Nascido em um estábulo em 1603, José Desa tornou-se padre franciscano apesar de suas dificuldades intelectuais, graças a uma proteção divina manifesta. Famoso por seus êxtases e suas levitações espetaculares, viveu uma vida de humildade heroica e penitência, frequentemente escondido pela Inquisição. Morreu em Osimo em 1663 após ter manifestado numerosos dons de clarividência e cura.
Seus contemporâneos
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SÃO JOSÉ DE CUPERTINO,
DA ORDEM DOS FRADES MENORES.
Origens e infância
José Desa nasce em 1603 em Copertino em um estábulo e manifesta desde a mais tenra idade uma piedade excepcional e tendências extáticas.
Si rectum vivendi rationem expetis, te in humilitate exerce, sine qua recta vita ratio consistere nequit.
Se desejais levar uma vida santa, exercitai-vos na humildade, sem a qual toda santidade de vida é impossível.
S. Ephrem, *De recta viv. rat.*
As pessoas do século são deslumbradas pelo brilho celeste com que Nosso Senhor cercou este Santo na terra; mas os fiéis piedosos, habitantes de um reino que não é deste mundo, e acostumados à sua luz, amarão ver aquela sem nuvens; é para eles que vamos revelá-la.
Copertino, pequena cidade da diocese de Nardo, situada entre Brindisi e Otranto e a seis milhas da costa do golfo de Tarento, verá todos os séculos transmitirem seu nome e venerá-lo, porque se tornou o sobrenome de José Desa. Ele nasceu lá em 17 de junho de 1603, em u Joseph Desa Frade menor conventual célebre por seus êxtases e levitações. m estábulo onde sua pobre mãe, Francisca Zanara, havia se abrigado contra os insultos dos agentes da justiça que a perseguiam por algumas dívidas contraídas pelo pai, carpinteiro de profissão.
Foi batizado na igreja matriz de Copertino, consagrada a Nossa Senhora das Neves, recebeu um pouco mais tarde a confirmação e, assim que sua idade permitiu, foi aplicado ao estudo dos elementos da religião e das letras. Mas mostrou-se mais apaixonado pelas coisas de Deus do que pelas do mundo, pela ciência dos Santos do que pela dos homens. É em santidade que ele deveria um dia crescer; e, nas fileiras da Ordem seráfica, assim como no palco do mundo, ele foi de fato menos admirado pelo brilho de sua doutrina do que por suas virtudes heroicas. «Desde sua mais tenra infância, aos cinco anos de idade», dizem os atos do processo de canonização, «ele deu tais sinais de santidade que, para ser já venerado como um homem perfeito, faltava-lhe apenas a idade». Deus, criador desta alma excelente, parecia repousar nela com complacência, para elevá-la em breve às contemplações sublimes que, durante sessenta anos, o mantiveram absorvido em Deus como um habitante do céu. Maravilhosos arrebatamentos o arrancaram tão bem da terra que se pode afirmar que, durante talvez a metade de sua vida, seus pés não tocaram o solo.
As igrejas de Copertino eram o teatro das diversões desta criança privilegiada. Ele amava visitar os altares e enfeitá-los com flores. Sob as abóbadas sagradas, seu coração se abrasava de um santo ardor. Para ter mais perto de si a imagem do divino Mestre, construiu em um canto de sua pobre morada um pequeno altar de onde não soube mais se afastar, e diante do qual, durante parte dos dias e das noites, recitava o rosário e as ladainhas, preparando assim sua alma para o orvalho divino que já o céu fazia chover sobre ele em abundância. Em uma idade tão tenra, aos oito anos, compreendendo mal o que poderiam ser os dons sobrenaturais, ele experimentava, sob o impulso da graça, movimentos extáticos que o atraíam suavemente à contemplação das coisas do céu. Frequentemente, na escola, entre as outras crianças, os acordes do órgão e do canto que se ensinava aos escolares mais avançados bastavam para fazê-lo deixar cair o livro das mãos. Seu espírito se elevava então às coisas invisíveis: ele permanecia imóvel, o olho fixo para o céu, a boca entreaberta, de tal modo que seus companheiros lhe aplicaram o apelido de boca aberta, que lhe permaneceu por muito tempo.
Mas Deus crucificou admiravelmente os servos que ama; ele mistura cedo ao leite das consolações o alimento mais sólido dos sofrimentos: nosso jovem Santo teve primeiro de suportar a severidade e até as brusquidões de sua mãe, piedosa, mas muito dura, e que punia como faltas as menores distrações da infância. Depois, quando teve um pouco mais de sete anos, um abscesso interno, que estendeu logo seus estragos ao exterior, obrigou-o a guardar o leito e pareceu não lhe deixar força senão para sofrer. Todos os remédios foram inúteis. Finalmente, ele obteve sua cura da santa Virgem e, devolvido assim à vida, quis consagrá-la a Deus por uma conduta toda exemplar, toda piedosa. Recomeçou a frequentar as igrejas e a assistir regularmente ao santo sacrifício da missa. Para ganhar a vida, e também para fugir da ociosidade, aprendia o ofício de sapateiro. A aplicação persistente de seu pensamento a Deus durante o trabalho dava a entender que ele não havia nascido para a terra. Às elevações de espírito, ele juntou as mortificações da carne e tratou seu corpo com um singular rigor. Frei Lourenço, cardeal de Lauria, que teve com José longas e estreitas relações, declara que ele usava desde então sobre a carne um cilício de pelos muito rudes, e que se abstinha de alimentos go Fra Lorenzo, cardinal de Lauria Cardeal e amigo de José, testemunha de suas virtudes. rdurosos. Contentava-se com frutas e pão. Se às vezes tomava uma sopa de ervas e legumes, temperava sempre essa sopa com um pó de absinto seco muito amargo. Jejuava habitualmente, passava às vezes três dias seguidos sem comer, e se alguém o censurava, ele respondia sorrindo: «Esqueci». Sua maneira de fazer oração, iletrado como era e formado apenas na escola de Deus, foi admirável. Ele tomava em um livro seu assunto de meditação, que versava sobre a santíssima Trindade, sobre a Vida ou a Paixão do Salvador. Sua vontade se animava então; ele se identificava por assim dizer com as pessoas divinas, e essas comunicações todas celestes, que a graça se dignava operar nele, prolongavam-se tanto quanto suas orações.
Vocação e primeiros fracassos
Recusado por várias ordens devido à sua falta de instrução e à sua falta de jeito, ele acaba sendo admitido como oblato pelos Franciscanos da Grotella.
Quando atingiu a idade de dezessete anos, José apresentou-se para ser recebido pelos Fra nciscanos conventuais: e Franciscains conventuels Ordem religiosa à qual pertencia São José. le tinha dois tios distintos nesta Ordem; foi recusado, no entanto, porque não havia feito estudos; tudo o que pôde obter foi entrar para os Capuchinhos na qualidade de irmão converso; mas, ali também, teve de sofrer rejeições: as próprias graças com as quais Deus parecia cumulá-lo deviam atrair-lhe o desprezo. Absorto em uma incessante contemplação das coisas divinas, em êxtase na igreja, em êxtase em casa, vivendo unicamente em Deus, parecia morto para todo o resto. Se os superiores lhe confiavam o cuidado do refeitório, ele deixava cair os pratos e as travessas, cujos fragmentos eram vistos depois presos em seu peito ou em seus ombros em sinal de penitência. Repreendido por ter, por várias vezes, colocado pão preto em vez de pão branco, declarava não saber distinguir um do outro. Para provar sua obediência, o Padre mestre encarregou-o de transportar água de um lugar para outro: nosso postulante obedeceu com uma paciência inalterável; mas, para executar esse pequeno trabalho, foi-lhe necessário um mês inteiro. Em qualquer lugar que sentisse os movimentos da graça divina, no coro, sob os claustros, no jardim, ele parava e se ajoelhava. Suas longas paradas de joelhos, em lugares por vezes incômodos e eriçados de pedras, determinaram nele um tumor no joelho muito doloroso.
Acabou-se por julgar que José carecia de espírito, de aptidão, e até de saúde para os trabalhos materiais da casa, e, sem outro motivo, foi despedido. Que humilhação, ou melhor, que dor mortal para este pobre servo de Deus, ver-se assim fechar vergonhosamente e irrevogavelmente a porta de todos os mosteiros! Ele contou depois que, naquele momento, sentira como se lhe arrancassem a pele da carne. Nenhum de seus parentes queria oferecer-lhe sua casa; consideravam-no um vagabundo, um insensato, que desonrava os seus. Sua mãe entregou-se para com ele às suas violências habituais. Contudo, ela foi expor seu deplorável estado aos Franciscanos conventuais. Frei João Donato, tio materno do jovem, resistiu às súplicas. Tudo o que ela pôde obter foi que José usasse o hábito da Terceira Ordem de São Francisco, sob o título de oblato, e fosse, nessa qualidade, ligado ao serviço da cavalariça e encarregado do tratamento da mula.
Mas Deus, que duas vezes tomou pastores de rebanhos para colocá-los à frente de seu povo e confiar-lhes a condução dos exércitos de Israel, ia se levantar para a defesa de seu servo. Esse Deus, que já havia tirado José criança de um estábulo, preparava-se para tirá-lo daquele onde relegavam sua juventude.
Admitido assim no convento da Grotella, a título de oblato, o servo de Deus deu ali tais marcas de humildade, de obediência, de verdadeira mortificaç ão, que atraiu a si, s couvent de la Grotella Santuário mariano e convento onde José passou dezesseis anos. egundo o efeito ordinário da virtude, primeiro todos os olhares e depois todos os corações. Ele ia descalço pedir esmola para o convento. Menos preocupado em obter pão do que em ganhar almas, deixava cair de seus lábios palavras simples, mas penetrantes, que persuadiam a fugir do vício e a praticar essa vida cristã da qual ele oferecia em sua pessoa um tão perfeito modelo. À nudez dos pés, à rudeza do cilício, ele juntava uma estreita corrente de ferro que cingia seus rins e seus ombros; jejuava todos os dias e dormia apenas algumas horas, consagrando o resto da noite à oração ou ao estudo dos elementos da língua latina. O sono mesmo tornava-se-lhe um sofrimento, pois seu leito compunha-se apenas de três tábuas. Uma pele de urso servia-lhe de colchão, e um saco de palha de travesseiro. De resto, sempre alegre, sempre rindo, sua linguagem revelava, em uma tocante simplicidade, a finura de seu espírito e a retidão de seu julgamento. Obedecia ao menor sinal, encarregando-se com prazer dos mais duros, dos mais vis trabalhos, e mostrando-se infatigável neles. Tanta virtude não podia permanecer por muito tempo desconhecida ou ignorada. A bondade de seu coração, e sobretudo sua eminente piedade, conciliaram-lhe logo todos os sufrágios. Deus, que o queria na Congregação dos Menores conventuais, trabalhava secretamente para desbastar este bloco e esculpir nele a imagem admirável que se tornou o objeto da veneração da Igreja.
Uma ascensão milagrosa ao sacerdócio
Apesar de suas dificuldades de aprendizagem, ele ascendeu ao sacerdócio em 1628 graças a circunstâncias providenciais durante seus exames.
A pedido de seus tios, que haviam superado seus preconceitos, José foi levado a Altamura, no mês de junho do ano de 1625; uma Congregação provincial estava reunida ali. Ele foi examinado; sua aptidão para o clero foi reconhecida; deram-lhe o hábito religioso sob o nome de irmão José, e ele viu-se assim agregado aos filhos do convento de Grotella.
Ele teria desejado, mas não podia, por falta de instrução, chegar ao sacerdócio. Seus esforços para aprender foram constantemente estéreis. Ele acreditava ter feito muito quando, com grande dificuldade, conseguia pronunciar corretamente algumas sílabas. Toda a sua ciência limitava-se a ler muito mal e a escrever ainda pior. Ele nunca pôde explicar nenhum dos Evangelhos do ano, exceto aquele que começa com as palavras: *Beatus venter qui te portavit*: «Bem-aventurado o ventre que te trouxe».
A Mãe de Deus, que queria elevar tão alto a inteligência de seu servo, parecia ter prazer em dar-lhe o sentido de um Evangelho do qual ela é o objeto, e em introduzi-lo ela mesma no santuário. José aprendeu, portanto, de cor as palavras deste Evangelho, seu significado, sua força, e, armado com sua ciência como um escudo, apresentou-se corajosamente ao exame. Por uma disposição secreta da Providência, o bispo de Nardo, Jerônimo de Franchis, que o conhecia e tinha uma alta opinião de sua virtude, conferiu-lhe sem dificuldade as ordens menores em 3 de janeiro de 1627, e o subdiaconato em 27 de fevereiro seguinte. Ele estava igualmente disposto a conferir-lhe o diaconato; mas uma pessoa de sua casa lembrou-lhe que, nos termos dos cânones, o exame prévio era obrigatório. José teve, portanto, que passar por este exame. Cheio de confiança em Deus, e interiormente assegurado da proteção da santíssima Virgem, apresentou-se com a segurança de um doutor consumado no estudo das ciências sagradas. O bispo pegou o livro dos Evangelhos e abriu-o; um anjo pareceu dirigir sua mão; pois a passagem que ele encontrou foi precisamente aquela que começa com as palavras: *Beatus venter*. Ele ordenou a José que explicasse a passagem. O servo de Deus deixou escapar um sorriso e, com os olhos fixos no céu mais do que no livro, recolhido em Deus e em sua divina Mãe, leu, explicou e comentou a passagem fluentemente, como poderia ter feito um mestre em teologia. Consequentemente, José, para sua grande alegria, recebeu o diaconato em 20 de março de 1627. Restava a promoção ao sacerdócio, cujo exame deveria ser feito em Bogiardo, no cabo de Otranto, por Batista Deti, bispo de Castro, prelado severo, temível aos ordinandos. José dirigiu-se a Bogiardo, na companhia de vários jovens estudantes, seus confrades do convento de Lecce, todos sujeitos de elite. Os primeiros interrogados responderam tão bem que o prelado julgou inútil interrogar os outros; ele admitiu indistintamente todos os candidatos, incluindo nosso Santo, que foi assim feito sacerdote de Deus, de certa forma, pelo próprio Deus, em 4 de março de 1628. De volta ao convento de Grotella, ele resolveu morrer cada vez mais para si mesmo e viver em Deus pela contemplação. Considerando-se um exilado do paraíso e condenado a habitar uma terra de inimigos, ele se propunha a combater e, por meio disso, conquistar o céu. Para triunfar sobre o mundo, separou-se do mundo, a ponto de parecer não fazer mais parte dele. Sua cela, vizinha à dos outros religiosos, expunha-o à curiosidade e às piedosas indiscrições de seus irmãos. Embora esta cela se parecesse mais com um túmulo do que com a habitação de um homem vivo, ele a deixava frequentemente por um recinto ainda mais solitário. Seus retiros preferidos eram um camarote na abóbada da igreja e uma pequena capela dedicada a Santa Bárbara, situada em um olival próximo ao convento. Escondido e perdido, mais do que retirado nesses lugares, ele passava dias inteiros em contemplação ou em êxtase, ou dedicado ao exercício das terríveis penitências das quais falaremos.
Ascetismo e humildade heroica
O santo leva uma vida de privações extremas, praticando jejuns rigorosos e buscando as tarefas mais vis por humildade.
Ele se despojou de tudo o que lhe era permitido pela Regra, não conservando nada no mundo, nada além da túnica que o cobria. Então, lançou-se aos pés do crucifixo e exclamou: «Eis-me aqui, Senhor, só, privado de tudo, completamente pobre, sede o meu único bem; toda outra riqueza é para mim perigo e ruína, escolho e naufrágio». Assim desembaraçado de tudo e doravante mais ágil para o céu, assim mergulhado nos braços da divina Providência, ele ia a toda parte onde ao superior aprouvesse enviá-lo. Usava sandálias simples e uma túnica ruim da qual, muitas vezes, ao retornar, faltava uma parte. O povo, em sua veneração, roubava do Santo retalhos de sua veste, seu cordão e até seu rosário, para transformá-los em relíquias. José não percebia esses furtos ou, se os percebia, explicava-os de maneira a atrair para si severas repreensões. Reprovavam-lhe a distração, a falta de cuidado: o convento, diziam, não era rico o suficiente para lhe dar uma túnica nova todos os dias. Ele aceitava como merecidas essas repreensões, destinadas a exercitar sua humildade: «Meu pai», dizia ele, «não me envie mais para fora; nunca me envie; deixe-me vegetar em minha cela». Em uma dessas circunstâncias em que o Santo carecia do necessário, Deus, cujos olhos estão sempre fixos em seus servos, fez com que um habitante de Lecce lhe desse uma túnica, um cordão, sapatos e um chapéu. José gostava de recordar essa circunstância e servia-se dela muito tempo depois para levar seus irmãos a confiar na divina Providência. Toda a sua afeição concentrava-se em sua cela; nela permanecia retirado e vazio de tudo. Pela pobreza, ele acabara de vencer o mundo e suas pompas; empreendeu também vencer o demônio, e armou-se contra esse formidável inimigo com duas espadas: a obediência e a humildade. Sua obediência adivinhava e prevenia o comando. Nos êxtases dos quais foi tão frequentemente favorecido, bastava, para trazê-lo de volta a si e ao mundo, uma palavra do superior. Essa palavra era a corrente que do céu o trazia de volta à terra. Jamais saía de sua cela ou do convento, jamais comia carne senão por ordem expressa do superior. «A obediência», dizia ele, «faz o tormento do demônio, e de todos os exorcismos, é o mais poderoso». Sua humildade foi heroica. José abismava-se no sentimento de seu nada. Nunca se julgara mais indigno do sacerdócio do que desde que exercia suas funções. Experimentava, ao tocar o santíssimo corpo de Nosso Senhor, um inexprimível arrebatamento. Teria querido, dizia ele, ter para cada mão um polegar e um indicador de reserva, dos quais só se servisse no santo sacrifício da Missa, e que depois encerraria em uma caixa, a fim de não os empregar em nenhum outro uso. Ao ouvi-lo, ele era o maior pecador do mundo, um réprobo, a causa de todos os males. No convento e fora dele, fazia-se chamar de pecador, o que deu lugar à maravilhosa história que vamos contar:
Encontrava-se um dia, por não sabemos qual assunto, na casa de uma irmã da Terceira Ordem, chamada Clara Margioti. Surge outra irmã acompanhada de uma criança de três anos. José abaixa-se para acariciar a criança e lhe diz: «Meu pequeno, diga como eu: Irmão José é um grande pecador, digno do inferno». A criança, que mal balbuciava, articulou com uma voz muito clara a seguinte frase: «Irmão José é um grande santo, digno do paraíso». José, puxando graciosamente a orelha da pequena criança, fez voz grossa e novamente o advertiu a dizer como ele. Mas a criança repetiu três vezes seguidas a mesma frase. Essa particularidade impressionou o espírito dos presentes, que, como testemunhas, a assinalaram no inquérito judicial.
O humilde irmão fazia questão de passar por ser o que dizia ser. Disputava os mais vis empregos, lavava os pratos, polia a louça, varria os dormitórios, removia as imundícies. A igreja estando então em construção, transportava os materiais sobre seus ombros e dizia que era o irmão Aue. No inverno, no verão, sob o sol, sob a chuva, ia, vestido com uma túnica ruim, as pernas nuas, os pés nus, pedir esmola para a comunidade. Na igreja, era padre; em toda parte, não era senão um pobre irmão humilhado e curvado sob o peso do trabalho.
Tratou a natureza e a carne como seus mais formidáveis inimigos. Trinta anos após sua morte, os vestígios de seu sangue ainda eram vistos nas paredes de sua cela, bem como nas paredes da pequena capela de Santa Bárbara. Se uma imagem sensual, um pensamento de vaidade, uma distração viesse assaltá-lo, castigava seu corpo como um escravo e queria deixar dominar apenas o espírito. Os instrumentos dessas incessantes penitências eram cordas armadas de ganchos que golpeavam, sulcavam a carne e a deixavam como um cadáver.
Teve ainda instrumentos de penitência mais cruéis, até que o superior julgou dever deter essa paixão pelos sofrimentos. Às macerações sangrentas, o irmão José juntava jejuns quase contínuos. Passou cinco anos sem comer pão e quinze sem beber uma única gota de vinho. Ervas, algumas frutas secas, favas, compunham todo o seu regime. Temperava esses humildes alimentos com um pó amargo que se tomou a princípio por pimenta devido à sua cor. Tendo alguns religiosos tido a curiosidade de provar essa substância, a suposta pimenta revelou-se um pó da espécie daquele que Davi teria chamado de *pulverem mortis*, «o pó da morte». À sexta-feira, alimentava-se de uma erva amarga e nauseabunda cujo gosto ninguém além dele podia suportar. Durante a Quaresma de trinta e seis dias, dita entre os franciscanos *Quaresma bendita*, que começa em 6 de janeiro e termina em 10 de fevereiro, comia apenas uma vez por semana. Durante as outras seis Quaresmas franciscanas, comia, aos domingos e quintas-feiras, ervas amargas, algumas favas ou frutas, e não tomava nada nos outros cinco dias da semana. O que o sustentava nessa abstinência de alimentos materiais era o alimento eucarístico; alimentava-se do santo sacrifício que celebrava todos os dias. Notou-se mais de uma vez que, extenuado, pálido e quase moribundo antes da missa, parecia, ao deixar o altar, ágil, animado e cheio de vigor. Não era, portanto, de pão que ele vivia; tinha o segredo de um alimento melhor e mais substancial. Os alimentos materiais, que sustentam os outros homens, pareciam precisamente ter-se tornado prejudiciais a ele. Constrangido um dia pelo superior a comer carne, obedeceu ao mesmo tempo ao superior que queria essa manducação, e a Deus, que não a queria; pois, quando engoliu a carne, uma súbita irritação de estômago fê-lo rejeitá-la imediatamente.
Levitações e êxtases
José torna-se célebre por seus numerosos arrebatamentos e seus voos milagrosos no espaço, observados por seus irmãos e testemunhas externas.
Ao domar tão corajosamente suas paixões, ao submeter tão constantemente sua vontade à de Deus, ele correspondia fielmente à graça preveniente. Essa graça que, nele, nunca caía no vazio, devia prepará-lo para as virtudes de sua adolescência e para as contemplações sublimes às quais mais tarde foi elevado. O cardeal de Lauria declara que, na época que seguiu sua admissão ao sacerdócio, «José, assim que começava a meditar, era arrebatado fora de si e elevado pela graça à contemplação». O cardeal acrescenta: «É dele, confesso, que aprendi o que fazem, veem e ouvem as almas espirituais na contemplação, e devo a ele tudo o que disse a respeito em meu *Tratado da Oração*».
Os atos do processo de canonização constatam que, no convento da Grotella, onde viveu dezesseis anos, o Santo foi tão habitualmente arrebatado em êxtase, que a vida natural e as ocupações correntes da comunidade ocupavam a menor parte de seu tempo. Ele entrava em êxtase com facilidade e dele era retirado apenas com dificuldade. A santa obediência era, a seu respeito, o meio de diversão mais eficaz. O superior lhe intimava a ordem de retornar do mundo sobrenatural ao mundo real, e ele retornava cheio de obediência, deveríamos dizer de confusão. Suas faces se cobriam de um piedoso rubor e, às vezes, de lágrimas. Ele se sentia confuso com a ideia do efeito que deveria produzir nos assistentes um fenômeno tão extraordinário como o de um homem passando assim do céu à terra, e da morte à vida; pois, durante o êxtase, a ação dos sentidos e o movimento dos membros cessavam completamente. O Santo permanecia invariavelmente na posição em que o êxtase o havia surpreendido e a luz divina envolvido, isto é, os braços estendidos ou em cruz, os olhos voltados para o céu, às vezes sentado, às vezes na posição de um homem que caminha; e nada podia arrancá-lo dessa posição, nem a destreza, nem a força. Espetavam o Santo com agulhas, batiam nele com ferro, queimavam-no com velas, e nenhuma dessas coisas podia arrancá-lo da vida extática. Após o êxtase, vendo o que haviam feito para chamá-lo a si, ele experimentava o movimento de confusão de que falamos. O humilde servo de Deus costumava atribuir a uma enfermidade natural essas altas operações de Deus nele, e as chamava de seus atordoamentos. É nesse espírito de humildade que um dia ele disse ao cardeal de Lauria: «Compatriota, sabes o que me fazem os irmãos quando me vêm meus atordoamentos? Eles queimam minhas mãos e quebram meus dedos». E, mostrando-lhe seu polegar coberto de bolhas, acrescentou: «Eis a obra deles», e começou a rir.
Tendo o cardeal de Lauria lhe perguntado o que os extáticos veem no êxtase, o servo de Deus respondeu: «Os extáticos sentem-se como transportados para uma galeria que resplandece de coisas novas e belas, diante de um espelho onde, com um olhar, eles abraçam as maravilhas que, nesta admirável visão, apraz a Deus mostrar-lhes».
Sua alma, ávida de unir-se à beleza eterna, voava sobre as asas do amor divino, desprendia da terra e arrastava para o espaço o próprio corpo para associá-lo à felicidade dos bem-aventurados. Esses tipos de arrebatamentos no espaço foram tão prodigiosos, tão frequentes, que seria necessário um livro para descrevê-los. Eles haviam começado imediatamente após a promoção de José ao sacerdócio; duraram até sua morte. Durante os dezesseis anos de sua estadia na Grotella, foram quase contínuos. Vê-se, na igreja, ele lançar-se de um salto sobre a plataforma do altar e, no dia da Quinta-Feira Santa, voar do pavimento da igreja ao túmulo de Nosso Senhor. No dia da festa de São Francisco, vê-se ele voar sobre o altar do santo patriarca, e no dia da festa de Nossa Senhora do Carmo, sobre o altar principal da Madona. Foi visto, em sua cela, se alguma palavra viesse abrasar sua devoção, voar no espaço em estado de contemplação; e, às vezes, nessa ascensão, segurar um carvão ardente, sem que sua mão fosse ofendida. No refeitório, no meio de seus irmãos gelados de um santo pavor, foi visto elevar-se em seu assento e voar no espaço, levando consigo um ouriço-do-mar. Enfim, nos campos vizinhos de Copertino, foi visto elevar-se voando, uma vez sobre uma oliveira, e outra vez sobre uma grande cruz que ele havia milagrosamente plantado no lugar onde ela se encontrava. Um sentimento de admiração pelo todo-poderoso Criador desse ouriço-do-mar, a beleza do céu, a visão dos instrumentos da Paixão do Salvador figurados na cruz, bastavam para determinar esses arrebatamentos.
Milagres e domínio sobre a natureza
Ele multiplicou as curas e manifestou um poder singular sobre os elementos e os animais, notadamente os pássaros e as ovelhas.
Os milagres que operou durante sua estadia em Grotella foram a admiração de todo o país e de toda a província; seu nome espalhou-se por toda parte, e em todos os lugares era visto como um milagre de santidade. No território de Copertino, não se viam mais doentes, ou, se aparecia algum, o Santo ia vê-lo e, com o sinal da cruz, curava-o imediatamente. Seguiu-se que sua pessoa tornou-se objeto de um empenho geral. Os fiéis vinham de longe pedir-lhe graças e milagres; e as graças e os milagres eram por ele distribuídos como o médico distribui suas receitas. Ele dizia aos fiéis: «Meus filhos, confiança em Deus!». A alguns, ele dava, escrita de sua própria mão, a bênção de São Francisco; a outros, fazia unções com o óleo da lâmpada do Santo, e todos eram curados. Um dia, ao visitar um doente, uma mãe apresentou-lhe sua filha aleijada, impotente e atingida pela varíola. O Santo, sentando-se, tirou um crucifixo do peito e disse à menina: «Vem, beija este crucifixo e vai fazê-lo beijar por teu pai e tua mãe». A jovem obedeceu e foi curada. Dom Pomponio Imbeni, afligido por várias úlceras, guardava o leito. Frei José vai visitá-lo: «Confiança», disse ele ao doente; «há quanto tempo foste a Grotella visitar tua mãe?». Esta palavra mãe significava a Santíssima Virgem. «Frei José», responde o doente, «vós bem vedes que não posso me mover». — «Tem confiança em tua mãe», replica José. Ao mesmo tempo, o Santo tocava uma a uma as úlceras, que cicatrizavam como se a cura tivesse saído de seus dedos. Onofrio Rizzo parecia estar em agonia. Seus lábios estavam tão cerrados que não se podia abrir-lhe a boca; José aproxima-se do moribundo, entreabre-lhe suavemente os lábios, faz-lhe engolir não sabemos que substância e, curando-o instantaneamente, diz-lhe: «Como te sentes?». — «Bem», respondeu Onofrio. — «Não falarás de mim», replicou José, «mas dirás que a Santíssima Virgem te curou». As páginas do processo de canonização estão repletas de tais milagres.
Sua caridade para com seus irmãos e seus compatriotas manifestou-se mais de uma vez por prodígios. Um dia, a tempestade abalava o convento de Grotella e atingia de terror o país distante, frei José ajoelha-se diante do altar da Madona: «Fé! fé!», exclama ele. E, saindo da igreja, repreendeu a tempestade, que se dissipou em sua passagem. Uma seca assolava os campos: «Tenhamos fé em Deus», disse o Santo aos seus compatriotas; «façamos uma procissão à Santíssima Madona, e antes que a procissão termine, tereis água». A procissão foi feita, e a água veio, de fato. O convento de Grotella, enquanto lá residiu, não careceu de nada. Os milagres, quando ele pedia esmolas, pareciam persegui-lo ainda mais do que ele perseguia as esmolas. Os mantimentos chegavam com uma abundância que não podia ser atribuída senão às intercessões do Santo e à imensa liberalidade de Deus. Um dia, por sua ordem, uma irmã chamada Clara tinha ido à família Giuli pedir um pouco de mel para o convento. José, surgindo, toca o vaso, e, sob suas mãos milagrosas, o mel, aumentando em quantidade e volume, transborda e enche outro recipiente. No dia seguinte, tendo José encontrado a irmã Clara, disse-lhe sorrindo: «Este mel que nossos benfeitores nos deram, eu o devolvi fielmente a eles». Uma dezena de peregrinos de Narbo pedia vinho ao convento para se refrescar; restava apenas o suficiente para a ceia dos religiosos; desculparam-se; mas, cheio de fé na divina Providência, frei José tirou do odre tanto vinho quanto os viajantes puderam beber, e ainda restou o suficiente para suprir as necessidades da comunidade durante vários dias. Sua mãe, Francisca Panara, sempre pobre, mas sempre resignada em sua pobreza, carecia de pão. Ela pedia frequentemente ao filho e invocava junto a ele seu título de mãe. «Nossa mãe», respondia José, «é a Madona; eu não tenho nada, sou pobre; recomenda-te à Madona, a Madona te ajudará». É nestes termos que José a despedia a cada vez, e a cada vez, ao retornar ao lar, a pobre mulher encontrava lá o pão necessário para as necessidades do dia.
É bem verdade que nada é impossível à oração e à fé, e que a graça pode dar ao homem sobre a natureza um domínio ainda maior do que aquele que ele perdeu pela culpa de Adão. Nosso Santo desdobrava com uma espécie de luxo, se podemos falar assim, os efeitos da onipotência divina. Ele era frequentemente chamado ao convento das religiosas de Santa Clara de Copertino, seja para suas esmolas, seja para as necessidades espirituais daquela casa. Um dia, disse rindo às religiosas que rezassem bem o ofício, que ele enviaria um passarinho para estimular seu zelo. Na primeira reunião das religiosas, viu-se aparecer, de fato, na janela do coro, um lindo pardal solitário. O pássaro mostrava-se assim todos os dias nos ofícios da manhã e da tarde. Seu canto precedia o das religiosas e, por acordes de uma melodia extraordinária, o pardal parecia convidar as servas de Deus a celebrar os louvores de seu comum Mestre. Terminado o ofício, o pássaro desaparecia. O pardal voltou assim todos os dias, nas mesmas horas, sem nunca faltar, durante cinco anos. Um insulto que lhe foi feito por uma religiosa fê-lo afastar-se. As irmãs queixaram-se disso. «O pardal partiu, e fez bem», disse José; «por que tê-lo ameaçado e insultado?». O Santo prometeu, contudo, que o fugitivo voltaria, e sua palavra foi um oráculo. Seja que o pássaro tivesse esquecido a injúria, seja que a tivesse perdoado, ele reapareceu. Não somente se mostrou no coro, mas desta vez estabeleceu sua morada entre as servas de Deus. Ele pousava, ora em um assento, ora em um quadro, e deixava-se acariciar. Tendo uma das irmãs prendido um guizo à sua pata, ele permaneceu ainda dois meses no convento arrastando esse guizo; mas na Quinta-Feira Santa, ele desapareceu e não se mostrou nem na sexta-feira nem no sábado. Novas queixas ao frei José. O Santo respondeu: «Eu vo-lo dei como músico, não era preciso fazer dele um sineiro. Ele foi velar perto do túmulo de Nosso Senhor; mas eu o farei voltar». O pardal voltou, de fato, retomou seus hábitos e não abandonou o convento senão quando o Servo de Deus, deixando ele mesmo Copertino, levou para outro lugar o segredo de seus milagres.
Um dia, ele salvou milagrosamente duas lebres que, perseguidas pelos caçadores, vieram lançar-se, uma em seus braços, a outra nas dobras de seu hábito. Após uma violenta tempestade, pastores desolados, ao verem a planície coberta pelos cadáveres de suas ovelhas, vieram chorando implorar o socorro de suas orações. Nosso Santo consolou-os e, dirigindo-se ao teatro do sinistro, ressuscitou uma a uma todas as ovelhas, dizendo: «Em nome de Deus, levanta-te!». Mas eis um fato mais surpreendente. Todos os sábados, José recitava as ladainhas na pequena capela de Santa Bárbara. Os pastores e os aldeões dos campos vizinhos assistiam a este exercício. A reunião era ordinariamente muito numerosa. Um sábado, José vem à capela e não encontra ninguém: os camponeses ocupavam-se com os trabalhos da colheita, que não admitem nem demora nem interrupção. O Santo, a quem a validade da desculpa não estava bem demonstrada, pôs-se a gemer interiormente pela leviandade dos homens, que, por alguns interesses materiais, negligenciam tão frequentemente o interesse bem mais considerável do serviço de Deus. Ao mesmo tempo, ele lançava os olhos ao longe na planície; mas não via de todas as partes senão rebanhos e nenhum pastor. Tomado por um santo transporte, ele dirige-se a esses rebanhos dispersos: «Ovelhas de Deus», exclamou ele, «vinde aqui, vinde honrar a Mãe de meu Deus, que é também o vosso». Ó prodígio dos prodígios! ó maravilha das maravilhas! a estas palavras ditas de longe a seres que não podiam nem ouvi-las nem compreendê-las, as ovelhas desses numerosos rebanhos, saltando por cima das cercas, deixando as gordas pastagens, deixando para trás seus filhotes, encaminham-se em bandos, como seres inteligentes, e dirigem-se correndo, animadas, parece, por um só espírito, em direção à capela. Em vão os pequenos pastores tentam reter suas ovelhas, chamam-nas de volta, ameaçam-nas com seus cajados; elas atravessam o espaço, saltam ao pé da capela, agrupam-se ao redor de José e respondem com um balido prolongado à recitação de cada um dos versículos das ladainhas. Quando esta recitação terminou, as ovelhas, após terem recebido a bênção de José, retornaram às suas pastagens, e o homem de Deus entrou na solidão.
A prova da Inquisição e Roma
Denunciado como impostor, ele comparece perante a Inquisição em Nápoles antes de ser recebido pelo Papa Urbano VIII em Roma.
O provincial dos Franciscanos da província de Otranto não quis que um tesouro tão rico permanecesse sempre encerrado no mesmo convento; ele concebeu o generoso desígnio de expor aos olhares de todos os religiosos da província este modelo onde cada um veria, como em um espelho, como deve ser um verdadeiro filho de São Francisco de Assis. Ordenou, portanto, a José que visitasse, um após o outro, todos os conventos da província, e que permanecesse em cada casa três ou quatro dias. Era muito pouco para o agrado das casas que iriam acolher tal hóspede; mas esse tempo deveria bastar para olhos exercitados apreciarem a santidade do ilustre religioso.
Cada um de seus passos, nesta viagem, foi marcado por milagres, êxtases, arrebatamentos ou atos de virtude. Sua humildade não era menos grande que seus dons sobrenaturais. Um dia, um cego lhe pede que lhe restitua a vista: «Vai, vai», diz o Santo, «com meus pecados eu só faria te tornar ainda mais cego». E, voltando-se para seu companheiro: «Eu, milagres!» exclamou ele. Algumas vezes interrogado sobre fatos onde o milagre era evidente, ele respondia com simplicidade: «Isso é verdade, Deus fez tal coisa». Sendo os aplausos inseparáveis das ações milagrosas, José, quando o louvavam, tinha o costume de dizer: *Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini tuo da gloriam*: «Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai a glória».
Foi em vão que ele lançou o véu da humildade sobre o brilho de sua fama, olhos que provavelmente já estavam doentes foram perturbados por ela. Um vigário geral denunciou São José como impostor aos inquisidores de Nápoles. O Santo foi obrigado a comparecer; mas, tendo sido examinadas as acusações, ele foi declarado inocente e dispensado. Celebrou a missa em Nápoles na igreja de São Gregório Armênio, que pertencia a um mosteiro de religiosas; terminado o sacrifício, foi arrebatado em êxtase, como várias testemunhas oculares atestaram no processo de sua canonização. Os inquisidores enviaram-no a Roma ao seu geral, que o recebeu a princípio com dureza; mas logo, penetrado de admiração por suas virtudes, quis levá-lo consigo para beijar os pés do Papa Urbano VIII. O humilde servo de Deus foi à audiência pontifícia e superou de certa forma sua própria reputação; pois, no momento e m que beija Urbain VIII Papa que beatificou Josafá. va os pés de Sua Santidade, tendo considerado que estava diante do vigário de Jesus Cristo, entrou em êxtase e foi elevado ao ar em um arrebatamento que durou até o momento em que o geral achou por bem trazê-lo de volta à vida real. Penetrado de um religioso terror, o Pontífice voltou-se para o geral e disse-lhe que «se o irmão José morresse sob seu pontificado, ele gostaria de depor sobre o prodígio do qual acabara de ser testemunha». O Papa, ao mesmo tempo, ordenou ao geral que colocasse José em um convento da Observância. O céu já havia designado a José por sinais muito sensíveis qual deveria ser esse convento. Era o de Assis, para onde o chamavam há muito tempo os dois perfumes deixados naquele lugar sagrado por Nossa Senhora dos Anjos e pelo seráfico São Fra ncisco Assise Local da prisão de São Sabino. . Para lá foi enviado por seu geral. O guardião do convento tratou-o com altivez e desdém. As penas interiores nas quais Deus queria purificar cada vez mais seu servo foram cruzes muito mais difíceis de carregar.
Noite escura e dons de profecia
Em Assis, ele atravessa um período de secura espiritual e tentações demoníacas, enquanto manifesta dons de clarividência.
Todas as consolações divinas foram pouco a pouco retiradas ao Santo: não mais êxtases, não mais arrebatamentos, nenhuma das doçuras habituais que outrora o consolavam em suas penas. A própria missa não tinha mais gosto para ele. Quando celebrava, parecia menos sacrificar a Vítima santa do que imolar a si mesmo, vítima de uma aridez que não o deixava mais, e de um entorpecimento de espírito que ele jamais havia experimentado. Ele pediu e obteve a *Crônica da Ordem de São Francisco* para ler ali os testemunhos do favor da Ordem em seu berço. As páginas desses gloriosos anais deslizavam sob seus olhos, sem que o espírito parecesse deter-se nelas ou saboreá-las. Ele recorria a Deus; Deus deixava seus gemidos sem resposta. Ele invocava o Senhor; o Senhor, que o ouvia, permanecia como surdo às suas preces, a fim de ser invocado novamente. Uma negra melancolia apoderou-se então do coração de José. O desgosto determinou nele uma oftalmia que o tornava como incapaz de levantar os olhos. Parecia não viver mais senão pela memória. Ele declarou frequentemente nunca ter sofrido tanto, nem ter se sentido perseguido por fantasmas tão terríveis. Com a tristeza surgiu o anjo de Satanás, que, por imagens sensíveis e odiosas, esbofeteando o Santo dia e noite, atraía-o para o abismo onde ele teria infalivelmente caído se não tivesse oposto uma defesa vigorosa. Não eram apenas ilusões, sonhos; eram visões corporais. Os espíritos infernais, tomando um corpo aéreo, faziam-no ver e ouvir, apresentavam ao seu espírito, sob mil formas diversas, coisas horríveis e detestáveis. Precipitado do cume das contemplações divinas no abismo das perseguições, das tristezas, das aridezes, das tentações, o pobre frade derramava abundantes lágrimas. Ele via como derrubadas as muralhas de seu espírito; a cidadela apenas permanecia de pé, sustentada por uma força secreta, cuja fonte ele não podia discernir claramente, mas que vinha de Deus. Frequentemente, enquanto o inimigo o atacava, ele se voltava para o crucifixo, e o crucifixo parecia não lhe apresentar senão um Deus desconhecido. Em meio às trevas e aos abatimentos de seu espírito, José, do fundo do coração, invocava, suplicava a esse divino Salvador que viesse em seu auxílio; mas Deus, para prová-lo ainda mais, não respondia às suas preces e às suas lágrimas senão por um silêncio aterrador.
O geral, informado do estado de José, mandou-o a Roma: nesta viagem, ele sentiu retornarem as consolações celestes que Deus lhe concedeu com mais abundância do que nunca. Ao nome apenas de Deus, de Jesus ou de Maria, ele ficava como fora de si. Ele exclamava frequentemente: «Dignai-vos, ó meu Deus, preencher e possuir todo o meu coração. Possa minha alma ser libertada dos laços do corpo e ser unida a Jesus Cristo! Jesus, Jesus, atraí-me a vós, não posso mais ficar na terra!». Ouvia-se frequentemente ele incitar os outros à divina caridade, dizendo-lhes: «Amai a Deus; aquele em quem reina este amor é rico, embora não o perceba». Seus arrebatamentos eram tão frequentes quanto extraordinários. Ele teve até mesmo vários em público, dos quais um grande número das pessoas mais notáveis foram testemunhas oculares, e atestaram mais tarde a verdade com juramento. Conta-se entre essas testemunhas João Frederico, duque de Brunswick e de Hanôver. Este príncipe, que era luterano, ficou tão impressionado com o que tinha visto, que abjurou a heresia e retornou ao seio da Igreja Católica. José tinha também um talento singular para converter os pecadores mais endurecidos e para tranquilizar as almas que tinham penas interiores. Ele costumava dizer às pessoas escrupulosas que se dirigiam a ele: «Não quero nem escrúpulos nem melancolia; que vossa intenção seja reta, e não temais nada». Ele explicava os mais profundos mistérios da fé com grande clareza, e os tornava de certa forma sensíveis. Ele devia os conhecimentos sublimes que se notavam nele às comunicações íntimas que ele tinha com Deus na oração.
A prudência que ele demonstrava na condução das almas atraía para perto dele um grande concurso de gente, e até mesmo cardeais e príncipes. Ele previu a João Casimiro, filho de Sigismundo III, rei da Polônia, que ele reinaria um dia para o bem dos povos e para a santificação d as almas. Ac Jean Casimir Príncipe polonês a quem José previu seu reinado. onselhou-o a não se comprometer em nenhuma Ordem religiosa. Este príncipe, tendo desde então entrado nos Jesuítas, fez ali os votos dos escolares da Companhia; mas foi declarado cardeal pelo papa Inocêncio X, em 1646. José dissuadiu-o da resolução em que estava de receber as ordens sacras. A predição do Santo cumpriu-se. Vladislau, filho mais velho de Sigismundo, tendo morrido em 1648, João Casimiro foi eleito rei da Polônia. Ele abdicou depois da coroa e retirou-se para a França, onde morreu em 1672. É este príncipe quem fez conhecer ele mesmo todas as circunstâncias do fato que acaba de ser relatado.
Os milagres do Santo em Assis foram tão numerosos, tão prodigiosos, que se acreditaria dificilmente na história, se a história não estivesse apoiada na autoridade de uma instrução jurídica sancionada pelos irrefragáveis decretos da Sé Apostólica. Apenas abraçando os doentes, o Santo os curava. Seu companheiro, Frei Ludovico Bracone, fez a feliz experiência; ele estava à mercê de uma febre maligna: «Caro companheiro», disse ele a José, «não me abandones». José abraçou-o, e a febre desapareceu.
No mais, uma simples oração de José bastava para operar grandes coisas, mesmo a distâncias afastadas. Otávio Aromatario, e Jerônimo Ferri, ambos abandonados pelos médicos, foram libertados da febre, no momento em que José celebrava por eles o santo sacrifício da missa. Um combate tinha se iniciado entre os homens de armas de Assis e os da Bastia; o sangue tinha corrido; este combate cessou sem nenhuma mediação, e da maneira mais imprevista, na hora mesma em que José, instruído da luta, suplicava ao Senhor que pacificasse as partes. Um olhar de José, acompanhado de não sabemos que saudação, bastou para decidir um jardineiro a romper um comércio ilegítimo, e a levar em Assis uma vida exemplar. Por suas secretas orações, o Santo livrou seus compatriotas de uma guerra terrível e lhes proporcionou uma paz profunda.
Quanto mais os justos são favorecidos por Deus, mais o inimigo de Deus os persegue ou interiormente pela tentação, ou exteriormente por assaltos por vezes terríveis. As vexações do demônio contra José são um exemplo disso. Uma noite, o Servo de Deus rezando na igreja, ouve a porta abrir-se com violência, e vê aparecer um homem arrastando aos pés como sandálias de ferro. José olha-o e segue-o com o olhar. O personagem aproxima-se; à medida que ele avança, as lâmpadas suspensas ao redor do altar de São Francisco começam a empalidecer e apagam-se uma a uma até a última. Deixado sozinho na escuridão com esse homem calçado de ferro, José recomenda-se a São Francisco. Já o demônio, precipitando-se sobre ele e derrubando-o, apertava-o pela garganta e sufocava-o, quando José vê o seráfico Pai sair de seu túmulo uma vela na mão, e reacender as lâmpadas; à claridade delas, o inimigo desapareceu. Desde então, José teve o costume de chamar São Francisco o lampista da igreja. Outra vez, era também durante a noite, José, em um confessionário, vê um homem avançar, ajoelhar-se e rezar. Tomando esse homem por um bom servo de Deus, ele diz-lhe com piedade: «Irmão, reza por mim». Mas o horrível irmão levantando-se sobre seus pés e precipitando-se sobre José: «Hipócrita», exclamou ele, «até quando habitarás esta casa?». José reconheceu somente então que tinha a ver com o demônio.
Ele era bem consolado dessas terríveis aparições, por suas comunicações contínuas com os anjos e com a divina Majestade. No dia em que fez sua entrada em Assis, uma grande serva de Deus viu dois espíritos celestes acompanhá-lo. Foi revelado a uma outra serva de Deus, por seu anjo da guarda, que o anjo da guarda de José pertencia à primeira hierarquia dos espíritos bem-aventurados. O Santo nunca cruzava o limiar de sua cela sem saudar seu anjo da guarda e convidá-lo a entrar o primeiro. A mesma serva de Deus, irmã Cecília de Nobili de Nocera, religiosa conversa, viu duas vezes a alma de José no sagrado lado de Nosso Senhor. Outra vez, conduzida em espírito sobre uma montanha que lhe foi designada para ser a da perfeição, ela reconheceu, entre várias almas chegadas ao cume, a de nosso santo religioso.
Exílios e sequestros
Para limitar a afluência das multidões, as autoridades eclesiásticas transferiram-no sucessivamente para conventos isolados em Petra-Rubea e Fossombrone.
Contudo, o tribunal da Inquisição, que havia constatado a santidade de José em Nápoles, e o Papa Urbano VIII, que a havia constatado em Roma, julgaram, em sua alta sabedoria, ser necessário esconder de pessoas que poderiam ofender-se uma luz que Deus saberia revelar se julgasse oportuno. O frade Vicente-Maria Pellegrini, inquisidor de Perúgia, recebeu a ordem de conduzir imediatamente, mas honrosamente, o frade José ao convento dos Capuchinhos, no território de Petra-Rubea, situado nas encostas de uma montanha escarpada, e de entregá-lo nas mãos do padre guardião, que deveria mantê-lo em retiro absoluto. Com esta notícia, nosso Santo perturbou-se a princípio, empalideceu: "Querem levar-me para a prisão?", disse ele. Mas a graça, sobrepondo-se imediatamente à natureza, inclinou-se para beijar os pés do inquisidor e lançou-se na carruagem onde este o esperava, obedecendo com a alegria na fronte e o sorriso nos lábios.
Quando chegou ao convento dos Capuchinhos de Petra-Rubea, o Padre inquisidor entregou-o nas mãos do Padre guardião, João Batista de Monte-Grimano.
Por ordem do tribunal supremo, o inquisidor proibiu, sob pena de excomunhão, que se deixasse José falar com quem quer que fosse, exceto com os religiosos do convento; era-lhe proibido também escrever cartas, mesmo aos cardeais, recebê-las e sair do recinto da comunidade. Em uma palavra, ele deveria permanecer privado de todo comércio com os seculares. O Servo de Deus ouviu ler e leu as ordens em questão com uma tranquilidade de espírito imperturbável, e pareceu considerar agradáveis os sofrimentos que lhe eram impostos. Nunca perguntou qual poderia ser o motivo de tais ordens, nem por que o haviam retirado dos Conventuais de São Francisco para transferi-lo para os Capuchinhos. Satisfeito com tudo, louvando a Deus em todas as coisas, resignado, imutável, assemelhava-se ao recife dos mares que, batido pela onda, não é de modo algum abalado. Em nossa opinião, esta impassibilidade ultrapassa as forças naturais do homem: "Para não ser movido por certos sofrimentos", diz São Jerônimo, "é preciso ser ou rocha ou Deus, Vel saxum, vel Deus". O frade José não era nem rocha nem Deus; mas o homem, nele, parecia ter desaparecido. Chegara a não mais distinguir o sabor dos alimentos. Interrogado se um prato era insípido ou salgado, doce ou ácido, respondia vivamente: "Está bom! está bom!". Nunca disse: Tal coisa me faz mal, isto é insosso, isto me desagrada. Mal encontrava tempo para comer, engolia mais do que saboreava alguns legumes ou ervas, nozes, um pouco de água avermelhada. Parecia recusar o necessário a este corpo cujo peso tendia à terra e ali retinha uma alma impaciente por lançar-se em direção aos céus.
De resto, a alma rompia os obstáculos, e incessantes e maravilhosos arrebatamentos a transportavam para as regiões celestes. A celebração do santo sacrifício não era para José senão um longo êxtase que não durava menos de duas horas. No jardim do convento, onde o superior exigia que ele passeasse de tempos em tempos, elevava-se no ar, era arrebatado em êxtase, ou à vista da planta que lhe dizia a bondade e a onipotência do Criador, ou à vista do pássaro cujo canto lhe lembrava os concertos dos bem-aventurados. Em sua cela, se cessava de chorar pelos sofrimentos do Salvador, era para voar no espaço e lançar-se em direção ao céu em êxtases de amor.
Uma luz tão viva não podia permanecer escondida. Em vão retira-se José de Assis para subtraí-lo às pressões da multidão; em vão é transferido com precaução para um convento de Capuchinhos remoto, situado entre precipícios, escarpas e montanhas, onde deverá viver escondido e ignorado; logo uma multidão imensa escala todos os dias o convento para ser testemunha dos arrebatamentos, dos milagres de José e assistir à sua missa. O concurso de estrangeiros foi tão considerável que se teve de construir ao redor do convento hospedarias para a comodidade dos visitantes. Faltando espaço para conter a multidão durante a missa, os fiéis subiam ao telhado e o descobriam, ou então praticavam aberturas nas muralhas da igreja.
O tribunal da Inquisição, encarregado de vigiar todo movimento público de falsa devoção ou de devoção extraordinária, julgou dever esconder novamente o Servo de Deus. Fizeram-no transferir, sempre com as mesmas precauções, para o convento dos Capuchinhos de Fossombrone. Mas como esconder o sol? Somente Deus poderia tirar-lhe o brilho. No trajeto, que era considerável, contaram-se quase tantos milagres quanto milhas, e mais êxtases e arrebatamentos do que passos, e os milagres que ele fizera até então não eram nada perto daqueles que fez durante uma estadia de três anos em Fossombrone. Um dia, desejando vivamente assistir à procissão de Corpus Christi, teve um arrebatamento e viu a procissão nas ruas de Fossombrone como se a tivesse seguido. No domingo do Bom Pastor, viram-no arrebatado no ar no jardim, e permaneceu de joelhos no espaço por mais de duas horas.
Arrebatamentos em Deus tão contínuos produziram em José uma espécie de transformação em Deus, segundo esta palavra do profeta Oseias: Facti sunt sicut ea quæ dilexerunt: "Tornaram-se como as coisas que amaram". Assim transformado em Deus, o Santo devia, em cada um de seus atos, manifestar uma virtude divina. E como o próprio de Deus é conhecer tudo, penetrar toda coisa secreta, José chegou a tal grau de clarividência que se temia aparecer diante dele em estado de pecado ou de falta. Em cada uma de suas residências, revelava às pessoas, a todas indistintamente, os segredos de seu coração. Frei Girolamo de Sinigaglia, capuchinho, e o frade José combinaram um dia de recomendar-se reciprocamente a Deus. José cumpriu o compromisso, Frei Girolamo falhou. Ao fim de alguns meses, este último disse afetuosamente ao Servo de Deus: "Frade José, lembrou-se de rezar a Deus por minha intenção?" — "Rezei por ti", respondeu José; "mas tu, descuidaste de rezar por mim". Na quinta-feira, 7 de janeiro de 1655, nosso santo religioso saiu de sua cela por volta das três horas da manhã para celebrar a missa na pequena capela vizinha. Vendo que procuravam as vestes sacerdotais da cor exigida pelas rubricas, disse ao servidor: "Dá-me os paramentos da morte, pois, neste momento, em Roma, o Papa acaba de morrer". Ele dizia a verdade. A notícia do evento confirmou logo as palavras de José, que previu assim a morte de dois soberanos Pontífices, de Urbano VIII em Assis, e de Inocêncio X em Fossombrone.
Últimos anos e morte em Osimo
Ele termina sua vida em reclusão em Osimo, onde morre em 1663 após uma última enfermidade vivida em êxtase.
Em 10 de julho de 1657, nosso Santo foi transferido para o conve Osimo Cidade de nascimento e primeiro local de ministério do santo. nto de Osimo, onde transcorreu o restante de sua vida. Lá, como em outros lugares, foi submetido a um confinamento severo. Foi relegado a um apartamento afastado. Designaram-lhe uma capela e um jardim à parte e um companheiro especial. Foi assim deixado todo a Deus, inteiramente livre de relações e negócios. Seu modo de vida de então encontra-se superiormente descrito nos atos do processo de canonização: «Ao nascer do sol», diz a testemunha, «José deixava seu leito e passava para seu oratório, onde recitava a hora canônica de Prima e outros ofícios que especificarei mais adiante, até o momento em que seu pai espiritual vinha confessá-lo. Após ter se confessado e preparado para o santo sacrifício, descia à capela particular, onde devia dizer a missa solitariamente. Lá, cobria-se com as vestes sacerdotais, ajoelhava-se diante do altar e recitava com devoção as ladainhas da santíssima Virgem; após o que celebrava o santo sacrifício com um fervor incomparável. Sua missa durava cerca de uma hora, não incluído o tempo dos êxtases, ora mais, ora menos. Terminada a missa, permanecia na capela por um momento, depois retornava ao oratório para recitar as horas canônicas e vários outros ofícios: estes ofícios eram os da Madona, dos Mortos, da Cruz, do Espírito Santo, os salmos da Penitência seguidos das orações, e o terço, se o tempo permitisse. Estes exercícios o ocupavam até a hora do jantar; traziam-lhe comida após a refeição dos religiosos. Não permanecia à mesa senão um instante, ia render graças em seu oratório e, se alguns religiosos desejassem depois entretê-lo, ele os ouvia de bom grado até o momento em que se fechava no quarto de repouso, a fim de dormir ali uma hora ou uma hora e meia. Após o sono, retomava suas orações no oratório até o toque da Ave Maria, e permanecia até mesmo no oratório por mais tempo, se alguns religiosos tivessem de entretê-lo ali sobre suas necessidades espirituais. Ao toque da Ave Maria, o companheiro de José acendia uma tocha, e o Servo de Deus dedicava várias horas à leitura espiritual. Lia a missa do dia seguinte, a vida do Santo cuja festa se celebrava, algum sermão sobre as santas Escrituras. Imediatamente após a ceia da comunidade, seu companheiro lhe apresentava um pouco de alimento. Ele comia e retornava ao oratório, onde o acompanhavam algumas vezes religiosos que vinham conferir matérias espirituais ou cantar com ele cânticos à glória de Deus. Este descanso durava uma hora ou uma hora e meia. Os visitantes se retiravam; quanto a ele, permanecia sozinho no oratório até a meia-noite, que era o momento de dizer Matinas. Após Matinas, ia repousar até o nascer do sol. Tal foi o regime do servo de Deus desde sua chegada ao nosso convento até sua última enfermidade. Ele não o descumpria senão em caso de indisposição. No que toca à sua alimentação, não usava, durante todo o ano, senão alimentos de Quaresma. Era sóbrio, parecia não beber e não comer senão por constrangimento, e muitas vezes, tão abstraído estava, não sabia o que comia nem o que bebia. Usava sobre a pele, em vez de camisa, uma túnica de lã, e nunca usava roupa de baixo. Andava descalço, em sandálias. Sua túnica, como a dos outros religiosos, era de sarja de Assis. No inverno, tinha um manto. Dormia vestido, sem trocar de roupas, sentado mais do que estendido sobre três tábuas guarnecidas com uma pele de urso e uma cabeceira coberta de pano. Seu apartamento compunha-se de dois cômodos, a saber: um oratório e uma cela. Mantinha-se ali retirado todo o ano. Esta espécie de reclusão durou até sua morte».
Ele tinha uma terna e particular devoção pelo mistério da Natividade de Nosso Senhor. Amava representar Jesus Cristo sob os traços de uma pequena criança, e derramava diante dele os mais íntimos desejos de seu coração. Os atos do processo de canonização constatam que, em Osimo, o menino Jesus lhe apareceu várias vezes; José tomava o divino menino em seus braços, acariciava-o e dirigia-lhe aquelas palavras inflamadas que se concebem melhor do que se expressam.
Mas o tempo se aproximava em que ele deveria se unir para sempre ao objeto de seu amor, para o qual era tão frequentemente arrebatado. Ele o soube por revelação. Mal chegado ao convento de Osimo, José, com as mãos juntas, os olhos voltados para o céu, exclamara: *Hæc requies mea*: «Este é o meu repouso». — «Saibam, meus irmãos», dizia ele aos religiosos, «que no dia em que me for impossível receber o Cordeiro (isto é, a santa Eucaristia), nesse mesmo dia passarei para uma vida melhor». Ele dizia a verdade. Durante sua última enfermidade, celebrava a santa missa ou comungava todos os dias, com exceção daquele em que morreu.
Em 10 de agosto de 1663, José foi atingido por uma febre a princípio intermitente e logo depois contínua. Em seu pobre leito, conservava sua serenidade e sua alegria. Submeteu-se aos médicos e aos cirurgiões, e deixou-lhes, assim como aos superiores, um poder absoluto sobre sua pessoa. Sua única apreensão era a de não se abandonar suficientemente de forma completa à vista e à vontade da divina providência. Pensava mais na Igreja, neste instante supremo, do que em si mesmo. Algumas vezes dizia às pessoas que o rodeavam: «Rezem a Deus pelo soberano Pontífice, pelos cardeais, pela união dos príncipes cristãos, pelas Ordens religiosas e seus superiores, e em particular pela nossa Ordem de São Francisco; rezem pelas almas do purgatório, pelos enfermos, pelos aflitos, por todos aqueles que rezam por nós». Enquanto a febre foi apenas intermitente, levantava-se todos os dias e celebrava a santa missa no oratório contíguo à sua cela, com êxtases e arrebatamentos semelhantes aos daqueles pelos quais tinha sido favorecido desde o dia de sua promoção ao sacerdócio. A última vez que celebrou, foi no dia da festa da Assunção; «teve êxtases e arrebatamentos maravilhosos», dizem os atos do processo de canonização, e sua própria pessoa foi elevada no espaço. Quando o progresso da enfermidade não lhe permitiu mais ficar de pé, pediu com insistência para assistir à missa e comungar todos os dias. No momento em que a hóstia santa se aproximava de seus lábios: «Eis a alegria», exclamava ele, «eis a alegria!» E como se o mal tivesse instantaneamente cessado, suas faces se coloriam, seu olhar tornava-se cheio de fogo. Após a comunhão, fechava os olhos, tornava-se pálido novamente e permanecia privado de sentimento e como morto, absorvido em conversas com Deus que permaneceram um segredo para nós.
Recebeu o santo Viático com uma piedade profunda, entre êxtases e transportes de amor. Parecia que Deus penetrava seu ser e que ele penetrava o ser de Deus. Pediu em seguida a Extrema-Unção. Quando o óleo santo tocou seus membros, exclamou com uma voz forte e sonora que contrastava com a fraqueza de sua pessoa: «Que cantos, que melodia do paraíso, que odores, que perfumes, que delícias do céu, que felicidade!» Fez-se então ler a profissão de fé, e pediu a todos os seus irmãos perdão por suas faltas. Ao mesmo tempo, suplicou ao Monsenhor vigário episcopal e ao superior da comunidade que lhe concedessem uma graça particular: que, após sua morte, seu corpo fosse enterrado sem pompa em um lugar afastado, e que o mundo ignorasse para sempre o canto de terra onde o irmão José repousaria. O Monsenhor vigário episcopal pediu ao enfermo sua bênção. José apressou-se em abençoá-lo, e abençoou com ele todos os religiosos presentes. O vigário leu então uma carta do cardeal Chigi que lhe prescrevia dar ao moribundo a bênção papal. Espantado que um verme da terra como ele, que o mais ínfimo dos religiosos fosse objeto de tal distinção, José exclamou: «Não é na cama que se recebem tais graças». Apesar de sua fraqueza, apesar do mal que o oprimia, levantou-se e fez-se conduzir ao seu oratório. Leram ali as ladainhas da santa Virgem; ajoelhou-se e recebeu a bênção papal. Voltou então a deitar-se todo vestido, pois nunca deixou nem sua túnica nem seu cordão. Olhava para o céu e preparava-se pacificamente para a última passagem.
Pouco a pouco e lentamente a agonia veio. Com a agonia cresceu, no Santo, o desejo de morrer. Repetiu várias vezes as belas palavras de são Paulo: *Cupio dissolvi et esse cum Christo*: «Desejo dissolver-me e estar com Cristo». Tendo-lhe dito um religioso: «Padre José, é o momento de combater e de derrubar o demônio», respondeu com uma voz alegre e muito inteligível: «Vitória! vitória!» Recitavam-lhe orações dos Santos cheias de unção; quando ouvia as palavras *amor de Deus*, fazia sinal, do melhor modo que podia, para repetir essas palavras, e com uma voz extinta dizia: «Repitam, repitam ainda!» Ao mesmo tempo, colocava a mão sobre o lado esquerdo do peito, como se, na falha da voz, quisesse fazer falar seu coração. Seus lábios expirantes murmuravam o doce nome de Jesus, balbuciavam várias vezes estas palavras interrompidas: «Louvado seja Deus! Bendito seja Deus! Seja feita a vontade de Deus!»
Abandonou-se então a movimentos e a transportes muito animados. Interrogado se eram efeitos do amor de Deus, respondeu que sim e começou a sorrir. Sua alegria se comunicou aos assistentes; um esplendor inusitado iluminou seu rosto, e, nesse mesmo instante, entregou sua grande alma ao Criador. Era pouco antes da meia-noite, na terça-feira, 18 de setembro do ano de 1663. O Santo tinha sessenta anos e três meses.
Expuseram seu corpo na igreja, e uma multidão imensa acorreu de toda parte para venerá-lo; foi então enterrado na capela da Conceição. Tendo sido provado o heroísmo de suas virtudes e constatada a verdade de seus milagres, foi beatificado por Bento XIV em 1753, e canonizado por Clemente XIII, em 1767. Clemente XIII fez inserir seu ofício no Breviário.
Representam-no: 1º elevado da terra publicamente, durante um êxtase; 2º diante de uma imagem da santa Virgem, na igreja de Assis; 3º dando suas ordens a pequenos pássaros, dos quais tinha recebido do céu o privilégio de ser obedecido.
Este resumo de sua vida é tirado daquela que foi composta em italiano por Domingos Bernini, e traduzida recentement e para o f Benoît XIV Papa que beatificou Jerônimo Emiliani. rancês por um religioso da Ordem dos F Clément XIII Papa que concedeu indulgências para o culto de São Gregório. rades Menores.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de São José de Cupertino (José Desa)
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Nascimento em um estábulo em Copertino (1603)
- Cura milagrosa de um abscesso pela Virgem Maria
- Entrada nos Capuchinhos como irmão converso e posterior expulsão
- Admissão como oblato no convento de Grotella
- Ordenação sacerdotal em 4 de março de 1628 após exames milagrosos
- Múltiplos êxtases e levitações públicas
- Comparecimento perante a Inquisição em Nápoles
- Audiência perante o Papa Urbano VIII
- Sequestro e transferências sucessivas para Assis, Petra-Rubea, Fossombrone e Osimo
- Faleceu em Osimo aos 60 anos
Citações
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Se você deseja levar uma vida santa, exercite-se na humildade, sem a qual toda santidade de vida é impossível.
S. Efrém (em epígrafe) -
A obediência é o tormento do demônio e, de todos os exorcismos, é o mais poderoso.
São José de Cupertino