerônimo também terminará sua vida ali; e, no decorrer dos séculos, o peregrino que visitar Belém verá, a poucos passos da gruta do Salvador, uma outra gruta que se chamará a gruta de São Jerônimo, e lá dois túmulos, que serão um o túmulo de Paula e de sua filha, e o outro o de seu santo amigo.

    De Belém, Paula dirigiu-se à torre de Ader ou do Rebanho, a Gaza, a Betsur, no vale de Escol ou do Cacho e no de Hebrom que era, depois de Jerusalém, o lugar mais venerado da Terra Santa. Terminada essa excursão, os peregrinos voltaram a Jerusalém através dos campos de Tecoa, pátria do pastor e profeta Amós; mas não descansaram muito tempo ali, e não tardaram a retomar sua jornada para Jericó e o Jordão. Ia-se para lá passando pelo monte das Oliveiras e pelo povoado de Betânia. Quantas emoções diversas todos esses lugares prometiam ainda! A piedosa caravana atravessou o vale de Josafá, cruzou o Cedron e, subindo a colina, dirigiu-se para o jardim das dores. Paula rezou longamente, ajoelhada sobre aquela pedra banhada pelo suor sangrento do Filho de Deus. Mas às lágrimas que ali derramou sucedeu um sentimento mais doce e quase triunfante quando, após se levantar, percebeu brilhar nos ares, no cume do monte das Oliveiras, aquela cruz ignominiosamente plantada outrora do outro lado da cidade, no Calvário. Essa cruz superava a igreja da Ascensão, construída por Santa Helena, no lugar mesmo de onde Nosso Senhor tinha subido aos céus.

    Após ter atravessado o pequeno vilarejo de Betfagé, onde fora pego o jumentinho sobre o qual Nosso Senhor montou para fazer sua entrada em Jerusalém, Paula chegou a Betânia, lugar amado pelo Salvador. Entrou com um piedoso enternecimento na morada onde Jesus tinha tão frequentemente recebido hospitalidade, onde Marta o servira, onde Maria se sentara a seus pés, escutando sua divina palavra: Maria, que derramou a seus pés, poucos dias antes de sua morte, na casa de um fariseu, aquele perfume de grande preço. Paula permaneceu algum tempo naquela casa, toda embalsamada por sua fé viva do perfume de Madalena. Quis ver também, a poucos passos dali, o túmulo de Lázaro. De Betânia foi a Jericó. No dia seguinte à sua chegada, antecipando a aurora para evitar o calor do dia, pôs-se novamente a caminho em direção ao Jordão. À sua vista, exclamou: "Vejam a maravilha: este elemento das águas, que afogou outrora o gênero humano sob o dilúvio, é ele agora que, purificado pelo contato do Filho de Deus, nos regenera no batismo". Tais foram as vivas emoções e o santo entusiasmo de Paula às margens do Jordão. Assim ela sentia as impressões diversas dos lugares diversos que visitava; sua alma, como uma harpa harmoniosa, ressoava segundo o sopro e as lembranças que a tocavam. Após ter assim explorado a Judeia, Paula visitou a Samaria, a Galileia, Nazaré, o lago de Tiberíades, Cafarnaum, todos esses lugares, centro da pregação e teatro dos principais milagres de Jesus Cristo.

    Retornada dessas peregrinações, e feliz pelas santas emoções que seu coração ali sentira, toda cheia aliás dessa alegria interior, superabundante, mas profunda e contida, que ela provava desde sua partida, Paula dispôs-se a partir para o Egito. A caravana chegou felizmente até a montanha de Nítria. Mas a notícia de sua chegada tinha precedido Paula nesses desertos, e o bispo de Heliópolis, cidade ribeirinha do Nilo, da qual dependiam os conventos de Nítria, tinha ido até lá para receber a nobre estrangeira, cercado por uma multidão numerosa de cenobitas e anacoretas. Ele conduziu primeiro a piedosa tropa à igreja situada no alto da montanha; depois, com aquela hospitalidade cordial e simples que é ainda hoje a virtude dos solitários do Oriente, instalaram os viajantes nos edifícios erguidos fora dos conventos e destinados aos estrangeiros, trouxeram-lhes água e panos para lavar seus pés e enxugá-los, e frutos do deserto para se refrescarem; após o que permitiram-lhes visitar os conventos e os solitários. Tomada de respeito diante desses heróis da penitência, esses atletas de todos os combates da alma contra as paixões miseráveis, dos quais alguns tinham lutado corpo a corpo com os próprios demônios em pessoa, e pareciam ter reconquistado, como mil relatos maravilhosos contavam, o antigo império do homem inocente sobre a natureza, Paula prosternava-se diante deles e beijava-lhes os pés, acreditando ver em cada um deles Jesus Cristo, e dirigindo em seu pensamento essas homenagens a Nosso Senhor, que esses Santos lhe representavam; depois, escutava avidamente as histórias da solidão e informava-se em detalhes sobre o gênero de vida dos Padres. Era uma vida muito simples e muito livre, ao mesmo tempo que muito santa e muito austera: ambiciosos de reduzir sua carne à servidão e de penetrar os segredos das coisas divinas, eles uniam a ação à contemplação. Seus dias dividiam-se entre o trabalho e a oração. Viam-nos ocupados em arar o solo, em derrubar árvores, em pescar no Nilo, em ordenhar suas cabras, em trançar as esteiras sobre as quais deveriam morrer. Outros estavam absorvidos pela leitura ou pela meditação das santas Escrituras. Os mosteiros, assim como diz um Santo, eram como uma colmeia de abelhas: cada um tinha em sua mão a cera do trabalho, e em sua boca o mel dos salmos e das orações. Após ter visto a vida cenobítica em Nítria, Paula dirigiu-se ao deserto das Celas, para ver ali a vida anacorética; depois ao deserto de Scete.

    Fundação 07 / 09

    Fundações monásticas em Belém

    Ela funda dois mosteiros e um hospício em Belém, instituindo uma regra estrita baseada na oração, no trabalho e no estudo.

    Após essas peregrinações, que duraram quase um ano inteiro, Paula retornou a Belém, onde cartas de Roma que a aguardavam após seu retorno do Egito lhe comunicaram a morte de sua filha mais nova. Mas, como sempre acontece nas provações que Deus envia, uma graça estava escondida nessa dor: a Providência, que desejava reter Paula nos lugares santos, parecia cuidar, para suavizar suas últimas lutas, de desatar ela mesma os laços que ela teria tido de romper. Ela não precisava mais, a partir de então, senão de uma solidão para chorar e rezar. Essa vida austera e pura, vista de perto por ela nos desertos do Egito, respondia sozinha aos poderosos atrativos que ela sentia. Os lugares santos exerciam, aliás, um ascendente soberano sobre ela; ela não conseguia se arrancar de lá. Meditar os mistérios cristãos nos próprios lugares onde se realizaram, e as Escrituras divinas sob o céu que as inspirou, ela não via mais para si, a partir de então, outra vida possível. A voz de Deus se fazia ouvir com uma força que não deixava mais espaço para a resistência.

    Ela resolveu, portanto, construir imediatamente, perto da manjedoura do Salvador, dois mosteiros: um de mulheres, onde habitaria com Eustóquia e a colônia de viúvas e virgens que a tinham seguido de Roma, prontas para ir a qualquer lugar onde ela as conduzisse; e outro de homens, para Jerônimo e seus amigos. O local escolhido para o mosteiro de Jerônimo foi à direita da igreja da manjedoura, do lado norte, em um lugar um pouco afastado da via pública; um caminho, que se desviava da estrada a partir do túmulo do rei Arquelau, conduzia até lá; o de Paula foi colocado a certa distância dali, e como que escondido na encosta da colina, quase no fundo do vale. Algumas ruínas em meio ao verde indicam ainda hoje o seu lugar. Mas, enquanto os mosteiros não eram construídos, ela foi se estabelecer, com suas companheiras, em uma pequena casa retirada, e instalou Jerônimo e os seus, que eram menos numerosos, em uma habitação ainda mais modesta. Então, de ambos os lados, começou-se o gênero de vida que se propunham observar nos mosteiros: vida de trabalho, de estudo e de oração.

    Paula havia se dedicado com mais felicidade do que nunca à leitura dos Livros santos, enquanto supervisionava ativamente a construção dos mosteiros. De tempos em tempos, ela passeava com Eustóquia e suas companheiras pelas colinas ou pelos campos de Belém, cantando salmos, e saboreava com uma alegria extrema as belezas dessa natureza pitoresca, às quais era muito sensível. Ela também fazia visitas frequentes à manjedoura, aos lugares santos de Jerusalém e ao convento do Monte das Oliveiras.

    Em meio às ocupações e alegrias espirituais de sua nova vida e de sua nova estada, Paula não esquecia aqueles que amava na terra e dos quais o vasto espaço dos mares a separava em vão. O pensamento de Roma visitava sem cessar sua alma. Ela mesma não era esquecida lá. Suas peregrinações, sua resolução de se fixar nos lugares santos, faziam o assunto diário de seus filhos, das virgens do Aventino, de Roma inteira. Uma correspondência ativa estabeleceu-se desde então entre Roma e Belém, e não cessou mais.

    Entretanto, os trabalhos empreendidos por Paula avançavam, e os mosteiros se erguiam pouco a pouco na colina de Belém, mas muito lentamente para o seu gosto. Havia em cada um deles uma igreja ou capela; e sabemos até que a padroeira que foi dada por Paula à igreja de seu mosteiro foi Santa Catarina de Alexandria, jovem mártir das últimas perseguições, muito célebre no Oriente, que oferecia às suas filhas o exemplo de todas as virtudes ao mesmo tempo: a virgindade, a ciência, o heroísmo, e de quem Belém guardava uma tocante tradição. Os edifícios concluídos foram cercados cada um por um recinto de altas muralhas e munidos de uma torre. Todos esses edifícios foram coroados pela fundação de um hospício para os peregrinos, que foi construído bem ao lado da igreja de Belém. Ao fim de três anos, os mosteiros, a igreja e o hospício, tudo estava terminado. Era tempo. A humilde casa que abrigara provisoriamente o enxame de virgens reunidas ao seu redor não bastava mais para contê-las. Seu número havia aumentado muito. O grande nome de Paula atraíra virgens de diversas regiões, umas simples plebeias, outras pertencentes a famílias ricas ou nobres; entre estas, algumas tinham chegado com numerosos criados: Paula não as admitira senão depois de tê-las feito despedir todo esse pessoal: era a verdadeira vida solitária, com sua austeridade e sua pobreza, que Paula pretendia fundar em seus mosteiros. Ela estava em grande impaciência para entrar neles.

    Seguindo o exemplo dos estabelecimentos cenobíticos que visitara às margens do Nilo, Paula dividiu suas filhas em três grupos, e como que em três mosteiros, tendo cada um à sua frente uma abadessa ou mãe. As virgens eram assim separadas para o trabalho e as refeições; mas reuniam-se todas, para a salmodia e a oração, em sua capela de Santa Catarina. Ao canto alegre do Aleluia, que era o sinal, corriam todas de suas celas para a Coleta ou reunião; Paula sempre a primeira, ou entre as primeiras. Ela esperava, para começar a oração ou a salmodia, que todas as irmãs tivessem chegado: não deixar tudo assim que o Aleluia ressoasse, retardar por sua negligência o doce momento da oração comum e do canto dos louvores de Deus, era uma grande vergonha, e essa vergonha um vivo aguilhão, o único que Paula queria empregar aqui, pensando com razão que, para exercícios que exigem essencialmente a prontidão e a alegria, valia mais esperar tudo da piedade e do coração do que da coerção. Reuniam-se desde a manhã, depois à terceira hora, à sexta, à nona e finalmente à noite, para cantar os salmos, e, no meio mesmo da noite, quando tudo estava silencioso e adormecido, as vozes das filhas de Paula se elevavam ainda para repetir os belos hinos do Profeta de Belém. Cantava-se o Saltério inteiro todos os dias. Todas as irmãs eram obrigadas a sabê-lo de cor, e deviam, além disso, aprender cada dia algo da santa Escritura. No domingo, a comunidade se dirigia à igreja de Belém, cada grupo tendo à frente sua mãe, e voltava na mesma ordem. No retorno, fazia-se a distribuição do trabalho para a semana. Eram habitualmente roupas a confeccionar para o mosteiro ou para os pobres da região, dos quais o mosteiro de Paula logo se tornou a providência. Cada irmã tinha sua tarefa. De resto, no interior do mosteiro, ninguém podia ter serva, mas devia servir a si mesma e servir à comunidade. Todas as irmãs usavam indistintamente, patrícias ou plebeias, o mesmo traje, que era de lã, e não usavam linho senão para enxugar as mãos. A clausura era absoluta e toda comunicação com o exterior rigorosamente proibida. Tal era, em seu conjunto, a Regra do mosteiro de Paula. Ela demonstrou, no governo desse mosteiro, todos os grandes lados de sua natureza: uma mistura admirável de energia e doçura, e um raro discernimento dos espíritos e dos caracteres. Esta palavra do Apóstolo: "Que quereis? Irei a vós com vara ou com amor e espírito de mansidão?" foi a regra de Paula; e a força necessária para aplicá-la constantemente, esse domínio sobre si tão necessário àqueles que comandam os outros, foi a sua virtude.

    A maior autoridade de Paula para manter a obediência e o fervor era a de seu exemplo e de suas virtudes. Via-se, com Eustóquia, a primeira em toda parte, no trabalho e nas rudes práticas da penitência, como na salmodia e na oração. E tal era sua profunda humildade que aquele, diz São Jerônimo, que, não conhecendo dela senão seu grande nome, tivesse pedido que lha mostrassem em meio à sua comunidade, não teria podido acreditar que fosse ela, e teria exclamado ao vê-la: "Não, não é Paula; é a última irmã do mosteiro". A austeridade de Paula era tal que ela nunca cedeu, mesmo quando sua saúde estava enfraquecida e arruinada, às irmãs mais jovens e mais vigorosas, quanto à abstinência e ao jejum. Mas, tanto quanto era dura para si mesma, era terna para as irmãs quando estavam doentes. São Jerônimo renuncia a descrever suas bondades para com elas, sua assiduidade, sua atenção, seus cuidados apressados e delicados. Ela as forçava então a tomar vinho e carne, embora ela mesma nunca tivesse querido fazê-lo. Seu leito eram cilícios estendidos sobre a terra nua, e ela nunca quis, mesmo quando estava doente e a febre a devorava, outro leito para tomar seu repouso; "se se pode chamar de repouso", diz São Jerônimo, "noites passadas quase inteiras a rezar". E nessas orações prolongadas por tanto tempo, seus olhos deixavam escapar fontes de lágrimas, e essas lágrimas, à lembrança das mais leves faltas, corriam tão abundantes que a teriam julgado culpada dos maiores pecados. São Jerônimo tentava em vão detê-las. "Nós lhe dizíamos frequentemente", escreve ele: "Mas poupe então seus olhos e conserve-os para ler as santas Escrituras". — "Ah! que dizeis?" respondia ela; "é preciso desfigurar este rosto, que cobri tantas vezes, contrariamente à lei de Deus, com pintura e alvaiade. É preciso domar este corpo que alimentei em delícias. É preciso afogar esses longos risos de outrora em prantos eternos. É preciso substituir os tecidos delicados e os vestidos de seda pelo duro cilício. Demasiado tempo quis agradar ao mundo; quero agora agradar a Deus".

    Havia ainda um outro ponto onde Jerônimo tentava inutilmente moderar o ardor de Paula: era nas piedosas prodigalidades de sua caridade. Após a morte dessa santa mulher, ele se censurava por isso; mas então, diante dos encargos consideráveis e cada dia crescentes dos mosteiros, ele acreditava dever temperar o zelo de Paula com conselhos de prudência. Não que a Paula faltasse realmente; pelo contrário, ela tinha, diz-nos São Jerônimo, uma indústria maravilhosa para multiplicar suas esmolas por sua habilidade em distribuí-las; mas seus recursos eram limitados e sua caridade não o era: ela não sabia o que era parar ou recusar um pedido. Vendo-a, portanto, lançar sem contar os socorros em roupas, em comida, em dinheiro, aos indigentes não apenas de Belém, mas de toda a região, abrir seu hospício a todos os peregrinos sem exceção, esgotar com seus próprios recursos até o patrimônio de Eustóquia, Jerônimo acreditava dever intervir e moderar essas esmolas imensuráveis. E tentava fazê-lo com a ajuda das palavras do Evangelho ou dos Apóstolos.

    Paula ouvia suas palavras com respeito e, no entanto, encontrava sempre uma resposta, reservada e curta, mas peremptória, a essas dificuldades. "Vós temeis", dizia-lhe ela, "que meus recursos se esgotem. Não, não, terei sempre crédito suficiente; e se eu pedir, eu encontrarei facilmente quem me dê. Mas esses infelizes, se eu lhes faltar, o que será deles?" E aos textos citados por Jerônimo, ela opunha com doçura as belas palavras dos Livros santos sobre a esmola: "Como a água apaga o fogo, assim a esmola apaga o pecado. — Dai esmola e esse fogo da caridade purificará todos os vossos pecados. — Fazei-vos amigos com o dinheiro da iniquidade, para que, quando faltar, vos recebam nos tabernáculos eternos". Ela se comprazia em repetir essas palavras, que lhe pareciam mais claras e mais decisivas do que os mais belos raciocínios. Então, elevando-se à altura das maiores ideias cristãs, ela falava com uma fé tão viva tanto do amor de Deus, que considera como feito a si mesmo o que se faz aos pobres, quanto da felicidade de se assemelhar, por uma pobreza real e um despojamento efetivo, a Jesus Cristo, que São Jerônimo não tinha mais a coragem de insistir e, vencido pela admiração, a deixava seguir a seu bel-prazer suas inspirações heroicas.

    Contexto 08 / 09

    Controvérsias e perseguições

    Seus últimos anos foram marcados pelas querelas ligadas ao origenismo e pelas ameaças de invasões bárbaras.

    O silêncio e a paz dos mosteiros de Paula foram logo perturbados pelo surgimento do origenis mo, que o origénisme Conjunto de doutrinas atribuídas a Orígenes, combatidas por Barsanúfio. bispo de Jerusalém apoiava; Paula sofreu sem murmurar os rigores desdobrados contra seus mosteiros por esse bispo herético, aguardando o dia em que as injustiças dos homens dariam lugar à justiça de Deus; e, embora seu gosto a tivesse levado a isso, sua alta razão a fazia fugir absolutamente de toda controvérsia dogmática. Quanto mais se fazia barulho ao seu redor, mais ela se encerrava na oração e nas lágrimas, e na doce meditação das Sagradas Escrituras, fechando os ouvidos às vãs disputas, deixando lutar pela doutrina aqueles cujo dever era lutar, e, como deveriam sempre fazer as mulheres cristãs quando sua crença é atacada, permanecendo no Tabor sereno de sua fé, o olhar voltado para o céu e as nuvens sob seus pés. Jerônimo, aliás, havia traçado para ela uma regra de conduta muito simples e, ao mesmo tempo, muito protetora; era manter-se invariavelmente, em todas essas controvérsias, na âncora da fé romana, e deixar as ondas da polêmica agitarem-se ao seu redor, sem se perturbar com seu tumulto. A heresia não a deixou nessa paz: uma conquista como a dela teria sido um triunfo grande demais para que não tentassem; mas, não tendo conseguido atingir Paula em sua fé, vingou-se desencadeando-se contra ela. Sua grande virtude, aliás, ofuscava demais para ser poupada. Elevada a alturas onde a pobre humanidade mal chega, era bom, segundo a própria expressão de São Jerônimo, que a provação viesse lembrá-la de sua condição mortal. Ora a inveja a atacava diretamente; suas menores ações, suas menores palavras eram denegridas e ridicularizadas. Ora a envolviam nos ataques dos quais Jerônimo era objeto. Iam ainda mais longe: voltavam contra ela suas próprias virtudes, sua mortificação, suas caridades.

    Nada mostrou melhor do que essas provações todo o trabalho que a graça havia realizado naquela alma: a solidez, a sinceridade de sua virtude; sua serenidade inalterável, sua doçura celestial, sua inteira posse de si mesma, o aniquilamento em seu coração de todo o velho orgulho romano e patrício; sua incomparável humildade, sua paciência infinita e, sobretudo, a fé, que era a raiz nela de todas essas virtudes, e que a elevava e a fixava nessas regiões superiores e tranquilas onde as nuvens não sobem e onde, à luz de Deus, todas as coisas desta terra desaparecem em sua pequenez. Assim, a inveja desencadeava-se em vão no exterior; nada perturbava no interior seu recolhimento, seu silêncio e sua profunda paz em Deus. Jamais uma palavra, um sinal sequer que indicasse a menor emoção: essa natureza tão viva parecia ter perdido até essa sensibilidade que ainda deixa sofrer tanto as almas mais desapegadas, os espíritos mais firmes e mais bem feitos para julgar em seu justo valor a inanidade real das coisas que nos ferem tanto na vida. Sua meditação assídua dos santos livros trazia esses frutos maravilhosos. A Escritura, era ali, diz-nos São Jerônimo, que ela buscava sua luz, sua consolação e sua força. Era ali a armadura sempre pronta que a cobria e a protegia. Enquanto o velho solitário saltava como um leão ferido sob os ataques da calúnia, e ora se indignava ou gemia, e às vezes até sentia vacilar sua constância e sua coragem, Paula, sempre calma e pacífica, o continha, ou o consolava, aproximando de seus lábios o mel das Sagradas Escrituras, cuja doçura preenchia sua alma.

    Acontecia às vezes que levavam a insolência ao ponto de lançar-lhe o insulto na cara. Sem responder uma única palavra, Paula contentava-se em cantar em sua alma com o Salmista: «Quando o pecador se levantou contra mim, calei-me; retive em meus lábios toda resposta». Um dia, alguém veio dizer-lhe diretamente que o excesso de suas virtudes a fazia passar por louca, e que diziam em Jerusalém que seu cérebro precisava ser tratado; Jerônimo indignou-se contra o insolente; mas Paula contentou-se em responder com sua habitual doçura: «Sim, somos loucos por Jesus Cristo; mas essa loucura é mais sábia que a sabedoria dos homens».

    E acrescentou, dirigindo-se a Jerônimo: «No salmo, o Salvador não diz ao seu Pai: 'Vós conheceis minha loucura'? E não lemos no Evangelho que seus parentes quiseram prendê-lo como um insensato? Os judeus não o chamavam também de samaritano, de possesso do demônio? Devemos ser mais bem tratados que ele? Ele não nos disse que o mundo nos odeia, porque não somos do mundo?». E então, voltando toda a sua alma para Deus: «Ó meu Deus», exclamou ela, «vós conheceis, vós, os segredos do coração. É por vós que somos mortificados todo o dia, e considerados como ovelhas destinadas ao matadouro. Mas vós sois, Senhor, nosso socorro, e não temo o que o homem possa me fazer». É assim que a Escritura Sagrada lhe fornecia uma resposta para tudo, e que a provação fazia jorrar de seu coração todos os tesouros de humildade, de doçura e de força, de grande fé e de santa esperança que sua austera e estudiosa vida, que suas mortificações e suas lágrimas haviam silenciosamente acumulado ali.

    A perseguição exercida contra os mosteiros de Paula e contra Jerônimo continuava. Tendo o bispo de Jerusalém obtido do governador um decreto de banimento contra os monges, Jerônimo ergueu-se a esse golpe em toda a sua indignação. «Como!», exclamou ele a essa notícia, «um bispo que foi monge ameaça e fere com o exílio monges! Ele não sabe, portanto, que essa raça não tem o costume de ceder ao medo, e que, quando lhe apresentam a espada, em vez de afastá-la com a mão, ela estende a cabeça. Mas para um monge, que não tem outra pátria senão o céu, o mundo inteiro não é um lugar de exílio? Não, não é preciso despesas, rescrito imperial e corridas aos confins da terra. Que ele nos toque com a ponta do dedo, e partiremos. Ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela encerra. O Cristo não é prisioneiro em lugar nenhum». Assim, cansado dessas lutas, ele queria partir imediatamente, sem esperar a execução do rescrito. Veio, então, com esse pensamento, encontrar Paula, e houve entre ela e ele uma cena tocante. «Partamos», dizia Jerônimo, «e deixemos triunfar a louca inveja. Jacó fugiu de Esaú, e Davi de Saul». Paula certamente não tinha menos que Jerônimo esse desapego superior, independente das coisas e dos lugares e de todo laço terrestre; mas, mais doce e, portanto, mais forte diante da provação, sabendo que se foge dela em vão, e que ela nos alcança em toda parte, retida aliás por seu invencível amor aos lugares santos, e não podendo consentir em separar-se voluntariamente de sua querida Belém, ela lhe fez esta bela resposta: «Sim, vós teríeis razão, e faríamos bem em fugir, se o demônio não combatesse em todo lugar contra os servos de Deus, e não devesse nos preceder para onde fôssemos; se eu não tivesse, além disso, esse caro laço dos lugares santos, e se pudesse esperar encontrar em algum lugar outra Belém». Ela acrescentou então com sua habitual doçura: «Detestam-nos, esmagam-nos; por que não opor simplesmente à paciência o ódio, à arrogância a humildade? Dão-nos bofetadas; por que não oferecer a outra face?». Então, buscando como sempre sua luz e sua força nas Sagradas Escrituras, ela prosseguiu assim, diz Jerônimo: «O apóstolo São Paulo não escreveu: 'Triunfai do mal pelo bem'? Os Apóstolos não eram felizes por sofrer a ignomínia pelo nome de Jesus? E o próprio Salvador, não suportou tudo até a morte, e até a morte de cruz? Se Jó não tivesse combatido e triunfado, não teria recebido a coroa da justiça, e não teria ouvido da própria boca do Senhor esta palavra: 'Pensas que te provei para outra coisa senão para fazer brilhar tua virtude?'. Assim, o Evangelho proclama felizes aqueles que sofrem perseguição pela justiça». E, finalmente, refugiando-se no inexpugnável asilo de sua consciência: «Quando a consciência nos diz que nossos sofrimentos não são as consequências de nossos pecados, temos certeza de que as aflições deste século não são senão a matéria das eternas recompensas». Assim, Paula sustentava e acalmava o impetuoso Jerônimo. A delicadeza e a serenidade dessa bela alma, elevada a essas alturas da luz e do amor de Deus onde não atingem as tempestades deste mundo, suavizavam, como por um encanto penetrante, os movimentos desse coração ulcerado ainda mais pelas penas que atraía a Paula do que pelo que ele mesmo sofria.

    Nesse ínterim, um rumor sinistro, que percorreu o Oriente com a rapidez do relâmpago, veio lançar o pavor entre os solitários. Diziam que os hunos haviam inundado o Oriente e ameaçavam Jerusalém. A Arábia, a Fenícia, a Palestina e o Egito estavam tomados de terror. De todos os lados faziam-se às pressas preparativos de defesa; Tiro cortava seu istmo e isolava-se do continente; Jerusalém reparava suas muralhas, muito negligenciadas durante uma longa paz. Nesse perigo, Paula, para subtrair seus mosteiros aos insultos dos bárbaros, não tinha senão um partido a tomar: a fuga. Decidiu-se, então, não sem um grande dilaceramento de coração, a deixar Belém, e retirou-se, levando suas virgens, e Jerônimo seus monges, para as margens do mar, em Jope, pronta para embarcar assim que os bárbaros aparecessem. Certo tempo passou-se nessas alarmes. Mas, tendo os hunos subitamente voltado atrás sem ter atravessado o Líbano, Paula trouxe suas filhas de volta ao seu mosteiro com uma alegria igual aos seus terrores passados.

    Culto 09 / 09

    Morte e culto em Sens

    Paula morre em 401. Suas relíquias são mais tarde transferidas para a catedral de Sens por Carlos Magno.

    Foi perto do fim do ano 403 que Paula sentiu o início da doença que seria para ela a última. Quando se reconheceu a iminência do perigo, tudo, no mosteiro, ficou consternado. Eustóquia, sobre tudo, est Eustochie Terceira filha de Paula, acompanhou-a ao Oriente e foi sua sucessora. ava inconsolável. Seu amor pela mãe, que sempre fora tão comovente, mostrou em seus últimos momentos todo o ardor e toda a energia que aquele coração continha. Ela não queria ceder a ninguém a doçura de cuidar dela, e comovia a todos até às lágrimas com seus cuidados dedicados e as delicadas atenções de sua piedade filial. Ela estava lá, noite e dia, à cabeceira da doente, apresentava-lhe a comida, arrumava sua cama, prestava-lhe enfim todos os ofícios de uma enfermeira, desolada quando outra mão que não a sua a havia servido. Via-se a correr desesperada do leito de sua mãe ao Presépio, e lá, chorando e soluçando, pedir ao Senhor, com todo o ardor de sua alma, que não a privasse de tal companhia, ou pelo menos que não a deixasse viver após sua mãe, e que permitisse que as colocassem ambas no mesmo túmulo.

    Mas essas lágrimas e essas orações não podiam retardar o momento marcado por Deus. «Paula», diz São Jerônimo, «tinha, como diz o Apóstolo, completado sua carreira e guardado a Deus sua fé; a hora ia soar para ela de receber a coroa, e de seguir o Cordeiro por onde quer que ele vá. Ela tinha tido a fome sagrada da justiça, ela ia ser saciada, e já, alegre, podia cantar: Tudo o que ouvimos da cidade do Deus das virtudes, vamos ver agora. Ela tinha chorado o suficiente; o momento da eterna alegria tinha chegado. Ela tinha usado o cilício o suficiente; era tempo de vestir a túnica de glória e de exclamar: Vós rasgastes o saco da minha penitência, e me vestistes de alegria. Ela tinha comido seu pão como cinza o suficiente, e misturado sua bebida com suas lágrimas; era tempo de ir se nutrir na eternidade do pão dos anjos, e de repetir para sempre estas palavras: Provai e vede quão doce é o Senhor». As forças da doente estavam consumidas, e ela não tinha mais que alguns dias de vida. Ela sofria com uma paciência admirável e uma celeste serenidade.

    Entretanto, o mal fazia progressos assustadores. Já a morte tinha gelado as extremidades e uma parte dos membros; apenas um leve batimento de seu coração indicava que Paula ainda respirava, mas ela não respirava senão para Deus, e ouvia-se murmurar fracamente versículos de seus salmos favoritos: «Senhor, amei a beleza da vossa casa e o lugar onde habita a vossa glória. Quão amados são os vossos tabernáculos, ó Deus das virtudes! Escolhi ser pequena na casa do meu Deus, em vez de habitar sob as tendas dos pecadores». O bispo de Jerusalém e todos os bispos da Palestina, assim como um grande número de sacerdotes, monges e virgens, tinham acorrido para assistir ao espetáculo desta santa morte. O mosteiro estava cheio. Paula, toda absorvida em Deus, não ouvia, não via nada ao seu redor; percebia-se apenas, pelo leve estremecimento de seus lábios, que ela continuava a conversar suavemente com Deus. Fizeram-lhe algumas perguntas; ela não respondeu. Jerônimo então, aproximando-se dela, perguntou-lhe por que ela se calava e se tinha algum sofrimento. Ela respondeu-lhe em língua grega: «Oh! não, nem sofrimento nem arrependimento. Sinto, ao contrário, uma paz imensa». Após estas palavras, ela permaneceu novamente em seu silêncio. Seu dedo, que ela mantinha constantemente sobre seus lábios, não cessava de traçar ali o sinal da cruz. Finalmente a agonia começou, a respiração tornou-se áspera e penosa, e de repente viram-na abrir os olhos; do meio das sombras da morte uma claridade súbita, último reflexo da alma sobre este corpo que ela ia deixar, brilhou em seu rosto, e seu olhar pareceu fixar-se como sobre uma aparição celeste: era uma, de fato. Compreendeu-se pela sua resposta que Nosso Senhor a chamava a si; pois ouviu-se ela exclamar toda alegre: «As flores mostraram-se em nossa terra, o tempo de colhê-las chegou»; e ainda: «Creio ver os bens do Senhor na terra dos vivos». Ela expirou com estas palavras. Era o dia 26 de janeiro do ano 401, sob o sexto consulado do imperador Honório. Paula tinha vivido cinquenta e seis anos, oito meses e vinte e um dias, dos quais cinco anos em Roma após sua viuvez, na santa profissão da vida religiosa, e vinte em Belém, perto do presépio onde nasceu o Filho de Deus.

    Eustóquia estava inconsolável com a morte de sua mãe; à dor que sentia vinham somar-se para a tímida virgem duas grandes inquietações, das quais sua humildade se alarmava além da medida, a saber, o governo espiritual de sua comunidade, preocupação que ela nunca tinha tido enquanto Paula vivia; e o encargo desses dois mosteiros dos quais ela se tornava o único recurso, e que ela devia sustentar.

    Após ter governado santamente seu mosteiro, Eustóquia adormeceu suavemente no Senhor, em 419, e foi sepultada, segundo seu desejo, no túmulo de sua mãe: se constante e ternamente unidas na vida, deviam sê-lo também na morte. A Igreja celebra sua festa no dia 26 de setembro.

    Representa-se Santa Paula prostrada dentro ou diante da gruta de Belém; ajoelhada diante do santo presépio, em companhia de São Jerônimo e de Santa Eustóquia, sua filha; embarcada em um navio que levanta âncora enquanto uma criança, seu filho Toxócio, parece chamá-la da margem com suas lágrimas; derramando ela mesma lágrimas pelos seus, pois seu coração era tão bom quanto era grande: mas a generosidade superou a ternura; venerando ou abraçando os instrumentos da paixão; seu traje mais comum é o de uma religiosa portando um livro: pretende-se que ela seja a fundadora das Jerônimas.

    [ANEXO: CULTO E RELÍQUIAS.]

    As exéquias de Paula foram triunfais. Antes de descê-la ao seu túmulo, transportaram-na do mosteiro para a igreja do Presépio, para ser exposta, com o rosto descoberto, à veneração dos fiéis. Os bispos fizeram questão de carregar seu corpo. Uma multidão imensa tinha acorrido de todas as cidades da Palestina; os monges e as virgens tinham se apressado a deixar seus desertos e seus retiros; mas a pompa mais bela e mais real era o cortejo dos indigentes que choravam sua nutriz e sua mãe.

    A Santa permaneceu exposta durante três dias na igreja, sem que a morte tivesse feito qualquer mudança em seus traços. Depositaram então seu corpo na igreja, em uma gruta adjacente a esta santa gruta do Presépio que ela tinha tanto amado, onde seu túmulo se vê ainda hoje.

    São Jerônimo gravou sobre seu sepulcro a seguinte inscrição: «A filha dos Cipiões, dos Paulos, dos Gracos, o ilustre sangue de Agamêmnon, repousa neste lugar. Ela portou o nome de Paula. Foi mãe de Eustóquia. A primeira no senado das matronas romanas, aos esplendores de Roma ela preferiu a pobreza de Cristo e os humildes campos de Belém.

    Ele gravou também na entrada da gruta sepulcral, sobre a rocha, este epitáfio que reproduzia em outros termos o mesmo contraste, e além disso mostrava a fonte sublime: «Vês esta gruta cavada na rocha? É o túmulo de Paula, habitante do reino celeste. Seu irmão, seus parentes, Roma, sua pátria, suas riquezas, seus filhos, ela deixou tudo pela gruta de Belém: ela está sepultada ali. É lá também, ó Cristo, que está o vosso presépio, e que vieram os Magos oferecer-vos seus místicos presentes, ó Homem-Deus!»

    A festa de Santa Paula sempre foi celebrada solenemente na catedral de Sens, que possui suas relíquias desde Carlos Magno. Este imperador tinha pedido aos bispos e aos abades que lhe dessem relíquias para adornar a catedral que ele acabava de construir em Aachen. Cada um apressou-se a atender aos seus desejos, e Carlos Magno recebeu tantas belas relíquias que ele mesmo pôde dar algumas aos seus amigos.

    Nenhuma igreja, nem em Roma, nem na Palestina, nem em outro lugar, se gloria de possuir seu corpo. A liturgia senonesa constata seu culto e a presença de suas relíquia s na catedr Charlemagne Imperador dos Francos e tio de São Folquino. al desde a mais alta antiguidade; Santa Paula, desde a chegada de suas relíquias, foi adotada como padroeira pela cidade de Sens. Os inventários de 1095, de 1192, de 1239 e de 1571 constatam no tesouro a presença das relíquias de Santa Paula. Eis o último inventário que foi feito por Nicolas Pellevé, cardeal-arcebispo de Sens, um dos signatários do Concílio de Trento, e que analisa todos os inventários anteriores:

    «Nicolaus miseratione divina sacrosanctæ Romanæ Ecclesiæ presbyter cardinalis de Pelleve, archiepiscopus Senonensis, Galliarum et Germaniæ Primas... notum facimus quod in hoc loco reposita sunt multorum sanctorum et sanctarum pignora gloriosa.

    « Ræ autem literis et actis publicis mandanda posteris curavimus, ut omnes tam præsentes quam posteri diligenter sciant et attendant, quanta cum devotione et reverentia Deo et sanctis ejus assistore deocant...

    « Sed hæc sacra pignora a Carolo Magno (812) et aliis patribus huic ecclesiæ donata sunt et primum ab archiepiscopo qui Magnus vocabatur (et erat ejus/neveu de Caroli magni consubrinus), accepta esse notis certissime constitit per acta publica in capuis inventa, quæ ab anno Domini 1095 exercuta absque lituris integra ad nos usque pervenerunt.

    « Quo tempore primum (1095) a venerabili archiepiscopo Richerio, regnante Philippo rege, visitata et thecis argenteis distincta et recondita sunt... Longo post tempore venerabilis antistes et archiepiscopus Guydo capuis novis restauravit anno Domini 1192 in crastino Assumptionis Beatæ Mariæ...

    « At vero venerabilis antistes Gallerus anno Domini 1239 gloriosa pignora singulis thecis reponenda curavit. Nos vero sanctorum illorum patrum vestigiis insistere volentes, hæc tam sancta pignora, quanto potuimus honore et reverentia visitavimus et publicis decretis supplicationibus populo proponimus...

    « Duodecim thecis partim argenteis, partim ligneis distinguuntur.

    « Prima quæ auro et argento undique decorata est corpus sanctæ Panæ continet (cui tam honorifice Hieronymus suum senectatum commendat), etc.

    « ... Senonis anno Domini millesimo quingentesimo septuagesimo primo... »

    De resto, a liturgia senonesa, crônicas locais, todos os autores que falaram da história religiosa de Sens constatam que o corpo de Santa Paula está em Sens e que foi dado com o magnífico pedaço da verdadeira Cruz, por Carlos Magno a Magnon ou Mague, arcebispo de Sens, seu primo.

    Celebra-se cada ano nesta diocese a festa de Santa Paula, no dia 26 de janeiro, sob o rito duplo. As relíquias foram levemente carbonizadas por um incêndio que consumiu a catedral de Sens no século X. Ainda hoje, a urna de Santa Paula é preciosamente conservada no tesouro e encerrada em um armário envidraçado.

    Nós nos servimos, para compor esta biografia, da História de Santa Paula, pelo abade Lagrange, vigário geral de Orléans; dos Acta Sanctorum; do Elogio da Santa, por São Jerônimo; e de Notas locais, concernentes às relíquias, do abade Cartier, cônego de Sens.

    Fonte oficial Les Petits Bollandistes, por Mons. Paul GUÉRIN, camareiro de Sua Santidade Pio IX.

    Sinais e atributos

    Rede do relato

    Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.

    Anexos & entidades relacionadas

    Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.

    Eventos marcantes

    1. Casamento com Toxócio e nascimento de cinco filhos
    2. Viúva aos 31 anos de idade
    3. Encontro com São Jerônimo em Roma em 382
    4. Partida de Roma para o Oriente após a morte de sua filha Blesila
    5. Peregrinação à Terra Santa e ao Egito
    6. Fundação de mosteiros e de um hospício em Belém
    7. Morte em Belém após 20 anos de vida monástica

    Citações

    • Por muito tempo quis agradar ao mundo; agora quero agradar a Deus. Fonte original
    • As flores apareceram em nossa terra, chegou o tempo de colhê-las. Últimas palavras