Jesus Cristo
Oito dias após o seu nascimento em Belém, o Filho de Deus submete-se à lei da Circuncisão e recebe o nome de Jesus, que significa Salvador. Por este ato de humildade, ele começa a derramar o seu sangue para a redenção dos homens. O nome de Jesus, revelado pelo anjo, é celebrado como uma fonte de luz, de alimento e de cura espiritual.
Seus contemporâneos
Figuras e referências situadas em torno do período normalizado desta ficha.
Leitura guiada
9 seçãos de leitura
DA CIRCUNCISÃO DE NOSSOS SENHOR JESUS CRISTO
Introdução aos dois mistérios
Apresentação da Circuncisão e do Nome de Jesus como as primícias da salvação e do sacrifício sangrento de Cristo.
E DO NOME ADORÁVEL DE JESUS QUE LHE FOI DADO
Ano I. — César Augusto César-Auguste Imperador romano que ordenou o recenseamento universal. , imperador.
Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e nos infernos.
Carta aos Filipenses, II.
Não foi dado sob o céu outro nome que tenha a virtude de salvar os homens.
Atos dos Apóstolos, III.
I. Não poderíamos, ao que me parece, começar melhor o mês de janeiro e o ano civil do que pela Circuncisão de Nosso Senhor e o santíssimo Nome de Jesus que lhe foi dado nesta circunstância. Pela Circuncisão, Ele derramou por nós as primeiras gotas de seu sangue; pelo nome de Jesus, que significa Salvador, Ele foi comprometido a verter todo o restante sobre a árvore da cruz para nossa redenção: encontramos, portanto, nestes dois mistérios as mais ricas prendas, os presentes mais vantajosos que possamos desejar. São Lucas, o único dos Evangelistas que falou deste traço da vida do Salvador, disse apenas algumas palavras: Completados oito dias desde o nascimento da Criança, foi circuncidado e o chamaram Jesus, como o anjo o havia nomeado antes mesmo que fosse concebido no seio de sua Mãe. Mas é preciso tratar disso um pouco mais amplamente.
Origem histórica da Circuncisão
Lembrança da aliança entre Deus e Abraão instituindo a circuncisão como sinal distintivo do povo eleito.
Digamos primeiro o que era a Circuncisão. Quatrocentos e seis anos ou cerca disso antes da promulgação da lei de Moisés, Deus, querendo preparar para si um povo que lhe fosse próprio e que, no meio da corrupção geral de todas as nações mergulhadas na idolatria, fizesse profissão pública de o conhecer, de o adorar, de o amar e de obedecer aos seus mandamentos, escolheu Abrão, filho de Terá, para ser o seu tronco. Abrão estava então no seu centésimo ano, e Sarai, sua mulher, no seu nonagésimo. Deus assegurou-lhes, contudo, que teriam um filho cuja posteridade seria tão numerosa quanto as estrelas do céu e os grãos de areia que estão à beira do mar. Em testemunho do que, não o chamou mais Abrão, mas Abraão, que significa pai de uma Abraham Pai de Isaac e primeiro dos patriarcas. grande multidão; não chamou mais sua mulher Sarai, mas Sara, que significa soberana. E a fim de que este povo, que Ele lhe prometia, fosse distinguido de todos os outros povos do mundo, e que tivesse sobre o seu corpo a marca e o caráter da sua eleição, fez este acordo com este santo patriarca, que todas as crianças do sexo masculino, que nascessem dele no decorrer dos tempos, seriam circuncidadas no oitavo dia após o seu nascimento: Eis, disse-lhe Ele, a aliança que faço convosco e com os vossos descendentes, e o pacto que deveis inviolavelmente observar: toda criança do sexo masculino será circuncidada no oitavo dia. Aquele que não tiver sido circuncidado será exterminado, porque terá violado a minha aliança. Desde então, Deus, dando a sua Lei sobre a montanha do Sinai aos descendentes de Abraão, ao povo de Israel, inseriu nela este mesmo mandamento: A criança do sexo masculino de oito dias será circuncidada. Assim, este povo sempre foi um observador muito religioso desta prática, tendo mesmo por uma coisa ignominiosa não ser circuncidado; porque era não ter parte nesta santa e gloriosa aliança com Deus. Como os gregos chamavam, por desprezo, bárbaros aos homens de todas as outras nações, da mesma forma os judeus chamavam-nos de incircuncisos, e não queriam ter com eles nenhuma espécie de relação.
A circuncisão como sacramento
Análise da circuncisão como remédio para o pecado original antes da instituição do batismo cristão.
Deus não se contentou em ordenar a Circuncisão como marca de sua aliança; Ele a instituiu ao mesmo tempo como um Sacramento, para apagar o pecado original, que as crianças contraem por sua geração e pelo qual estão manchadas quando vêm ao mundo. É verdade que já existia um remédio para este mal: era outra cerimônia sagrada, pela qual os pais, atestando sua fé no Messias e na redenção que esperavam, proporcionavam a seus filhos o benefício da justificação e da graça: e este remédio durou sempre até a instituição de nosso Batismo, para as meninas e também para as crianças do sexo masculino que estavam em perigo de morte antes de poderem ser circuncidadas. Mas não teve mais lugar em relação às outras crianças do sexo masculino, desde que Deus ordenou a Circuncisão, à qual apenas foi então ligada a remissão do pecado de origem. Assim, os santos Doutores, e entre eles o papa São Gregório, dizem que ela pro duzia quase o mesmo saint Grégoire, pape Papa citado na introdução. efeito que produz agora o sacramento do Batismo; havia, contudo, entre uma e outra uma diferença: o Batismo regenera e produz a graça por sua própria virtude, isto é, por uma virtude que Nosso Senhor lhe comunicou como ao seu próprio instrumento; ao contrário, a Circuncisão não era senão uma cerimônia em virtude da qual Deus, tendo em vista a futura paixão de seu Filho, que Ele via representada de antemão nesta profissão de fé, operava por si mesmo e sem nenhum instrumento o benefício da regeneração; portanto, ela era simplesmente o sinal da graça e não a causa eficiente da graça. Deus serviu-se desta cerimônia da Circuncisão preferencialmente a qualquer outra: primeiro, para advertir continuamente seu povo de que devia trabalhar sem descanso em sua circuncisão espiritual, isto é, em reprimir suas afeições desregradas, sua concupiscência, e em cortar seus vícios, e sobretudo o da impureza, cujo domínio é mais violento e o fogo mais difícil de extinguir do que o dos outros; depois, para figurar que, na nova aliança, se faria profissão de uma circuncisão perfeita, pela qual se desapegaria de todas as coisas da terra, para não aspirar mais senão às coisas do céu; pela qual também se morreria inteiramente para si mesmo, para não viver mais senão em Deus e para Deus.
A submissão voluntária de Cristo
Explicação das razões pelas quais Jesus, embora impecável e acima da lei, escolheu submeter-se a ela.
É certo que Nosso Senhor não estava sujeito a esta lei da Circuncisão, e que nem a santa Virgem nem São José eram obrigados a circuncidá-lo. Ele era, sem dúvida, enquanto homem, capaz de receber ordens; pois Ele mesmo assegura no Evangelho que seu Pai lhe deu mandamentos, e que Ele é muito exato e muito pontual em observá-los, e toda a teologia reconhece, após o Doutor Angélico, que Ele havia, entre outros, recebido o mandamento de resgatar os homens e de se sacrificar para a sua libertação; São Paulo diz que Ele se tornou obediente até a morte, e até mes saint Paul Autor das Epístolas que enfatizam a obediência de Cristo e a circuncisão espiritual. mo até a morte de cruz. Mas quanto à lei da Circuncisão, assim como para toda a lei de Moisés, ela não o obrigava a nada, porque, tendo sido feita apenas para preparar os homens criminosos e cativos para o benefício de sua redenção, ela não poderia atingir o seu próprio Salvador e Redentor, Aquele que não tinha parte em sua catividade nem em seus crimes. E, certamente, nenhuma das razões da Circuncisão existia em sua pessoa. Ele não precisava dela como uma marca e um caráter que o distinguisse dos infiéis e dos Gentios, uma vez que a unção de sua divindade e sua filiação natural com Deus o distinguiam absolutamente de todos os homens, e o colocavam em uma ordem infinitamente elevada acima de todas as criaturas. Ele não precisava dela como um sacramento para a remissão do pecado original; pois, não somente Ele não havia contraído este pecado, mas Ele era impecável, e Ele havia vindo ao mundo para destruir e exterminar o pecado. Ele não precisava dela como um aviso contínuo de trabalhar na circuncisão espiritual; não tendo nada em si mesmo que não fosse muito santo, muito perfeito e muito realizado, Ele não tinha nada que devesse ser cortado ou circuncidado. Enfim, Ele não precisava dela para figurar a Circuncisão perfeita da nova lei, uma vez que Ele deveria mostrar esta circuncisão em toda a sua realidade, e dar um modelo dela em sua vida pobre, humilde, sofredora, em sua morte cruel e ignominiosa.
Contudo, foi muito conveniente que Ele se sujeitasse a esta lei da Circuncisão por várias razões que Santo Epifânio assinalou em seu livro I das Heresias: 1º para mostrar que Ele era verdadeiramente homem, e que seu corpo era da mesma substância e d saint Épiphane Bispo de Chipre que inspira Paula com seus relatos sobre os monges. a mesma natureza que os nossos; pois deveriam nascer hereges que combateriam esta verdade: os Maniqueus, que lhe deram apenas um corpo fantástico; os Apolinaristas, que lhe atribuíram um corpo de substância divina; e os Valentinianos, que lhe atribuíram um de matéria celestial; era apropriado que Ele munisse sua Igreja contra eles, dando-lhe marcas evidentes da sensibilidade de seu corpo: 2º Para mostrar que Ele não desaprovava a Circuncisão, que era o grande Sacramento dos Judeus e a entrada em sua religião, assim como o Batismo é a entrada na Igreja cristã; mas que, ao contrário, Ele a aprovava como uma cerimônia muito religiosa e que era de instituição divina: pois os mesmos Maniqueus e outros hereges deveriam um dia condenar esta observância e todas as outras cerimônias da lei, e dizer que não era Deus, mas o demônio quem era o autor delas. Ele não poderia destruir melhor esses erros do que por sua sujeição voluntária a essas cerimônias; pois o Filho de Deus não teria observado uma lei que não tivesse Deus por princípio; 3º Para testemunhar que Ele era da raça de Abraão, e um verdadeiro Israelita; a Circuncisão era a marca e o sinal perpétuo disso. De fato, era muito importante, e até necessário, que Ele fosse reconhecido como tal. Os Judeus sabiam que seu Messias deveria descender de Abraão, e que Ele era aquele Filho em quem Deus havia prometido a bênção de todas as nações; se eles não tivessem reconhecido o Salvador como um de seus descendentes, teriam pretendido estar legitimamente dispensados de recebê-lo como Messias; o que teria colocado um grande obstáculo à propagação do Evangelho; 4º Para nos levar, por este exemplo, a obedecer prontamente e com alegria aos mandamentos de Deus e às ordens de nossos superiores, por mais difíceis que nos pareçam. Nada nos prega melhor a obediência do que a visão deste soberano Senhor não fazendo dificuldade em se submeter, embora não fosse obrigado, à Circuncisão, cerimônia tão rigorosa e tão infamante? 5º Para se humilhar e se aniquilar por nós até a última extremidade. Já era uma grande humilhação que, sendo Deus, Ele se tivesse feito homem; que, Sabedoria eterna e infinita, Ele fosse reduzido ao estado de criança; que, Mestre de todas as riquezas, Ele se tivesse feito pobre e indigente; e que, impassível e imortal, Ele fosse exposto a sofrer e a morrer. Mas esta humilhação foi muito mais longe no mistério da Circuncisão, uma vez que, sendo o Santo dos Santos, Ele se fez, não pecador e criminoso, pois isso lhe era impossível; mas, como pecador e como criminoso, tomando a marca de pecador e o remédio que havia sido ordenado para a cura do pecado. Por aí Ele nos ensinou a ser humildes, e confundiu o orgulho dos filhos de Adão, que cometem facilmente o pecado, mas não querem carregar a vergonha e a ignomínia dele nem parecer e ser chamados pecadores; 6º Para começar, desde esta idade tão tenra, a derramar seu sangue por nós, e a exercer em nosso favor seu divino ofício de Salvador e Redentor, estava determinado nos segredos conselhos da divina Providência que Ele não se exporia à crueldade dos açoites, dos espinhos, dos cravos e da lança, que deveriam esgotar suas veias e tirar-lhe todo o seu sangue, antes de ter atingido a idade de 33 anos, e antes de ter pregado de viva voz seu Evangelho. Mas seu amor para conosco era grande demais para esperar um prazo tão longo; Ele quis desde logo nos dar garantias seguras do que nos preparava, e, por uma primeira e leve efusão de seu sangue precioso, nos fazer conhecer a excelência do preço que Ele destinava ao nosso resgate, a fim de nos excitar mais poderosamente a amá-lo, e a fim de que possamos lhe dizer: *Ó santo Menino, se fazeis tanto por nós em uma idade tão tenra, que fareis quando estiverdes em uma idade perfeita e realizada?*
Da carne ao espírito
Transição para a circuncisão espiritual do coração preconizada por São Paulo e pelos Padres da Igreja.
Finalmente, ele deveria ser circuncidado para embotar em sua carne a faca da Circuncisão e, ao dar a esta observância carnal um fim honroso pela bondade que teve de sujeitar seu corpo a ela, transformá-la em uma Circuncisão espiritual. É também o que ele felizmente executou; pois a Circuncisão da carne morreu em Jesus Cristo, e a Circuncisão do espírito começou por Jesus Cristo. Aquela era para os judeus, que eram homens carnais; e esta para os cristãos, filhos de Abraão segundo o Espírito. É por isso que o apóstolo São Paulo diz: *Somos nós os verdadeiros circuncisos, nós que servimos a Deus em espírito, que nos gloriamos em Jesus Cristo e que não depositamos nossa confiança na carne*. E em outro lugar: *Vós fostes circuncidados em Jesus Cristo, não por uma Circuncisão feita pela mão dos homens, mas pela Circuncisão de Jesus Cristo, tendo sido sepultados com ele pelo Batismo e tendo ressuscitado com ele pela fé*. Moisés e Jeremias haviam recomendado aos israelitas este tipo de Circuncisão como a cristãos por antecipação, dizendo-lhes: *Não vos contenteis com a Circuncisão de vossa carne, mas trabalhai para circuncidar vosso coração*; isto é, para dele extirpar todas as superfluidades e todos os desregramentos. Esta Circuncisão deve estender-se por todo o nosso interior e por todo o nosso exterior; de modo que não soframos nada, nem em nosso espírito, nem em nossa vontade, nem em nosso apetite, nem em nossos sentidos e faculdades corporais, que seja capaz de profaná-los e torná-los criminosos. Assim, São Bernardo dizia que «a Circuncisão carnal era apenas de um único membro»; mas que a Circuncisão espiritual que Jesus Cristo nos ensinou «deve ser de todo o homem».
O rito em Belém
Detalhes tradicionais sobre o local, os instrumentos e os ministros (Maria e José) da circuncisão do Menino.
Eis as grandes razões pelas quais aprouve a Nosso Senhor submeter-se à circuncisão e inspirar à Santíssima Virgem e a São José a vontade de não o isentar do rigor desta cerimônia. Não se sabe se foi feita com uma faca de aço ou com uma faca de pedra. Lemos, é verdade, que Séfora, esposa de Moisés, e Josué, condutor do povo de Deus, serviram-se, em uma ocasião, de facas de pedra para a Circuncisão: contudo, não parece que existisse um mandamento geral de usar apenas esse tipo de instrumento; pelo contrário, é mais provável que isso ficasse a critério daqueles que realizavam a cerimônia, e até mesmo que fosse mais comum usar facas de ferro e aço do que facas de pedra. Entretanto, o sentimento de São Bernardo é que Nosso Senhor foi circuncidado com uma faca de pedra: o que não pôde ser praticado sem lhe causar uma ferida muito sangrenta e muita dor. Era o que Ele mais desejava; e não pedia que lhe abrandassem a lei, mas que a aplicassem em sua maior severidade. O local onde se realizou esta cerimônia foi o estábulo de Belém onde Ele havia nascido, como nos ensinam Santo Epifânio no livro I das Heresias, e muitos outros santos Padres; pois dizem que Ele a inda estava naquele l'étable de Bethléem Local de nascimento e de unção de Davi. estábulo quando os Magos vieram adorá-Lo. A Sagrada Escritura não diz por quem Ele foi circuncidado; mas é muito crível que tenha sido por sua santíssima Mãe e por São José, a quem o R. P. Luís de Granada chama, para este assunto, os ministros da Circuncisão de Jesus. Com efeito, era conveniente que a carne inocente deste Cordeiro sem mancha não fosse descoberta senão por olhos virgens, e não fosse tocada senão por mãos virgens e soberanamente puras, tais como eram as destes dois serafins da terra. Foi então que esta esposa incomparável pôde dizer com verdade que a mirra, isto é, o sangue precioso de seu Filho, havia corrido e destilado de suas mãos. Foi para ela um adorno mais belo que as safiras e os diamantes.
Excelência do Nome de Jesus
Estudo da origem divina do nome de Jesus, do seu significado como Salvador e da sua superioridade sobre as figuras antigas.
II. É tempo de falar do nome adorável de Jesus, que foi dado ao Menino na sua Circuncisão. A aliança do santo nome de Jesus com a Circuncisão não se fez senão por um grande mistério. Foi, primeiramente, para mostrar que este Menino não vinha salvar-nos senão pelo seu sangue, do qual dava as primícias na sua Circuncisão; segundamente, para nos ensinar que a nossa salvação consistia em nos circuncidarmos espiritualmente, isto é, em nos despojarmos do velho Adão e das inclinações viciosas da carne para nos revestirmos do novo Adão e das santas inclinações da graça; terceiramente, para apagar, pela glória de um nome tão augusto, a ignomínia aparente da Circuncisão, do mesmo modo que o opróbrio da cruz foi, de certa forma, apagado por aquela inscrição magnífica que nela foi afixada: Jesus de Nazaré, rei dos Judeus. Com efeito, se refletirmos sobre isso, descobriremos que a Sabedoria divina quase sempre uniu, nos mistérios da nossa Redenção, as grandezas com os rebaixamentos e a exaltação com a humilhação. Se o Filho de Deus toma uma Mãe na terra, é uma Mãe virgem e incomparavelmente mais pura que os querubins e os serafins. Se nasce numa estrebaria, o seu nascimento é anunciado pelos anjos, reconhecido pelos pastores, rodeado pelas adorações e prostrações dos Magos, temido pelo mais soberbo dos reis. Se é obrigado a fugir para o Egito, os milagres fazem-no respeitar enquanto o sangue dos inocentes torna o seu nascimento célebre em toda a Judeia. Enfim, a sua própria morte, por mais infame que pareça, é tornada muito gloriosa por um eclipse de sol e pelo abalo de toda a natureza. É, pois, pela mesma razão que ele é chamado Jesus na sua Circuncisão; quero dizer, para que este nome nos faça considerá-lo ali, não como um pecador, mas como aquele que tira os pecados do mundo.
Pode-se colher nos santos Doutores várias excelências deste nome de Jesus. A primeira é que é o Pai eterno quem é o seu autor; pois, como diz São Cirilo de Alexandria, quando o Anjo o anunciou à santa Virgem e a São José, não o anunciou por si mesmo, mas da parte de Deus que o havia encarregado desta missão. E, certamente, para dar o nome a uma coisa, é preciso ter algum poder sobre ela, como Adão tinha sobre todas as criaturas, e como os pais têm naturalmente sobre os seus filhos. Ora, não havia certamente senão Deus que tivesse poder sobre Jesus Cristo, mesmo considerando-o apenas como homem. Era, pois, a Deus que pertencia dar-lhe um nome. Além disso, para impor a alguém um nome que lhe seja conveniente, é preciso conhecê-lo perfeitamente e penetrar o seu mérito. Ora, Nosso Senhor assegura ele mesmo que ninguém o conhece, a não ser o seu Pai eterno, como não há senão ele que conheça naturalmente o seu Pai. Era, pois, do seu Pai que ele devia receber um nome. Enfim, vemos na Sagrada Escritura que aqueles por quem Deus tem uma afeição particular, e que destinou a empregos mais eminentes, foram nomeados por ele, seja antes do seu nascimento, seja imediatamente depois, seja no curso da sua vida, como foi feito com Abraão, Isaac, São João Batista e São Pedro. Era, pois, muito justo que fosse ele quem desse um nome a este Filho bem-amado que era o caro objeto das suas complacências e que ele tinha destinado a ser o Redentor do mundo. Isso, todavia, não privou Maria e José da honra de lhe impor este nome; pois o Anjo tinha dito a um e a outro: Vós o chamareis Jesus. Maria tinha este direito, porque ela continha na sua maternidade toda a autoridade paterna e materna, e quanto a José, embora não tivesse parte na sua conceção nem no seu nascimento, contudo não devia, diz São João Crisóstomo, ser excluído desta função, uma vez que, ao participar nela, não derrogava em nada a soberana dignidade da sua esposa. Mas um e outro não fizeram senão dar o nome que tinham aprendido por revelação, e que o Pai eterno lhes tinha designado.
A segunda excelência é que este nome de Jesus é o nome próprio do Verbo encarnado. Digo o nome próprio, não somente por oposição aos seus nomes metafóricos, tais como são os de leão, de cordeiro, de pedra, de videira, de caminho, de luz e muitos outros, que São Jerónimo relata no capítulo XLVII de Ezequiel, mas também por oposição aos seus nomes apelativos, tal como é o de Cristo, e aos que lhe são comuns com as outras pessoas divinas, ou com os mais qualificados dentre os homens, de sorte que, como o nome do primeiro homem é Adão, e o da santa Virgem é Maria, e o do Apóstolo das nações é Paulo, assim o nome próprio do Salvador é Jesus. Há mesmo autores que escreveram que este nome lhe é tão próprio, que nunca foi dado a outros senão a ele, e que aquele que a Sagrada Escritura atribui a Jesus ou Josué, filho de Nun, e a Jesus, filho de Jozadaque, e a Jesus, filho de Sirac, escrevia-se e pronunciava-se de outra maneira em hebraico do que o de Nosso Senhor. Todavia, é mais verdadeiro que estes três grandes personagens, que eram as figuras de Jesus Cristo, como também o antigo José, Otoniel, Aod, Gedeão, Jefté e Sansão, que foram também chamados Jesus e Salvadores, tinham o mesmo nome quanto às letras e à pronunciação; mas havia uma diferença infinita quanto ao que era da significação: pois eles não tiveram este nome senão em razão da salvação temporal que trouxeram ao povo cuja condução Deus lhes tinha confiado; ao passo que Nosso Senhor tem este nome, porque a salvação que ele proporciona estende-se sobre os corpos e sobre as almas, sobre os Judeus e sobre os Gentios, sobre os vivos e sobre os mortos, sobre o tempo e sobre a eternidade; porque ele salva pela sua própria virtude e não por uma virtude estrangeira. Também o Anjo, explicando a São José a força deste nome, diz-lhe: Vós o chamareis Jesus, porque é ele quem livrará o seu povo dos seus pecados; o seu povo, isto é, todas as nações do mundo, segundo o que está escrito: Pede-me, e eu te darei as nações por tua herança, os confins da terra pelo lugar do teu domínio. É neste sentido que o nome de Jesus é um nome novo. Não o é enquanto significa simplesmente Salvador; mas o é enquanto significa aquele que livra dos pecados e da morte, e que dá uma salvação perfeita e acabada.
A terceira excelência é que este nome compreende todos os outros nomes que a santa Escritura dá ao Messias, tanto segundo a sua natureza divina como segundo a sua natureza humana, e segundo a união de uma e de outra numa mesma pessoa; de sorte que temos, neste nome, o cumprimento destas belas profecias de Isaías, de Jeremias e de Zacarias: Ele será chamado Emanuel, isto é, Deus connosco. Nomeai-o, Aquele que se apressa em levar os despojos. Chamá-lo-ão Admirável, Conselheiro, Deus, Forte, Pai do século vindouro, Príncipe da Paz. Eis o nome que lhe darão: O Senhor nossa Justiça; o seu nome será o Oriente. Estes nomes são tirados da causa da salvação, que é a aliança de Deus com a natureza do homem; pois Deus só não podia satisfazer, e o homem não podia satisfazer infinitamente. Era preciso aos nossos males um divino remédio onde se encontrassem ao mesmo tempo a divindade e a humanidade, isto é, a matéria da salvação, que é o pecado com todas as suas consequências; o caminho da salvação, que é iluminar-nos, justificar-nos e encher-nos de força e de constância; enfim, o termo da salvação, que é a paz eterna e a felicidade imutável deste século que nunca terminará. Ora, o nome de Jesus, significando um Salvador perfeito, estende-se geralmente a todas estas coisas: ele exprime-nos e representa-nos aquele que é Deus e Homem, que destrói o pecado, que supera a morte, que despoja o inferno, que acorrenta o demónio, que nos enche de luz, que nos restabelece na graça e na dignidade de filhos de Deus, que nos fortalece contra as tentações, que nos dá a perseverança, que nos abre a porta do reino dos céus, e que nos conduz a ele felizmente, para reinar com ele na eternidade. Assim, ele encerra todos estes nomes do Messias anunciados pelos profetas, e é como que o resumo e o abreviado deles. Acrescente-se que ele encerra ainda as qualidades augustas de Chefe, de Pastor, de Doutor, de Legislador, de Sumo Sacerdote, de Vítima, de Consolador e de Esposo, que significam quase a mesma coisa que estes outros nomes, e que são também apanágios de um verdadeiro Salvador.
A quarta excelência, que tem muita relação e ligação com a precedente, é que este mesmo nome nos coloca diante dos olhos todas as ações e todos os sofrimentos de Nosso Senhor, com este grande número de frutos maravilhosos que procedem da sua encarnação, da sua paixão e da sua ressurreição. Com efeito, ele nunca fez nem sofreu nada senão para cumprir o seu nome e o seu ofício de Jesus e de Salvador. Se nasceu numa estrebaria, se sofreu o rigor da Circuncisão, se fugiu para o Egito, se passou trinta anos numa vida desconhecida e desprezada, se se expôs a mil trabalhos e a mil fadigas no tempo da sua pregação, se se entregou a si mesmo à infâmia e à crueldade do suplício da cruz, se saiu gloriosamente do túmulo, se subiu à direita do seu Pai, não foi senão para ser perfeitamente Jesus e Salvador, e para não omitir nada do que pudesse contribuir para a nossa salvação. Assim, quando o chamamos Jesus, dizemos numa palavra um Deus-Homem, um Deus pobre, humilhado, desprezado, sofredor e moribundo; dizemos um advogado todo-poderoso, que intercede continuamente por nós no céu. Do mesmo modo, todos os bens que fluíram desta fonte, e que se espalharam no céu, sobre a terra e até aos infernos, não são outra coisa senão graças deste Salvador. A alegria devolvida aos coros angélicos, cujo pecado dos demónios tinha perturbado os celestes concertos, a libertação dos Santos que estavam no limbo, a vocação dos Gentios, a fé das nações, a justificação dos pecadores, a renovação do mundo, a constância dos Mártires, a luz dos Doutores, a devoção dos Confessores, a austeridade dos Religiosos, a pureza das Virgens, a firmeza da Igreja, a morte preciosa dos Justos, a coroação dos Santos e a consumação de todas as coisas, são os frutos da salvação que este divino Libertador veio operar no mundo: eles estão expressos no nome de Jesus, e não podemos pronunciá-lo sem dar a ideia deles, sem os representar à memória.
Efeitos espirituais e devoção
Descrição das virtudes curativas e protetoras do Nome de Jesus segundo São Bernardo e outros santos.
A quinta e última excelência é que este divino nome tem efeitos admiráveis na alma daqueles que pensam nele atentamente e que o pronunciam com devoção. Escutai o que escreve sobre isso São Bernardo, no décimo quinto sermão sobre o Cântico dos Cânticos; ele aplica ao nome de Jesus estas palavras da Esposa ao Esposo: Vosso nome é um óleo derramado; e diz: «Por que este nome é um óleo? Não sei se conheceis uma razão melhor; mas, para mim, creio que é porque o óleo tem três qualidades, que são iluminar, nutrir e ungir: ele mantém a chama, nutre a carne e apazigua a dor. É uma luz, um alimento e um remédio. Ora, estas mesmas coisas convêm ao nome do Esposo; ele ilumina quando é publicado, nutre quando é meditado, unge e suaviza os males quando é invocado. Examinemos cada uma destas qualidades em particular. — Como pensais que uma tão grande e súbita luz da fé tenha irrompido no mundo, senão pela pregação de Jesus Cristo? Não foi pelo esplendor deste nome que Deus nos chamou à sua admirável luz? Eis por que São Paulo diz: Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Quão resplandecente foi esta luz, e quanto deslumbrou os olhos de todos aqueles que a contemplavam, quando, saindo como um relâmpago da boca de Pedro, fortaleceu as pernas e os pés de um coxo, e restituiu a vista a vários cegos espirituais! Não lançou ele chamas de fogo, quando disse: Em nome de Jesus Cristo de Nazaré, levanta-te e anda? — Mas o nome de Jesus não é apenas uma luz, é um alimento. Não vos sentis reconfortados todas as vezes que vos lembrais dele? O que há que nutra tanto o espírito daquele que pensa nele, que repare tão bem as forças exaustas, que torne as virtudes tão viris, que faça perseverar com tanto sucesso nos bons e louváveis hábitos, e que mantenha tão constantemente as inclinações castas e honestas? Todo alimento da alma é seco, se não for embebido neste óleo; é insípido, se não for temperado com este sal. Um livro não tem gosto para mim, se não encontro nele o nome de Jesus. Uma conferência ou uma conversa não me agrada, se não se fala de Jesus. Jesus é um mel à boca, uma melodia aos ouvidos, um canto de alegria ao coração. — Mas é ainda um remédio. Algum de nós está triste? Que Jesus venha ao seu coração, que de lá passe à sua boca; este nome sagrado não é logo pronunciado sem que produza um belo dia que afasta o tédio e traz de volta a calma e a serenidade. Alguém cai em um crime? Corre até mesmo para a morte por um desespero? No momento em que invoca este nome de vida, começa a respirar e a reviver. Diante deste nome salutar, quem jamais persistiu em seu endurecimento, ou em sua preguiça, ou em sua animosidade, ou em sua languidez? Quem é aquele que, tendo perdido o dom das lágrimas, não as sentiu correr de seus olhos com mais abundância e doçura, assim que invocou Jesus? Quem, sendo tomado de pavor na apreensão de um perigo iminente, não foi libertado de todo temor e não recebeu muita segurança desde o instante em que invocou este nome todo-poderoso? Quem é aquele cujo espírito flutuante e irresoluto não foi fortalecido assim que implorou o seu socorro? Enfim, quem, estando na desconfiança, e até mesmo muito perto de sucumbir sob o peso de alguma grande adversidade, não retomou um novo vigor ao simples som deste nome socorredor? Estas são as languidezes e as doenças da alma, e ele é o remédio. Nada é mais próprio que este nome para deter a impetuosidade da ira, para baixar o inchaço do orgulho, para curar as feridas da inveja, para reter os transbordamentos da impureza, para extinguir o fogo da cobiça, para apaziguar a sede da avareza e para banir todos os desejos vergonhosos e desregrados». Tais são as palavras de São Bernardo, que nos marcam tão distintamente os efeitos do nome de Jesus, que não nos resta nada a acrescentar. Vemos, por aí, que este nome é um óleo derramado que nos ilumina em nossas trevas, nos fortalece em nossos combates e nos torna o jugo do Evangelho doce e fácil; um perfume arrebatador que alegra nosso espírito e nosso coração, e nos faz ser em todo lugar o bom odor de Jesus Cristo; e um maná celeste que encerra todos os sabores e todas as doçuras imagináveis, e dá à alma um contentamento perfeito.
Não é de se espantar se o grande Apóstolo quer que, à pronúncia deste nome, todo joelho se dobre no céu, na terra e nos infernos. Ele o trazia tão profundamente gravado em sua alma que não faz outra coisa senão repeti-lo em suas Epístolas, sem se preocupar se esta repetição é contrária às regras da elegância. E quando lhe cortaram a cabeça, sua língua o pronunciou ainda três vezes. Foi talvez também a doçura do mesmo nome q ue transformou le grand Apôtre Autor das Epístolas que enfatizam a obediência de Cristo e a circuncisão espiritual. em leite o sangue que deveria sair de seu pescoço quando a cabeça lhe foi tirada. Santo Inácio, bispo de Antioquia e mártir, tinha-o tão bem impresso em seu coração que, quando o abriram após sua morte, encontraram Jesus escrito em letras de ouro. Pela virtude deste nome, vários Santos fizeram grandíssimos milagres, por exemplo, os Apóstolos, como lemos no Evangelho e no livro de seus Atos. São Bernardino dizia que devemos ter por este santo nome o mesmo respeito que pelo próprio Salvador, não pelas letras das quais é composto, nem pela voz e o s Saint Ignace, évêque d'Antioche Discípulo dos Apóstolos que escreveu aos cristãos de Trales. om que fazem a sua pronúncia, mas pela dignidade incomparável do Filho de Deus feito homem que ele nos representa. Tenhamos, pois, frequentemente este nome adorável nos lábios; tenhamo-lo sempre no coração, e que jamais um pensamento tão santo e uma lembrança tão salutar saiam de nosso espírito; usemo-lo em nossos perigos, em nossas aflições, em nossas tentações, em nossas dúvidas e em nossas irresoluções, dizendo com Santo Anselmo: Jesus, sede para mim Jesus; ou: Jesus, mostrai que sois Jesus; ou como esses pobres do Evangelho: Jesus, filho de Davi, Jesus nosso mestre, tende piedade de nós. Sobretudo, pronunciemo-lo frequentemente no momento da morte, como um nome que é temível aos demônios e que dissipará facilmente seus desígnios perniciosos contra nós.
Evolução da festa litúrgica
Histórico da celebração de 1º de janeiro, passando da penitência contra o paganismo à alegria cristã.
Quanto à festa da Circuncisão e do santíssimo Nome de Jesus, ela é muito antiga na Igreja, como provam as homilias e os sermões dos santos Padres. Mas houve diferença na maneira de a solenizar; pois, no início, para se opor às impiedades dos pagãos, que passavam este dia em devassidões e em cerimônias supersticiosas, os cristãos jejuavam nele muito rigorosamente e recitavam ladainhas como marca de penitência; temos disso ilustres testemunhos em São João Crisóstomo, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Máximo de Turim e São Pedro Crisólogo, citados pelo cardeal Baronius em seus Comentários sobre o Martirológio. O quarto concílio de Toledo, realizado no ano 636, proibiu até mesmo de c antar o Aleluia; e, antes d quatrième concile de Tolède Concílio realizado em 636 que legislou sobre a liturgia de 1º de janeiro. ele, o segundo Concílio de Tours e o de Auxerre haviam condenado as estréias diabólicas e os outros restos do paganismo. Mas desde que essas superstições foram abolidas, a Igreja mudou de face e tomou neste dia suas vestes e seus cânticos de alegria, não por causa de Jano, de duas faces, que os idólatras adoravam, mas por causa de Jesus Cristo, Deus e Homem, humilhado pela Circuncisão e exaltado pelo nome sagrado de Jesus, que é o objeto de sua veneração e de seu amor.
Iconografia
Sinais e atributos
Entidades
Rede do relato
Os nomes, lugares e conceitos mais presentes na ficha, ponderados por sua centralidade no texto.
O sobrenatural em sua vida
Os milagres de Jesus Cristo
Anexos & entidades relacionadas
Dados estruturados para exploração: eventos, milagres, citações, lugares, atributos, padroados e entidades importantes citadas no texto.
Eventos marcantes
- Nascimento em Belém
- Circuncisão no oitavo dia após o nascimento
- Imposição do nome de Jesus
- Adoração dos Magos
- Fuga para o Egito
- Pregação do Evangelho
- Morte na cruz
- Ressurreição e Ascensão
Citações
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Completados oito dias desde o nascimento da Criança, ele foi circuncidado e recebeu o nome de Jesus
São Lucas -
O teu nome é um óleo derramado
São Bernardo (Cântico dos Cânticos)